quarta-feira, 9 de novembro de 2016

E agora?

http://www.latimes.com/



Fala-se muito, especialmente na mídia e nas redes sociais, sobre os direitos das minorias (ainda bem!), cujas conquistas das últimas décadas foram suadas e ainda são frágeis.

 

Porém, às maiorias xenófobas, ignorantes e racistas não foi facultado o direito à mediação destes processos, em linguagem adequada, continuamente, para que pudessem entender e aceitar os "novos" conceitos, muito mais humanitários. Tampouco lhes foi proporcionado o reconhecimento por terem "sobrevivido" e estabelecido suas vidas em um mundo onde muitos não eram respeitados. É comum que se expressem contra as minorias e seus direitos e lutas, bradando que são absurdas, que desrespeitam a moral e os bons costumes e que "na minha época não era assim".



http://consciencia.blog.br/


Não são tanto os jovens que precisam de explicações sobre o caráter hediondo do preconceito. Eles já nasceram em um contexto mutante, alimentado por meios de comunicação velozes e pela Internet que tudo tem. Sempre há uma "ovelha negra" na própria família ou de algum conhecido,  um professor controverso na escola dos filhos, um padre mais liberal na paróquia, um vizinho "diferente". Tudo está mais exposto à apreciação dos outros, até de desconhecidos, nas redes sociais. As novas gerações são apresentadas aos gritos de guerra de um e outro lados e acabam por escolher, ainda que por vezes não assumam suas crenças diante dos mais velhos.
 


No entanto, muitos senhores e senhoras que passaram fome no pós-guerra, que temeram as ditaduras, que não se entendem com computadores, são justamente aqueles que não conseguem absorver a rapidez das mudanças do mundo, que não conhecem ou têm dificuldade em conceber outras culturas e, por isso, sentem muito medo do desconhecido.




http://en.europenews.dk/


Não se forçam aos mais velhos as mudanças goela abaixo, especialmente quando desafiam paradigmas que foram absorvidos na infância e com os quais balizaram suas existências. 


Para eles, é difícil aceitar a "nova ordem mundial";  insistem em manter intocável a zona de conforto - que pode não ter sido nada confortável no início, exigindo-lhes que decepassem algumas arestas para que coubessem na caixinha que a sociedade lhes reservara  -   e, pior ainda, ensinam e exigem que sua prole respeite e viva dentro destes mesmos valores obsoletos e cruéis.





https://ateuedai.com/2014/04/  e  http://paroutudo.com/



O resultado é esse que se vê correr o mundo e se exprime na recusa em receber os refugiados, no Brexit, na vitória de Trump... Não vai parar por aí. Através do voto, os que se sentiram atropelados pelas mudanças sociais que dão luz e ar aos que viviam na sombra, manifestam sua ignorância e medo silenciosa e diligentemente. 


Eles são muitos e estão se fazendo ouvir. Não saem às ruas com placas e gritando palavras de ordem; apertam um botão ou escrevem um "X", em uma atitude de repulsa poderosa e definitiva.




http://www.defenddemocracy.press/


O que fazer agora? Esperar que o fogo se alastre e queime tudo até que o combustível se extingua? Observar enquanto as contendas parcialmente localizadas no mundo dominam até os povos aparentemente mais pacatos?
 

Urge que ensinemos com paciência e respeito a mesma paciência e respeito que esperamos dos que não conseguem assimilar o "novo" - mais justo e mais humano. Precisamos contar aos mais velhos que "os outros humanos", especialmente aqueles que conseguiram recentemente um "lugar ao sol", não são necessariamente ruins, não vão lhes roubar os direitos arduamente conseguidos, nem extirpar-lhes a paz. Precisamos dar tempo aos renitentes para assimilar tudo isso, enquanto garantimos a segurança, a liberdade e o bem-estar dos dois lados.

 

http://www.mundodastribos.com/



É difícil - dificílimo! - mas não é impossível. Não acalento a ilusão de que seja um processo com total chance de êxito, mas também sei da História que discursos de ódio florescem em ramas de mentira plantadas em solo fertilizado com medo. Precisamos dissipar este temor o quanto antes, a não ser que queiramos ver o mundo em chamas novamente e em um futuro muito próximo.
 





quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Gratidão





Nunca desvendei você.

