quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Primavera

(x / 1993)

Aos primeiros gorjeios do sol
acordei;
do sonho tranquilo que vinha
só a tua falta remanesceu;
invasiva, domou meus anseios
de vida corriqueira.
Suspirei.

O céu tão azul de minh'álma
nublou;
nem mesmo as rosas do meu jardim
tiveram ânimo de colorir;
cerrados, meus olhos divisavam
a tua aura.
Chorei.

De repente, o canto das árvores
emudeceu;
lá fora, o cânone de trovões soou
em mau humor uníssono
e a primavera, fugindo da chuva
invadiu meu quarto.
Era você.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Um conto de Amor.

A menina andava sem rumo pela rua enquanto os pensamentos corriam lépidos quais formiguinhas virtuais, carregando o precioso fardo da consciência: o Arrependimento. Todo o ambiente legava um tanto de Amargura, frente às convicções que se aprumavam, soldadinhos em vistoria, enquanto a Memória passava em revista tudo o que lhes acontecera. Ela nunca mais esqueceria os ontens e anteontens culminando em Tristeza.

"Sem remédio e sem juízo!" - a menina ouviu a Memória sentenciando o Futuro e o Comportamento. Assim fazendo, trouxe de volta o Presente, sempre insidioso, sempre tão traiçoeiro, a armar ciladas e jogando, depois, a culpa no Passado. Pois é assim que é! O Futuro inventa, o Presente apronta e o Passado carrega a culpa... Todos os três irmãos a malabarizar dentro de nós.

Lembrou-se perfeitamente do dia em que, ensolarada, resolvera caminhar sozinha pelas mesmas alamedas daquele bairro, um tanto longe de sua casa. Enfiou-se em um vestido de seda curtinho e leve, que deixava transparecer o verão dentro de si, calçou sandálias e saiu. Pelo caminho foi observando o dossel de folhas que se estendia sobre sua cabeça avoada e o tapete de flores amarelas e roxas na calçada. O céu azul, amigo dos raios de sol, penetrava por entre as copas das árvores e a fazia sentir-se suspensa nas asas da Felicidade.

Da outra ponta da rua, vinha o menino, absorto na Imaginação, caminhando na mesma calçada. Jovem e feliz, dentro da camiseta e da calça jeans, parecia estar tão solto quanto preso havia ficado, no exato momento em que o notara, o coração da menina, encarregado pela Ansiedade de pular e bater desesperadamente, tentando sofregar a respiração dela.

A Criatividade fez com que a Menina parasse bem no meio do caminho dele, olhando para o chão, como se procurasse algo. Era verdade que precisava da Coragem, mas esta não anda rastejando, ora essa! Sorte da Menina que a Coragem ainda pairava no ar, bem pertinho, tão perto a ponto de ouvir a Criatividade a clamar, desesperada, sua ajuda. A Coragem assomou ao estômago da Menina bem na hora em que o Menino chegou:

-Oi, ta procurando alguma coisa?

-É... meu brinco... perdi... – a Coragem e a Criatividade, lépidas, empurraram a Alegria para a boca da Menina, que sorriu, enquanto a Vergonha lhe corava as bochechas por simples e espontânea vontade.

-Qual brinco? Ahn... Você está com os dois... – a Percepção tentava desesperadamente chegar à cabeça do Menino, mas encontrou o caminho bloqueado pelos Hormônios alucinados e baderneiros, que não quiseram lhe dar passagem. Tentou o caminho pelo nervo óptico, mas o Deslumbramento já havia ocupado o lugar. Resignada, ficou esperando por uma oportunidade, parada no céu da boca dele, enquanto Menino e Menina se olhavam como se fossem velhos amigos.

- Ah, eu achei que tinha perdido! Que susto! – a Ansiedade pulava no coração dela, fazendo com que ele balançasse no peito, tão forte, tão forte, que até o estômago fechou a boca para não deixá-lo entrar.

O Instinto de Preservação do Menino, percebendo a situação constrangedora que emergiria em segundos, resolveu a questão: correu ao sistema nervoso simpático e convenceu a Iniciativa a empurrar as palavras para fora da boca do Menino. Perdendo o Equilíbrio, saíram todas desajeitadas e fora de ordem, reclamando muito e quase gritando:

-Tá calor, né? Você mora por aqui? Vamos tomar um sorvete?

A Coragem, lépida, correu para a língua da menina e, junto com a Segurança, fê-la dizer:

-Legal!

A esse sorvete seguiram-se muitos outros. Criatividade e Coragem se ufanavam de terem conseguido juntar o Menino e a Menina, o casal perfeito. A Convivência se encarregou de empurrar a Paixão, sempre serelepe, para um cantinho qualquer do coração e convidou o Amor para tomar conta do local e o Respeito, para habitar as cabeças dos dois. Por conta disso, O Menino e a Menina começaram a namorar. Ela carregava a Alegria e a Doçura nos olhos, no sorriso e no jeitinho faceiro. Ele trazia a Responsabilidade nas atitudes, o Carinho nas palavras e a Proteção nos gestos cuidadosos.

Menino e Menina viveriam felizes para sempre, se não fosse uma rixa antiga entra a Coragem e a Insegurança. Acontece que ambas vêm brigando desde os primórdios da Humanidade, uma constantemente impedindo a outra de se contentar no controle das atitudes dos Homens. E foi assim que um dia, vendo a Coragem tagarelar com a Auto-Estima e a Felicidade, animadamente, sobre como havia unido forças com a Criatividade, para juntar o Menino e a Menina, resolveu a rival aproveitar o ensejo para se vingar.

“Contendas antigas requerem revanches apropriadas”, pensou a Insegurança. Correu, então, a se mancomunar com a Indiferença e o Ciúme, certa de que seriam aliados competentíssimos para a empreitada. E eles realmente o eram! Confabularam por algum tempo, deliberaram, votaram e escreveram. Definiram os papéis de cada um. E partiram para o ataque.

