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quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Bad bad server!!! No doughnut for you....

(publicado em set/07 na Revista do CEPEGE, IGC- USP)



Fernando Andrade é um homem muito bem sucedido. Ele fez GV, viajou pelo mundo, tem o álbum repleto de fotos de lugares pitorescos ou de poses de modelo no seu iate, no Quartier Latin, ou ainda no Japão. É sensível e escreve poesia. Também pensa nos problemas do mundo, estudou Filosofia e se inscreveu em um grupo de idealistas, cujo nome não poderia ser outro: “Eu quero e posso mudar o mundo!”. Inteligentíssimo, adora discutir Física Quântica, ler Carl Sagan e seu filme predileto é “What the bleep do we know?”. Além disso, sua conta bancária é tão interessante quanto seu porte de deus grego, torso esculpido nos jogos de pólo e em hobbies pouco acessíveis para a classe média, como o wakeboading.
No final de 2004, Fernando Andrade, seduzido pela novidade tecnológica e pela possibilidade de expandir seu círculo de amizades, inaugurou um perfil no Orkut. Preenchendo as lacunas com informações pessoais como a altura (1,90), cor dos cabelos (loiros) e olhos (azuis) e definindo sua parceira ideal como a mulher que, sendo maternal para sua prole será também infernal entre quatro paredes, adicionou comunidades relacionadas às suas atividades regulares e seus gostos pessoais (“I love wine”, “Viciados em livros”, “France-Brazil Friendship” e outras), denotando excelente nível sócio-cultural.




Findo o processo de construção de sua persona[1], pôs-se a adicionar conhecidos e amigos, que carinhosamente aceitaram fazer parte do mundo maravilhoso de Fernando. Com 3 dias de idade, seu perfil contava com 30 amigos. Após uma semana, Fernando já havia contactado quase uma centena de conhecidos da GV, da Federação Espanhola de Enólogos, dos “Ferrari fans” e de muitos outros que, reconhecendo nosso amigo no perfil de outras pessoas, o adicionaram, com efusivas mensagens: “Cara, quanto tempo!”, “E aí, Fernandão, por onde anda?”.



As meninas o adoraram, preencheram vorazmente seu “scrap book” [2] com mensagens, algumas um tanto recatadas, outras já mais assanhadas. Todas queriam estar próximas daquele em cujo álbum de fotos figurava um iate e cujas férias seriam sempre aproveitadas em algum lugar romanesco do mundo. Era impossível não se apaixonar pelo homem que respondia às mensagens com citações de Byron, remetendo ao amor noturno, quiçá soturno e verdadeiramente arrebatador, que invariavelmente as levaria a sorver absinto enquanto cortassem os pulsos. Sim, porque Fernando não firmará compromisso com nenhuma mulher até que encontre a supra-citada “maternal/infernal”. É livre para gozar das facilidades financeiras com que foi granjeado quando de seu nascimento. O pai de Fernando é rico. O avô também. E cabe a Fernando administrar os bens da família e brincar pela vida até que chegue a hora de escolher a mãe de seus filhos, a quem dedicará sua fidelidade, conforme diz no seu “about me”.[3]


Fernando Andrade é o homem perfeito.


Ou melhor, seria perfeito.

Se fosse real.


Essa experiência foi motivada por uma discussão. Enquanto eu dizia que os perfis que apareciam no Orkut era todos exagerados, uma amiga teimava em dizer que eram reais. A discussão ficou cada vez mais acirrada, apimentada por argumentos enviesados, motivados pelos cliques do mouse neste ou naquele perfil e culminou na aposta: a criação de um perfil falso, adicionar pessoas aleatoriamente e em uma semana bater a casa da centena. Feito! Ganhei a aposta.


Modus operandi: mea culpa!