Quando eu nasci, você, sem dinheiro, pintou móveis usados e trocou os puxadores das gavetas, só para fazer combinar de branco e rosa o meu quarto de nenê. Em 1975, você era um marceneiro!

Quando eu era pequenina, você me enganava sempre. Uma hora, o coelhinho estava fora da cartola, de um lado; no instante seguinte, sabe-se lá como, já havia pulado para o outro lado e se aninhava no chapéu, simplesmente com o bater dos pauzinhos! Em 1978, você era um mágico!

http://salaodasmagicas.blogspot.pt/

Aos 6, você me deu uma bicicleta. Era verde-militar e cintilante. Você colocou as rodinhas de apoio, para ajudar meu equilíbrio, mas não retirou meu pé da catraca, quando o prendi. Frente às minhas lágrimas, impassível, você ordenou que eu me acalmasse; que lembrasse a sequência de movimentos que culminaram naquela situação dolorosa; que os revertesse. Eu obedeci e me libertei, sozinha.  Em 1981, você era um líder! 

Afagando meu cabelos castanhos e grossos – exatamente como os seus –  ensinou-me: "Não há situação desesperadora demais. Sempre mantenha a calma para conseguir enxergar a saída."  Foi assim que você conseguiu escapar do incêndio do Joelma, ou de quase morrer afogado, quando menino, na Ilha do Governador, ou ainda, de ser preso na ditadura. Era raro você contar histórias sérias - você sempre foi contador de piadas!  - mas quando o fazia, nos mantinha surpresos, olhos arregalados, respiração suspensa. Mesmo que fosse a quinta vez... mesmo que fosse a vigésima vez!

Durante meus anos de escola, você nunca permitiu que eu entregasse um trabalho mal feito. Ensinou-me que a apresentação era importante, quando fez-me transformar a cartolina verde-bandeira em uma pasta – naquela época, fazíamos as coisas muito mais que as comprávamos, pois o dinheiro era sempre escasso – e adorná-la com uma fita verde e amarela. Dentro, havia o discurso de 7 de setembro que eu leria em voz alta, o qual você ensaiou comigo. Em 1982, você era um diretor de cena!


http://salaodasmagicas.blogspot.pt/
Você era artista plástico, quando em 1986, transformou comigo um punhado de palitos de churrasco e bolinhas de isopor, coloridas por tinta de carimbo de escritório, em um grande cristal de NaCl e outro de diamante, para a Feira de Ciências; 

ou quando em 1987 ajudou-me a ilustrar o livro que eu havia escrito para o trabalho de Português, ensinando-me a fazer garatujas engraçadas que lembravam animais; 

ou em 1988, quando nos ajudou a improvisar um cenário para a peça de teatro que eu havia escrito para a escola, desenhando uma plantação de cana-de-açúcar em papel kraft.

Talvez eu nunca conhecesse seu lado ilustrador, se eu não escrevesse. Mas eu só escrevo, porque em 1981, você me deixou em frente à máquina de escrever, no seu escritório. Eu escrevi minha primeira história, cuja trama você ajudou a resolver. Alguns anos mais tarde, lendo minha redação, uma lição de casa, julgou-a curta. Ensinou-me que as palavras não poderiam ser poupadas, de modo que o tecido da trama ficasse robusto, conduzisse e suportasse bem o leitor. E em 1985, você era editor!

As palavras? Você ensinou-nos onde buscá-las. Raras foram as vezes em que, ao almoço, surgindo a dúvida, você não nos fizesse ausentar à mesa para correr ao dicionário enorme e pesado e ler, em voz alta, a definição, as origens e a formação do vocábulo. Você era professor de português!

Durante muitos anos, você foi muitas outras coisas: o astrônomo aficcionado pelo universo; o matemático deslumbrado que adorava malabarizar números, surpreendendo os interlocutores; o niilista que gracejava com sutil sarcasmo;  o exímio jogador de snooker; o corretor de imóveis imbatível. Você foi o músico dos festivais de 1970, o radialista, o compositor que reclamava quando eu aleijava um compasso anacrústico, mas que sempre me incentivava a cantar.

O seu coração, grande para acolher crianças e pessoas necessitadas sem nunca contar a ninguém, foi preguiçoso, insubordinado e rebelde. Quis fugir ao seu mister três vezes e, ao ver-se forçado pela medicina a continuar, fê-lo de má vontade, comprometendo toda a engrenagem.

