quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Ninguém está vendo.

publicado na Revista Substrato - CEPEGE, IGc/USP (novembro/08)


“- Ligo pra você.

Com essa frase, os dois encerraram a conversa. Ela foi embora esperando esse telefonema ansiosamente. Ele, nem tanto.”

Essa cena poderia ser característica de qualquer filme piegas de sessão da tarde. Nele, a mocinha seria uma atriz bonita, de traços delicados, trajando um vaporoso vestido florido. Ela sairia de cena andando por uma rua de Nova Iorque, na primavera. Nós, espectadores, vê-la-íamos ir embora, saltitante, enquanto ele se voltaria para o lado oposto, colocaria as mãos no bolso do casaco leve e iniciaria sua caminhada deixando o lugar. Se essa cena acontecesse nos primeiros trinta minutos do filme, saberíamos que haveria um conflito que se resolveria ao final, levando as adolescentes sonhadoras às lágrimas. Porém, essa situação passa longe de um filme.

A cena em questão se desenrola em um saguão de uma empresa, após uma entrevista de emprego onde a moça desfiou seus planos de futuro e descreveu habilidades e defeitos de sua personalidade. O homem, um funcionário da área de Recursos Humanos a entrevistou, fazendo as perguntas padronizadas, com uma ou outra variação aqui e ali, para garantir o elemento surpresa. A moça não se saiu bem, faltou-lhe desenvoltura, conhecimento e experiência na área. O entrevistador, após anotar alguns rabiscos na ficha da candidata, escolta a moça até o saguão da empresa, onde se despede, dizendo a frase supracitada.

O desenvolvimento da história, corriqueira, é interrompido no momento em que a moça toma o elevador e deixa as dependências do prédio, pois o entrevistador nunca ligará para a candidata. Nem mesmo para lhe dizer o que foi que lhe faltou para conseguir a vaga. A assertiva “ligo para você” serviu como o que se costuma denominar, na Lingüística, fim de turno, ou seja, o sinal que um interlocutor envia ao outro para indicar que sua fala ou seu discurso foi finalizado. Em um processo de comunicação, o fim de turno é utilizado ad libitum para garantir que haja entendimento e os interlocutores não atropelem suas falas mutuamente. Porém, extrapolando-se minimamente a definição lingüística e utilizando um pouco de poesia, poderíamos dizer que nós, seres humanos, utilizamo-nos de diversos “fins de turno” ilícitos para nos livrarmos de situações quaisquer que assolem nossa zona de conforto.

Em algum momento da década de 1970 houve a circulação de uma propaganda de cigarros que fazia apologia à malandragem e à necessidade de “ser esperto”. Nessa propaganda, o jogador de futebol da seleção brasileira Gerson se vangloriava de tirar vantagem das situações e por isso a justificativa para o comportamento em questão ficou conhecida como Lei de Gerson. Atualmente talvez seja bastante difícil encontrar algum jovem que saiba dizer de onde surgiu essa idéia. Porém, ela se encontra arraigada no comportamento da maioria dos brasileiros. É preciso ser esperto. Você deve levar vantagem em tudo. Se for preciso, minta. Distorça a realidade. Mude a descrição de um fato ou o ponto de vista de um acontecimento. Se alguém quiser confrontá-lo, finja desentendimento. E continue sua vida, obrigado, volte sempre.

Longe de ser somente uma idéia vilipendiosa e torpe, isso é uma estratégia social. Aprendemos desde cedo que dizer a verdade nem sempre é a melhor solução, especialmente se houver a possibilidade de magoar alguém. Torna-se preferível usar recursos como eufemismos, metáforas, parábolas e fábulas. Qualquer um de nós já se deparou com uma situação onde uma criança, cujo Superego ainda não foi totalmente desenvolvido, diz exatamente o que pensa, enquanto os adultos ao redor se contorcem de vergonha e os pais da criança lhe puxam as orelhas, muitas vezes, porém, abafando um riso, por saberem que as palavras proferidas, embora danosas, descreveram a mais pura realidade.

O Superego é a sociedade introjetada no indivíduo. A criança vai construindo a representação interna das normas sociais através de seu relacionamento com pais e adultos responsáveis por cuidarem dela. Um ser humano minimamente são, que apresente o desenvolvimento de suas habilidades cognitivas básicas, consegue aprender que há momentos em que certas coisas não devem ser ditas. A não ser que o indivíduo desenvolva problemas psicológicos ou psiquiátricos, ele aprende a utilizar a chamada “mentira cor-de-rosa” para conseguir se desvencilhar de situações que podem resultar em embaraços fenomenais. Quando isso não acontece, diz-se do indivíduo, na Psicanálise, que ele “não apresenta o Superego fortalecido”.

O problema básico proposto por Freud é que o ser humano apresenta “pulsões” – que poderíamos traduzir no linguajar cotidiano por “desejos”, ainda que esta palavra seja muito carregada de outros sentidos e de diversos usos que não necessariamente coincidem com a terminologia freudiana. As pulsões guiam toda uma série de comportamentos do indivíduo, mas as etapas pelas quais ele terá de percorrer para atingir o prazer dependerão do nível de coerção ao qual foi submetido e de sua capacidade de sublimação. Em outras palavras, o ser humano apresenta vontades, necessidades e desejos e a sociedade ensina estratégias “adequadas” para que nos apropriemos do prazer.

É claro que as linhas da Psicologia e até da Psicanálise divergem nesse sentido. Enquanto psicanalistas falam em pulsão e sublimação, behavioristas, por exemplo, dirão que o sistema de compensação do meio no qual o ser foi inserido será o fator delimitante decisivo para apontar quais mecanismos o indivíduo utilizará para alimentar suas vontades e necessidades. De qualquer forma, o ser humano apresenta instintos animais, características biológicas, medos, angústias e estratégias de sobrevivência. Juntos, todos esses elementos compõem um universo muito complexo onde ora o simbólico emerge, ora passa a ter caráter secundário, tornando cada um de nós indivíduos muito peculiares. Para uma adolescente, por exemplo, a fome pode ser menos importante que a atenção que ela angaria por causa do corpo perfeito, resultando em anorexia. O fator psicológico, nesse exemplo, (necessidade de carinho) suplanta o biológico (fome).

O pensamento judaico-cristão preconizou a orientação de que o ser humano desse menos vazão aos seus instintos terrenos e fosse mais centrado em outros valores, ditos espirituais. Se por um lado isso trouxe mais respeito às nossas relações, por outro causou uma série de conflitos inomináveis para aqueles cujas paixões são incontroláveis. Winnicott, importante psicanalista inglês do século XX, diz que o homem maduro é um ser capaz de dar vazão às suas necessidades sem com isso tornar-se completamente anti-social, identificando-se com a sociedade sem sacrificar sua espontaneidade. Porém, o paradigma social nos instiga a olvidarmos o que queremos e somos. Espera-se que não sejamos maus, não sintamos raiva ou ódio, não queiramos vingança, não procuremos desvairadamente a melhor posição social, mesmo que seja alcançada à custa de um de nossos pares. Sendo absolutamente realista, diria que isso equivale a pedir a um macaco que não pise nas cabeças de outros macacos do grupo para conseguir o melhor fruto da árvore. Sendo um do grupo, pediria que não pisassem em minha cabeça, por favor.

É nesse espírito que assistimos a Ensaio sobre a Cegueira (baseado no livro homônimo de Saramago) e encontramos o pior de nós mesmos estampado diante de nossos olhos e sendo jogado sem cerimônia contra nós. Vemos a vilipendiada condição humana, quando o lustro social não mais impera e a animalidade encontra vazão na busca pela sobrevivência. Não a sobrevivência meramente física e biológica, mas aquela que depende da sanidade do ser, destituído das estratégias que construímos ao longo de milhares de anos de sociedade, beirando, por isso, a loucura. Quando a cegueira branca se alastra pela humanidade como uma epidemia da qual somente a esposa de um médico é poupada sem explicação, um grupo é colocado em quarentena pelo governo. Confinados, recebendo parcas rações, reduzidos a animais, cometem abusos e absurdos. Tanto no filme quanto no livro, fica claro que tudo o que vemos acontecer é resultado de uma dor incomensurável e da necessidade de se proteger das ameaças externas, que agora não são mais visíveis e que podem, por isso, vir de qualquer lugar e a qualquer hora. E assim, voltamos a ser animais, matando, estuprando, roubando, traindo quem nos ama, espancando-nos uns aos outros e defecando no chão.

