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terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Ninguem sabe...

Havia algo de muito terno naquelas linhas. Algo de titubeante e assustado, é verdade. Mas era infinitamente doce a curta mensagem, como a névoa no horizonte róseo ao amanhecer de um dia de verão que promete ser maravilhoso.
Ester enxugou as lágrimas. Não sabia direito porque as vertia, em um pranto tranqüilo – desenhavam as gotas caminhos delicadamente sinuosos por sua face -  mas sentia dorido o coração,  uma melancolia pesarosa  que somente a ausência do ser amado sabe causar.
Naquele momento, uma miríade de pensamentos perláceos refulgiam em sua mente ,  causando uma enorme confusão. À ausência dele na aula, eventualidade para qual ela não havia se preparado, seguiu-se um momento de fúria, de auto-estima mergulhando ao subsolo do ser e de um medo subitamente agigantado  de que todas as promessas que vinha acariciando em sonhos enamorados talvez não passassem de imaginação fértil, muito fértil.
Até mesmo o colega simpático que tomou o assento ao seu lado e procurou entabular conversa foi repelido com um esgar de frustração. Tentou o jovem ser sorridente e comunicativo, mas Ester simplesmente não lhe deu ouvidos. De posse do celular, escondido entre as camadas de camisetas coloridas e cool que, sobrepostas, tornavam a aparência femininamente desleixada, ausentou-se do recinto pretextando ir ao banheiro. No entanto, o único desejo que tinha era entender a causa de tamanha irritação que queimava, impedindo a moça de se sentar, se levantar, andar ou estacionar.
Por que não conseguia pensar? Por que sentia esse caleidoscópio a girar impiedoso dentro do peito, impedindo-a de vislumbrar qualquer coisa que não fosse a porta? Por que seu coração sobressaltava a todo minuto? Por que os olhos insistiam em fitar o mostrador do relógio enquanto ardiam a urgência do choro contido?
Com o escoar dos minutos, Ester finalmente aceitou que ele não vinha. No início da terceira aula, inconformada, amuou-se, afundou na cadeira e ficou esperando o tempo passar em meio às moléculas das reminiscências do sorriso dele e das reações bioquímicas que os feromônios do moço ausente haviam bagunçado. Quando a aula acabou, pegou a mochila, o fichário e a agenda e saiu cabisbaixa, macambúzia e contabilizando quantos eram  os  tantos centavos que haviam escoado do seu valor pelo ralo do amor -próprio, levados ao esgoto dos amores não correspondidos. Estava em frangalhos e não entendia a razão de reação tão exagerada.
Ao chegar em casa, custou a acreditar: a mensagem dele esperava, envergonhada, na caixa de emails. Desculpava-se pela ausência. Ester já havia notado que ele não gostava de escrever, porém tornava-se comunicativo quando junto estavam e distantes do mundo.  Cada linha da mensagem parecia reticente, mas significativa; simples, porém dotada de uma doçura tal que foi impossível à moça não flutuar, embalada pelos braços do sentimento que tanto havia olvidado e que por fim, resolveu aceitar. Estava apaixonada por ele.
Havia algo de muito terno nos olhos de Ester, iluminados pelas lágrimas de rendição. Algo de titubeante e assustado. Mas era infinitamente doce o sorriso que o coração lhe trazia aos lábios, como a névoa no horizonte róseo ao amanhecer de um dia de verão que promete ser maravilhoso.