Hoje, em 2016, eu não sei o que você é. A ciência, que você sempre preconizou, não desvendou ainda o que ocorre quando os batimentos cardíacos cessam e o metabolismo cerebral finda. O que eu sei é que sinto enorme gratidão por você ter desempenhado todos estes papeis na minha vida, ao longo de quase 42 anos. Muito obrigada!

Amo você, pai. Descanse em paz.




sábado, 11 de julho de 2015

Ser vegetariano ou não: eis a questão?



Uma "palavrinha" sobre escolhas de alimentação.

Não, não sou vegetariana ainda. Mas sim, já faz muito tempo que venho abolindo coisas - itens isolados, um a um - da minha dieta. Conforme percebo que consigo, que não fazem falta, vou me sentindo mais forte e segura das minhas convicções. O que eu percebi é que há um momento certo para tudo, basta querer e ter um motivo forte, ético, para que a decisão se mantenha e ganhe robustez no cotidiano. 

Cortei o leite há muitos anos, o açúcar das bebidas há décadas, já não lembro quando decidi que certos bichos eu nem experimentaria, ou não comeria mais (tipo coelho, cordeiro, chester)... Há um ano eu decidi que não comeria mais vitela. Motivo: é um nenê. Não vejo necessidade de me alimentar de um nenê. Sim, eu sei que quem gosta tem várias razões para "saborear" um bife de vitela, mas eu não vi mais lógica nisso PARA MIM.

E é por isso que estou escrevendo este post. Tenha paciência e chegue ao final do texto. E, se sentir que faz sentido, junte-se a mim!

Há uma contenda forte no mundo dos vegetarianos versus carnívoros. E há falta de educação e de respeito prementes. Militantes vegetarianos e veganos adoram acusar os carnívoros de "assassinos" e "maldosos". E, em retaliação, carnívoros enxovalham vegetarianos com piadinhas preconceituosas e comentários depreciativos, especialmente no que concerne à inteligência de seus opositores.

Eu mesma tentei participar de um grupo vegano no Facebook, para ver se conseguia receitas e dicas de alimentação. Não consegui. A minha paciência acabou em um post onde os membros da comunidade se vangloriavam de terem feito um protesto, utilizando a imagem de um filhotinho de porco morto em um hambúrguer, na página de uma churrascaria conhecida. Fiquei com vergonha de estar aliada aquilo, desliguei-me da página. Sou contra a qualquer forma de terrorismo: um erro não se conserta com outro.

Nas últimas semanas, me abstive de carnes vermelhas e de aves. Achei que não conseguiria, por vários motivos, mas, especialmente, por estar tão acostumada. Mas o meu sentimento sobre os processos pelos quais porcos, vacas e frangos passam para que a carne deles esteja no meu prato vai cada vez mais contra meus princípios espirituais. Não, eu não assumi nenhuma religião, somente continuo sendo a mesma pessoa espiritualizada e tentando desviar de dogmas o tempo todo. Porém, minha ideia de indivíduo participante de um sistema chamado Terra tem se modificado, a ponto de agora minha alimentação e meus hábitos de vida estarem em conflito com o que eu acredito ser o ideal. Urge modificar algumas coisas...

Fiz uma oração para o Guy Upstairs e pedi ajuda para conseguir meu intento. Mas não foi preciso ajuda, nem houve sofrimento. Naturalmente, me vi pedindo os alimentos que acredito estarem mais "de acordo" com as minhas convicções. Não senti fome. Nem falta. Nem regozijo. Não me senti especial, nem diferente das outras pessoas. Nada.

O que eu senti foi que estava agindo de acordo com o meu senso de responsabilidade em relação a mim mesma (uma nutrição menos cheia de hormônios não naturais, de químicas, de gorduras) e ao planeta, com todos os seres vivos que eu considero exatamente iguais a mim. Não acredito em criacionismo e acho que somos somente mais uma espécie ocupando momentaneamente um nicho, para sermos extintos quando a pressão ambiental for maior do que nossa capacidade de adaptação, como aconteceu com tantas outras espécies e o registro geológico atesta tão bem!

Contudo, algo precisa ser dito. É esta a intenção desta postagem.