Não posso me furtar a pensar que, apesar de não apresentarmos a cegueira branca, nós somos assim, estes mesmos animais, porém cegos e loucos em muito menor grau. Esta é a condição humana. Fazemos o que nos é possível para sobreviver, para lidar com nossas frustrações, paixões e ansiedades, medos e angústias, pisando nas cabeças de outros da nossa própria espécie, em busca do fruto mais saboroso. Porém, isso não é reprochável. Só é digno de pena. Porque é uma necessidade do ser humano recorrer a válvulas de escape (lícitas ou não) nessa grande panela de pressão que é a sociedade. O mais curioso é que somos nós mesmos que fechamos a panela e instalamos a válvula – álcool, drogas, sexo, religião e quaisquer outros paliativos imaginários para minimizar o medo, a angústia, a frustração de não podermos dar vazão às nossas pulsões.

Sendo cozidos por todos os lados, a mentira cor-de-rosa mostra-se altamente refrescante, livrando-nos da situação constrangedora de não querermos contratar a candidata que não teve bom desempenho na entrevista, de não pretendermos mais sair com aquela determinada pessoa que perdeu interesse sexual para nós, ou , ainda, de termos que expressar nossa opinião sobre o vestido horroroso de lycra roxa e laranja da amiga gorda. Não sofremos do mal da cegueira branca, mas todos nós fingimos não enxergar o que está acontecendo enquanto mentimos desvairadamente em busca de paz. Será que algum dia conseguiremos ver sem tanto medo?


Agradecimentos: Gostaria de agradecer imensamente às psicólogas Alice L. Luzes (PUC-SP) e Elisa Amaral (USP-SP) por todos os momentos de discussão que culminaram nas conclusões expostas neste artigo.

Honestidade. Com "H" maiúsculo.

publicado na Revista Substrato - CEPEGE, IGc/USP (agosto/08)


- Teacher, que letra é aquela?

Levanto os olhos do caderno do Marcelinho[1], que eu corrigia, olho para o Carlos, o aluno que fez a pergunta e sigo a direção de seu dedo que aponta para a lousa, onde se via um “H” em letra bastão no início da frase “How many legs does an insect have?”

- Qual?

- Aquela ali. Do começo da frase.

- É um “H”.

- Maiúsculo?

- É. – pergunto-me se aquela conversa é realmente necessária. Pondero que o Carlos apresenta vários problemas de disciplina, uma ou outra característica que pode indicar hiperatividade e muitas evidências de dificuldade de concentração. Relembro as aulas de Psicologia e reflito se a pergunta sobre a letra não seria um indicativo de que Carlos está demonstrando, com tal atitude, uma premente necessidade de se desacoplar da realidade que o cerca. Tudo isso passa por minha cabeça em frações de segundo.

Vou até a lousa. Pego o apagador. Apago o “H”. Murmúrio geral da classe, que presta atenção a todo e qualquer movimento que eu descreva. Nessa idade, sete para oito anos, cada traço que a professora faz na lousa é um evento, uma diretriz, uma lei. Deve ser copiado à risca. Finalizaram o processo de alfabetização, já reconhecem a diferença entre letra bastão e letra cursiva faz tempo, mas não são autônomos ainda para decidirem qual usar, dependendo da ocasião. Pego o giz colorido, rosa. Na iluminação da sala àquela hora da manhã, o giz rosa é o mais visível no quadro verde-escuro liso e bem cuidado, sutilmente quadriculado de um verde ainda mais escuro com as linhas-guia. Faço novamente o “H”, agora em letra cursiva. Marta, uma menina de olhos perspicazes, pergunta:

- Teacher Rach, tem dois “o” depois do “H”?

E Paulo arremeda:

- Que letra é essa, teacher?

- It’s a capital “H”, Paulo. Um “H” maiúsculo.

- Não é não, teacher. Isso é um “N”

E Marcos intervém:

- Não, é um “N” ao contrário!

O murmúrio transforma-se em barulho. Muito barulho. Todos agora estão concentrados na necessidade de desvendar que letra é aquela que a teacher escreveu no começo da pergunta - a qual orienta somente um passo da atividade de leitura - e porque existem duas letras “o” logo depois da letra estranha. O primeiro “o”, na verdade, não é um “o” e sim parte do rebuscado H maiúsculo que aprendi a fazer quando era criança e o qual abandonei logo na adolescência em favor de letras mais “limpas” visualmente.

Suspiro. Por que estão fazendo isso comigo? O que custa concentrar-se na atividade e achar quantas pernas o diabo do inseto tem? Já não repetimos exaustivamente a pergunta quando conversamos sobre o conteúdo.? Tento acalmar meus pensamentos e retomar o controle da situação. Primeira aferição: os alunos estão somente sinalizando uma dificuldade e sou eu quem tem a responsabilidade de saná-la. É minha atribuição de professora, de educadora e de apaixonada pela profissão que abracei. Segunda aferição: estou frustrada porque percebi que não preparei a totalidade da aula do jeito que deveria, prevendo as todas as dificuldades e por isso estou jogando a culpa neles, caindo no chavão “crianças que não param quietas”.

Repasso mentalmente os steps de pre-reading que cansei de ensinar a professores como teacher trainer de EFL (English as a Foreign Language). Repito o mantra, verificando se não esqueci nada: contextualize, activate the students’ schemata, pre teach unknown words, set a meaningful and feasible first task… [2] Sim, eu os fiz. Todos os passos estão lá. O problema é mesmo o “H”.

Suspiro novamente. Nos meus lesson plans há uma seção, “Anticipated difficulties”, onde discorro sobre todas as suspresas que podem impedir o bom funcionamento da aula. Mind note to myself: incluir o “H”. Volto à realidade e vejo o efeito dessa letra na minha aula tão cuidadosamente planejada e discutida anteriormente: o grupo está descontrolado. Sinto-me o elétron da última ligação covalente do metano do pum da mosca do cocô do cavalo do bandido. Objetivos lingüísticos? Objetivos pedagógicos? Materiais a serem utilizados? Dificuldades antecipadas? Tempo de cada atividade? Procedimento para cada atividade? Estavam todos no lesson plan. Menos o “H”.

Linda aula sobre mamíferos, aves, répteis, anfíbios, insetos e peixes. Havia discutido com alguns amigos biólogos a validade dessa separação, que agora não é mais vigente no mundo científico. Ao aferirem filogeneticamente que a tartaruga está mais próxima dos mamíferos do que dos crocodilos e estes, mais próximos das aves do que das cobras, essa classificação perdeu o sentido à luz da Teoria da Evolução. Mas continua a ser ensinada nas escolas e por isso, acreditei que discorrer sobre o fato de que “snakes, lizards and alligators are reptiles”[3] não seria tão danoso para meus alunos, estando ainda no Fundamental I.

Meus olhos transparecem o desespero que começa a tomar conta de mim. Minha assistente de classe, aluna do último semestre da FE-USP, levanta-se, vem em minha direção e fala baixinho, estendendo a mão para pegar o giz:

-Posso?

Entrego-lhe o giz e minha confiança. Entrego-lhe tudo o que me faz acreditar ser professora enquanto assisto meus 18 anos de prática de ensino se esvaírem nas curvas de um “H” maiúsculo em letra cursiva, cuidadosamente desenhado dentro dos quadradinhos formados pelas linhas-guia do quadro. Ela vira para a classe e diz:

- Ready now, it’s an “H”. Let’s go back to our groups and go on with the activity, ok?[4]

Há um contentamento geral. Escuto as interjeições de alívio e súbito entendimento, o farfalhar do papel sendo preparado para ser apagado, “can I use the eraser, please?”[5] e finalmente a paz: os grupos voltam a trabalhar como se nada tivesse acontecido. Sento-me, derrotada. A terceira aferição, contundente e dolorosa, é inegável: toda a experiência que tenho não me preparou completamente para o trabalho que desempenho hoje. Preciso aprender a fazer as tais letras cursivas da maneira correta.

Enquanto observo e monitoro os alunos trabalhando, minha assistente percebe meu desapontamento e tenta melhorar meu humor, se oferecendo para me ajudar com a caligrafia. Agradeço e aceito a ajuda. Afinal, já havia acontecido com outra turma, não com o “H” e sim o “T” maiúsculo. Conforme os minutos passam e a sensação de frustração amaina, percebo que a frase “dar ao aluno o que ele precisa” nunca fez tanto sentido. Não importa quanta experiência eu tenha ou quão importante seja o conteúdo a ser abordado. Minhas ferramentas são inapropriadas para esse contexto. Preciso reciclar meus recursos.