domingo, 19 de setembro de 2010

Denúncia

Ela ouve o barulho do carro parando e o freio de mão sendo puxado. Com isso, sua respiração acelera. Abre o pequeno vidro da janelinha da recepção:
- Boa noite – diz a recepcionista do motel, sempre com a mesma inflexão, desenvolvida através dos muitos anos insulsos no mesmo cargo, no mesmo horário e no mesmo local.
O casal dentro carro parece estar em lua-de-mel. Taynara adora observar recém-casados, chega a se embevecer com o carinho que dispensam um ao outro. Porém, subitamente se apruma, quando recebe os documentos e percebe que, apesar das alianças, os nomes dos dois não revelam a comunhão cartorial. Observando melhor, pode enxergar a diferença de idade e compreende a imagem à sua frente. “Ah, cachorro!”, pensa, enquanto elabora uma cena mental da esposa sofrida, menopáusica, a esperar em casa pelo marido que nunca virá jantar.
Taynara entrega as chaves da suíte ao motorista cinqüentão, que não percebe sua expressão contrariada e espera o carro partir. Então, com um sorriso cínico a bailar pelos lábios entreabertos, se dedica à sua missão, com todo o devotamento de alguém que acredita estar desempenhando uma tarefa praticamente divina. Faz uma busca completa dos nomes online. O nome da moça revela instantaneamente perfis em sites, listas de convocados para chamada de matrícula e um blog. O dele, poucas coisas, links insípidos e sem importância. Em menos de 3 horas, Taynara se ufana de ter conseguido deixar um recado no perfil da esposa dele, em um site de relacionamentos: “Dona corna, presta atenção no maridão!”
Toda a noite dá-se o mesmo: à conferência dos documentos, segue-se uma busca minuciosa que, sendo bem sucedida, culmina em uma denúncia, a qual Taynara chama de “justiça”. Pois que “pobre da mulher, ta lá, sozinha, só porque tá pelancuda, tadinha, não merece essa safadeza!”
No início, Taynara usava o computador da recepção. Mas um vírus contraído através de uma operação mais descuidada, quando a moça acessou inadvertidamente um site pornográfico, fez com que o patrão revisse a magnanimidade de tal condescendência: cortou a internet. Taynara precisou parcelar um notebook e adquirir o tal 3G. Endividou até a alma, mas o coração, peremptoriamente machucado no passado pela conduta infiel do único amor que tivera, fez de sua missão algo tão arraigado, que deixá-la de lado seria inconcebível.
Todas as noites, a recepcionista solteira de 45 anos, encalhada e ressequida pela amargura, pesquisava nomes, clicava em links, suava frio, até conseguir, pelo menos uma vez ao turno – número do qual se vangloriava, pois nunca havia falhado totalmente – denunciar maridos e esposas infiéis. No afã de ser mais produtiva e aumentar seu número de sucessos, Taynara aprendeu tudo o que pôde ou conseguiu sobre internet. E às colegas que a rendiam na troca de turno, e para quem relatava seus feitos, recitava sempre o mesmo mantra: “Mais um sem vergonha vai ter o que merece quando chegar em casa”.
As moças não entendiam a raiva de Taynara. A princípio, comentavam suas impressões, sussurrando e discorrendo sobre o despautério da colega entre elas. Depois, passaram a sentir pena. Uma delas aconselhou Taynara a procurar ajuda psicológica e quase foi atirada pela janelinha da recepção. Outra, mais arteira, sugeriu que Taynara escolhesse um dos clientes, pesquisasse sua vida e tentasse se fazer notada online. Recebeu um tenebroso olhar como resposta. Por fim, as amigas se uniram e, pretextando uma cervejinha para comemorar o aniversário de uma delas, arrastaram Taynara para o bar e para o lado de um amigo galanteador da irmã da prima da vizinha da moça da lavanderia. O homem, apesar de bem-apanhado, também carregava uma galhada do passado, por entre os cabelos lustrosos e penteados para trás, a sombrear o sorriso esgarçado.
Deu certo. Os dois, unidos pela tragédia que assolara a vida amorosa de ambos, se identificaram tanto, que em pouco tempo foram morar juntos. Compraram móveis e eletrodomésticos no carnê, entupiram a mesinha de centro de bibelôs dos quais Taynara nunca se desfaria e praticaram o kama-sutra em todos os 3 cômodos do apartamento de João, o namorado.
Após alguns meses, porém, com a rotina do relacionamento estabelecida e tendo as doces azáfamas matrimoniais arrefecidas, Taynara se viu às voltas com a abstinência de adrenalina. Olhou para o notebook, que ainda trazia consigo, agora para mandar recadinhos apaixonados para João, e pensou, elocubrou... e sucumbiu à tentação. Com o próximo par de documentos à mão, reiniciou a rotina de antes. Em poucas horas, o vício já havia reconquistado todos os cantos de seu cérebro. Nas próximas noites, Taynara se percebeu mais eficiente do que nunca, e em uma quarta-feira, atingiu o incrível número de 3 denúncias! Desta vez, porém, temendo que as colegas denunciassem sua mania para o namorado, manteve tudo em sigilo.
Taynara considerava que ninguém poderia conceber a santidade do serviço que prestava às pessoas! Dificilmente perceberiam a nobreza do seu intuito, que era a de restabelecer a verdade e a honestidade nas relações humanas, forçando cônjuges a despirem-se das falácias que impunham aqueles que amavam, ou que diziam amar. Por fim, ainda que relutantemente, admitiu: nunca, em hipótese alguma, relegaria novamente à indiferença aquilo que havia sido seu empenho caro por tantas noites solitárias, antes que João aparecesse em sua vida.
            Estava a moça justamente pensando em quão digno era seu mister, quando, certa noite, o patrão pediu que cobrisse a falta de uma recepcionista em outro motel da rede. Taynara aquiesceu, considerando que, afinal de contas, era quinta-feira, João tinha futebol com os amigos e nem daria pela falta dela, já que sempre voltava tarde. Pegou a bolsa e foi, aceitando a carona do patrão, que seguia para o outro prédio, em outra parte da cidade.
            Ainda bem que tinha seu 3G! Taynara exultou, enquanto colocava suas coisas na prateleira e abria seu notebook! O primeiro carro, um casal normal, não a animou. Eram mesmo casados. O segundo, também não. Eram  muito jovens e não usavam aliança. Foi o terceiro carro, porém, que proporcionou à Taynara toda a adrenalina da qual ela precisava. Pelo vidro fumê ainda fechado da janelinha, Taynara reconheceu nada mais, nada menos que João. No banco do passageiro, as pernas cruzadas de uma mulher usando uma saia curta e saltos altos. Enrijecida pelo susto, balbulciou um boa noite em voz esganiçada enquanto abria uma fresta da janela e enfiava a mão para fora, pedindo os documentos. João também parecia não querer ser visto, pois imediatamente os forneceu, sem olhar para cima. Escondia o rosto com a mão esquerda, exibindo a aliança que selava o pacto entre Taynara e ele.
            A recepcionista esticou a mão trêmula e entregou a chave. Viu o carro partir rapidamente através do mar de decepção que inundava seus olhos. Suspirou. Considerou tudo o que havia construído com João nos últimos oito meses – não era pouco. Pensando bem, se comparado ao castelo em sua imaginação, era  irrisório, mas, convenhamos, não somente de fantasias mirabolantes pode um ser-humano viver! Sentou-se. Respirou profundamente. Tentou se acalmar. Entretanto, bem no âmago do seu ser, uma urgência, uma carência, um pedido forte, animalesco - quase biológico! -  começou a brotar. Sentiu o coração descompassando, o suor porejando a testa, enquanto a idéia agigantava e se avolumava diante de seus olhos, feito besta informe. Em poucos minutos, já não pôde mais concatenar idéia, diante da premência daquela necessidade. Jogou o notebook longe, estilhaçando a tela e seus sonhos.
- Ao diabo com a internet!- gritou. Com as mãos suadas, discou os números que conhecia tão bem e esperou, a alucinada ferocidade contida, para grunhir, em falso timbre, quando sua mãe atendeu a ligação:
            - Presta atenção, sua filha é uma corna! To avisando! É corna!

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Nuvens


O pai montava uma estante na sala. O menino brincava com um carrinho de plástico comprado na feira.

- Pai, de que são feitas as nuvens?

Muito difícil essa explicação para uma criança de 5 anos, ele pensou.

- De algodão. – voltou a parafusar a prateleira.

O menino girou o carrinho, tentou correr com ele de ponta cabeça no carpete, não conseguiu.

- Elas são macias?

