Artigos (publicados ou não), contos, crônicas e uma ou outra poesia perdida do passado.
quinta-feira, 25 de outubro de 2007
Ameaça
- Que foi, o gato comeu sua língua?
Era a terceira vez que ele perguntava. Em outras ocasiões, ela havia inventado respostas, partículas de fantasia misturadas com gotas de imaginável. Havia funcionado. Porém, ela estava cansada destes confrontos. Preocupada com os revezes do relacionamento deles, demorava a dormir. E agora havia mais esse problema. Um deslize. Um mero descuido! Acabara de ser pega. A situação urgia uma solução e ela era provavelmente o único ser pensante nesse planeta que não conseguiria vislumbrar a saída do beco onde se enfiara, quando tomou o caminho menos aconselhável naquela bifurcação moral, havia algumas horas.
- Vamos, responde!
Não havia resposta. Pelo menos não uma plausível para tudo aquilo. Dentro de si, dragões de culpa corroíam, com seus baforejares inflamados, o aço com o qual havia sido forjada a sua coragem, desde pequenininha. Sua intrepidez a havia feito conhecida por todos. Ela era firme como uma rocha. Não titubeava. Decidia e a resposta seria peremptória, a partir do momento em que proferisse a palavra, que era, na sua concepção, a lei.
- Se vc não responder logo, eu vou ser obrigado a tomar uma atitude.
Ela estava com medo. Justamente ela, cujo epíteto, “turrona!” (sim, com o ponto de exclamação inseparável) havia se tornado nome próprio entre as vizinhas, à meia-boca. Não se deixava abater por pouco, tampouco por muito. Se fosse preciso, partia para o ataque. Físico, é preciso deixar claro. O único infeliz que havia resolvido desafiá-la acabara sem um pedaço do dedo, arrancado a mordidas, apesar da diferença de tamanho entre ela, mignon e ele, parrudo. “Uma selvagem!”, diria a enfermeira no pronto-socorro – "só uma selvagem seria capaz de tal atitude!”
- Seu tempo está se esgotando e minha paciência, chegando ao fim. – disse ele, apoiando a mão esquerda na fivela do cinto.
Monstro! Não podia mais com as palavras e ameaças daquele que se tornara um protetor... mas também um delimitador da liberdade dela. Já havia cogitado escapar daqueles grilhões. Levaria somente o necessário, em valise pequena, quando ele estivesse fora de casa, trabalhando. Contudo, sabia que a perseguição começaria assim que ele desse por sua falta. Ele convocaria seus amigos de cerveja, churrasco e truco e todos se engajariam na busca, que não cessaria até que ela estivesse de volta, trancafiada em um quarto e devidamente punida.
- Você vai explicar por conta própria ou vou ter que fazer você falar? - tirou a mão do cinto e a apoiou na vassoura, que ficava ao lado da porta, convenientemente, para ser posta em uso sempre que necessário.
Ele chegou de sopetão na vida dela. Sem mais nem menos, ocupou os espaços do coração, da casa e do cotidiano. Todos o adoraram instantaneamente! Conquistou os amigos, os irmãos, a avó, os vizinhos. Conquistou a mãe, por muitas vezes seu esteio e diretriz, naquela vida cheia de anseios ainda por serem consumados. E até o cachorro, que por pouco não alçava vôo, tal a intensidade com a qual abanava o rabo, assim que escutava o barulho do carro entrando na garagem.
- Está bem, se é assim que você quer, é assim que vai ser - ameaçou ele.
- Não, não! "Tá" bom! – ela choramingava baixinho, tentando ganhar tempo.
- Sou todo ouvidos – no rosto dele havia um ricto que ela não soube precisar se era de sarcasmo ou de felicidade.
Ogro infeliz! Isso é o que ele era! O que mais a assustava era o tamanho dele. Um Titã em força física! Ela odiava apanhar dele! Porém o que a fazia estremecer em frenesis de indignação e ira eram esses confrontos psicológicos, verdadeiros cabos-de-força intelectuais. Ele ficaria parado, impávido, por minutos que pareceriam horas, esperando uma resposta, que deveria ser proferida a contento e esclarecer sem ser prolixa. Senão, ela pagaria caro por sua ousadia, com uma boa surra.
- É que... – ela gemeu pungentemente, a cabeça baixa, mas olhando de esguelha para ele, a fim de medir o efeito da atuação teatral. E assim permaneceu, em silêncio.
- Estou ficando impaciente... – o tom da voz dele era ameaçador – Você não quer me ver bravo, quer?
Quando apanhava dele, seu coração se contorcia de revolta, mas não derramava uma só lágrima. Ele dizia que agia assim porque a amava. A cada tapa que ela recebia, um pedacinho do seu ser se transformava. Era exatamente este o intuito dele: "ensiná-la", como ele mesmo denominava seu objetivo. A duras penas, ele estava conseguindo moldá-la de acordo com o que acreditava ser certo e... conveniente.
-Vamos!! Fale!! - disse rispidamente, enquanto ela começava a chorar, de medo, antecipando a punição dolorosa. Decerto ele já sabia de toda a verdade. Sim, ele era tão esperto!
Ela era louca por ele no início. Ele a cumulou de presentes, sorrisos e alegrias, fazendo com que ela se sentisse o centro da vida dele. Agora, porém, alimentava, em segredo, um sentimento multifacetado que ora emergia como amor, ora como admiração e ora como raiva. Ela não entendia muito bem como essas coisas funcionavam, mas sabia que estava irresistivelmente ligada àquele que cerceava sua liberdade de modo tão veemente, mas a amava com intensidade e devoção arrebatadoras. Era impossível fugir dele.
- Chega! Você vai ficar trancada. Estou cheio das suas manhas e atitudes. Quem sabe vc não pensa melhor e resolve esclarecer esta história depois de ficar curtindo sua solidão dentro deste quarto.
Ele saiu, trancou a porta e ela suspirou aliviada. Ufa! Teria o tempo que precisava para articular alguma narrativa mirabolante. Afinal, ela não tinha culpa de ter chutado a bola tão desajeitadamente e quebrado o vaso caríssimo da mãe. Escondera os caquinhos com cuidado no fundo do armário da dispensa, certa de que só ela, pequenina de 5 anos, poderia se esgueirar pelas caixas e passar através de um espaço tão diminuto. O padrasto a surpreendera justamente na hora em que voltava para a cozinha e perguntara o que ela fazia dentro do armário. Ela, é claro, não soube responder e ficou olhando para ele em silêncio, sem contudo suprimir um sorrisinho maroto, que fatalmente denuciou a "arte".
Mas havia tempo até a hora do jantar. Ela pensaria em algo. Ou, ao menos, conseguiria forrar o assento da calça com algumas toalhas de rosto para que as palmadas doessem menos, quando a verdade viesse à tona. Sim, ela pensaria em algo!
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3 comentários:
Gostei! Quem não ouviu a cinta cantar?? Mesmo que tenha sido uma canção bem baixinha...
Acho que vc tá assistindo muito Tarantino...
Ca**lho !!
Muito legal viu !! Adorei!
Bjaooooo
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