Em todas as refeições, estive acompanhada. Outras pessoas pediram carne e nem por isso me senti ofendida. Aliás, uma pessoa quis se desculpar, ao que eu redargui que não era preciso, pois ela estava em seu perfeito direito de comer o que lhe apetecesse. Eu nunca gostei quando meus amigos vegetarianos e veganos me admoestavam por comer carne. Por que eu passaria a fazer isso agora? A escolha é MINHA, o corpo é meu, o paladar é meu. Eu não tenho nada a ver com o que meu vizinho come (até certo ponto, claro, mas não estamos falando de situações extremas).

É claro que eu gostaria que as pessoas entendessem o quanto é maldoso e cruel o processo ao qual os animais são submetidos para que sua carne chegue até nós. É claro que eu adoraria convencer o mundo sobre a inteligência dos porcos e vacas, sobre a dor que sentem, sobre a consciência animal que a ciência vem atestando. Mas não é essa a minha função. Ademais, tenho certeza de que meu telhado é de vidro, pelo menos em algum ponto. E, sinceramente, não é da minha conta o que o outro faz, nem tenho predisposição para integrar as hordas da "patrulha alimentícia".

Além disso, a fome impera no mundo. Neste exato momento, milhares de pessoas sucumbem à desnutrição. Nao faz sentido, pra mim, bradar com todos, de maneira violenta, sobre escolhas de alimentação, quando milhões de pessoas não tem essa escolha, nem escolha NENHUMA. Como indivíduo do Sistema Terra, o que acontece do outro lado do planeta também é da minha conta. E antes de dizer a uma criança esfomeada que ela deve se nutrir de alface (atenção: sarcasm mode on!) eu prefiro que ela coma um bife de fígado e não morra.

Mas, espere, vc está sentindo alguma contradição no que eu disse? Como eu posso me importar com o Sistema Terra, mas dizer que não me interessa o que meu vizinho come? Como posso não bradar contra as injustiças que são cometidas diariamente com os animais?

Deixe-me explicar e, com isso, finalizar este post: eu me preocupo, sim. Mas não acredito que um discurso violento e cheio de ameaças funcione. Eu prefiro agir cada vez que todos estão pedindo seus pratos em um restaurante e eu estou demorando a me decidir porque estou perscrutando um menu em busca de opções. Perguntam-me se sou vegetariana, muitas vezes com ar de reprovação. E eu digo que não, sorrio, feliz....

E explico que gostaria de ser e estou trabalhando para isso; que fui subtraindo da minha dieta os itens que julgava que podia abandonar e que tenho feito progressos; que muito me assusta os hormônios e químicas presentes nos alimentos; que tenho visto documentários sobre a inteligência e a consciência destes animais (a ponto de pensar em ter um porquinho de estimação, se eu ainda acreditasse em animais de estimação - e isso fica pra outro post, sorry!) e que tenho me sentido muito melhor assim.

Então a pessoa me pergunta: mas vc se importa se outros comem carne na sua frente?

E eu digo que não; que eu gostaria que um dia todos nós achássemos alternativas melhores para a nossa nutrição... e que, no estágio em que o mundo está, ainda me preocupam mais outras questões.

Com esta abordagem, esta calma, paciência e noção perfeitamente clara de que isto não me faz melhor nem diferente de ninguém, tenho convencido muitas pessoas a diminuir a ingestão de carne e a adotar alternativas mais saudáveis e sustentáveis. Através do exemplo, sempre feliz, compreensivo e amoroso.

Alguns podem dizer que sou covarde, que deveria ser mais incisiva se acredito tanto nisso, lutando de verdade pelos direitos dos animais. Da minha parte, acho que as verdadeiras mudanças levam tempo. Pessoas que tomam decisões precipitadas, coagidas por discursos ferozes, voltam atrás. As pessoas que convenci nestas semanas estão felizes e seguras das suas opções. Desculpem-me os militantes ativos, mas a minha militância é paciente e amorosa.

Porque, afinal de contas, o amor é realmente a única resposta para tudo neste mundo (e, se houver outros, naqueles também). ;-)

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10Então, Jesus conclamou a multidão a aproximar-se e pregou: “Ouvi e entendei! 11Não é o que entra pela boca o que torna uma pessoa impura, mas o que sai da boca, isto sim, corrompe a pessoa”.


