(publicado em ago/2004 na revista do CEPEGE - IGC/USP)
“Esqueci a palavra que pretendia dizer, e meu pensamento, privado de sua substância, volta ao mundo das sombras”
O. Mandelstam.
Segunda-feira, sete horas da manhã. A academia lotada de “bombados”, soterrados por anilhas e halteres, ávidos por iniciar logo seus intermináveis treinos de hipertrofia, antes que as mães, tendo deixado seus filhos na escola, inutilizem por completo o ambiente, treinando o músculo mais solicitado da anatomia feminina, o “linguíceps”. Ninguém conversa. Reinam gemidos de esforço, permeados pela voz monótona do instrutor, ensinando movimentos de alongamento para uma aluna nova - mais uma daquelas que, acossadas pelo frenesi social que impõe peitos siliconados e condena sinapses mais elaboradas, inicia exercícios pela enésima vez, em busca do corpo perfeito.
Era justamente neste ambiente que me encontrava, há alguns dias, amaldiçoando meu instrutor, a sociedade e a minha genética pouco condizente com as normas estéticas vigentes, a cada supersérie de bíceps. Alguém havia ligado o rádio, em substituição ao tilintar das anilhas. A música tocava baixinho, enquanto eu contava, compenetrada, as 20 repetições que invariavelmente acabariam no número 17. Com a chegada das primeiras tagarelas, alguma boa alma aumentou o volume do rádio. E qual não foi a minha surpresa, ao escutar, enquanto sofria eu mesma num drop-set de tríceps, os berros de um cantor que, não contente em se vangloriar de não saber fazer poesia, ainda utilizava ad libitum palavras de baixo calão, transmitidas livremente pela emissora. A principio, não pude acreditar no que ouvia. Estanquei, indignada, minha torrente de repetições, e tentei entender o que a letra dizia: “eu não sei fazer poesia, mas que se f***!”
Charlie Brown Jr. que me perdoe, mas não aceito isso. Não posso ser conivente com a idéia de que as pessoas que detêm a preferência da mídia e o livre trânsito entre crianças, pré-adolescentes e jovens, presenteiem-nos com tão chulas palavras e tão parco raciocínio. Ao bradar que não sabe fazer poesia, o mocinho somente reafirma o que parece ser um dos mais alarmantes males de nossa sociedade: a supervalorização de formas físicas e símbolos sexuais em detrimento da intelectualidade e do domínio da língua portuguesa. Solanges e Tiriricas da vez inundam os meios de comunicação. Pais despreparados alimentam intelectualmente seus filhos com a telinha azul. E somos vilipendiados em nossa inteligência, incessantemente, com Florentinas, Bondes do Tigrão, Danças da mãozinha, da bundinha, da garrrafinha...
Sendo, eu mesma, um daqueles “infelizes” seres que não se encontra em μ+ 3 σ da gaussiana do corpo mais-que-perfeito, e cujo saldo bancário decresce exponencialmente nos primeiros 5 dias do mês (sou professora), aniquilando quaisquer intenções mais ousadas no território da remediação estética (leia-se um daqueles “eletrosuperquelquercoisaquelevantaoderrière-ation”) pergunto-me incessantemente o que farei dos ensinamentos que recebi na infância, os quais ditavam que, se eu quisesse ser alguém na vida, deveria estudar muito. Mamãe me perdoe... Mas não teria sido melhor se tivesse me ensinado a rebolar e dançar o “tchan”, em lugar dos “tesouros que a traça não há de roer?” Os credores roem meu limite de crédito, os juros do banco roem meu estômago e, ultimamente, sinto dizer, brincar com o gato de Schrödinger não tem aliviado muito meu stress...
O gato de Schrödinger é uma figura hipotética usada para ilustrar, através de um Gedanken Experiment, uma questão da Física Quântica: quando um sistema pára de existir como uma mistura de sistemas e se torna somente um ou outro?
Contundente não é, porém, somente a constatação de que meus paradigmas de infância não são mais vigentes. Ainda há muito que se deplorar neste panorama. Por exemplo, o uso da linguagem por nossos adolescentes e jovens, que deixa a desejar em conteúdo e forma. A semântica de expressões belíssimas, consagradas pelos melhores escritores de nossa literatura deram lugar, paulatinamente, a gírias que muito pouco dizem. O bagulho é doce, mas não é mole, eu sei, mas bem que os mano poderiam dar área ou aprender o Português. A linguagem, como mediadora do pensamento humano, se torna ferramenta indispensável na manutenção da realidade do “ser”.
Lev Vigotski, lingüista russo, afirma em seu Pensamento e Linguagem que ambos não apresentam um elo primário. “Ao longo da evolução do pensamento e da fala, tem início uma conexão entre estes, que depois se modifica e se desenvolve”.Não posso deixar de rir, quando penso nas letras das músicas que estão em moda, especialmente se analisadas à luz de Vigotski: poderiam, com certa benevolência, serem classificadas como pueris e inocentes, carecendo de maturidade semântica e sintática, que somente ocorre na fase adulta do ser humano. Vigotski pondera que o significado das palavras evolui. Modifica-se à medida que a criança se desenvolve e também de acordo com as várias formas pelas quais o pensamento funciona. Ora, “se os significados das palavras se alteram em sua natureza intrínseca, então a relação entre o pensamento e a palavra também se modifica”.
Tomemos como exemplo uma criança. Seu pensamento surge como indistinto e amorfo e acaba por ser expresso em uma única palavra (fome, mamãe, etc). À medida que seu pensamento se torna mais organizado e complexo, a necessidade de mais palavras para expressá-lo surge, apesar de, como afirma o linguista russo, a estrutura da fala não ser um mero reflexo do pensamento. Ainda que, segundo Chomsky, nasçamos com estruturas gramaticais pré-definidas em nosso cérebro (gramática gerativista), há que se dispor de um mediador para a aquisição da linguagem, sendo este uma pessoa (pai, mãe, professor) ou um instrumento (livro, por exemplo).
O comportamento linguístico também é uma parte do conjunto de modelos sociais de conduta que caracterizam os grupos humanos, e desenvolvemos a utilização da linguagem de acordo com princípios estabelecidos pelo meio. Assim sendo, a linguagem passa a ser um instrumento de identificação de origem e posição sociais, e não posso me furtar a aceitar que nosso Carlinhos o faça muito bem, demostrando, através da pobreza de suas letras, que é somente mais um jovem comum da sociedade brasileira...