A Indiferença assomou ao coração do Menino. Fez com que a Gentileza ficasse estacionada na faringe, sem conseguir atingir a língua. Bem que o diafragma tentou, algumas vezes, expelir a Gentileza com força, mas ela subia até o palato mole e lá encontrava pendurada a Frieza, que a empurrava de volta para baixo. Enquanto isso, desempenhando seu papel no emboscada, o Ciúme, instalado confortavelmente no ouvido da Menina, apoiava os pés no estribo e fingia ora cavalgar, gritando sugestões malévolas, ora martelar na bigorna, fazendo-se presente e notado a toda hora.

Não foi preciso muito tempo para que a Distância conseguisse, finalmente, colocar entre ambos seu corpo molengo, obeso e denso. Menino e Menina, acossados pela Indiferença e pela Mágoa, que se juntara ao grupo por nunca entrar em acordo com a Felicidade, quase não se falavam. Algumas semanas depois, resolveram terminar o Compromisso que, amuado, saiu chorando, sendo consolado pelo Reconhecimento. O amigo batia carinhosamente no ombro do colega derrotado e cabisbaixo, dizendo: “Não fique assim, você bem que tentou, fez a sua parte!”

O menino retomou sua Vida de menino adolescente. Voltou a freqüentar as festas e a beber muito nelas para tentar calar a Saudade. A menina trancou-se em seu quarto, escrevendo poesias para dar vazão à Tristeza. Estavam reduzidos a menino e menina, sem paixão, felicidade, amor e coragem. E esta estória pararia por aqui, se não fosse a Incerteza.

Sim, a Incerteza, muito incerta de tudo, havia sido esquecida por todos, inclusive pela Indiferença, que bailava cinicamente na frente da Coragem e da Criatividade, quando deu a vingança por consumada. O Compromisso, vendo a cena, partiu para a briga com a Mágoa. O Ciúme ria desvairadamente até ser calado pela Frieza, que chamou a atenção para o tamanho do Amor, vindo na direção deles com cara de poucos amigos. No meio daquela confusão, a Incerteza vagava sem rumo e foi parar inadvertidamente no coração da menina, expulsando a Tristeza, que, não tendo para onde ir e receando o qüiproquó lá fora, correu a se esconder no coração do menino, certa de que lá ninguém a acharia.

O menino, como se acordasse de um sono profundo, estranhando o coração premido pela Tristeza, resolveu andar um pouco pela vizinhança, para espairecer. A menina, não sabendo ao certo o que fazer, saiu do quarto, deu voltas pela casa, abriu a porta da geladeira algumas vezes e ficou delineando a comida com os olhos, enquanto cérebro delineava o Vazio. Voltou para o quarto, olhou, olhou... Voltou para a sala. Notando que Tristeza se fôra e percebendo que o Arrependimento e a Amargura, irmãos siameses, brincavam de bate-bate nas paredes da cabeça, quis sair também.

Foi justamente neste ponto que começamos a nossa estória e é precisamente aqui que ela começa a se resolver, porque se não houvesse resolução eu mesma não a inventaria, temendo que a Fantasia viesse cobrar sua comissão por emprestar-me seu lápis furta-cor e seu papel multi-dimensional.

Enquanto a rusga corria solta entre Rancor, Mágoa, Indiferença, Paixão e Amor, menino e menina vagavam pela rua, sendo vigiados por um par de olhos meigos, de alguém que escapara sorrateiramente da confusão. Os dois, de tanto andar à procura da Solução, acabaram se encontrando. É claro que o Destino fez sua parte, por dever há muito um favor à dona dos olhos meigos. Quando a menina pensava tocar a Solução, eis que o Destino soprava mais forte, um sopro de Dúvida, fazendo com que as mãos da menina continuassem vazias. O menino, por sua vez, pulava, tentando abocanhar a Solução, mas o Destino içava a cordinha pela qual aquela vinha suspensa, como se fôra uma piñata. A Solução, cansada de correr para cá e para lá, pular e dar cambalhoras a mando do Destino, já estava completamente esbaforida quando menino e menina se perceberam na mesma calçada, no mesmo caminho, na mesma Vida.

Fez-se silêncio. Até os passarinhos pararam de cantar naquela tarde ensolarada. A Vergonha correu novamente para as bochechas da menina, como no primeiro dia. A Tristeza, que até então estava confortavelmente instalada no coração do menino, percebendo que algo no plano dera errado, fugiu espavorida. A Coragem e a Criatividade, ocupadas tentando neutralizar as múltiplas garras do Rancor, não entenderam quando a Insegurança gritou:

-Não, isso não pode acontecer!!

Mas era tarde demais. A Incerteza, sempre muito incerta do que fazer, rindo muito e achando o desenrolar dos fatos algo inusitado, havia cutucado a Memória, que, percebendo a deixa, abandonara a briga e correra para perto dos dois, auxiliada pela dona dos olhos meigos. O menino lembrou-se da Menina e de como ela trazia a Doçura nos olhos. A menina viu o Menino e desejou o Carinho que sempre abrigava nas mãos. Coragem e Criatividade, vendo a cena, largaram o Rancor, que caiu no chão e fugiu rastejando mais do que depressa e quiseram se aproximar, mas a dona dos olhos meigos foi decidida:

- Deixem isso comigo.

Menino e Menina agora estavam frente a frente e se olhavam, sem dizer nada.
A dona dos olhos meigos convocou a Felicidade a tomar a dianteira do Menino. Então, ele piscou um olho e a Menina sorriu-lhe, feliz. A Vida parecia, ali, naquele momento, um pedacinho de chocolate a derreter, devagarzinho, nas bocas dos dois. Ele se aproximou com as mãos nos bolsos, segurando o Nada, acariciando a Ansiedade. Ela passou a mão nos cabelos tencionando ajeitá-los. Não conseguiu: uma mecha insistia em permanecer sobre um dos olhos, tapando a vista. Dava-lhe, com isso, um ar tão maroto, tão feminino, tão familiar!

Tirando as mãos dos bolsos - deixava de lado a Ansiedade, indo de encontro à Iniciativa - ele domou a mecha rebelde dos cabelos dela. A Ansiedade, sentindo-se traída e desprezada pelo menino, correu às mãos que a garota, nervosa, retorcia, mas achou o lugar muito desconfortável. Alojou-se, enfim, nos olhos de ambos, bem na hora em que a menina abria um sorriso dourado. Beijaram-se. O dourado do sorriso se espalhou. Impregnou, invasivo, o dia, o sol e até mesmo a lágrima discreta que umedecia o olhar dele.