(http://bibliaportugues.com/kja/matthew/15.htm)

terça-feira, 10 de março de 2015

"Elogio maldoso"


Conforme eu vou ficando mais velha, mais vou tentando ignorar as pessoas sem bom senso, cujas atitudes me deixam muito intrigada.

Realmente não consigo entender. Se vc não gosta de algo, ou de uma pessoa, para que prejudicar? Por que simplesmente não vira as costas e vai embora?

Ah, não dá? Então escreve, canta, pinta, desenha, vai para academia... faz alguma coisa pra expurgar o sentimento e aguenta!

Realmente, muitas vezes a vida nos coloca com pessoas das quais até a respiração não conseguimos suportar. Eu gosto de pensar que é uma oportunidade de aprendizado. Gosto de me analisar para tentar entender o que não me agrada naquela pessoa (ou situação) e passo a observar se não faço o mesmo com os outros.

Mas tem gente que não, né? Tem gente que gosta de prejudicar, mesmo.

A pior coisa que existe para mim é o "elogio maldoso". É aquele que o Fulano fala sobre o Beltrano em tom de elogio (ou de pena, às vezes, como se existisse a intenção sincera de ajudar), mas para outros, pelas costas do Fulano e  com a maldade e a crítica, ou, pior ainda, a MENTIRA, nas entrelinhas.

Como é dito em tom amistoso, quem escuta Fulano absorve a maldade / mentira  sobre Beltrano sem perceber. E Fulano causa a impressão de ser "bonzinho", porque nunca (ou quase nunca) consegue ser pego, já que "nossa, Fulano gosta tanto de Beltrano, né?!"

Felizmente, dificilmente eu não gosto de alguém. É bem raro mesmo, mas também, sou muito antissocial e não convivo com tanta gente assim.

Mas atenção, Fulanos do mundo: nós enxergamos vcs. Não falamos nada, porque não vale a pena, porque não queremos embate com a alma empedernida que vcs têm. E, discretamente, estendemos a mão aos Beltranos. Não contra vcs, Fulanos, porque, cá entre nós, essa fantasia pueril egocêntrica que vcs têm não procede. Vcs não são importantes para nós, os "outros".  É que realmente temos coisas mais importantes para fazer, sabe?

Como... por exemplo... viver as nossas vidas, sem nos preocuparmos com vcs, Fulanos, nem com quem vcs querem prejudicar, os Beltranos.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

No samba



- Ok.

Em um ou dois segundos, Madalena rapidamente avaliou a situação. Pôs a mão na testa e pensou que a vida estava ficando cada vez mais difícil conforme ia envelhecendo. Logo depois, disse a si mesma “ora, deixe de drama!”, suspirou profundamente e repetiu:

-Ok.

Renato, que até o momento havia se concentrado em montar expressões de solicitude e pena compreensiva com as sobrancelhas grossas, aprumou-se. Não esperava que a moça tão falante e desenvolta pudesse arremedar sua posição com um anglicismo monossilábico e expressar, desse modo, tanto desprendimento.

- Como assim, ok?

- Ok, Renato.  – Madalena não esboçou sentimento ou intenção enquanto alcançava o copo de chopp e tomava um gole. 

- Você não está brava comigo? – ele levantou uma sobrancelha, intrigado.

- Não, por que haveria de estar? É seu direito, Renato. Você não quer mais sair comigo. Tudo bem. – ela sorria enquanto pegava o guardanapo para enxugar o canto da boca.

- Ah, que alívio, Ma! – disse ele, tocando a coxa da moça, mas retirando a mão logo em seguida. Não seria prudente exprimir tanta intimidade neste momento. -  Então podemos ser amigos!

- Sim, claro, Renato.

- Isso é ótimo, porque você sabe que gosto muito de você e da sua companhia. – Renato escolhia as palavras cuidadosamente.

Era pós-graduado em escândalos de mulheres rejeitadas. Sabia que o silêncio podia ser o preâmbulo de infinitas sessões chorosas, ligações telefônicas no meio da madrugada que indubitavelmente terminariam em acusações dramáticas.

- Eu também gosto da sua. –  Ela tocou a mão dele, a que repousava em cima da mesa e a pressionou levemente, enquanto dardejava os olhos de Renato com  fugaz doçura. Os olhos verdes dela brilhavam. Tudo não passou de 2 segundos, mas Renato sentiu a boca do estômago apertar.