Apesar de muito já haver discutido em treinamentos e cursos o planejamento do quadro –alguns professores parecem se esmerar em fazer um mosaico de informações que ao final da aula lembram um patchwork de ininteligibilidades e qualquer pessoa com o mínimo de bom senso sabe que alunos visuais necessitam de um quadro organizado - nunca havia ponderado que a caligrafia pudesse interferir no bom andamento de uma aula,. Também fui treinada para ensinar pessoas cuja primeira língua não usa o alfabeto latino, conhecendo todas as idiossincrasias de idiomas como coreano e o russo em contraste com o Inglês. Mas um “H” maiúsculo? Ninguém havia me prevenido... Minha mente repassa os itens mais comumente abordados nos treinamentos que dei e recebi nesses anos todos: o que faz um aluno aprender? O que faz uma aula fracassar?

Muito já foi discutido e existe um senso comum, apesar de adotarmos teóricos cujas linhas de pensamento algumas vezes se apresentam diametralmente opostas : o aluno aprende quando o que é ensinado é relevante, útil e tem relação com a sua realidade. Ignorando as controvérsias que causam os PCNs[6] quando são publicados, a maior parte dos educadores sérios tem como linha mestra de seu trabalho a minimização da abordagem de assuntos que nada influirão na formação profissional e humana do ser que se encontra sob sua responsabilidade nesse processo de construção de conhecimento. No entanto, há os profissionais que são colocados nessa posição sem possuírem noção alguma das estratégias mais básicas de ensino e aprendizagem – muitos deles frutos do processo acadêmico de Iniciação Científica, Mestrado, Doutorado – cuja produção científica assume vulto muito maior do que o exercício da docência. É comum escutarmos dizer sobre um professor da universidade que sabe muito sobre determinado assunto, mas não sabe ensiná-lo... ”.

Estudiosos da Educação discutem constantemente a validade das fases de desenvolvimento de Piaget, contrastando essa visão com a mediação vigotskiana, a educação bancária de Paulo Freire, a semelhança de famílias de Wittgenstein e com muitas outras abordagens. Há uma miríade de linhas a serem seguidas e todas são frutos de muita observação e ponderações profundamente coerentes. De modo muito simplista, podemos dizer que todas funcionam, dependendo do aluno. Aliam-se à essas teorias, outras tantas que cuidam do lado afetivo da aprendizagem, da interação professor – pupilo e pupilo – objeto de estudo ( a “matéria” em si), do ambiente e das relações sociais de poder e autoridade, inseridas no contexto escolar.

Em meio a todas essas vertentes, encontramo-nos agora a discutir o futuro do curso da LIGEA. Professores e alunos têm estabelecido discussões acirradas sobre o que deve conter a grade curricular e qual será o perfil do profissional formado pelo curso. A proposição de “formar um educador com conhecimento sobre a dinâmica interna e externa do Planeta e da interação entre Geosfera, Hidrosfera, Atmosfera, Biosfera e Noosfera, de forma a usar os conhecimentos do Sistema Terra no uso sustentável dos recursos naturais com ênfase nos recursos minerais, hídricos e energéticos para a formação de um cidadão crítico para enfrentar os problemas ambientais na sociedade atual” é extremamente desafiadora, porém absolutamente coerente com a demanda do nosso país atualmente.

Contudo, nada nessa discussão fará sentido se em algum momento não forem garantidos os meios pelos quais esses educadores serão instrumentalizados de maneira satisfatória. Um verdadeiro educador precisa saber entender várias linguagens, ser flexível para aceitar paradigmas diferentes e se adaptar a eles, ser ousado para testar novas técnicas sem contudo expor seus alunos aos perigos de uma prática pedagógica suicida, conhecer suficientemente o que ensina para saber onde buscar mais informações quando o aparato escolar não estiver a contento e para catalisar a informação, digeri-la previamente, de modo que os alunos possam absorvê-la e não expeli-la totalmente por ser muito complexa para suas estruturas cognitivas.

O educador consciente procurará recursos proveitosos para sua aula e não “shows pirotécnicos”; preparará cada sessão pensando no perfil do grupo e não uma seqüência de atividades que lhe servirá ad libitum enquanto aquele conjunto de informações for vigente; fará uma apresentação de power point que será válida em um determinado contexto e a modificará conforme o grupo e o momento; especificará tarefas úteis e relevantes para o processo de aprendizado e não para o sistema de avaliação; preocupar-se-á com a preparação, contextualização e confecção de perguntas significativas prévias à leitura de um texto e não simplesmente distribuirá as copias e dirá “Leiam e discutiremos”.

O educador autêntico saberá utilizar-se das palavras, mas também dos gestos de aproximação, da musicalidade da entonação na fala, da teatralidade natural de quem ama o que faz. Saberá escutar através dos ouvidos, mas também através dos sentidos. Saberá entender que quando algo não funciona, a primeira coisa a ser feita não é culpar e sim remediar. Saberá procurar os meios necessários para reciclar seu conhecimento e suas técnicas. Finalmente, saberá ser humilde para aceitar que nem sempre acertará, apesar de todos os títulos angariados e artigos publicados. Saberá usar de honestidade em suas práticas, para ser verdadeiramente um educador. Honestidade com H maiúsculo. E em letra cursiva.



Agradecimentos:

Meus mais sinceros agradecimentos aos biólogos Paulo Enrique C. Peixoto (UNICAMP), André Victor Lucci Freitas (UNICAMP) e Alex Martins dos Santos pelas sugestões e ponderações cuidadosas! E aos amigos Vinícius B. Fuentes, Francesca Pozzi e Marc Neilson por todo o apoio e sugestões durante o processo.



[1] Os nomes das crianças foram trocados..

[2] Contextualizar, relacionar ao universo do aluno, ensinar antes palavras que possam impedir o cumprimento da tarefa, definir uma primeira tarefa factível e significativa...

[3] Cobras, lagartos e jacarés são répteis.

[4] Pronto, agora é um “H”. Vamos voltar aos grupos e continuar a atividade, ok?

[5] Posso usar a borracha, por favor?

[6] Parâmetros Curriculares Nacionais - referências de qualidade para os Ensinos Fundamental e Médio do país, elaboradas pelo Governo Federal.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Conjecturas

Ela firma o polegar na pálpebra inferior para retocar o delineador. Não se conforma. Eu escuto e tento ajudá-la a responder o rol de perguntas que ela me infringe todas as sextas-feiras. Para ser bem honesta, não presto muita atenção no que respondo. A aflição que me causa ver o lápis delineador roçando a córnea parece impedir meu raciocínio.

- Por que ele olhou então?
- Porque você está muito bonita hoje.
- Ah, mas se foi isso, então por que ele não olhou logo quando eu cheguei?
- Por que talvez ele não tenha visto você chegar, oras!
- Hm... talvez. Mas não acho que seja isso. Será que ele quis se fazer de desinteressado?
- Não.. acho que não... sinceramente? Acho que ele não viu você mesmo.
- Então por que ele falou aquilo?
- Aquilo o quê?
- Que eu me escondo.
- Ah, veja só como tenho razão! Deve ser porque não viu você chegar mesmo.
- Duvido! Acho que ele quis mesmo foi me provocar.
- Provocar? Por que ele faria isso?
- Não sei... – ela pára com o dedo segurando a pálpebra e aponta o lápis para mim. Enquanto fala, vai desenhando suas conjecturas no ar - Por que ele segurou minha mão? E por que não segurou depois, quando eu quis? Por que andou do meu lado como se quisesse conversa? E por que desdenhou minha companhia e foi tomar café com os amigos quando saímos da sala de aula?
- Ai, meu Deus! Quantas perguntas! Você quer me deixar louca?
- Não desdenhe do meu sofrimento.
- Sofrimento? – estou agoniada com tantas perguntas.
- Sim, você não vê que sofro? A expert em ciências aqui é você. Ajude-me a resolver essa equação!
- Equação? Que equação?
- Desta situação inusitada e frenética na qual me encontro!
- Não estou entendendo!
- Como não está entendendo? Ele não me quer!
- Quem disse isso?
- Está visível agora, não está?

Meu silêncio a deixa consternada. Não sei o que dizer. Sei que ele a quer. É visível e aferível. E o desenrolar dos fatos se mostra dolorosamente previsível. Porque eu o quero. Mais do que ela, que o descartará em algumas semanas, como faz com todos os que acabam sendo enredados por seus cabelos lisos, loiros e longos.

Eu o quero para sempre. Mas meus cabelos são cacheados e ficam eriçados em dias de chuva. Ainda assim, ouso querê-lo para sempre. Ou pelo menos, para o todo-sempre no qual um amor pode persistir. Devo dizer algo, ela me olha com o olhar delineado e desconfiado.