A dona dos olhos meigos esfregou a mãos, satisfeita, enquanto Paixão, Felicidade e Cumplicidade batiam palmas e congratulavam a amiga.

-Não falei para deixar comigo? Trabalho feito!! – disse, orgulhosa, a Reconciliação.

domingo, 28 de outubro de 2007

Decisão

(x / 1995)

Como se fossem minúsculas gotículas de veneno, a ansiedade porejava pela testa, maçãs do rosto, mãos e costas. Molhava a camisa, ensopava os pensamentos. Cada gota maior que escorria pelas têmporas gretava a pele dolorosamente, fazendo tremer os tímpanos. Ou seria o soluço da consciência à iminência da explosão?

Esticou a mão, pegou um pedaço de papel higiênico do rolo que deixava em cima da escrivaninha, por causa da rinite, da alergia e dos constantes sangramentos. Não tinha muita paciência com remédios, não os tomava. A mãe continuava a comprá-los e após muitas discussões ele decidiu que seria mais vantajoso evitar estes momentos críticos. Por isso, a cada manhã suprimia do potinho exatamente o número de pílulas que deveria tomar. Não as jogava fora, porém; guardava-as nos potinhos que esvaziara anteriormente, tomando o cuidado de escondê-los bem, suspensos por fios, atrás do guarda-roupa pesado que a empregada se esmerava em não limpar. A mãe, atarefadíssima entre visitas ao cabeleireiro, manicure, aulas de pintura, sessões de análise, yoga e drenagem linfática, não havia prestado atenção ao detalhe da empregada, muito menos ao do filho.

O pai, homem de negócios influente e ocupado, abarrotado de reuniões, whiskies e secretárias, viajava muito. Havia anos que chamava o filho por um apelido carinhoso : "Filhão". Talvez nem se lembrasse do nome, pensou o garoto, enquanto assoava o nariz que sangrava. Nos últimos dois meses ele havia ganhado presentes de aniversário do pai duas vezes. Era óbvio que era a secretária quem os mandava. O que nem passou pela cabeça do adolescente, entretido que estava entre seus dilemas de consciência é que de fato a secretária enviava os presentes aos dois filhos, a ele, e aquele que o pai havia tido com a outra, e que por segurança batizara com o mesmo nome, para nunca se trair...

"Merda!" pensou Filhão, enquanto tentava estancar o sangue do nariz, que não borbotava e fervia como o do cérebro, mas também incomodava. Afinal, para quê tanto cuidado? E por que tanta indecisão?, gritava um lado da cabeça, ao que o oposto respondia, tão dolorosamente quanto seu oponente, Não faça, não faça, desista, deite, descanse.

Filhão olhou-se no espelho. Deixando cair o rolo de papel higiênico, observou cuidadosamente o filete de sangue que ameaçava escorrer do nariz. Por fim, arregaçou as mangas, tomou coragem, pegou um lápis e rabiscou num pedaço de papel com o logotipo da companhia do pai, as palavras "papai e mamãe". Deixou cair o lápis, dobrou devagarzinho o papel, quase sem forças, suspirou. Sentiu uma pontada no estômago, que parecia querer implodir a cada sinapse nova, a cada corrente de pensamento que a testa suava.

Paulatinamente um torpor começava a caracterizar o transe das decisões inadiáveis, prestes a serem tomadas. Esticou a mão, puxou o cantinho solto do carpete atrás do criado-mudo, onde escondia o "equipamento" - era assim que o chamava entre os amigos, os companheiros de baladas, de amassos nas minas, de azaração no Guarujá no fim-de-semana e de colas nas provas da facú.

O suor tornou-se frio de repente. A decisão abria caminho entre os neurônios, assumia forma tridimensional, quase tangível. Tremendo, segurou com firmeza o "equipamento". Pegou a borracha. Coração e cérebro agora trovoavam juntos, em uníssono, ritmando a sonoplastia para a marcha final da decisão. Um resquício de consciência ainda soava ao fundo, flautim indefeso perante tímpanos , trompas e fagotes: "Não faça... espere... não faça..."

Trompetes anunciando a entrada triunfal da decisão puseram, repentinamente, fim ao impasse. Papel, lápis, borracha, seringa e líquido soaram ad libitum, prestíssimo.

Foi com a indignação do pai e o desespero da mãe que a carta de despedida foi lida. Marcos Vinícius, o filhão, deixava para sempre a residência dos "pais" - assim mesmo havia escrito, entre aspas - só com a mochila nas costas. Iria à procura de um lugar onde a vida valesse a pena ser vivida, onde pudesse escrever suas estórias livremente, sem a obrigação da Engenharia, das broncas do pai, que não queria um filho escritor, das formalidades da sociedade, "e onde lembrem meu nome de verdade". "Não se preocupem comigo", acrescentava, "sei que sou diabético e vou continuar me cuidando. Beijo. Falou.”

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Ameaça


- Que foi, o gato comeu sua língua?

Era a terceira vez que ele perguntava. Em outras ocasiões, ela havia inventado respostas, partículas de fantasia misturadas com gotas de imaginável. Havia funcionado. Porém, ela estava cansada destes confrontos. Preocupada com os revezes do relacionamento deles, demorava a dormir. E agora havia mais esse problema. Um deslize. Um mero descuido! Acabara de ser pega. A situação urgia uma solução e ela era provavelmente o único ser pensante nesse planeta que não conseguiria vislumbrar a saída do beco onde se enfiara, quando tomou o caminho menos aconselhável naquela bifurcação moral, havia algumas horas.

- Vamos, responde!

Não havia resposta. Pelo menos não uma plausível para tudo aquilo. Dentro de si, dragões de culpa corroíam, com seus baforejares inflamados, o aço com o qual havia sido forjada a sua coragem, desde o nascimento. Sua intrepidez a havia feito conhecida por todos. Ela era firme como uma rocha. Não titubeava. Decidia e a resposta seria peremptória, a partir do momento em que proferisse a palavra, que era, na sua concepção, a lei.

- Se vc não responder logo, eu vou ser obrigado a tomar uma atitude.