Avram Noam Chomsky , linguista do MIT (EUA), o pai da gramática gerativista, escritor, ativista político e filósofo.
O que se mostra alarmante é que estas letras acabem funcionando como intrumento de mediação para o resto dos adolescentes. O sucesso que tais músicas fazem denota o alcance cultural das mensagens paupérrimas que, subliminarmente, promovem apologia à falta de profundidade de raciocínio e argumentação. Enfim, a molecada não pensa, porque não possui palavras para delinear idéias. O universo do pensamento restrito a expressões chulas e vocabulário limitado cerceia a expressão intelectual. Não pensam, porque não podem pensar. Assim como não se toma sopa com garfo, como pensaremos livremente sem a amplitude do domínio da língua?

Muitos jovens têm o pensamento cerceado pela falta de domínio da língua.
Ora, se é através das palavras que organizamos o pensamento, e se, de acordo com Descartes, somente existo se penso, então... quantos de nós realmente existimos? Qual a proporção de seres humanos que, ao negarem, ou serem negados no mundo onde a palavra reina soberana e o conhecimento é transmitido através da linguagem, e somente dela, sucumbem à espada social, microrganismos raspando os restos aqui e ali em “subsetores” econômicos e, em última instância, pairando à beira do que chamamos sociedade mas que, de qualidade do social nada apresenta? Nada há de ser mais desumano do que não ser humano.
Pensar complexamente, produzindo uma sequência encadeada de idéias coerentes, só é possível com o domínio das palavras.
Andre Martinet (Elementos de Linguística Geral – École Pratique des Hautes Études, França), ressalta que a função essencial da linguagem é a comunicação, a compreensão mútua de dois ou mais indivíduos que falam a mesma língua. No entanto, a linguagem ainda exerce outras funções, sendo a mais importante, o suporte ao pensamento (análise que compete à Psicologia) e tal atividade (o pensamento) simplesmente não ocorreria sem aquela outra (a linguagem). Ainda, o ser humano utiliza a palavra para se exprimir, ou seja, “para analisar o que sente, sem se preocupar grandemente com as reações de eventuais ouvintes, e assim encontra ao mesmo tempo um processo de se afirmar aos seus olhos e aos dos outros, sem pretensões de comunicar o que quer que seja”. Nesse aspecto, tenho que admitir que Charlie Brown Jr. talvez esteja apenas tentando expressar seu desgosto em relação aos contrastes entre as classes sociais, em cujo caso, a afirmação de que “não usa sapatos” (na mesma música), denotaria o desprezo pela cultura do consumismo. Martinet adiciona à linguagem também uma função estética, e neste caso, não estaria o nosso supracitado cantor deixando um pouco a desejar?
Citando Ferreira Gullar, “a poesia é uma aventura, como o amor, a luta. Palavras inesperadas, que estavam coladas em uma parte de você, se desprendem e se tornam acessíveis. Vivências que estão guardadas despertam”. Carlinhos, meu querido, e demais jovens, sejamos seres humanos. Colecionemos vivências e expressemo-nos através da língua Portuguesa com propriedade, mesmo que, devido às desventuras do cotidiano e aos panoramas econômico e políticos vigentes, não nos sobre muita vontade de fazer poesia!



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