- Olha, vamos lá para fora, você está perdendo tempo. Temos somente alguns minutos antes do término do intervalo – digo, finalmente, sem muita convicção.

Ela joga o delineador caríssimo na bolsa obscenamente cara também. Arruma os seios perfeitos e volumosos devido ao recente implante, joga os cabelos para baixo e depois para cima com um movimento rápido da cabeça. Por alguns segundos, eles parecem flutuar no ar, brilhando como se fossem feitos do mesmo material das asas das fadas, que, quando voam, espargem aquele pó dourado; depois caem , escorregando pelos ombros torneados dela. Devo admitir, ela é linda. Dói-me perceber que sou apenas sombra. Dói-me ainda mais entender que até as mariposas preferem a luz.

São já semanas de angústia, assistindo o jogo que ela promove, bailando graciosamente, indo por vezes ao encontro dele e, por outras, repelindo qualquer aproximação. Ela me diz que é assim que se faz. Eu, porém, penso que seria mais fácil sentar-se à mesa e tomar um café, discutindo as idiossincrasias da sociedade. Mas quem se importa com o que eu penso?

Saímos do banheiro. Ela na frente. Ele está parado, conversando animadamente, em meio a alguns colegas. Seus olhos brilham, ele se despede do grupo e vem ao nosso encontro. Sei que hoje será o dia que me sentirei em pedaços. Em poucos minutos, ele a convidará para sair. Hoje é o último dia de aula antes das férias de julho. Não há mais tempo a perder. Nos poucos passos que o separam de nós duas, uma eternidade, sinto o choro preso inchando a garganta e fazendo arder meus olhos. Como no desenho animado, percebo o coração estilhaçando, os caquinhos suspensos apenas pela iminência da vergonha. Não posso e não devo fazer qualquer ruído. Qualquer um sabe que cacos de coração caindo no chão em meio aos colegas da faculdade fazem muito barulho. Praticamente um estrondo! Melhor mesmo será deixá-los cair no silêncio do meu quarto. Despencando no colchão, ainda úmidos das lágrimas, ninguém os ouvirá.

Ela abre um sorriso, que mais se assemelha a um colar de qualquer gema mais branca que a pérola. E mais reluzente. Simplesmente perfeito. Quando ela sorri, duas covinhas se formam no rosto cuidadosamente bronzeado no salão de estética. Simplesmente perfeito.

Ele está a dois passos de nós. Olho para o chão, para que não me vejam chorar de tristeza. Afinal, hoje será o dia deles. O dia em que o mundo celebrará o mais novo casal enamorado do orbe. Serei somente uma boba apaixonada vertendo lágrimas de rejeição. Não, eles não podem me ver assim. Abro minha bolsa barata, procurando algo. Cicuta, talvez? Encontro o maço de cigarros. Havia prometido parar, mas a resolução esmaece rapidamente. Procuro pelo isqueiro, enquanto ele, já próximo, nos saúda alegremente. Tremo in-sa-na-men-te agora. Onde está o isqueiro???

Ele pede para falar com ela a sós. Pergunta se me importo, eu aceno que não com a cabeça e digo “vai lá!” com o descaso projetado para essas horas. Afinal, sendo a melhor amiga dela desde o cursinho, esta é a melhor saída. Não cursar disciplinas juntas também seria uma estratégia, se fizéssemos a mesma graduação. Graças aos intelectos diametralmente opostos, havíamos entrado em cursos diferentes. Porém, essa disciplina havia se mostrado muito tentadora, ainda que fosse extra-curricular... Ele havia tido a mesma idéia. E apesar de nunca nos termos visto em alguma aula de Cálculo ou de Mecânica, eu o reconheci imediatamente quando veio falar com ela a primeira vez. Eu estava junto. Na sombra. Como sempre.

“Não é impressionante que você ainda não tenha se acostumado?”, pergunto a mim mesma. “Cadê essa porcaria de isqueiro? Preciso fumar, droga, se eu for pedir um fósforo na recepção eles verão meus olhos vermelhos! Mas eu tinha certeza que havia deixado um isqueiro aqui! “

Através das lágrimas que insistem em marejar minha visão, percebo os dois conversando perto do balcão. Não contentes em embaçar-me olhos, as lágrimas agora resolvem cair, inundando a face. Corro para o banheiro. Pego papel toalha e acabo borrando o delineador de marca genérica que uso às sextas-feiras, para esconder o tom cansado. Junto ao nariz nada envaidecedor que porto, agora inchado, os olhos constituem um conjunto verdadeiramente bizarro.

“Preciso me controlar!”, penso. “Que farei? Como sair dessa situação?”

Olho para as janelas do banheiro, mas elas são muito estreitas e estou acima do peso. Ela passaria pelas grades, silfidescamente, mas eu não. De que adiantaria? As janelas dão para o estacionamento, mas estamos no quinto andar. “Ótima saída!”, pondero. “Que besteira!”, percebo. Estou em frangalhos. Preciso fugir.

Porém, em um nanossegundo os eixos se invertem e o caos se instala. O universo busca a maior entropia sempre, não é o que dizem? Ela volta. Escancara a porta do banheiro e fuzila meu rosto molhado com os olhos injetados. Não entendo. Mas não há tempo para mais nenhuma conjectura. Ela dispara:

- Vai lá. Ele quer você. Sua traidora, você deu em cima dele sem me falar nada? Você sabe que estou apaixonada por ele e mesmo assim apunhala sua melhor amiga pelas costas?

Não consigo articular palavra. As lágrimas secam instantaneamente.

- Você e os seus emails. Eu já deveria saber! Nunca mais quero falar com você. Suma da minha frente e tomara que ele seja muito ruim de cama! Lista de discussão de Física Quântica, é? Nerds ridículos, todos vocês!

Ela tenta bater a porta, mas a mola a impede. Assisto enquanto ela se vai, cabelos esvoaçando. Ela é perfeita, mas ele prefere a mim. Tenho um acesso de riso. Olho no espelho. Até que não estou tão mal. Sim, vamos ao café e às idiossincrasias da sociedade. Algumas poucas vezes, parece-me, the pen, ou melhor, the keyboard is really mighter than the sword! Ou do silicone, como queira!

Imerso em colóide fétido

publicado na Revista Substrato - CEPEGE, IGc/USP (abril/08)



O teste


Você é mal-humorado? Que tal fazermos um teste? Responda as perguntas abaixo sem titubear. Considere seu estado inicial, nas CNTP (condições normais de temperatura e pressão):

Se XX, está de TPM.
Se XY, seu time perdeu ontem à noite e foi rebaixado para a segunda divisão.

1 – É dia de pagamento. Você está na fila do supermercado há trinta minutos. De repente, uma mulher logo à sua frente, cujas compras já estão sendo computadas, resolve sair da fila para buscar um último item que ela havia esquecido. A demora é exasperante, as pessoas atrás de você começam a reclamar. Quando a consumidora volta, ela grita com você, achando que você foi o causador da balbúrdia, agora generalizada. O que você faz?



A – responde à altura, com os mesmos xingamentos e provocações.
B – pragueja, torcendo para que a mulher fique careca e disforme dentro de um ano.
C – fica quieto, mas disfarçadamente fura o pacote de açúcar das compras dela para que vaze.
D – parte para a contenda física.
E – não dá muita importância para o fato.


2 – Você está muito cansado, pois passou o dia inteiro esperando em filas e mais filas de bancos. Está calor, você veste roupa social e agora a bateria do seu carro “arriou”. Seu celular está sem bateria e você não consegue encontrar um único orelhão por perto. Resolve voltar para casa de ônibus, para conseguir ajuda com o vizinho. O ônibus está lotado, mas você tem sorte e consegue um lugar, que ocupa rapidamente. No próximo ponto, um mocinho entra no ônibus. Ele carrega uma mochila nas costas, passa pela catraca e, na tentativa de se ajeitar nos únicos espaços disponíveis, acerta a bolsa na sua cabeça com força. O que você faz?



A – reclama, sacudindo o moço com força e exigindo que ele tire a mochila das costas.
B – arranca a mochila das costas dele e a atira pela janela.
C – promove o linchamento do moço no ônibus.
D - xinga o infeliz.
E – não dá muita importância para o fato.

3 – É época de Natal e você vai ao shopping center com sua mãe, a amiga e a avó desta, que é um “tantinho” senil. A fila do estacionamento é enorme e você até pensa em voltar outra hora, mas sua mãe é assertiva e você sabe que haverá discussão mais tarde, se não ficar. No entanto, a distinta senhora, avó da amiga da sua mãe, além de passar o trajeto inteiro criticando seu jeito de dirigir, agora resolveu discorrer sobre como você é lento para fazer algo tão simples quanto estacionar.