Ela estava com medo. Justamente ela, cujo epíteto, “turrona!” (sim, com o ponto de exclamação inseparável) havia se tornado nome próprio entre as vizinhas, à meia-boca. Não se deixava abater por pouco, tampouco por muito. Se fosse preciso, partia para o ataque. Físico, é preciso deixar claro. O único infeliz que havia resolvido desafiá-la acabara sem um pedaço do dedo, arrancado a mordidas, apesar da diferença de tamanho entre ela, mignon e ele, parrudo. “Uma selvagem!”, diria a enfermeira no pronto-socorro – "só uma selvagem seria capaz de tal atitude!”

- Seu tempo está se esgotando e minha paciência, chegando ao fim. – disse ele, apoiando a mão esquerda na fivela do cinto.

Monstro! Não podia mais com as palavras e ameaças daquele que se tornara um protetor... mas também um delimitador da liberdade dela. Já havia cogitado escapar daqueles grilhões. Levaria somente o necessário, em valise pequena, quando ele estivesse fora de casa, trabalhando. Contudo, sabia que a perseguição começaria assim que ele desse por sua falta. Ele convocaria seus amigos de cerveja, churrasco e truco e todos se engajariam na busca, que não cessaria até que ela estivesse de volta, trancafiada em um quarto e devidamente punida.


- Você vai explicar por conta própria ou vou ter que fazer você falar? - tirou a mão do cinto e a apoiou na vassoura, que ficava ao lado da porta, convenientemente, para ser posta em uso sempre que necessário.

Ele chegou de sopetão na vida dela. Sem mais nem menos, ocupou os espaços do coração, da casa e do cotidiano. Todos o adoraram instantaneamente! Conquistou as amigas, os irmãos, os vizinhos. Conquistou a mãe, por muitas vezes seu esteio e diretriz, naquela vida cheia de anseios ainda por serem consumados. E até o cachorro, que por pouco não alçava vôo, tal a intensidade com a qual abanava o rabo, assim que escutava o barulho do carro entrando na garagem.

- Está bem, se é assim que você quer, é assim que vai ser - ameaçou ele.
- Não, não! "Tá" bom! – ela choramingava baixinho, tentando ganhar tempo.
- Sou todo ouvidos – no rosto dele havia um ricto que ela não soube precisar se era de sarcasmo ou de felicidade.


Ogro infeliz! Isso é o que ele era! O que mais a assustava era o tamanho dele. Um Titã em força física! Ela odiava apanhar dele! Porém o que a fazia estremecer em frenesis de indignação e ira eram esses confrontos psicológicos, verdadeiros cabos-de-força intelectuais. Ele ficaria parado, impávido, por minutos que pareceriam horas, esperando uma resposta, que deveria ser proferida a contento e esclarecer sem ser prolixa. Senão, ela pagaria caro por sua ousadia, com uma boa surra.

- É que... – ela gemeu pungentemente, a cabeça baixa, mas olhando de esguelha para ele, a fim de medir o efeito da atuação teatral. E assim permaneceu, em silêncio.
- Estou ficando impaciente... – o tom da voz dele era ameaçador – Você não quer me ver bravo, quer?

Quando apanhava dele, seu coração se contorcia de revolta, mas não derramava uma só lágrima. Ele dizia que agia assim porque a amava. A cada tapa que ela recebia, um pedacinho do seu ser se transformava. Era exatamente este o intuito dele: "ensiná-la", como ele mesmo denominava seu objetivo. A duras penas, ele estava conseguindo moldá-la de acordo com o que acreditava ser  certo e... conveniente.



-Vamos!! Fale!! - disse rispidamente, enquanto ela começava a chorar, de medo, antecipando a punição dolorosa. Decerto ele já sabia de toda a verdade. Sim, ele era tão esperto!


Ela era louca por ele no início. Ele a cumulou de presentes, sorrisos e alegrias, fazendo com que ela se sentisse o centro da vida dele. Agora, porém, alimentava, em segredo, um sentimento multifacetado que ora emergia como amor, ora como admiração e ora como raiva. Ela não entendia muito bem como essas coisas funcionavam, mas sabia que estava irresistivelmente ligada àquele que cerceava sua liberdade de modo tão veemente, mas a amava com intensidade e devoção arrebatadoras. Era impossível fugir dele.

- Chega! Você vai ficar trancada. Estou cheio das suas manhas e atitudes. Quem sabe vc não pensa melhor e resolve esclarecer esta história depois de ficar curtindo sua solidão dentro deste quarto.

Ele saiu, trancou a porta e ela suspirou aliviada. Ufa! Teria o tempo que precisava para articular alguma narrativa mirabolante. Afinal, ela não tinha culpa de ter chutado a bola tão desajeitadamente e quebrado o vaso caríssimo da mãe. Escondera os caquinhos com cuidado no fundo do armário da dispensa, certa de que só ela, pequenina de 5 anos, poderia se esgueirar pelas caixas e passar através de um espaço tão diminuto. O padrasto a surpreendera justamente na hora em que voltava para a cozinha e perguntara o que ela fazia dentro do armário. Ela, é claro, não soube responder e ficou olhando para ele em silêncio, sem contudo suprimir um sorrisinho maroto, que fatalmente denuciou a "arte".

Mas havia tempo até a hora do jantar. Ela pensaria em algo. Ou, ao menos, conseguiria forrar o assento da calça com algumas toalhas de rosto para que as palmadas doessem menos, quando a verdade viesse à tona. Sim, ela pensaria em algo!

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

(x / 1992)

Descalça eu corro.

Pés nus sobre a rua de terra calçada de pedras piso nas pedras calco a rua piso forrado de pedras amasso-as afundo-as ainda mais na lama humilho matrato amarroto

piso piso piso !! as pedras pontiagudas estão no chão.

Meus pés estão sangrando.

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(out/2007)

O texto é de 92 mas o sentimento traduz a revolta oriunda da observação contínua do mundo e das pessoas. Apesar de já adulta ainda sou surpreendida pelas atitudes daqueles que chamaria de "meus pares" se não fosse o abismo que sinto, intransponível, entre mim e "eles": eu me importo.

Sou hiperbólica, traduzo minhas sensações em reações estapafúrdias cuja sonoplastia requer mil fonemas distintos, organizados de tal forma que o interlocutor por vezes considera minha internação em instituição pertinente.