Ele testou a firmeza da prateleira, gostou do que sentiu, olhou para o menino e respondeu:

- São... Devem ser, não é? Afinal, algodão é macio. – estendeu o braço, pegou a outra prateleira, colocou o parafuso em posição.

O menino olhou com mais atenção para as rodas do carrinho. Puxou uma delas. O  eixo de metal trouxe a roda do outro lado consigo. Ele empurrou o conjunto para frente e para trás tencionando entender o movimento.

- Pai, será que elas são doces?

O parafuso estava emperrando. O pai suspirou:

- Acho que não. Eu nunca provei uma nuvem. O que você acha?

- Não sei. – ele empurrava e puxava o conjunto roda-eixo-roda com força.

- Gabriel, não faz assim, vai estragar o carrinho.- A voz do pai vibrou, esganiçada com o esforço, enquanto ele apoiava o peso do corpo contra a chave de fenda.

- Pai, acho que é doce sim.

- O que, Gabriel?

- A nuvem.

- Não sei, filho, não sei. Alcança aquele parafuso ali pro papai. – e apontou para um canto da sala para onde a peça havia rolado.

Gabriel largou o carrinho e foi  na direção que o pai indicava. Pegou o parafuso, que chegava a ser grande nas mãos dele, esticou a mão para o pai,  entregou a peça e voltou para sua almofada de bichinhos e para o carrinho.

- Pai, é doce. Eu tenho certeza.

O pai agora lia o folheto de montagem da estante. Achava que algo estava errado, ou algumas peças deviam faltar, pois dois furos o encaravam desafiadoramente, esperando para serem preenchidos por  algo que definitivamente não se encontrava na caixa, tampouco no chão ou no saco plástico.

- É doce, pai.

- Ah, filho, não sei. Nunca provei uma nuvem. Vai perguntar pra sua mãe, vai.

- Sabe como eu sei?

- Ah! – duas tampinhas de plástico se fizeram visíveis  como se materializadas de súbito, rolando por debaixo de um dos lados da caixa de papelão parcialmente rasgada e jogada no chão da sala.

- Papai!

De posse das tampinhas e visivelmente mais aliviado, o pai finalmente olhou para o menino, que o encarava, indignado. Ora, como poderiam ser duas tampinhas de plástico tão mais importantes do que as nuvens de açúcar?

- Desculpa, filho. É que o papai precisa montar isso antes do jogo começar.

Gabriel pegou o carrinho e se levantou. Foi saindo da sala, emburrado. O pai sentiu remorso, largou as tampinhas, as prateleiras e a chave de fenda. Agarrou o filho, deu uma volta com ele no ar e sentou no sofá. Os dois riam.

- Sim, Gabriel, as nuvens são doces.

- E como você sabe, papai? Você nunca provou!

- Ah, mas é só pensar um pouco! Você lembra quando fomos ao parque e você comeu algodão-doce?

- An-han.

- E quando encostava a língua, o algodão derretia?

- An-han.

- Então! Você não vê como as nuvens somem quando chove?

Os olhos do menino se iluminaram. Ele riu gostosamente.

- Papai, precisamos contar isso pra mamãe!

- Então vai lá, filho, enquanto eu acabo de montar isso aqui.

Pôs o filho no chão e se levantou, aliviado por cumprir seu papel de pai com decência. Deu um beijo na bochecha rosada de Gabriel, que se esquivou e saiu correndo em direção à cozinha, gritando:

- Mamãe! Mamãe! A chuva é de cuspe!

domingo, 18 de julho de 2010

Mas o que está acontecendo??

Se você reparar nas datas das postagens, verá que não escrevo há algum tempo. Tenho usado toda a minha criatividade em outros projetos que demandam toda a minha energia. Há um livro sendo feito, muitas aulas sendo preparadas e relatórios sendo escritos...

Logo, logo, porém, espero ter tempo para postar aqui novamente!

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Ninguém está vendo.

publicado na Revista Substrato - CEPEGE, IGc/USP (novembro/08)


“- Ligo pra você.

Com essa frase, os dois encerraram a conversa. Ela foi embora esperando esse telefonema ansiosamente. Ele, nem tanto.”

Essa cena poderia ser característica de qualquer filme piegas de sessão da tarde. Nele, a mocinha seria uma atriz bonita, de traços delicados, trajando um vaporoso vestido florido. Ela sairia de cena andando por uma rua de Nova Iorque, na primavera. Nós, espectadores, vê-la-íamos ir embora, saltitante, enquanto ele se voltaria para o lado oposto, colocaria as mãos no bolso do casaco leve e iniciaria sua caminhada deixando o lugar. Se essa cena acontecesse nos primeiros trinta minutos do filme, saberíamos que haveria um conflito que se resolveria ao final, levando as adolescentes sonhadoras às lágrimas. Porém, essa situação passa longe de um filme.

A cena em questão se desenrola em um saguão de uma empresa, após uma entrevista de emprego onde a moça desfiou seus planos de futuro e descreveu habilidades e defeitos de sua personalidade. O homem, um funcionário da área de Recursos Humanos a entrevistou, fazendo as perguntas padronizadas, com uma ou outra variação aqui e ali, para garantir o elemento surpresa. A moça não se saiu bem, faltou-lhe desenvoltura, conhecimento e experiência na área. O entrevistador, após anotar alguns rabiscos na ficha da candidata, escolta a moça até o saguão da empresa, onde se despede, dizendo a frase supracitada.

O desenvolvimento da história, corriqueira, é interrompido no momento em que a moça toma o elevador e deixa as dependências do prédio, pois o entrevistador nunca ligará para a candidata. Nem mesmo para lhe dizer o que foi que lhe faltou para conseguir a vaga. A assertiva “ligo para você” serviu como o que se costuma denominar, na Lingüística, fim de turno, ou seja, o sinal que um interlocutor envia ao outro para indicar que sua fala ou seu discurso foi finalizado. Em um processo de comunicação, o fim de turno é utilizado ad libitum para garantir que haja entendimento e os interlocutores não atropelem suas falas mutuamente. Porém, extrapolando-se minimamente a definição lingüística e utilizando um pouco de poesia, poderíamos dizer que nós, seres humanos, utilizamo-nos de diversos “fins de turno” ilícitos para nos livrarmos de situações quaisquer que assolem nossa zona de conforto.