De repente, e já prestes a perder a paciência, você percebe uma família indo em direção a um carro. Consegue manobrar, colocar-se em posição estratégica para ocupar a vaga e estacionar. Liga o pisca-pisca, feliz. Porém, uma das crianças da família começa a chorar histericamente e a mãe delas resolve fazer um sermão ali mesmo. Você espera durante dez minutos, quando ela finalmente libera a vaga. Você engata a primeira marcha e, para seu completo desespero, outra mulher vem pela contramão e ocupa a vaga. A avó da amiga da sua mãe diz: “Viu? É um banana!”. O que vc faz?



A – acelera e colide de propósito com o carro da mulher.
B - bate na velhinha.
C – sai do carro para reclamar e exigir a vaga.
D – chama o segurança e faz um escarcéu, impedindo a mulher de seguir para suas compras.
E – não dá maior importância ao fato.


Para saber o resultado desse teste, compute os valores de cada item, segundo a tabela abaixo:






Resultado do teste: Se você computou algum ponto, qualquer ponto que seja, eu não vou saber dizer se você é mal-humorado, mas posso afirmar categoricamente que você pertence à classe dos...



Mal-educados


Você pode não concordar com o resultado deste teste, afinal, não foi desenvolvido por um psicólogo ou estudioso da área do comportamento humano. Contudo, devo avisá-lo, caro leitor cujo resultado foi diferente de zero, que provavelmente as pessoas ao seu redor já lhe aplicaram alcunhas depreciativas, procuram esquivar-se da sua presença e, a todo o momento, lhe fornecem respostas prontas, talhadas antecipadamente, para evitarem maiores conflitos. Ninguém é real, sincero e honesto com você. Seus colegas de escritório combinam a cerveja escondido e saem de fininho, cada um pretextando algum compromisso inadiável na sexta-feira à noite. Mas a verdade “nua e crua”, caro leitor diferente de zero, é essa: ninguém gosta de gente mal-educada.


Nos últimos anos, a má-educação parece ter se alastrado e ocupado vilipendiosamente todos os nichos da sociedade. Antigamente, educação vinha “de berço”. Sabia-se onde colocar o guardanapo, com quais talheres comer, como agir perante a um “RSVP” (Répondez S'il Vous Plaît, ou, “responda, por favor”) no convite e quais as partes do colo e das pernas que deveriam ficar à mostra durante uma recepção de casamento. Respondia-se às provocações com “luvas de pelica”, tanto metaforicamente, quanto literalmente, em cujo caso, um tiro poderia selar o destino do destratante. Sim, havia a morte, fato deplorável. Mas não havia a palavra solta, o esgar de cinismo conjugado à ira, o tom de ameaça seguido de atos hoje corriqueiros, como: bater uma porta, gritar uma ofensa ou quebrar um objeto com raiva. Perder a cabeça em atitudes como essas era tido como algo tipicamente feminino. Muitos autores utilizaram este “atributo” para caracterizar a “cabecinha vazia” burguesa do final do século XIX, como a de madame Bovary, (de Gustav Flaubert) que, num acesso de raiva, por saber que seu amante não viria visitá-la, empurra sua filha, fazendo com que esta bata com a cabeça na cômoda e ponha-se a chorar.



É comum aceitarmos a má-educação quando oriunda das hierarquias mais altas – leiam-se chefes, professores e superiores em geral – pois, afinal, é o ganha-pão que se encontra em xeque. Sentimo-nos ameaçados, ficamos silenciosos, balançando a cabeça afirmativamente e concordando com tudo que a pessoa, mal-humorada e mal-educada, nos diz. Quem nunca se sentiu imerso em um colóide fétido após uma dessas explosões de raiva ou descontentamento de um superior? Os movimentos se tornam lentos e o digitar, suave, como se tudo estivesse coberto por uma gelatina pegajosa e ácida. Os músculos, retesados, evitam a troca gasosa com o ambiente, fazendo a respiração ser quase suspensa. Os cílios que revestem as narinas não conseguem oferecer resistência ao ar mais denso, tampouco o som consegue se propagar em ondas, ficando o ambiente em silêncio sepulcral. Tudo para que não haja outra combustão. Tudo para a que a paz não seja quebrada novamente.


É interessante notar que o causador do constrangimento sempre consegue emitir uma justificativa - o seu estandarte da auto-remissão - para justificar tal comportamento: “As vendas estão caindo”, “Estou me divorciando”, “Meu filho está doente”, e o impagável “Estou de TPM”. A tensão pré-menstrual, aliás, passou a ser justificativa para tudo, ganhando a simpatia da maior parte das mulheres da humanidade, inclusive, tendo sido usada para atenuar a pena de uma certa criminosa nos EUA.


Cena 1:


Mulher A: - Você viu isso? Ela estava de TPM, coitadinha, por isso esfaqueou, esquartejou, queimou e comeu os pedaços da vítima.
Mulher B: - Pobrezinha, não é à toa que ficou tão nervosa! TPM é fogo!
Mulher C: - É.... tadinha....


Cena 2:


Vendedor: - Parabéns, o senhor está adquirindo uma jóia belíssima! Assine aqui, esta promissória, penhorando sua alma.
Marido: - Por esse preço? Minha alma?? Querida, tem certeza?
Esposa: - Alfredo, olha aqui, hein? Estou de TPM, não me tenta, NÃO ME TENTA!!


Há ainda os indivíduos cujas mães se esmeraram na atividade de passar adiante os paradigmas comportamentais da sociedade à qual pertencem, sem, no entanto, encontrar respaldo na índole imaleável dos pequeninos. A estes convencionamos chamar “mal-aprendidos”. Na verdade, essa acepção é somente um deslocamento da origem do sistema ou uma boa-vontade maior ou menor do observador, como queira. Afinal, todo mal-educado é limitado, ou mal-aprendido.

Limitados seriam aqueles que, apesar de encontrarem os exemplos da boa educação na mídia, na escola, em seus pais ou superiores hierárquicos e em diversas pessoas com as quais interagem todos os dias, continuam a agir da mesma forma rude e impetuosa, não sendo capazes de dominar suas frustrações e desejos e colocá-los de maneira controlada ao seu interlocutor.

Mal-aprendido seria o indívíduo que apesar de conhecer os liames das atitudes que definem o comportamento aceito e desejado por seus pares, insiste em agir diferentemente, pois se acredita em condições e no direito de fazê-lo, seja por superioridade, seja por extrema condição de inferioridade.


No entanto, vale notar que algumas vezes a má-educação pode ser utilizada como um marcador social e cultural, incitando o indivíduo a agir de modo inconveniente para o meio em que se encontra, única e exclusivamente, para continuar sendo diferente, não absorver e não ser absorvido pela sociedade que o cerca. Nesse caso, o comportamento é permeado por uma falta de educação apenas aparente, sem, no entanto, corresponder àquela descrita acima.

É o caso dos migrantes nordestinos que, estando em São Paulo, montam suas barraquinhas no Largo da Batata e tocam música em volume bem alto, mexem com as mulheres que por ali passam e conversam entre si usando expressões que o paulistano não entenderá. Ou dos coreanos que dizem não entender o Português e nos deixam falando sozinhos, mas são absolutamente fluentes na língua quando querem negociar com o consumidor. Ou, ainda, os japoneses do bairro da Liberdade que caminham, de cabeça altiva, alguns passos à frente de suas esposas, enquanto estas carregam pacotes e permanecem obedientes.


Ao citar estes últimos, um episódio da minha pré-adolescência vem à baila, sendo propiciamente esclarecedor. Ao perceber a entrada de uma “senhorinha” japonesa abarrotada de sacolas e de seu marido, há muitos anos, em alguma estação do metrô da linha azul, cedi imediatamente o assento, que foi logo tomado pelo senhor oriental. Fiquei indignada e disse a ele que se levantasse, já que eu havia cedido meu lugar à senhora – a educação da minha cultura me impelia a isso – e não a ele, um homem – cuja cultura determinava essa atitude. Ele não se moveu. A senhorinha se encolheu. E eu desci na próxima estação, completamente enfurecida, mas sem dizer nada. Ambos estávamos corretos. Ambos fôramos bem-educados em relação ao outro. Estávamos apenas seguindo as orientações que nossas sociedades determinaram serem pertinentes.