Madalena esticou o braço, pegou um palito e foi com ele de encontro a alguma das guloseimas que se espalhavam pela tábua de frios que haviam pedido. “Ela está fingindo”, pensou Renato, “está simulando calma, mas eu a conheço. Ela vai explodir a qualquer momento”.

Renato sabia que seria uma questão de tempo para que Madalena, linda morena de cabelos ondulados  compridos e corpo caloroso e farto na medida certa, perdesse a compostura. Já havia presenciado algumas cenas, nestes muitos meses em que se relacionavam, quando a sambista da risada deliciosamente escancarada, “descera do salto”, como se diz no popular e pisara o ofensor descalça mesmo. “Melhor levá-la embora logo, antes que ela comece uma cena”. Estava preparando a língua e tomando fôlego para pronunciar melhor as palavras, quando Madalena disse:

- Que bom que você falou antes, Renato. – ela tomou outro gole de chopp e sorriu.

Ele esperaria pelo resto do discurso dela, se a boca estivesse em outra posição. E por isso, tão inesperada quanto a frase dela, foi a língua dele soltando, como um elástico de estilingue:

- Que?

Madalena suspirou e sorriu docemente:

- É... a gente não ia mesmo dar certo.

- O que você quer dizer? – Renato estava intrigado.

- Ah, Re... são tantas coisas... não vale a pena perder tempo com isso agora. Que bom que seremos amigos, não é?

O samba corria animado no bar e Madalena passou a cantar junto. Renato, contudo, ficou em silêncio. Coçou a cabeça, tentando entender. Paulatinamente, uma ideia meio desengonçada veio surgindo, incomodando os brios do moço e cutucando sua masculinidade. E quando a ideia tomou forma e pôde ser vista em toda a sua amplitude, ele estufou o peito.

Como assim? Ela não estava contente com ele? Mas ele não havia feito tudo o que podia para que o relacionamento fosse perfeito? Não havia sido o amante mais ardente, o companheiro mais divertido, o amigo mais disponível, o namorado mais afetuoso? (Se bem que, verdade seja dita, nunca haviam firmado um compromisso de “namoro”.) “Mesmo assim, que absurdo, eu tenho certeza de que fui um excelente... ”.

Quis verificar nos olhos dela alguma coisa que ele não sabia bem o que era – uma confirmação? Mas deu de cara com os cachos da morena, já que ela tinha o rosto voltado para o grupo de músicos, do lado oposto ao dele. Renato seguiu a direção do rosto dela e percebeu que o homem do cavaquinho também olhava para eles e sorria. “Não é possível, nem bem terminamos nosso namoro e ela já está paquerando outro?”

- Para, Madalena.
- Ahn?
- Para mas é já com esse descaramento!

A morena olhou languidamente para aquele homem sentado ao lado dela e o mesmo pensamento, aquele que cruzara sua cabeça tantas vezes desde o primeiro momento em que se viram, vagueou por entre as curvas do cérebro: Como ele é lindo!

Sentiu uma pontada de dor no peito. Que pena que ele nunca havia pensado em namorar. Ela adorava cada momento com Renato; sabia que um encontro com ele valeria sempre mais do que todas as flores do planeta e todas as ondas do mar, porque só ele conseguia trazê-la para um mundo de primaveras e fazê-la docemente feliz. Era uma alegria praticamente tangível, à qual se agarrava cada vez que saía do carro dele, quando ele a deixava em casa e dizia: “te ligo”. Madalena sempre escondia os olhos para não deixá-lo ver o medo que tinha de que ele nunca mais ligasse.

Não namoravam. Ele não tocava no assunto; tampouco ela, mas por orgulho. E mastigava a alegria que absorvia do samba, quando dançava; a mesma que foi se amalgamando à alegria que Renato trazia, até que ambas fossem uma só entidade. Agora a morena tinha um grande dilema à frente: Renato virara samba. Como bailar pela vida sem ele?

- Não to fazendo nada, Renato.
- Tá paquerando o do cavaquinho, eu to vendo!
- E daí?
- Como assim, e daí? Você está comigo!

Ela não conseguiu deixar de sorrir,  mostrando uma fileira de dentes alvos e brilhantes.