Em algum momento da década de 1970 houve a circulação de uma propaganda de cigarros que fazia apologia à malandragem e à necessidade de “ser esperto”. Nessa propaganda, o jogador de futebol da seleção brasileira Gerson se vangloriava de tirar vantagem das situações e por isso a justificativa para o comportamento em questão ficou conhecida como Lei de Gerson. Atualmente talvez seja bastante difícil encontrar algum jovem que saiba dizer de onde surgiu essa idéia. Porém, ela se encontra arraigada no comportamento da maioria dos brasileiros. É preciso ser esperto. Você deve levar vantagem em tudo. Se for preciso, minta. Distorça a realidade. Mude a descrição de um fato ou o ponto de vista de um acontecimento. Se alguém quiser confrontá-lo, finja desentendimento. E continue sua vida, obrigado, volte sempre.

Longe de ser somente uma idéia vilipendiosa e torpe, isso é uma estratégia social. Aprendemos desde cedo que dizer a verdade nem sempre é a melhor solução, especialmente se houver a possibilidade de magoar alguém. Torna-se preferível usar recursos como eufemismos, metáforas, parábolas e fábulas. Qualquer um de nós já se deparou com uma situação onde uma criança, cujo Superego ainda não foi totalmente desenvolvido, diz exatamente o que pensa, enquanto os adultos ao redor se contorcem de vergonha e os pais da criança lhe puxam as orelhas, muitas vezes, porém, abafando um riso, por saberem que as palavras proferidas, embora danosas, descreveram a mais pura realidade.

O Superego é a sociedade introjetada no indivíduo. A criança vai construindo a representação interna das normas sociais através de seu relacionamento com pais e adultos responsáveis por cuidarem dela. Um ser humano minimamente são, que apresente o desenvolvimento de suas habilidades cognitivas básicas, consegue aprender que há momentos em que certas coisas não devem ser ditas. A não ser que o indivíduo desenvolva problemas psicológicos ou psiquiátricos, ele aprende a utilizar a chamada “mentira cor-de-rosa” para conseguir se desvencilhar de situações que podem resultar em embaraços fenomenais. Quando isso não acontece, diz-se do indivíduo, na Psicanálise, que ele “não apresenta o Superego fortalecido”.

O problema básico proposto por Freud é que o ser humano apresenta “pulsões” – que poderíamos traduzir no linguajar cotidiano por “desejos”, ainda que esta palavra seja muito carregada de outros sentidos e de diversos usos que não necessariamente coincidem com a terminologia freudiana. As pulsões guiam toda uma série de comportamentos do indivíduo, mas as etapas pelas quais ele terá de percorrer para atingir o prazer dependerão do nível de coerção ao qual foi submetido e de sua capacidade de sublimação. Em outras palavras, o ser humano apresenta vontades, necessidades e desejos e a sociedade ensina estratégias “adequadas” para que nos apropriemos do prazer.

É claro que as linhas da Psicologia e até da Psicanálise divergem nesse sentido. Enquanto psicanalistas falam em pulsão e sublimação, behavioristas, por exemplo, dirão que o sistema de compensação do meio no qual o ser foi inserido será o fator delimitante decisivo para apontar quais mecanismos o indivíduo utilizará para alimentar suas vontades e necessidades. De qualquer forma, o ser humano apresenta instintos animais, características biológicas, medos, angústias e estratégias de sobrevivência. Juntos, todos esses elementos compõem um universo muito complexo onde ora o simbólico emerge, ora passa a ter caráter secundário, tornando cada um de nós indivíduos muito peculiares. Para uma adolescente, por exemplo, a fome pode ser menos importante que a atenção que ela angaria por causa do corpo perfeito, resultando em anorexia. O fator psicológico, nesse exemplo, (necessidade de carinho) suplanta o biológico (fome).

O pensamento judaico-cristão preconizou a orientação de que o ser humano desse menos vazão aos seus instintos terrenos e fosse mais centrado em outros valores, ditos espirituais. Se por um lado isso trouxe mais respeito às nossas relações, por outro causou uma série de conflitos inomináveis para aqueles cujas paixões são incontroláveis. Winnicott, importante psicanalista inglês do século XX, diz que o homem maduro é um ser capaz de dar vazão às suas necessidades sem com isso tornar-se completamente anti-social, identificando-se com a sociedade sem sacrificar sua espontaneidade. Porém, o paradigma social nos instiga a olvidarmos o que queremos e somos. Espera-se que não sejamos maus, não sintamos raiva ou ódio, não queiramos vingança, não procuremos desvairadamente a melhor posição social, mesmo que seja alcançada à custa de um de nossos pares. Sendo absolutamente realista, diria que isso equivale a pedir a um macaco que não pise nas cabeças de outros macacos do grupo para conseguir o melhor fruto da árvore. Sendo um do grupo, pediria que não pisassem em minha cabeça, por favor.

É nesse espírito que assistimos a Ensaio sobre a Cegueira (baseado no livro homônimo de Saramago) e encontramos o pior de nós mesmos estampado diante de nossos olhos e sendo jogado sem cerimônia contra nós. Vemos a vilipendiada condição humana, quando o lustro social não mais impera e a animalidade encontra vazão na busca pela sobrevivência. Não a sobrevivência meramente física e biológica, mas aquela que depende da sanidade do ser, destituído das estratégias que construímos ao longo de milhares de anos de sociedade, beirando, por isso, a loucura. Quando a cegueira branca se alastra pela humanidade como uma epidemia da qual somente a esposa de um médico é poupada sem explicação, um grupo é colocado em quarentena pelo governo. Confinados, recebendo parcas rações, reduzidos a animais, cometem abusos e absurdos. Tanto no filme quanto no livro, fica claro que tudo o que vemos acontecer é resultado de uma dor incomensurável e da necessidade de se proteger das ameaças externas, que agora não são mais visíveis e que podem, por isso, vir de qualquer lugar e a qualquer hora. E assim, voltamos a ser animais, matando, estuprando, roubando, traindo quem nos ama, espancando-nos uns aos outros e defecando no chão.