Os traços culturais e a linguagem são o identificador do ser humano e do grupo ao qual ele pertence e é natural que muitas pessoas, perante o medo inconsciente de perderem sua identidade, resolvam agir de maneira considerada imprópria neste ou naquele lugar. Porém, proponho que realizemos agora uma outra identificação, independente de raça, cor e credo: a da boa educação. Digamos bom dia, boa tarde, boa noite, obrigado e por favor. Saibamos sorrir, “deixar pra lá”, não furemos filas e não carreguemos mochilas nas costas em ônibus lotados. Tentemos, por alguns instantes, imaginar como se sentiria aquele que conosco interage, quando resolvemos ser menos comedidos.


Ah! E, meninas, vão ao ginecologista, ao Padre Quevedo ou ao Papa, mas cuidem dessa TPM!



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Agradeço à Sueli Ramos pela revisão cuidadosa!



terça-feira, 15 de abril de 2008

Porque os casamentos não duram

- Você vem?

- Agora não dá. Vai você. Boa noite.

- Assim? Tá fazendo o quê?

- Lendo. Vai lá. Dorme com os anjos.

Muxoxo. Ele está visivelmente desagradado. Dá uma volta pela sala, arruma os jornais no cesto, endireita as chaves e o documento do carro em cima da carteira. Suspira. Tenta mais uma vez.

- Mô?

- Hm?

- Vem dormir, vai.

- Num dá. Não vou conseguir largar esse livro tão cedo.

- Interessante, é? – diz ele em tom de dúvida.

- Demais!

- Ahn... tá bom – conforma-se - Boa noite...

Ele se aproxima e lhe dá um beijo. Ela corresponde. Ele a beija com um pouco mais de lascívia, tentando visivelmente fazê-la mudar de idéia e trocar as fibras de celulose recicladas por outras, de algodão. Ou melhor, pela ausência delas todas.

- Pára! – ela ri – Você não ia dormir?

- Ia, mas perdi o sono.

- Ué... Por que será? – ela brinca.

- Vem cá, deixa esse livro aí, vai.

- Não, benhê... Faz quase um mês que estou tentando ler esse aqui... Vai lá, amorzinho, vai descansar.

-Ah, se faz um mês, pode ser um mês e um dia, não?

- Não - ela ri - Não pode não... Não agüento mais de curiosidade!

- Você está me dispensando. – diz ele, afastando-se dela e franzindo a testa – De novo.

Ela abaixa o livro e olha para ele, surpresa.


- Eu? Desde quando?

- Desde sempre! – e, ao ver a expressão dela, explica – Faz algumas semanas que a gente...


O olhar dele é muito esclarecedor.


- Ah, não. Você não está falando sério, está?

- Estou, oras! Você está sempre correndo e nunca tem tempo para nós. Um dia é a academia, no outro é o regime, no outro está dolorida porque... – ele afina a voz para imitá-la – “a mulher da drenagem é uma doida, olha quanto roxo! Não ponha a mão em mim, estou um hematoma só!”

De estupefata, diante da inominável superficialidade com a qual o marido trata as necessidades femininas mais caras, ela passa à indignação.


- Semanas? – ela põe o livro na mesinha de centro – Semanas? – repete a pergunta aumentando levemente o tom de voz.


A fúria dela está sendo contida apenas pelos ponteiros do relógio. Afinal, já passa das onze. Ela mal pode acreditar na audácia aritmética dele:


- Nas minhas contas são cinco dias! - ela o corrige.

- É, mas você não está contando o fim de semana.


Um mero descuido numérico dele, conjugado à falta de percepção da mudança meteorológica do ambiente causada por um argumento que ela julgará desonesto. O resultado é o cataclismo matrimonial. Afinal, não foram nem cinco e nem sete. Nas contas dela, foram seis E MEIO.


Pode-se perceber que a contenção social dela começa a rachar. O dilúvio verborrágico é iminente:


- Mesmo assim! Então são sete! Ou melhor, seis e meio! Ou sexta foi tão ruim que você já esqueceu? – ela está nervosa.

- Não! Mas foi... bem... muito rápido, né?

-Hã! – um exaurir rápido e preciso, indignado, em timbre elevado. Ela abre a boca, arregala os olhos e põe as mãos na cintura, aumentando a dramaticidade da cena.


Um raio estala no teto do apartamento. Salve-se quem puder!


- Culpe a declaração do seu imposto de renda por isso! Eu estava disponível. Aliás, disponibilíssima!


Agora o olhar dela é de desafio. O relógio acusa a hora de fazer silêncio, em respeito aos vizinhos. Ela levanta, enfurecida. Larga o livro na poltrona.


- Droga! – faz menção de sair.

- Aonde você vai? – pergunta ele.

- Vou dormir, não era isso que você queria?

- Ah, então vamos!- diz ele, satisfeito.

- Vamos? Onde vamos?

Ele não entende. Fica parado, dezenas de pontos de interrogação nadando no olhar.


- Vamos nada, cara pálida! Você dorme aqui, no sofá. Vamos é fazer a sua conta dar certo! – diz ela, irônica.

- Conta? Que conta? – ele está visivelmente confuso, mas sente um frio no estômago quando pensa que pode ter se colocado em uma enrascada.

- A das semanas. – ela profere as últimas palavras com o ar de superioridade de quem tem um royal flush, depositando as cartas na mesa – Boa noite!


-Mas...

- Boa noite! – diz ela, girando nos calcanhares e seguindo em direção ao quarto. Porta um sorriso de triunfo que ele não vê.


Ele, estático, observa a esposa seguir pelo corredor, escuta a porta bater e o ruído da chave, trancando todos os seus desejos e inspirações românticas em um calabouço de... semanas... Espera alguns minutos e por fim percebe que ela não cederá. Olha ao redor. Há o sofá e algumas almofadas. E o livro, o maldito livro, que ele pega, tencionando atirar janela fora. Pára, pensa na estupidez que fará. Olha a capa. Nada de mais. O título remete a alguma baboseira lacrimosa feminina.

A chave vira de novo. Ela abre a porta. Vem, de lingerie, passos decididos, na direção dele.


Ele sorri. Ela mudou de idéia! Está perfumada, cabelos soltos... Linda! Ela estende a mão para ele. Ele segura a mão dela e está prestes a puxá-la para si, quando ela faz um movimento rápido e se solta.


- Dá o livro. – ela diz.


Ainda está brava. Ele juraria ver o ar menos denso ao redor da cabeça dela, as imagens retorcidas por causa da dissipação do calor. Ele engole em seco e estende o volume, que ela apanha sem nada dizer. De posse do livro, ela lhe dá as costas, apanha algo na mesinha de centro e sai em direção ao quarto.

- Boa noite... – ele praticamente sussurra.

- Ahã. – responde ela, antes de fechar a porta e trancá-la novamente.


Ele suspira. Senta-se no sofá, ajeita as almofadas e procura o controle remoto. “Pelo menos a TV...” pensa ele.


Não. Quando se trata deste tipo de desentendimento, a punição deve ser completa. Ela surrupiou o controle. Ele está fadado a uma noite sem aconchegos, sem sono e sem TV, a não ser que queira se exercitar, levantando-se cada vez que quiser mudar o canal. Acordará com dores nas costas e gemerá disfarçadamente o dia todo, andando pelo escritório, até que algum colega venha brincar:


- A noite ontem foi boa, hein? - completam o comentário tapinhas de felicitação nas costas.


E ele responderá, forjando um sorriso de satisfação:

- Nem te conto! Nem tem conto!

domingo, 6 de abril de 2008

Missiva

Querido Antônio,

Escrevo-te, amedrontada, porque estas palavras talvez te atinjam os olhos e o coração tarde demais. Quisera eu ter o dom de vagar pelo passado! Talvez a saudade hoje não mais assomasse meus passos trôpegos de vergonha e cansados de vida. O tempo, sábio condutor das decisões mais relutantes, aparou-me as arestas. Sobra pouco de mim. Carrego, contudo, fardo pesado de lembranças e de "se eu tivesse...". Você, amado, é o maior deles.

Escrevo-te, pedindo perdão. Há muito deixei de duvidar que meus atos, antes ditos amorosos, foram em verdade egoístas. Não pensei em ti, contudo usei-te como desculpa para tudo o que fiz. Usei tua presença, teu sorriso, tuas necessidades e justifiquei-me, dizendo-me a mais pobre criatura.