Ah, senhores! Mas eu sinto!

Eu vivo!

Eu acompanho!

Eu observo!

Eu ouço!

Eu respondo!

Eu dou licença!

Eu ajudo a carregar!

Eu ensino!

Eu meço as críticas e as revisto de palavras mais doces, para que sejam digeridas e assimiladas, não rejeitadas!

Eu mudo de lugar!

Eu finjo ser o outro!

Nunca me perguntaram o porquê, mas se algum dia o fizerem, saberão: eu quero que esse mundo seja habitável por mais do que gladiadores e defensores de seus nadas particulares.

E por isso, e só por isso, eu durmo.

Eles não, mas eu sim.

Eu durmo!!

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Folhas

(x / 1992)

Folhas, folhas, folhas
de Tempo, de Vida, de Luz,
pousem quietas, meninas,
assim eu não posso cantar!

Ouço seus leves Murmúrios,
pairam no ar Semelhanças
e as sementes da Inconstância
insistem em germinar.

Folha, Folhas... Parem!
Das copas das árvores desçam
do meu âmago condesçam
com que eu não olvide a Paz.

Verdes de Infância, cresçam
pavimentem meu caminho
levem o Egoismo mesquinho
tal que eu não aprenda a negar.

Estando ao poente douradas,
cubram-me de Inocência,
Folhas, Folhas... Paciência!!
Eu quero aprender a sonhar.

À noite brilhando, argentinas,
façam meu dossel de estrelas
e tragam o meu destino
para que eu o possa moldar.

Mas que se f***!!!

(publicado em ago/2004 na revista do CEPEGE - IGC/USP)


“Esqueci a palavra que pretendia dizer, e meu pensamento, privado de sua substância, volta ao mundo das sombras”
O. Mandelstam.


Segunda-feira, sete horas da manhã. A academia lotada de “bombados”, soterrados por anilhas e halteres, ávidos por iniciar logo seus intermináveis treinos de hipertrofia, antes que as mães, tendo deixado seus filhos na escola, inutilizem por completo o ambiente, treinando o músculo mais solicitado da anatomia feminina, o “linguíceps”. Ninguém conversa. Reinam gemidos de esforço, permeados pela voz monótona do instrutor, ensinando movimentos de alongamento para uma aluna nova - mais uma daquelas que, acossadas pelo frenesi social que impõe peitos siliconados e condena sinapses mais elaboradas, inicia exercícios pela enésima vez, em busca do corpo perfeito.

Era justamente neste ambiente que me encontrava, há alguns dias, amaldiçoando meu instrutor, a sociedade e a minha genética pouco condizente com as normas estéticas vigentes, a cada supersérie de bíceps. Alguém havia ligado o rádio, em substituição ao tilintar das anilhas. A música tocava baixinho, enquanto eu contava, compenetrada, as 20 repetições que invariavelmente acabariam no número 17. Com a chegada das primeiras tagarelas, alguma boa alma aumentou o volume do rádio. E qual não foi a minha surpresa, ao escutar, enquanto sofria eu mesma num drop-set de tríceps, os berros de um cantor que, não contente em se vangloriar de não saber fazer poesia, ainda utilizava ad libitum palavras de baixo calão, transmitidas livremente pela emissora. A principio, não pude acreditar no que ouvia. Estanquei, indignada, minha torrente de repetições, e tentei entender o que a letra dizia: “eu não sei fazer poesia, mas que se f***!”

Charlie Brown Jr. que me perdoe, mas não aceito isso. Não posso ser conivente com a idéia de que as pessoas que detêm a preferência da mídia e o livre trânsito entre crianças, pré-adolescentes e jovens, presenteiem-nos com tão chulas palavras e tão parco raciocínio. Ao bradar que não sabe fazer poesia, o mocinho somente reafirma o que parece ser um dos mais alarmantes males de nossa sociedade: a supervalorização de formas físicas e símbolos sexuais em detrimento da intelectualidade e do domínio da língua portuguesa. Solanges e Tiriricas da vez inundam os meios de comunicação. Pais despreparados alimentam intelectualmente seus filhos com a telinha azul. E somos vilipendiados em nossa inteligência, incessantemente, com Florentinas, Bondes do Tigrão, Danças da mãozinha, da bundinha, da garrrafinha...

Sendo, eu mesma, um daqueles “infelizes” seres que não se encontra em μ+ 3 σ da gaussiana do corpo mais-que-perfeito, e cujo saldo bancário decresce exponencialmente nos primeiros 5 dias do mês (sou professora), aniquilando quaisquer intenções mais ousadas no território da remediação estética (leia-se um daqueles “eletrosuperquelquercoisaquelevantaoderrière-ation”) pergunto-me incessantemente o que farei dos ensinamentos que recebi na infância, os quais ditavam que, se eu quisesse ser alguém na vida, deveria estudar muito. Mamãe me perdoe... Mas não teria sido melhor se tivesse me ensinado a rebolar e dançar o “tchan”, em lugar dos “tesouros que a traça não há de roer?” Os credores roem meu limite de crédito, os juros do banco roem meu estômago e, ultimamente, sinto dizer, brincar com o gato de Schrödinger não tem aliviado muito meu stress...

Contundente não é, porém, somente a constatação de que meus paradigmas de infância não são mais vigentes. Ainda há muito que se deplorar neste panorama. Por exemplo, o uso da linguagem por nossos adolescentes e jovens, que deixa a desejar em conteúdo e forma. A semântica de expressões belíssimas, consagradas pelos melhores escritores de nossa literatura deram lugar, paulatinamente, a gírias que muito pouco dizem. O bagulho é doce, mas não é mole, eu sei, mas bem que os mano poderiam dar área ou aprender o Português. A linguagem, como mediadora do pensamento humano, se torna ferramenta indispensável na manutenção da realidade do “ser”. 
Lev Vigotski, lingüista russo, afirma em seu Pensamento e Linguagem que ambos não apresentam um elo primário. “Ao longo da evolução do pensamento e da fala, tem início uma conexão entre estes, que depois se modifica e se desenvolve”.Não posso deixar de rir, quando penso nas letras das músicas que estão em moda, especialmente se analisadas à luz de Vigotski: poderiam, com certa benevolência, serem classificadas como pueris e inocentes, carecendo de maturidade semântica e sintática, que somente ocorre na fase adulta do ser humano. Vigotski pondera que o significado das palavras evolui. Modifica-se à medida que a criança se desenvolve e também de acordo com as várias formas pelas quais o pensamento funciona. Ora, “se os significados das palavras se alteram em sua natureza intrínseca, então a relação entre o pensamento e a palavra também se modifica”.