Não posso me furtar a pensar que, apesar de não apresentarmos a cegueira branca, nós somos assim, estes mesmos animais, porém cegos e loucos em muito menor grau. Esta é a condição humana. Fazemos o que nos é possível para sobreviver, para lidar com nossas frustrações, paixões e ansiedades, medos e angústias, pisando nas cabeças de outros da nossa própria espécie, em busca do fruto mais saboroso. Porém, isso não é reprochável. Só é digno de pena. Porque é uma necessidade do ser humano recorrer a válvulas de escape (lícitas ou não) nessa grande panela de pressão que é a sociedade. O mais curioso é que somos nós mesmos que fechamos a panela e instalamos a válvula – álcool, drogas, sexo, religião e quaisquer outros paliativos imaginários para minimizar o medo, a angústia, a frustração de não podermos dar vazão às nossas pulsões.

Sendo cozidos por todos os lados, a mentira cor-de-rosa mostra-se altamente refrescante, livrando-nos da situação constrangedora de não querermos contratar a candidata que não teve bom desempenho na entrevista, de não pretendermos mais sair com aquela determinada pessoa que perdeu interesse sexual para nós, ou , ainda, de termos que expressar nossa opinião sobre o vestido horroroso de lycra roxa e laranja da amiga gorda. Não sofremos do mal da cegueira branca, mas todos nós fingimos não enxergar o que está acontecendo enquanto mentimos desvairadamente em busca de paz. Será que algum dia conseguiremos ver sem tanto medo?


Agradecimentos: Gostaria de agradecer imensamente às psicólogas Alice L. Luzes (PUC-SP) e Elisa Amaral (USP-SP) por todos os momentos de discussão que culminaram nas conclusões expostas neste artigo.

Honestidade. Com "H" maiúsculo.

publicado na Revista Substrato - CEPEGE, IGc/USP (agosto/08)