Tu demandavas e eu, criatura de parcos princípios, deixei-te ao desamparo. Não te amei como devia. Não supri teus sentimentos e tuas necessidades. Não te dei minhas palavras doces e meus gestos carinhosos; enderecei-os a outros que não me amavam tanto quanto tu, mas que eu julgava serem mais importantes em minha vida, agora que já te embalado havia em meus braços. Não atinei com o fato de que tu podias, um dia, não ser mais meu. Pertencerias sempre a mim, ostentava eu, em minhas atitudes vis, grande certeza. Agora que tu te foste, sinto a dor mais pungente e mais amarga, relembrando-me a todo instante de tudo o que fiz.

Usei-te em meu próprio benefício, quando me foi necessário. Desfiz-me de tua presença, a princípio com ardis torpes e mais tarde sem cerimônia alguma, para borboletear entre as estrelas dos nobres salões da sociedade, tingindo de purpurina minhas asas de mariposa. Tu requisitavas minha presença no lar e quanto mais o fazias, mais me afastava de ti, julgando teu clamor inoportuno e sem razão. Por fim, quando já não me foi mais possível esconder do mundo que tu me causavas tédio com teus risinhos e tuas brincadeiras pueris, contratei aquela que ficou em meu lugar. Tu não o sabias, mas era eu quem pagava os serviços daquela que supria tua carência de modo muito aquém do desejado.

Minha alma sofre o efeito dos desatinos das épocas passadas. Anseio por teu perdão, agora que já não mais posso tê-lo perto de mim. Anseio por somente um daqueles muitos sorrisos que perdi. Anseio por minha paz, sim, é verdade! Porém vago por canteiros de insanidade quando entendo que sou aquela que te privou de tua paz. Pudera eu devolver-te tua vida ou ainda voltar e refazer todos os momentos que, destituídos de carinho e confiança, turvaram-te a vista, a ponto de fazer-te perder o Norte de tua existência e da tua idoneidade.

Perdoa-me, Antônio, por ter negado meu amor, meu carinho, minhas palavras de consolo e de compreensão, quando delas necessitaste. Perdoa-me por não ter compartilhado contigo valores mais belos e elevados do que aqueles que tu presenciaste em minhas atitudes. Perdoa-me por não estar eu mesma no cativeiro que a Justiça terrena te colocou por teus atos insanos e violentos. Certa estou, porém: a Justiça Divina far-me-á sempre atenta de que sou a maior responsável por tua falta de piedade para com teus iguais e de compreensão do valor da vida humana.

Tua atitude, impensada, traduzindo tanto ódio e rancor por mais um qualquer que se deitou comigo, difamando nosso lar, te levou ao cárcere físico. Juro-te, Antônio, amado – amado para sempre! - que minha alma definhará no cárcere eterno do inferno de saber que não fui digna do teu amor.


Tua mãe, que muito sofre,

Rosa.

segunda-feira, 3 de março de 2008

Pequena autoridade

Paula procurava a escada com certa pressa. O shopping era novo e mal sinalizado. Ela já havia almoçado e vagado pelo labirinto de lojas por duas horas, antes de se dar conta de que passara algumas vezes na frente da mesma vitrine, na qual um letreiro mal escrito causava graça:

“Precisasse balconista de boa aparência com experiência. Trazer CV”

Paula riu consigo mesma na primeira vez que o leu, perguntando se a experiência se referia à aparência ou à moça. Na segunda vez, riu com a grafia do verbo. Finalmente, na terceira, percebeu que estava andando em círculos e que não sabia onde era a saída.

Perambulou mais um pouco e avistou não as escadas ou alguma placa indicando o caminho, mas o sanitário. Havia um cercadinho de metal delimitando uma pequena área quadrada na frente da entrada do banheiro. Em um dos lados desse quadrado, uma catraca. Achou boa a idéia de parar e pedir a informação ao segurança sisudo, que portava uniforme de botões dourados e se postava ao lado da porta, do lado de dentro do cercadinho. Porém, havia fila e ela teve que esperar um pouco até conseguir chegar à catraca. Enquanto esperava, repassava mentalmente a lista de coisas que tinha para fazer e as contas do quanto havia gasto. Imersa na matemática, não percebeu que sua vez chegara e que o segurança espalmava a mão esperando alguma coisa.

- O quê? – perguntou Paula.

- São cinqüenta centavos, senhora. – o segurança falava apontando para uma plaquinha acima da cabeça dele, que informava o valor da entrada do sanitário. O homem era baixinho e a placa, exposta bem alta na parede, não ficava no campo de visão de quem falasse com ele.

- Eu vou ter que pagar pra fazer xixi? – riu a moça.

- A senhora é quem sabe. Se não pagar, não entra. – respondeu ele, com toda a seriedade.

Paula resolveu brincar com a situação.

- E se eu não tiver dinheiro?

- Então a senhora não entra.

- Mesmo que eu esteja apertada?

- Mesmo assim! - disse ele, com convicção.

Paula olhou de relance a caixinha onde ele guardava as moedas para troco e resolveu troçar um pouco mais do segurança.

- E se eu tiver uma nota grande e o senhor não tiver troco? – perguntou, fingindo a necessidade da pergunta e segurando o riso.

- Grande quanto?

- Ah... Grande... Digamos, de vinte?

- Então a senhora deverá esperar enquanto trocamos a nota.

- Mas o senhor vai deixar seu posto só para trocar a nota? – Paula não se agüentava de vontade de rir, mas manteve o tom de curiosidade séria.

- Não senhora, neste caso eu chamarei alguém para trocar a nota para a senhora. - ele mostrou o rádio, enquanto sua expressão denotava grande importância por portar tal aparelho.

- Mas... – Paula prendeu a respiração para não rir – Eu devo esperar aqui fora ou lá dentro enquanto o senhor troca a nota?

- Não sou eu quem vai trocá-la, eu já disse! – O segurança olhou para Paula como se a achasse burra.

- Ah, é verdade! Que cabeça a minha! Sim, enquanto a outra pessoa for trocar a nota, onde ficarei?

- Aqui fora, é lógico! – agora Paula tinha certeza de que o segurança a considerava mentalmente inapta, dada a expressão do rosto dele.

- Por quê?

- Porque se não tivermos troco, a senhora não vai poder entrar.

- E se eu estiver apertada?

- A senhora vai ter que segurar e trocar a nota em outro estabelecimento.

- E se eu fizer xixi nas calças?

- Sinto muito, senhora, são as regras. – disse ele, dando o assunto por encerrado.

Paula podia jurar que o tom de voz do homem era de consternação, nessa última frase. Talvez ele até sentisse pena da moça que faria xixi nas calças! Uma coisa estava clara, aquele homem realmente levava a sério todas as regras de seu trabalho. "Já que estou aqui... vou aproveitar e entrar. Sabe-se lá quando conseguirei achar a saída desse labirinto...", ponderou consigo mesma. Fuçando a bolsa, ela achou a moeda de cinqüenta centavos e a entregou.

- Obrigada. – ela disse.

Ele somente assentiu com a cabeça, indicou a catraca e ajudou Paula a girá-la.


- Há há... – riu Paula, entrando no sanitário – Meu xixi custa cinqüenta centavos...

Observando melhor o lugar, ela se perguntou o que era feito do dinheiro, já que não havia sabonete nem toalhas de papel para enxugar as mãos. Paula fez mentalmente a promessa de nunca mais ouvir as vizinhas, que a incitaram a procurar preços mais acessíveis no comércio daquele bairro, sacudiu as mãos para tentar secá-las e puxou a maçaneta da porta principal para sair. A porta não se moveu.

Paula puxou com mais decisão. A porta pareceu abrir, mas fechou-se de novo com força. Intrigada, observou os batentes, olhou de lado para ver se alguém compartilhava com ela o ridículo momento, mas não. Estava sozinha. Tentou novamente. Desta vez, puxou com força. A porta abriu e com ela veio o segurança, agarrado à maçaneta, do lado de fora.

- Há! Era a senhora que não deixava a porta fechar!

- Mas eu precisava abri-la!

- Para quê?

- Para sair! Para o quê mais? Ou o senhor acha que eu vou ficar aqui dentro para sempre?

O segurança não respondeu. Já havia voltado ao seu posto, a dez centímetros da porta.
Paula suspirou e ia sair quando se lembrou do motivo que a havia levado ao sanitário. Precisava saber onde estavam as escadas que desciam, indicando a saída.

- O senhor pode informar-me onde ficam as escadas? – enquanto Paula perguntava, dirigiu-se instintivamente para a catraca.

Ainda olhando para o segurança, mas intimamente querendo sair o mais rapidamente possível de lá, girou a catraca na direção óbvia, a da saída. A catraca girou sem resistência e Paula saiu.

- Não! Não! – o segurança meneava a cabeça em sinal de desaprovação. - A saída é por aqui! – disse, indicando um portãozinho minúsculo que ficava logo atrás dele.

