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domingo, 28 de outubro de 2007

Decisão

(x / 1995)

Como se fossem minúsculas gotículas de veneno, a ansiedade porejava pela testa, maçãs do rosto, mãos e costas. Molhava a camisa, ensopava os pensamentos. Cada gota maior que escorria pelas têmporas gretava a pele dolorosamente, fazendo tremer os tímpanos. Ou seria o soluço da consciência à iminência da explosão?

Esticou a mão, pegou um pedaço de papel higiênico do rolo que deixava em cima da escrivaninha, por causa da rinite, da alergia e dos constantes sangramentos. Não tinha muita paciência com remédios, não os tomava. A mãe continuava a comprá-los e após muitas discussões ele decidiu que seria mais vantajoso evitar estes momentos críticos. Por isso, a cada manhã suprimia do potinho exatamente o número de pílulas que deveria tomar. Não as jogava fora, porém; guardava-as nos potinhos que esvaziara anteriormente, tomando o cuidado de escondê-los bem, suspensos por fios, atrás do guarda-roupa pesado que a empregada se esmerava em não limpar. A mãe, atarefadíssima entre visitas ao cabeleireiro, manicure, aulas de pintura, sessões de análise, yoga e drenagem linfática, não havia prestado atenção ao detalhe da empregada, muito menos ao do filho.

O pai, homem de negócios influente e ocupado, abarrotado de reuniões, whiskies e secretárias, viajava muito. Havia anos que chamava o filho por um apelido carinhoso : "Filhão". Talvez nem se lembrasse do nome, pensou o garoto, enquanto assoava o nariz que sangrava. Nos últimos dois meses ele havia ganhado presentes de aniversário do pai duas vezes. Era óbvio que era a secretária quem os mandava. O que nem passou pela cabeça do adolescente, entretido que estava entre seus dilemas de consciência é que de fato a secretária enviava os presentes aos dois filhos, a ele, e aquele que o pai havia tido com a outra, e que por segurança batizara com o mesmo nome, para nunca se trair...

"Merda!" pensou Filhão, enquanto tentava estancar o sangue do nariz, que não borbotava e fervia como o do cérebro, mas também incomodava. Afinal, para quê tanto cuidado? E por que tanta indecisão?, gritava um lado da cabeça, ao que o oposto respondia, tão dolorosamente quanto seu oponente, Não faça, não faça, desista, deite, descanse.

Filhão olhou-se no espelho. Deixando cair o rolo de papel higiênico, observou cuidadosamente o filete de sangue que ameaçava escorrer do nariz. Por fim, arregaçou as mangas, tomou coragem, pegou um lápis e rabiscou num pedaço de papel com o logotipo da companhia do pai, as palavras "papai e mamãe". Deixou cair o lápis, dobrou devagarzinho o papel, quase sem forças, suspirou. Sentiu uma pontada no estômago, que parecia querer implodir a cada sinapse nova, a cada corrente de pensamento que a testa suava.

Paulatinamente um torpor começava a caracterizar o transe das decisões inadiáveis, prestes a serem tomadas. Esticou a mão, puxou o cantinho solto do carpete atrás do criado-mudo, onde escondia o "equipamento" - era assim que o chamava entre os amigos, os companheiros de baladas, de amassos nas minas, de azaração no Guarujá no fim-de-semana e de colas nas provas da facú.

O suor tornou-se frio de repente. A decisão abria caminho entre os neurônios, assumia forma tridimensional, quase tangível. Tremendo, segurou com firmeza o "equipamento". Pegou a borracha. Coração e cérebro agora trovoavam juntos, em uníssono, ritmando a sonoplastia para a marcha final da decisão. Um resquício de consciência ainda soava ao fundo, flautim indefeso perante tímpanos , trompas e fagotes: "Não faça... espere... não faça..."

Trompetes anunciando a entrada triunfal da decisão puseram, repentinamente, fim ao impasse. Papel, lápis, borracha, seringa e líquido soaram ad libitum, prestíssimo.

Foi com a indignação do pai e o desespero da mãe que a carta de despedida foi lida. Marcos Vinícius, o filhão, deixava para sempre a residência dos "pais" - assim mesmo havia escrito, entre aspas - só com a mochila nas costas. Iria à procura de um lugar onde a vida valesse a pena ser vivida, onde pudesse escrever suas estórias livremente, sem a obrigação da Engenharia, das broncas do pai, que não queria um filho escritor, das formalidades da sociedade, "e onde lembrem meu nome de verdade". "Não se preocupem comigo", acrescentava, "sei que sou diabético e vou continuar me cuidando. Beijo. Falou.”

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