- Teacher, que letra é aquela?
Levanto os olhos do caderno do Marcelinho[1], que eu corrigia, olho para o Carlos, o aluno que fez a pergunta e sigo a direção de seu dedo que aponta para a lousa, onde se via um “H” em letra bastão no início da frase “How many legs does an insect have?”
- Qual?
- Aquela ali. Do começo da frase.
- É um “H”.
- Maiúsculo?
- É. – pergunto-me se aquela conversa é realmente necessária. Pondero que o Carlos apresenta vários problemas de disciplina, uma ou outra característica que pode indicar hiperatividade e muitas evidências de dificuldade de concentração. Relembro as aulas de Psicologia e reflito se a pergunta sobre a letra não seria um indicativo de que Carlos está demonstrando, com tal atitude, uma premente necessidade de se desacoplar da realidade que o cerca. Tudo isso passa por minha cabeça em frações de segundo.
Vou até a lousa. Pego o apagador. Apago o “H”. Murmúrio geral da classe, que presta atenção a todo e qualquer movimento que eu descreva. Nessa idade, sete para oito anos, cada traço que a professora faz na lousa é um evento, uma diretriz, uma lei. Deve ser copiado à risca. Finalizaram o processo de alfabetização, já reconhecem a diferença entre letra bastão e letra cursiva faz tempo, mas não são autônomos ainda para decidirem qual usar, dependendo da ocasião. Pego o giz colorido, rosa. Na iluminação da sala àquela hora da manhã, o giz rosa é o mais visível no quadro verde-escuro liso e bem cuidado, sutilmente quadriculado de um verde ainda mais escuro com as linhas-guia. Faço novamente o “H”, agora em letra cursiva. Marta, uma menina de olhos perspicazes, pergunta:
- Teacher Rach, tem dois “o” depois do “H”?
E Paulo arremeda:
- Que letra é essa, teacher?
- It’s a capital “H”, Paulo. Um “H” maiúsculo.
- Não é não, teacher. Isso é um “N”
E Marcos intervém:
- Não, é um “N” ao contrário!
O murmúrio transforma-se em barulho. Muito barulho. Todos agora estão concentrados na necessidade de desvendar que letra é aquela que a teacher escreveu no começo da pergunta - a qual orienta somente um passo da atividade de leitura - e porque existem duas letras “o” logo depois da letra estranha. O primeiro “o”, na verdade, não é um “o” e sim parte do rebuscado H maiúsculo que aprendi a fazer quando era criança e o qual abandonei logo na adolescência em favor de letras mais “limpas” visualmente.
Suspiro. Por que estão fazendo isso comigo? O que custa concentrar-se na atividade e achar quantas pernas o diabo do inseto tem? Já não repetimos exaustivamente a pergunta quando conversamos sobre o conteúdo.? Tento acalmar meus pensamentos e retomar o controle da situação. Primeira aferição: os alunos estão somente sinalizando uma dificuldade e sou eu quem tem a responsabilidade de saná-la. É minha atribuição de professora, de educadora e de apaixonada pela profissão que abracei. Segunda aferição: estou frustrada porque percebi que não preparei a totalidade da aula do jeito que deveria, prevendo as todas as dificuldades e por isso estou jogando a culpa neles, caindo no chavão “crianças que não param quietas”.
Repasso mentalmente os steps de pre-reading que cansei de ensinar a professores como teacher trainer de EFL (English as a Foreign Language). Repito o mantra, verificando se não esqueci nada: contextualize, activate the students’ schemata, pre teach unknown words, set a meaningful and feasible first task… [2] Sim, eu os fiz. Todos os passos estão lá. O problema é mesmo o “H”.
Suspiro novamente. Nos meus lesson plans há uma seção, “Anticipated difficulties”, onde discorro sobre todas as suspresas que podem impedir o bom funcionamento da aula. Mind note to myself: incluir o “H”. Volto à realidade e vejo o efeito dessa letra na minha aula tão cuidadosamente planejada e discutida anteriormente: o grupo está descontrolado. Sinto-me o elétron da última ligação covalente do metano do pum da mosca do cocô do cavalo do bandido. Objetivos lingüísticos? Objetivos pedagógicos? Materiais a serem utilizados? Dificuldades antecipadas? Tempo de cada atividade? Procedimento para cada atividade? Estavam todos no lesson plan. Menos o “H”.
Linda aula sobre mamíferos, aves, répteis, anfíbios, insetos e peixes. Havia discutido com alguns amigos biólogos a validade dessa separação, que agora não é mais vigente no mundo científico. Ao aferirem filogeneticamente que a tartaruga está mais próxima dos mamíferos do que dos crocodilos e estes, mais próximos das aves do que das cobras, essa classificação perdeu o sentido à luz da Teoria da Evolução. Mas continua a ser ensinada nas escolas e por isso, acreditei que discorrer sobre o fato de que “snakes, lizards and alligators are reptiles”[3] não seria tão danoso para meus alunos, estando ainda no Fundamental I.
Meus olhos transparecem o desespero que começa a tomar conta de mim. Minha assistente de classe, aluna do último semestre da FE-USP, levanta-se, vem em minha direção e fala baixinho, estendendo a mão para pegar o giz:
-Posso?
Entrego-lhe o giz e minha confiança. Entrego-lhe tudo o que me faz acreditar ser professora enquanto assisto meus 18 anos de prática de ensino se esvaírem nas curvas de um “H” maiúsculo em letra cursiva, cuidadosamente desenhado dentro dos quadradinhos formados pelas linhas-guia do quadro. Ela vira para a classe e diz:
- Ready now, it’s an “H”. Let’s go back to our groups and go on with the activity, ok?[4]
Há um contentamento geral. Escuto as interjeições de alívio e súbito entendimento, o farfalhar do papel sendo preparado para ser apagado, “can I use the eraser, please?”[5] e finalmente a paz: os grupos voltam a trabalhar como se nada tivesse acontecido. Sento-me, derrotada. A terceira aferição, contundente e dolorosa, é inegável: toda a experiência que tenho não me preparou completamente para o trabalho que desempenho hoje. Preciso aprender a fazer as tais letras cursivas da maneira correta.
Enquanto observo e monitoro os alunos trabalhando, minha assistente percebe meu desapontamento e tenta melhorar meu humor, se oferecendo para me ajudar com a caligrafia. Agradeço e aceito a ajuda. Afinal, já havia acontecido com outra turma, não com o “H” e sim o “T” maiúsculo. Conforme os minutos passam e a sensação de frustração amaina, percebo que a frase “dar ao aluno o que ele precisa” nunca fez tanto sentido. Não importa quanta experiência eu tenha ou quão importante seja o conteúdo a ser abordado. Minhas ferramentas são inapropriadas para esse contexto. Preciso reciclar meus recursos.
Apesar de muito já haver discutido em treinamentos e cursos o planejamento do quadro –alguns professores parecem se esmerar em fazer um mosaico de informações que ao final da aula lembram um patchwork de ininteligibilidades e qualquer pessoa com o mínimo de bom senso sabe que alunos visuais necessitam de um quadro organizado - nunca havia ponderado que a caligrafia pudesse interferir no bom andamento de uma aula,. Também fui treinada para ensinar pessoas cuja primeira língua não usa o alfabeto latino, conhecendo todas as idiossincrasias de idiomas como coreano e o russo em contraste com o Inglês. Mas um “H” maiúsculo? Ninguém havia me prevenido... Minha mente repassa os itens mais comumente abordados nos treinamentos que dei e recebi nesses anos todos: o que faz um aluno aprender? O que faz uma aula fracassar?
Muito já foi discutido e existe um senso comum, apesar de adotarmos teóricos cujas linhas de pensamento algumas vezes se apresentam diametralmente opostas : o aluno aprende quando o que é ensinado é relevante, útil e tem relação com a sua realidade. Ignorando as controvérsias que causam os PCNs[6] quando são publicados, a maior parte dos educadores sérios tem como linha mestra de seu trabalho a minimização da abordagem de assuntos que nada influirão na formação profissional e humana do ser que se encontra sob sua responsabilidade nesse processo de construção de conhecimento. No entanto, há os profissionais que são colocados nessa posição sem possuírem noção alguma das estratégias mais básicas de ensino e aprendizagem – muitos deles frutos do processo acadêmico de Iniciação Científica, Mestrado, Doutorado – cuja produção científica assume vulto muito maior do que o exercício da docência. É comum escutarmos dizer sobre um professor da universidade que “ sabe muito sobre determinado assunto, mas não sabe ensiná-lo... ”.
Estudiosos da Educação discutem constantemente a validade das fases de desenvolvimento de Piaget, contrastando essa visão com a mediação vigotskiana, a educação bancária de Paulo Freire, a semelhança de famílias de Wittgenstein e com muitas outras abordagens. Há uma miríade de linhas a serem seguidas e todas são frutos de muita observação e ponderações profundamente coerentes. De modo muito simplista, podemos dizer que todas funcionam, dependendo do aluno. Aliam-se à essas teorias, outras tantas que cuidam do lado afetivo da aprendizagem, da interação professor – pupilo e pupilo – objeto de estudo ( a “matéria” em si), do ambiente e das relações sociais de poder e autoridade, inseridas no contexto escolar.
Em meio a todas essas vertentes, encontramo-nos agora a discutir o futuro do curso da LIGEA. Professores e alunos têm estabelecido discussões acirradas sobre o que deve conter a grade curricular e qual será o perfil do profissional formado pelo curso. A proposição de “formar um educador com conhecimento sobre a dinâmica interna e externa do Planeta e da interação entre Geosfera, Hidrosfera, Atmosfera, Biosfera e Noosfera, de forma a usar os conhecimentos do Sistema Terra no uso sustentável dos recursos naturais com ênfase nos recursos minerais, hídricos e energéticos para a formação de um cidadão crítico para enfrentar os problemas ambientais na sociedade atual” é extremamente desafiadora, porém absolutamente coerente com a demanda do nosso país atualmente.
Contudo, nada nessa discussão fará sentido se em algum momento não forem garantidos os meios pelos quais esses educadores serão instrumentalizados de maneira satisfatória. Um verdadeiro educador precisa saber entender várias linguagens, ser flexível para aceitar paradigmas diferentes e se adaptar a eles, ser ousado para testar novas técnicas sem contudo expor seus alunos aos perigos de uma prática pedagógica homicida, conhecer suficientemente o que ensina para saber onde buscar mais informações quando o aparato escolar não estiver a contento e para catalisar a informação, digeri-la previamente, de modo que os alunos possam absorvê-la e não expeli-la totalmente por ser muito complexa para suas estruturas cognitivas.
O educador consciente procurará recursos proveitosos para sua aula e não “shows pirotécnicos”; preparará cada sessão pensando no perfil do grupo e não uma seqüência de atividades que lhe servirá ad libitum enquanto aquele conjunto de informações for vigente; fará uma apresentação de power point que será válida em um determinado contexto e a modificará conforme o grupo e o momento; especificará tarefas úteis e relevantes para o processo de aprendizado e não para o sistema de avaliação; preocupar-se-á com a preparação, contextualização e confecção de perguntas significativas prévias à leitura de um texto e não simplesmente distribuirá as copias e dirá “Leiam e discutiremos”.
O educador autêntico saberá utilizar-se das palavras, mas também dos gestos de aproximação, da musicalidade da entonação na fala, da teatralidade natural de quem ama o que faz. Saberá escutar através dos ouvidos, mas também através dos sentidos. Saberá entender que quando algo não funciona, a primeira coisa a ser feita não é culpar e sim remediar. Saberá procurar os meios necessários para reciclar seu conhecimento e suas técnicas. Finalmente, saberá ser humilde para aceitar que nem sempre acertará, apesar de todos os títulos angariados e artigos publicados. Saberá usar de honestidade em suas práticas, para ser verdadeiramente um educador. Honestidade com H maiúsculo. E em letra cursiva.