- Não to não.
- Como não está? – disse o rapaz,  elevando o tom de voz, bem no final da música.
- Você acabou de dizer que somos amigos, Renato.
- Não senhora, foi você quem disse isso.

Havia uma aspereza ameaçando a garganta de Madalena agora, mas os sambistas já iniciavam outra música e ela se levantou, de repente -  “Você... abusooooou....”

- Vou dançar, Renato. Você está um amigo muito chato hoje. – e fazendo coro com o resto do público do bar – tirou partido de mim, abusoooooou...

Renato foi mais rápido e pegou a mão dela que sobrava mais próxima dele:

- Espera. Você não pode me largar assim.

Ele mesmo se assustou com as próprias palavras. É claro que pretendia dizer  “aqui, sentado à mesa do bar, com este monte de frios esperando para serem comidos e a cerveja esquentando rápido, é verão, poxa, que droga!” Mas subitamente percebeu que havia dito muito mais do que isso. Havia, inopinadamente, deixado entrever todo o medo que sentia desde que ela aceitara sair com ele pela primeira vez. O medo da rejeição. Do fracasso e da perda. O medo de que outro homem, mais forte, mais viril, mais inteligente, mais rico, mais bonito – qualquer um – a tomasse dele para sempre.

Ele nunca havia falado em namoro e sempre se esquivava quando a cabeça insistia em perguntar as razões pelas quais fugia do compromisso. Que a vida fazia sentido com ela, com sua risada melodiosa, com o movimento sinuoso dos cachos dela no travesseiro ao lado dele, quando o dia ainda estava por nascer e um beijo azul alumiava o quarto, ah, isso ele nunca negou a si, ainda que não o dissesse a mais ninguem.

Evitava falar sobre ela. Quando perguntavam, era breve e evasivo. E para si, sempre que procurava motivos para não tomá-la definitivamente como parte de sua vida, inventava uma desculpa qualquer, que distante passava da realidade. A verdade obesa, enorme e pesada, era uma só: ele não podia suportar não tê-la ao seu lado. Enquanto ela não fosse oficialmente "dele", nenhum homem poderia  oficialmente roubá-la!

Os olhos verdes de Madalena cintilavam e a rouquidão soava muito aparente quando ela decidiu, impaciente:

- Eu vou sambar! – puxou a mão que ele segurava, mas ele não a soltou.

Ao invés disso, Renato levantou-se, como se içado pelos olhos da morena. Ouviu o partido alto batucando no coração e tomou consciência daquilo que sempre soubera instintivamente mas nunca deixara emergir: “não quero que minha vida seja um samba de uma nota só”.

- Samba comigo, Madalena.

Ela arregalou os olhos, achando estranho o convite dele,  depois achou graça e riu levemente:

– Tá bom. Vamos. – e graciosamente puxou o moço consigo em direção à roda de samba, mas ele ainda segurava sua mão e não se mexeu. Ela se voltou para ele – Que foi?

 - Espera.

Renato puxou uma onça da carteira e jogou na mesa. Tomando as mãos da moça novamente, começou a puxá-la para o lado oposto ao da roda, em direção à saída do bar.

- Onde você está indo? O samba é ali!
- Eu sei.
- Mas você disse que queria sambar comigo!
- E quero.

Madalena estancou e puxou a mão de Renato:

- Para, Renato. O que está acontecendo?

Ele sorriu, chegou pertinho, pôs as duas mãos no rosto da morena que marcava o compasso dos seus dias e – sem tomar fôlego, para não perder a coragem -  pediu:

- Samba comigo, Madalena? Pelo resto da vida?

O homem do cavaquinho – amigo da moça há muitos anos, mas isso Renato ignorava – puxou o próximo samba e o bar inteiro cantou sobre a prova de amor do Zeca. Enquanto isso, a prova de amor que se via entre Madalena e Renato era o pedido inesperado de parceria para compor o samba da vida, que ela aceitou com um beijo e uma brilhante lágrima.


quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Um caminho



Ficou um caminho por descobrir. Anos haviam se passado desde sua última tentativa. Ela ainda se lembrava do cheiro de terra molhada de chuva por debaixo do tapete de folhas que quiseram voar durante o vento forte, não tiveram coragem e caíram. Como ela, descansando na solidão dos caminhos pavimentados, com finais óbvios.