Paula parou, assustada.

- E como o senhor queria que eu soubesse, se o senhor estava parado bem na frente dele? Oras... Desculpe-me! – ela não sabia bem o que dizer, tendo sido pega de surpresa pela reação exagerada do homem, que olhava para ela em desespero, com as duas mãos na cabeça, como se o mundo fosse acabar.

- Ah, olha só o que a senhora fez! – exclamou o segurança em tom choroso.

Ela levantou os braços, como se tivesse sido pega em flagrante.

- O que foi que eu fiz? – perguntou.

O segurança demonstrou a catraca com as duas mãos espalmadas para cima, como se estivesse apresentando um espetáculo:

- Quebrou a catraca! Ai! E agora?

- Quebrei a catraca? – ela estava atônita – Quebrei a catraca?

- A senhora girou para o lado errado! Quebrou. Foi isso. Quebrou! – e falando ao rádio comunicador – Atenção, por favor, segurança. Segurança! Na escuta?

O rádio fez um chiado e alguém respondeu do outro lado.

- QAP, positivo operante. Qual é o problema?

- Uma moça quebrou a catraca do banheiro.

- QSL, já estamos mandando alguém averiguar.


Paula mal podia acreditar no que ouvia. Deu um risinho, achando um absurdo em tudo aquilo e fez menção de sair. Foi impedida pelo segurança, que, saindo do cercadinho, avisou, em tom ameaçador.

- A senhora não vai a lugar nenhum. Depredação de patrimônio privado é crime.

A moça ia explodir em uma gargalhada, mas conteve-se.

- Como é que é? Depredação de patrimônio? Onde foi que o senhor viu isso? – disse ela, ofegante no esforço máximo de segurar o riso.

O segurança suspirou, olhou para cima, como se pedisse forças aos céus e apontou para os números do mostrador que indicava quantas vezes a catraca havia sido girada.

- Olhe! Olhe o que a senhora fez. Os números não mexem mais! – ele estava nervoso.

- Ah não, que grande besteira! Deixe-me ver – disse ela, agarrando uma das hastes de metal e fazendo menção de girá-la. Foi impedida pelo segurança, que gritou:

- Não! Não faça nada! – e rapidamente, para o rádio – Por favor, preciso de reforços. Urgente!

Paula protestou:

- Isso já está passando dos limites! Deixe-me ir. Que conversa mais estranha! O senhor está agindo como se eu fosse alguém perigoso! Preciso ir! – tentava empurrar o homenzinho, que se colocava à frente dela, impedindo a fuga ao mesmo tempo em que continuava a pedir reforços pelo rádio.

Fosse porque o homem, apesar de mais baixo, era mais forte, fosse devido à pequena multidão que se juntara ao redor da cena, em dado momento, Paula desistiu de lutar. Ofegante, perguntou:

- Está bem! Desisto! O que podemos fazer para resolver esta situação?

O homem, aprumando-se em seu uniforme, se preparava para responder, quando o rádio chiou novamente:

- Atenção. Águia no QAP?

Mais do que depressa, o homem puxou o rádio, olhou para a moça desafiadoramente e apertando o botãozinho lateral, respondeu:

- QAP. Águia falando.

“Águia?" , Paula pensou, "Águia??”

- A meliante ainda se encontra no estabelecimento?

- Positivo, chefia. Está nervosa. Está quebrando tudo.

- QSL. Viatura em QTI.

- QSL. QRT. Câmbio.

Paula começava a perder a paciência:

- Como é que é? Eu, meliante? Quebrando tudo? – fez menção de agarrar o rádio, no que foi prontamente impedida pelo homem, que desviou, driblou e dançou, enquanto comunicava a periculosidade da senhora a seu superior, a “chefia”...

Paula, cansada, deu-se por vencida. Olhando ao redor, percebeu que o número de observadores havia aumentado e todos comentavam a cena. Resolveu ficar quieta e apoiou-se no cercadinho de metal. O segurança foi impedi-la, acreditando-se tratar de mais uma “depredação”.

- Tô quieta, agora! – disse, levantando as mãos em sinal de rendição. Espumaria de raiva se não fosse uma certa comicidade dos acontecimentos e a vergonha que começara a sentir, vendo-se analisada e julgada por dezenas de olhos desconhecidos.

O segurança somente apontou o indicador e o dedo médio para os próprios olhos e depois para ela, como se dissesse: “estou observando você”.

- E agora? – ela perguntou – O que vai acontecer?

- Agora vamos esperar a chefia decidir.

Paula suspirou. Tudo por um xixi de cinqüenta centavos e uma simples informação! Enquanto esperava, ela se recriminava por ter saído de casa de manhã, por ter resolvido ir fazer compras em um bairro tão afastado de sua casa, só para economizar um pouco mais. Jurou : “ De agora em diante, xixi, só no Iguatemi!” E se resignou.

- Vai demorar? Tô com pressa.

- A chefia é ocupada. A senhora vai ter que esperar.

Ao cabo de quinze minutos que pareceram imensamente mais longos para Paula, as pessoas começaram a se dispersar. A chefia ainda não havia dado sinal de vida. O rádio também não chiara. E tudo voltara ao normal.

Paula pensou consigo mesma que se quisesse sair dali, precisaria ser esperta. Pensou, imaginou, elocubrou... Em poucos minutos achou-se de posse do que ela acreditou ser “o plano perfeito” de fuga na cabeça. Treinou algumas vezes na imaginação. E resolveu colocá-lo em prática.

- Senhor segurança, preciso ir ao banheiro.

- A senhora não tente me enganar!

- É verdade! Toda essa confusão... Me deu vontade!

- Está bem. Mas ai da senhora se fugir, hein?

- Fugir? Por onde? Só se fosse voando pela janela, né?

- Há! – exclamou o segurança – Conheço gente como a senhora!

- De que tipo, que voa? – Paula suspirou.

- A senhora quer ou não quer ir ao banheiro?

- Quero.

- São cinqüenta centavos.

- Eu sei. Tome.

Paula entrou no banheiro. Agarrou a nécessaire correndo, vasculhou, vasculhou e acabou jogando todo o conteúdo na pia, achando por fim o que procurava. Agarrando o tubo de pasta de dentes, elevou o objeto acima da cabeça, como se levantasse um troféu e bradou:

- Vencerei!

Alguns minutos depois, saía, com os olhos vermelhos, em prantos.

- Senhor segurança, eu realmente preciso ir!

O homem olhava para a moça com desconfiança.

- Senhor, é verdade. Enquanto estava lá dentro, recebi uma ligação. Minha avó teve um derrame, está no hospital. Minha família está desesperada, preciso ir! Por favor, deixe-me ir!

O segurança estava impassível. Paula bradava:

- Pelo amor de Deus, deixe-me ir! Minha avozinha está morrendo no hospital. Talvez eu nem chegue a tempo!

Paula gritava e chorava, uivava, clamando iminente a morte da avozinha querida. Com a gritaria, algumas pessoas voltaram a se agrupar. Comentavam entre si:

- O que aconteceu?


- Parece que morreu gente lá dentro.


- Nossa! Alguém teve um derrame!

A roda de curiosos aumentava.

- Morreu uma senhora!


- Nossa senhora!


- Um médico! Precisamos de um médico!

Em poucos minutos, a balbúrdia havia se estabelecido novamente. Pessoas gritavam por um médico, que logo se apresentou, na figura de um senhor tatuado e com a barba por fazer, vestindo uma regata suja de molho de tomate na barriga, que disse:

- Sou médico.

- Dêem passagem, o homem é médico!

- O médico está aqui! Saiam da frente!


O pobre segurança tentou barrar a entrada do suposto médico. Este, ofendido, bradava estar sendo impedido de exercer a profissão. Havia uma pessoa morrendo lá dentro! O segurança, que já era baixinho, foi ficando cada vez menor diante do número de pessoas que se aglomerou ao redor do cercadinho. Alguém teve a idéia de remover as barras de metal. Logo havia gente tentando arrancá-las da parede. Todos gritavam. Finalmente, catraca, cercadinho e segurança voaram pelos ares, a porta foi arrombada e a pequena multidão invadiu o banheiro.

No meio da confusão, ninguém notou Paula, que se esgueirou pelas pessoas, escondendo o rosto. Parou o primeiro curioso mais afastado, perguntou pelas escadas e em tempo recorde conseguiu sair do prédio, jurando nunca mais voltar.

Na mesma noite, Paula visitou a avó, levando flores e uma caixa de doces.

- Vovó. obrigada por existir! A senhora é a inspiração da minha vida!