Agradecimentos:
Meus mais sinceros agradecimentos aos biólogos Paulo Enrique C. Peixoto (UNICAMP), André Victor Lucci Freitas (UNICAMP) e Alex Martins dos Santos pelas sugestões e ponderações cuidadosas! E aos amigos Vinícius B. Fuentes, Francesca Pozzi e Marc Neilson por todo o apoio e sugestões durante o processo.


[1] Os nomes das crianças foram trocados..
[2] Contextualizar, relacionar ao universo do aluno, ensinar antes palavras que possam impedir o cumprimento da tarefa, definir uma primeira tarefa factível e significativa...
[3] Cobras, lagartos e jacarés são répteis.
[4] Pronto, agora é um “H”. Vamos voltar aos grupos e continuar a atividade, ok?
[5] Posso usar a borracha, por favor?
[6] Parâmetros Curriculares Nacionais - referências de qualidade para os Ensinos Fundamental e Médio do país, elaboradas pelo Governo Federal.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Conjecturas

Ela firma o polegar na pálpebra inferior para retocar o delineador. Não se conforma. Eu escuto e tento ajudá-la a responder o rol de perguntas que ela me infringe todas as sextas-feiras. Para ser bem honesta, não presto muita atenção no que respondo. A aflição que me causa ver o lápis delineador roçando a córnea parece impedir meu raciocínio.

- Por que ele olhou então?
- Porque você está muito bonita hoje.
- Ah, mas se foi isso, então por que ele não olhou logo quando eu cheguei?
- Por que talvez ele não tenha visto você chegar, oras!
- Hm... talvez. Mas não acho que seja isso. Será que ele quis se fazer de desinteressado?
- Não.. acho que não... sinceramente? Acho que ele não viu você mesmo.
- Então por que ele falou aquilo?
- Aquilo o quê?
- Que eu me escondo.
- Ah, veja só como tenho razão! Deve ser porque não viu você chegar mesmo.
- Duvido! Acho que ele quis mesmo foi me provocar.
- Provocar? Por que ele faria isso?
- Não sei... – ela pára com o dedo segurando a pálpebra e aponta o lápis para mim. Enquanto fala, vai desenhando suas conjecturas no ar - Por que ele segurou minha mão? E por que não segurou depois, quando eu quis? Por que andou do meu lado como se quisesse conversa? E por que desdenhou minha companhia e foi tomar café com os amigos quando saímos da sala de aula?
- Ai, meu Deus! Quantas perguntas! Você quer me deixar louca?
- Não ria do meu sofrimento.
- Sofrimento? – estou agoniada com tantas perguntas.
- Sim, você não vê que sofro? A expert em ciências aqui é você. Ajude-me a resolver essa equação!
- Equação? Que equação?
- Desta situação inusitada e frenética na qual me encontro!
- Não estou entendendo!
- Como não está entendendo? Ele não me quer!
- Quem disse isso?
- Está visível agora, não está?

Meu silêncio a deixa consternada. Não sei o que dizer. Sei que ele a quer. É visível e aferível. E o desenrolar dos fatos se mostra dolorosamente previsível. Porque eu o quero. Mais do que ela, que o descartará em algumas semanas, como faz com todos os que acabam sendo enredados por seus cabelos lisos, loiros e longos.

Eu o quero para sempre. Mas meus cabelos são cacheados e ficam eriçados em dias de chuva. Ainda assim, ouso querê-lo para sempre. Ou pelo menos, para o todo-sempre no qual um amor pode persistir. Devo dizer algo, ela me olha com o olhar delineado e desconfiado.

- Olha, vamos lá para fora, você está perdendo tempo. Temos somente alguns minutos antes do término do intervalo – digo, finalmente, sem muita convicção.