Inventei o nome. A foto e as descrições físicas foram retiradas de um site de modelos. Elegi uma faculdade cara, mas ao mesmo tempo reconhecida pela dificuldade do vestibular. Vasculhando as comunidades dos alunos da GV, selecionei as que denotavam intimidade com a vida acadêmica daquela instituição e delas retirei os supostos amigos de Fernando, que fui adicionando. Tomei o cuidado de selecionar aqueles que já apresentavam mais de 300 amigos em seus perfis. Raríssimos foram os que perguntaram quem Fernando era. Neste caso, voltava ao perfil do inquiridor, lia-o cuidadosamente e indicava, na resposta, algo que o unisse a Andrade: “sou amigo da Fulana” ou “estava na festa sexta passada, poxa, você estava bêbado mesmo, hein?” Não foi preciso muita argumentação. Todos aceitaram Fernando.






as fotos foram retiradas de sites de procura e de modelos

Para seu álbum de fotos, selecionei através do Google imagens de lugares fabulosos, onde “Andrade” aparecia ao longe, ou com roupa e máscara de mergulho, ou, ainda, de costas em seu iate. A cada nova invenção, eu ria, enquanto cerca de uma centena de pessoas acreditava e pelo menos uma se interessou romanticamente por ele.


A Matrix


Esta história, por si só, não seria sequer digna de mais do que umas boas risadas em uma roda de amigos, se não fossem todas as considerações que ela encerra. Fernando Andrade foi um sucesso porque personificava o ideal de homem perfeito vigente na sociedade brasileira dos dias de hoje. É alarmante perceber que os homens de nosso país se espelham em modelos como esse, divulgados e apregoados subliminarmente pela mídia, quando 47,3% da população é negra e passa bem longe deles.[4]




Somos um país de misturas. Uma miscelânea bela de raças e biótipos, descendentes de índios, negros e uma miríade de etnias que para cá imigraram com regularidade no séc. XIX. A auto-imagem brasileira é, portanto, um paradoxo, cuja pseudo-resolução sugerida pela mídia, o consumismo, demonstra ser apenas um paliativo, tampouco sendo factível para 12,2% dos 34 milhões de jovens brasileiros – a camada mais impressionável e manipulável do mercado do país – que se encontra em condição de extrema pobreza[5].




O Orkut é apenas mais uma ferramenta virtual para confundir a carência por algo pleno e realizável que a maior parte da população brasileira traz em si. É um espaço para a propaganda muitas vezes enganosa. Mas é verdadeiramente um subterfúgio para promover o alívio de tanta tensão social, através da fantasia.
É necessário mentir a respeito de si mesmo para sobreviver, para se equiparar as outras pessoas que - ora vejam!- também mentem. Assim, o que vemos por aí é uma profusão de meias verdades sendo espalhadas indiscriminadamente em todos os lugares. Todo mundo é fake. É chique sê-lo. E, mais alarmante, ninguém acredita que os outros possam ser o que dizem ser justamente porque todos mentem que são o que são.



Comunidades como: "Temos beleza e inteligência" e "Mulheres poderosas", vendem a imagem subliminar de que seus participantes são bem sucedidos sexualmente

Este tipo de deturpação sutil da realidade tem a característica de adquirir cada vez mais traços de tangibilidade e menos ductibilidade quanto mais for pronunciada e veiculada. Uma vez dita, é mentira. Cem vezes dita, é uma dúvida. Mil vezes dita, um axioma. Como este axioma foi construído a partir de um sofisma, carece de robustez. Esta fragilidade é aferível na reação inesperada e exagerada em confrontos de trânsito que acabam em morte; ao estourar-se o limite do cartão de crédito; ao aderir-se a um vício, etc. Todos têm medo de descobrir que não são aquilo que acham que são e que, na verdade, sabem que não são. Isto é doloroso. Quando confrontado com o real, o indivíduo tende a fugir: ele faz compras, ele briga, ele mata.


Os meios de comunicação concorrem para auxiliar na empreitada. Valores pífios são veiculados da pior forma possível, a subliminar. Um dia você percebe que sua casa não é igual a da novela das 8. O seu café da manhã não está igual ao da família Becel. Seu corpo não é como o do Marcos Pasquim. Seu cabelo não é liso como o de Angelita Feijó. E sofre com isso. Vivemos em um mundo surreal, segregados dele e, como se não bastasse, ainda apoiamos a manutenção desta realidade absurda que nos marginaliza. É o expoente máximo do masoquismo. Tente sair dele. Você será ignorado. Sofrerá de certa “invisibilidade social”. É a punição da Matrix.