Tomemos como exemplo uma criança. Seu pensamento surge como indistinto e amorfo e acaba por ser expresso em uma única palavra (fome, mamãe, etc). À medida que seu pensamento se torna mais organizado e complexo, a necessidade de mais palavras para expressá-lo surge, apesar de, como afirma o linguista russo, a estrutura da fala não ser um mero reflexo do pensamento. Ainda que, segundo Chomsky, nasçamos com estruturas gramaticais pré-definidas em nosso cérebro (gramática gerativista), há que se dispor de um mediador para a aquisição da linguagem, sendo este uma pessoa (pai, mãe, professor) ou um instrumento (livro, por exemplo).

O comportamento linguístico também é uma parte do conjunto de modelos sociais de conduta que caracterizam os grupos humanos, e desenvolvemos a utilização da linguagem de acordo com princípios estabelecidos pelo meio. Assim sendo, a linguagem passa a ser um instrumento de identificação de origem e posição sociais, e não posso me furtar a aceitar que nosso Carlinhos o faça muito bem, demostrando, através da pobreza de suas letras, que é somente mais um jovem comum da sociedade brasileira...

O que se mostra alarmante é que estas letras acabem funcionando como intrumento de mediação para o resto dos adolescentes. O sucesso que tais músicas fazem denota o alcance cultural das mensagens paupérrimas que, subliminarmente, promovem apologia à falta de profundidade de raciocínio e argumentação. Enfim, a molecada não pensa, porque não possui palavras para delinear idéias. O universo do pensamento restrito a expressões chulas e vocabulário limitado cerceia a expressão intelectual. Não pensam, porque não podem pensar. Assim como não se toma sopa com garfo, como pensaremos livremente sem a amplitude do domínio da língua?
Ora, se é através das palavras que organizamos o pensamento, e se, de acordo com Descartes, somente existo se penso, então... quantos de nós realmente existimos? Qual a proporção de seres humanos que, ao negarem, ou serem negados no mundo onde a palavra reina soberana e o conhecimento é transmitido através da linguagem, e somente dela, sucumbem à espada social, microrganismos raspando os restos aqui e ali em “subsetores” econômicos e, em última instância, pairando à beira do que chamamos sociedade mas que, de qualidade do social nada apresenta? Nada há de ser mais desumano do que não ser humano.

Andre Martinet (Elementos de Linguística Geral – École Pratique des Hautes Études, França), ressalta que a função essencial da linguagem é a comunicação, a compreensão mútua de dois ou mais indivíduos que falam a mesma língua. No entanto, a linguagem ainda exerce outras funções, sendo a mais importante, o suporte ao pensamento (análise que compete à Psicologia) e tal atividade (o pensamento) simplesmente não ocorreria sem aquela outra (a linguagem). 


Ainda, o ser humano utiliza a palavra para se exprimir, ou seja, “para analisar o que sente, sem se preocupar grandemente com as reações de eventuais ouvintes, e assim encontra ao mesmo tempo um processo de se afirmar aos seus olhos e aos dos outros, sem pretensões de comunicar o que quer que seja”. Nesse aspecto, tenho que admitir que Charlie Brown Jr. talvez esteja apenas tentando expressar seu desgosto em relação aos contrastes entre as classes sociais, em cujo caso, a afirmação de que “não usa sapatos” (na mesma música), denotaria o desprezo pela cultura do consumismo. Martinet adiciona à linguagem também uma função estética, e neste caso, não estaria o nosso supracitado cantor deixando um pouco a desejar?


Citando Ferreira Gullar, “a poesia é uma aventura, como o amor, a luta. Palavras inesperadas, que estavam coladas em uma parte de você, se desprendem e se tornam acessíveis. Vivências que estão guardadas despertam”. Carlinhos, meu querido, e demais jovens, sejamos seres humanos. Colecionemos vivências e expressemo-nos através da língua Portuguesa com propriedade, mesmo que, devido às desventuras do cotidiano e aos panoramas econômico e políticos vigentes, não nos sobre muita vontade de fazer poesia!

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Bad bad server!!! No doughnut for you....

(publicado em set/07 na Revista do CEPEGE, IGC- USP)


Fernando Andrade é um homem muito bem sucedido. Ele fez GV, viajou pelo mundo, tem o álbum repleto de fotos de lugares pitorescos ou de poses de modelo no seu iate, no Quartier Latin, ou ainda no Japão. É sensível e escreve poesia. Também pensa nos problemas do mundo, estudou Filosofia e se inscreveu em um grupo de idealistas, cujo nome não poderia ser outro: “Eu quero e posso mudar o mundo!”. Inteligentíssimo, adora discutir Física Quântica, ler Carl Sagan e seu filme predileto é “What the bleep do we know?”. Além disso, sua conta bancária é tão interessante quanto seu porte de deus grego, torso esculpido nos jogos de pólo e em hobbies pouco acessíveis para a classe média, como o wakeboading.

No final de 2004, Fernando Andrade, seduzido pela novidade tecnológica e pela possibilidade de expandir seu círculo de amizades, inaugurou um perfil no Orkut. Preenchendo as lacunas com informações pessoais como a altura (1,90), cor dos cabelos (loiros) e olhos (azuis) e definindo sua parceira ideal como a mulher que, sendo maternal para sua prole será também infernal entre quatro paredes, adicionou comunidades relacionadas às suas atividades regulares e seus gostos pessoais (“I love wine”, “Viciados em livros”, “France-Brazil Friendship” e outras), denotando excelente nível sócio-cultural.