Na última vez, o temor vencera. Aquela senda era fascinante, mas pouco iluminada: um dossel de copas de árvores vedava parcialmente a entrada do sol. Muitos que lá haviam estado contaram-lhe de fadas. Ela queria muito seguir em frente e descobrir que aventuras a jornada descortinaria, porém receios e dúvidas entremeavam-lhe os passos e fisgavam seus joelhos. Sentiu frio. Titubeou e imaginou-se ameaçada por monstros.

Quase entregue, olhou para baixo e viu seus sapatinhos opacos e sujos dos passos incertos no chão úmido. Não aspirou o inebriante aroma das flores; envergonhou-se de seu desleixo. Não se alegrou com o canto das aves;  lamentou o cabelo desfeito. Por fim, angustiou-se tanto com sua figura descomposta, que não pôde mais. Esqueceu-se do que a trouxera ali e voltou correndo os poucos metros que havia percorrido. Parou na clareira, no terreno seguro e conhecido. E nunca mais lá voltou.

Desde então, havia sempre este anseio insatisfeito a pulsar-lhe no âmago. Percorreu outros caminhos, descobriu mundos novos, apossou-se de sentimentos que ensinaram-lhe ser apropriados. O penteado não mais se desfez, tampouco os sapatos se sujaram. É verdade que, com os anos, cortou os cabelos e calçou saltos altos; deixou a saia colorida em favor de calças pretas e trancou o sorriso. Convenceram-na de que era assim que devia ser e ela o fez.

E agora, isto. Um chamado de volta ao caminho esquecido, um sms, um convite dele para jantar. O medo acercou-se novamente. Ela queria achar uma evasiva, mas não conseguia! O tempo escoou.  Sentiu cheiro de terra molhada, olhou para baixo e viu seus sapatinhos de outrora.  Havia tantos anos! Talvez o caminho não fosse tão temível... Percebeu os cabelos crescendo em tranças. Somente um jantar, não é? Haveria mesmo fadas?

Uma joaninha dourada pousou em seu ombro,  reluzindo como ágata de fogo e cegando o temor, que atordoou-se. Vendo-se solto, o desejo transbordou e ela aceitou o convite. Enfim, embriagada pelo perfume das flores, deixou cair o celular no chão coberto de folhas. Não percebeu. Enveredava novamente pelo caminho esquecido, entretida por uma ave que cantava ao longe.


quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

A verdade


A verdade serve para muito pouco, na verdade. “Serve para a gente ter razão, mas também pode machucar”, pensou Guilherme, quando descobriu aquele surpreendente fato sobre o pai e temeu por Carolina.

Nunca poderia imaginar que seu  progenitor fosse capaz de manter algo tão bem escondido, que nem a mãe parecia saber. E disso ele tinha certeza, porque ela era péssima em guardar segredos – o pai vivia brigando com ela por contar-lhes as surpresas sem querer!

 Como era possível? Se ele estava sempre em família, participava dos jantares, das viagens, das idas ao clube aos finais de semana, como achava tempo para manter duas vidas paralelas sem que ninguém desconfiasse? Decerto haveria de ter pessoas que trabalhavam para ele e o ajudavam nesse mister. Ah, ele bem lembrava que, mesmo durante as férias o pai atendia ligações importantes e urgentes!

Então... era isso mesmo! Não era ele, sozinho, mas uma rede complexa e intrincada de pessoas sob o seu comando. Sentiu-se confuso, mas orgulhoso porque o pai era importante. Porém, rapidamente encheu-se de dúvida: e Carolina? Deveria contar-lhe e destruir a imagem do pai sério, sisudo e até por vezes chato? O que ela faria quando soubesse sua verdadeira identidade? E se ela se decepcionasse e sofresse?

Guilherme era o irmão mais velho, o responsável, seu super-herói! Não podia destruir a infância de Carolina! Guardaria este segredo o quanto fosse possível, até quando ela descobrisse por seus próprios meios. Então ofereceria colo, amparo e guarida, se ela precisasse do seu ombro filial.

“Algumas crianças são fortes e aguentam saber a verdade”, ponderou. Mas outras, como Carolina, seriam bem capazes de morrer de ciúme, se descobrissem que o verdadeiro trabalho do pai era gerir uma rede de entregas de presentes para as crianças do mundo, sob o codinome de Papai Noel.