Ela joga o delineador caríssimo na bolsa obscenamente cara também. Arruma os seios perfeitos e volumosos devido ao recente implante, joga os cabelos para baixo e depois para cima com um movimento rápido da cabeça. Por alguns segundos, eles parecem flutuar no ar, brilhando como se fossem feitos do mesmo material das asas das fadas, que, quando voam, espargem aquele pó dourado; depois caem , escorregando pelos ombros torneados dela. Devo admitir, ela é linda. Dói-me perceber que sou apenas sombra. Dói-me ainda mais entender que até as mariposas preferem a luz.

São já semanas de angústia, assistindo o jogo que ela promove, bailando graciosamente, indo por vezes ao encontro dele e, por outras, repelindo qualquer aproximação. Ela me diz que é assim que se faz. Eu, porém, penso que seria mais fácil sentar-se à mesa e tomar um café, discutindo as idiossincrasias da sociedade. Mas quem se importa com o que eu penso?

Saímos do banheiro. Ela na frente. Ele está parado, conversando animadamente, em meio a alguns colegas. Seus olhos brilham, ele se despede do grupo e vem ao nosso encontro. Sei que hoje será o dia que me sentirei em pedaços. Em poucos minutos, ele a convidará para sair. Hoje é o último dia de aula antes das férias de julho. Não há mais tempo a perder. Nos poucos passos que o separam de nós duas, uma eternidade, sinto o choro preso inchando a garganta e fazendo arder meus olhos. Como no desenho animado, percebo o coração estilhaçando, os caquinhos suspensos apenas pela iminência da vergonha. Não posso e não devo fazer qualquer ruído. Qualquer um sabe que cacos de coração caindo no chão em meio aos colegas da faculdade fazem muito barulho. Praticamente um estrondo! Melhor mesmo será deixá-los cair no silêncio do meu quarto. Despencando no colchão, ainda úmidos das lágrimas, ninguém os ouvirá.

Ela abre um sorriso, que mais se assemelha a um colar de qualquer gema mais branca que a pérola. E mais reluzente. Simplesmente perfeito. Quando ela sorri, duas covinhas se formam no rosto cuidadosamente bronzeado no salão de estética. Simplesmente perfeito.

Ele está a dois passos de nós. Olho para o chão, para que não me vejam chorar de tristeza. Afinal, hoje será o dia deles. O dia em que o mundo celebrará o mais novo casal enamorado do orbe. Serei somente uma boba apaixonada vertendo lágrimas de rejeição. Não, eles não podem me ver assim. Abro minha bolsa barata, procurando algo. Cicuta, talvez? Encontro o maço de cigarros. Havia prometido parar, mas a resolução esmaece rapidamente. Procuro pelo isqueiro, enquanto ele, já próximo, nos saúda alegremente. Tremo in-sa-na-men-te agora. Onde está o isqueiro???

Ele pede para falar com ela a sós. Pergunta se me importo, eu aceno que não com a cabeça e digo “vai lá!” com o descaso projetado para essas horas. Afinal, sendo a melhor amiga dela desde o cursinho, esta é a melhor saída. Não cursar disciplinas juntas também seria uma estratégia, se fizéssemos a mesma graduação. Graças aos intelectos diametralmente opostos, havíamos entrado em cursos diferentes. Porém, essa disciplina havia se mostrado muito tentadora, ainda que fosse extra-curricular... Ele havia tido a mesma idéia. E apesar de nunca nos termos visto em alguma aula de Cálculo ou de Mecânica, eu o reconheci imediatamente quando veio falar com ela a primeira vez. Eu estava junto. Na sombra. Como sempre.

“Não é impressionante que você ainda não tenha se acostumado?”, pergunto a mim mesma. “Cadê essa porcaria de isqueiro? Preciso fumar, droga, se eu for pedir um fósforo na recepção eles verão meus olhos vermelhos! Mas eu tinha certeza que havia deixado um isqueiro aqui! “

Através das lágrimas que insistem em marejar minha visão, percebo os dois conversando perto do balcão. Não contentes em embaçar-me olhos, as lágrimas agora resolvem cair, inundando a face. Corro para o banheiro. Pego papel toalha e acabo borrando o delineador de marca genérica que uso às sextas-feiras, para esconder o tom cansado. Junto ao nariz nada envaidecedor que porto, agora inchado, os olhos constituem um conjunto verdadeiramente bizarro.

“Preciso me controlar!”, penso. “Que farei? Como sair dessa situação?”

Olho para as janelas do banheiro, mas elas são muito estreitas e estou acima do peso. Ela passaria pelas grades, silfidescamente, mas eu não. De que adiantaria? As janelas dão para o estacionamento, mas estamos no quinto andar. “Ótima saída!”, pondero. “Que besteira!”, percebo. Estou em frangalhos. Preciso fugir.

Porém, em um nanossegundo os eixos se invertem e o caos se instala. O universo busca a maior entropia sempre, não é o que dizem? Ela volta. Escancara a porta do banheiro e fuzila meu rosto molhado com os olhos injetados. Não entendo. Mas não há tempo para mais nenhuma conjectura. Ela dispara:

- Vai lá. Ele quer você. Sua traidora, você deu em cima dele sem me falar nada? Você sabe que estou apaixonada por ele e mesmo assim apunhala sua melhor amiga pelas costas?

Não consigo articular palavra. As lágrimas secam instantaneamente.

- Você e os seus emails. Eu já deveria saber! Nunca mais quero falar com você. Suma da minha frente e tomara que ele seja muito ruim de cama! Lista de discussão de Física Quântica, é? Nerds ridículos, todos vocês!

Ela tenta bater a porta, mas a mola a impede. Assisto enquanto ela se vai, cabelos esvoaçando. Ela é perfeita, mas ele prefere a mim. Tenho um acesso de riso. Olho no espelho. Até que não estou tão mal. Sim, vamos ao café e às idiossincrasias da sociedade. Algumas poucas vezes, parece-me, the pen, ou melhor, the keyboard is really mighter than the sword! Ou do silicone, como queira!