Findo o processo de construção de sua persona[1], pôs-se a adicionar conhecidos e amigos, que carinhosamente aceitaram fazer parte do mundo maravilhoso de Fernando. Com 3 dias de idade, seu perfil contava com 30 amigos. Após uma semana, Fernando já havia contactado quase uma centena de conhecidos da GV, da Federação Espanhola de Enólogos, dos “Ferrari fans” e de muitos outros que, reconhecendo nosso amigo no perfil de outras pessoas, o adicionaram, com efusivas mensagens: “Cara, quanto tempo!”, “E aí, Fernandão, por onde anda?”.

As meninas o adoraram, preencheram vorazmente seu “scrap book” [2] com mensagens, algumas um tanto recatadas, outras já mais assanhadas. Todas queriam estar próximas daquele em cujo álbum de fotos figurava um iate e cujas férias seriam sempre aproveitadas em algum lugar romanesco do mundo. Era impossível não se apaixonar pelo homem que respondia às mensagens com citações de Byron, remetendo ao amor noturno, quiçá soturno e verdadeiramente arrebatador, que invariavelmente as levaria a sorver absinto enquanto cortassem os pulsos. 

Sim, porque Fernando não firmará compromisso com nenhuma mulher até que encontre a supra-citada “maternal/infernal”. É livre para gozar das facilidades financeiras com que foi granjeado quando de seu nascimento. O pai de Fernando é rico. O avô também. E cabe a Fernando administrar os bens da família e brincar pela vida até que chegue a hora de escolher a mãe de seus filhos, a quem dedicará sua fidelidade, conforme diz no seu “about me”.[3]

Fernando Andrade é o homem perfeito.

Ou melhor, seria perfeito. 

Se fosse real.

Essa experiência foi motivada por uma discussão. Enquanto eu dizia que os perfis que apareciam no Orkut era todos exagerados, uma amiga teimava em dizer que eram reais. A discussão ficou cada vez mais acirrada, apimentada por argumentos enviesados, motivados pelos cliques do mouse neste ou naquele perfil e culminou na aposta: a criação de um perfil falso, adicionar pessoas aleatoriamente e em uma semana bater a casa da centena. Feito! Ganhei a aposta.

Modus operandi: mea culpa!

Inventei o nome. A foto e as descrições físicas foram retiradas de um site de modelos. Elegi uma faculdade cara, mas ao mesmo tempo reconhecida pela dificuldade do vestibular. Vasculhando as comunidades dos alunos da GV, selecionei as que denotavam intimidade com a vida acadêmica daquela instituição e delas retirei os supostos amigos de Fernando, que fui adicionando. Tomei o cuidado de selecionar aqueles que já apresentavam mais de 300 amigos em seus perfis. Raríssimos foram os que perguntaram quem Fernando era. Neste caso, voltava ao perfil do inquiridor, lia-o cuidadosamente e indicava, na resposta, algo que o unisse a Andrade: “sou amigo da Fulana” ou “estava na festa sexta passada, poxa, você estava bêbado mesmo, hein?” Não foi preciso muita argumentação. Todos aceitaram Fernando.

Para seu álbum de fotos, selecionei através do Google imagens de lugares fabulosos, onde “Andrade” aparecia ao longe, ou com roupa e máscara de mergulho, ou, ainda, de costas em seu iate. A cada nova invenção, eu ria, enquanto cerca de uma centena de pessoas acreditava e pelo menos uma se interessou romanticamente por ele.

A Matrix

Esta história, por si só, não seria sequer digna de mais do que umas boas risadas em uma roda de amigos, se não fossem todas as considerações que ela encerra. Fernando Andrade foi um sucesso porque personificava o ideal de homem perfeito vigente na sociedade brasileira dos dias de hoje. É alarmante perceber que os homens de nosso país se espelham em modelos como esse, divulgados e apregoados subliminarmente pela mídia, quando 47,3% da população é negra e passa bem longe deles.[4]

Somos um país de misturas. Uma miscelânea bela de raças e biótipos, descendentes de índios, negros e uma miríade de etnias que para cá imigraram com regularidade no séc. XIX. A auto-imagem brasileira é, portanto, um paradoxo, cuja pseudo-resolução sugerida pela mídia, o consumismo, demonstra ser apenas um paliativo, tampouco sendo factível para 12,2% dos 34 milhões de jovens brasileiros – a camada mais impressionável e manipulável do mercado do país – que se encontra em condição de extrema pobreza[5].

O Orkut é apenas mais uma ferramenta virtual para confundir a carência por algo pleno e realizável que a maior parte da população brasileira traz em si. É um espaço para a propaganda muitas vezes enganosa. Mas é verdadeiramente um subterfúgio para promover o alívio de tanta tensão social, através da fantasia.

É necessário mentir a respeito de si mesmo para sobreviver, para se equiparar as outras pessoas que - ora vejam!- também mentem. Assim, o que vemos por aí é uma profusão de meias verdades sendo espalhadas indiscriminadamente em todos os lugares. Todo mundo é fake. É chique sê-lo. E, mais alarmante, ninguém acredita que os outros possam ser o que dizem ser justamente porque todos mentem que são o que são.

Este tipo de deturpação sutil da realidade tem a característica de adquirir cada vez mais traços de tangibilidade e menos ductibilidade quanto mais for pronunciada e veiculada. Uma vez dita, é mentira. Cem vezes dita, é uma dúvida. Mil vezes dita, um axioma. Como este axioma foi construído a partir de um sofisma, carece de robustez. Esta fragilidade é aferível na reação inesperada e exagerada em confrontos de trânsito que acabam em morte; ao estourar-se o limite do cartão de crédito; ao aderir-se a um vício, etc. Todos têm medo de descobrir que não são aquilo que acham que são e que, na verdade, sabem que não são. Isto é doloroso. Quando confrontado com o real, o indivíduo tende a fugir: ele faz compras, ele briga, ele mata.

Os meios de comunicação concorrem para auxiliar na empreitada. Valores pífios são veiculados da pior forma possível, a subliminar. Um dia você percebe que sua casa não é igual a da novela das 8. O seu café da manhã não está igual ao da família Becel. Seu corpo não é como o do Marcos Pasquim. Seu cabelo não é liso como o de Angelita Feijó. E sofre com isso. Vivemos em um mundo surreal, segregados dele e, como se não bastasse, ainda apoiamos a manutenção desta realidade absurda que nos marginaliza. É o expoente máximo do masoquismo. Tente sair dele. Você será ignorado. Sofrerá de certa “invisibilidade social”. É a punição da Matrix.