Inadequação – o núcleo da neurose

Parafraseando a Teoria do Espelho[6]
, somos aquilo que acreditamos ser. Porém, acreditamos ser aquilo que nos disseram que somos. Quando o ser humano nasce não reconhece a separação entre ele e o mundo. Ele é o mundo. Se o que o circunda é cruel e frio, ele assumirá que não merece viver. Crianças abandonadas, sem estímulo e afeto, adoecem e morrem. No entanto, se pais, irmãos e avós tratam o bebê com atenção e amor, ele verá este “reflexo” de si mesmo como algo positivo e digno de investimento. Então, ele decide viver.
Um dia, este mesmo bebê entende que é separado do resto do mundo. Paralelamente, as palavras passam a servir de função mediadora para garantir sua sobrevivência e, portanto, são imprescindíveis. É justamente nesta hora que o indivíduo inicia sua relação com os “rótulos”: “Nenê mau!”, “Feio!” e outras pérolas que, ao serem proferidas por aqueles que são responsáveis pelo bem-estar e segurança dele, vão produzindo imagens nas quais o indivíduo se espelha e se enxerga. É premente a sensação de inadequação, especialmente se a criança apresenta Inteligência Cinestésica bem desenvolvida[7] - muitas vezes sendo rotulada como DDA[8] com hiperatividade ou, no linguajar popular, tem “bicho carpinteiro”: “Pára quieto, menino! Que inferno!”.






Crescemos sendo inadequados. Na escola, a criança deve ficar sentada e quietinha. Em casa, deve ser boazinha, fazer a lição, ter ótimo desempenho nas avaliações, (que não medem todas as capacidades e potencialidades do indivíduo), acordar cedo, (o que é especialmente penoso para os adolescentes, em franca fase de desenvolvimento[9]
) e fazer muitas outras coisas desagradáveis e difíceis de serem executadas, quando se tem tanta energia a gastar. A cada falha, a cada derrota nestas pequenas atividades cotidianas, recebemos uma enxurrada de rótulos, críticas e comentários que estabelecem um espelho e nos ajudam a moldar nossa auto-imagem.


Porém, queremos ser aceitos. Precisamos pertencer a um grupo, fazer conexões e trocas. Assim, quanto mais forte for a sensação de inadequação construída durante todo o processo de amadurecimento do ser, mais os valores propagados pela mídia serão penetráveis na concepção de sucesso e aceitação dele. Na tentativa de suprimir a frustração por não ser aquilo que ele acredita não conseguir ser, no intuito de calar a voz interior que o rotula como incapaz e insuficiente, ele se imagina um outro ser. Constrói uma nova figura, compra, ajeita, gasta, mutila, opera. Tudo para fugir da imagem inadequada que acredita ter e do sofrimento de recear constantemente não ser aceito. Assim, por extrapolação, podemos dizer que quanto mais o nenê mamou, menos ele estará sujeito aos apelos da mídia.


Eu mamei até os 4 meses. Por favor, me adicione no seu Orkut.







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[1]
Conceito definido por Jung para descrever uma falsa imagem global e esquemática que a pessoa forma a seu próprio respeito
[2]
Livro de mensagens do Orkut.
[3]
Parte do perfil onde pode-se descrever a si próprio livremente.
[4]
IBGE, 2004
[5]
Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).
[6]
The Looking Glass Theory (Cooley, 1920)
[7]
Inteligências Múltiplas. (Gardner, 1985, Havard University) – A inteligência cinestésica é, segundo essa teoria, a habilidade de coordenação de movimentos corporais.
[8]
Distúrbio de Déficit de Atenção
[9]
O hormônio do crescimento é liberado durante o sono. Portanto, é natural que adolescentes tenham muito sono e dificuldade para acordar no horário previsto para ir à escola.



























4 comentários:

Patrícia disse...

E foi assim, de repente, com esse texto q eu me apaixonei por Rachel.. hahahhaha
Eu tinha que deixar registrado aqui também aquilo que escrevi no orkut na ocasião em que li...
"Meu, o que é você??"
Bjinhos
Paty

Skrotho disse...

Querida,

Parabéns pelo blog, tá bem legal. Os dois artigos são muito bons e demonstram apenas aquilo que seus amigos já sabem: que até nisso vc é maravilhosa.

Beijo enorme.

Anônimo disse...

Muito bacana *mesmo* seu texto!

Sueli Ramos disse...

Olá Rach...

Perfeito e instigante, como todos os seus textos. Eles são capazes de nos deixar perplexos, presos no tecer de sua construção lingüística. Parabéns!!! Beijos...