Inadequação – o núcleo da neurose

Parafraseando a Teoria do Espelho[6], somos aquilo que acreditamos ser. Porém, acreditamos ser aquilo que nos disseram que somos. Quando o ser humano nasce não reconhece a separação entre ele e o mundo. Ele é o mundo. Se o que o circunda é cruel e frio, ele assumirá que não merece viver. Crianças abandonadas, sem estímulo e afeto, adoecem e morrem. No entanto, se pais, irmãos e avós tratam o bebê com atenção e amor, ele verá este “reflexo” de si mesmo como algo positivo e digno de investimento. Então, ele decide viver.

Um dia, este mesmo bebê entende que é separado do resto do mundo. Paralelamente, as palavras passam a servir de função mediadora para garantir sua sobrevivência e, portanto, são imprescindíveis. É justamente nesta hora que o indivíduo inicia sua relação com os “rótulos”: “Nenê mau!”, “Feio!” e outras pérolas que, ao serem proferidas por aqueles que são responsáveis pelo bem-estar e segurança dele, vão produzindo imagens nas quais o indivíduo se espelha e se enxerga. É premente a sensação de inadequação, especialmente se a criança apresenta Inteligência Cinestésica bem desenvolvida[7] - muitas vezes sendo rotulada como DDA[8] com hiperatividade ou, no linguajar popular, tem “bicho carpinteiro”: “Pára quieto, menino! Que inferno!”.

Crescemos sendo inadequados. Na escola, a criança deve ficar sentada e quietinha. Em casa, deve ser boazinha, fazer a lição, ter ótimo desempenho nas avaliações, (que não medem todas as capacidades e potencialidades do indivíduo), acordar cedo, (o que é especialmente penoso para os adolescentes, em franca fase de desenvolvimento[9]) e fazer muitas outras coisas desagradáveis e difíceis de serem executadas, quando se tem tanta energia a gastar. A cada falha, a cada derrota nestas pequenas atividades cotidianas, recebemos uma enxurrada de rótulos, críticas e comentários que estabelecem um espelho e nos ajudam a moldar nossa auto-imagem.

Porém, queremos ser aceitos. Precisamos pertencer a um grupo, fazer conexões e trocas. Assim, quanto mais forte for a sensação de inadequação construída durante todo o processo de amadurecimento do ser, mais os valores propagados pela mídia serão penetráveis na concepção de sucesso e aceitação dele. Na tentativa de suprimir a frustração por não ser aquilo que ele acredita não conseguir ser, no intuito de calar a voz interior que o rotula como incapaz e insuficiente, ele se imagina um outro ser. Constrói uma nova figura, compra, ajeita, gasta, mutila, opera. Tudo para fugir da imagem inadequada que acredita ter e do sofrimento de recear constantemente não ser aceito. Assim, por extrapolação, podemos dizer que quanto mais o nenê mamou, menos ele estará sujeito aos apelos da mídia.

Eu mamei até os 4 meses. Por favor, me adicione no seu Orkut.

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[1] Conceito definido por Jung para descrever uma falsa imagem global e esquemática que a pessoa forma a seu próprio respeito
[2] Livro de mensagens do Orkut.
[3] Parte do perfil onde pode-se descrever a si próprio livremente.
[4] IBGE, 2004
[5] Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).
[6] The Looking Glass Theory (Cooley, 1920)
[7] Inteligências Múltiplas. (Gardner, 1985, Havard University) – A inteligência cinestésica é, segundo essa teoria, a habilidade de coordenação de movimentos corporais.
[8] Distúrbio de Déficit de Atenção
[9] O hormônio do crescimento é liberado durante o sono. Portanto, é natural que adolescentes tenham muito sono e dificuldade para acordar no horário previsto para ir à escola.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Finally!

Existe sempre uma primeira vez para tudo.
Quero dizer, não pra tudo, tudo, mas para todas as coisas factíveis e plausíveis em nossas vidas. Por factível, escolho a vida, pura e simplesmente. Contudo, "plausível" é um delimitador de fronteiras e despenhadeiros. É o que escolhemos. O que decidimos que pode tomar espaço em nossa vidas. Assim sendo, é factível que algum dia eu rode bolsinha na Augusta. Mas não é plausível. Todo o meu respeito à profissão mais antiga do mundo, mas não, muito obrigada.


 Prefiro escrever.
 É mais cômodo!
 Paga menos, é verdade.
 Mas é bem mais confortável.




Já fiz de tudo um pouco. Já dei aula de Física, já cantei em barzinhos, fui soprano (bolsista) do Coral do Estado de São Paulo, cantora lírica, nadadora de travessia, remadora federada, jogadora de rugby e profesora de inglês. Sou coordenadora pedagógica e teacher trainer. Factível e plausível. Check.

Tive cabelos azuis, verdes, roxos, laranjas, encaracolados, moicanos e raspados. Pus piercings no rosto inteiro para ter que removê-los nos instantes que precederam o primeiro bater sério de cartão. Tenho tatuagens e as escondo. Ser o que gosto é factível. Mas o preconceito é também plausível. Check.

 Assim, hoje meu deleite é expandir conscientemente as fronteiras do plausível usando a palavra, amálgama, ao meu bel prazer. Alguns amigos gostaram tanto, que sugeriram o nascimento deste blog. Colegas de profissão pediram meu parecer sobre os assuntos pertinentes à Educação. Um amigo muito próximo rotulou-me egoísta, quando soube que eu guardava tudo o que escrevia, sem mostrar a ninguém. Mamãe pediu a publicação (mas mães serão sempre mães...).

Então, queridos, aqui postarei, pouco a pouco, as minhas inferências sobre o mundo. Alerto, porém!! Mesmo assim terão que suportar meus arroubos de verborragia, ainda que sejam depois as palavras lapidadas no papel. Pois, afinal de contas, a palavra nasce solta, órfã, na mente. Sofre suas primeiras coerções ao ser proferida, adolescente. Mas é sob a pena, implacável, que se torna madura.
  
(Thanks adicional : Fernando, Marcos, Ulisses, Carlos e Patrícia, por urgirem minha atitude perante o vácuo editorial que assombra minha produção literária!)