A menina andava sem rumo pela rua enquanto os pensamentos corriam lépidos quais formiguinhas virtuais, carregando o precioso fardo da consciência: o Arrependimento. Todo o ambiente legava um tanto de Amargura, frente às convicções que se aprumavam, soldadinhos em vistoria, enquanto a Memória passava em revista tudo o que lhes acontecera. Ela nunca mais esqueceria os ontens e anteontens culminando em Tristeza.
"Sem remédio e sem juízo!" - a menina ouviu a Memória sentenciando o Futuro e o Comportamento. Assim fazendo, trouxe de volta o Presente, sempre insidioso, sempre tão traiçoeiro, a armar ciladas e jogando, depois, a culpa no Passado. Pois é assim que é! O Futuro inventa, o Presente apronta e o Passado carrega a culpa... Todos os três irmãos a malabarizar dentro de nós.
Lembrou-se perfeitamente do dia em que, ensolarada, resolvera caminhar sozinha pelas mesmas alamedas daquele bairro, um tanto longe de sua casa. Enfiou-se em um vestido de seda curtinho e leve, que deixava transparecer o verão dentro de si, calçou sandálias e saiu. Pelo caminho foi observando o dossel de folhas que se estendia sobre sua cabeça avoada e o tapete de flores amarelas e roxas na calçada. O céu azul, amigo dos raios de sol, penetrava por entre as copas das árvores e a fazia sentir-se suspensa nas asas da Felicidade.
Da outra ponta da rua, vinha o menino, absorto na Imaginação, caminhando na mesma calçada. Jovem e feliz, dentro da camiseta e da calça jeans, parecia estar tão solto quanto preso havia ficado, no exato momento em que o notara, o coração da menina, encarregado pela Ansiedade de pular e bater desesperadamente, tentando sofregar a respiração dela.
A Criatividade fez com que a Menina parasse bem no meio do caminho dele, olhando para o chão, como se procurasse algo. Era verdade que precisava da Coragem, mas esta não anda rastejando, ora essa! Sorte da Menina que a Coragem ainda pairava no ar, bem pertinho, tão perto a ponto de ouvir a Criatividade a clamar, desesperada, sua ajuda. A Coragem assomou ao estômago da Menina bem na hora em que o Menino chegou:
-Oi, ta procurando alguma coisa?
-É... meu brinco... perdi... – a Coragem e a Criatividade, lépidas, empurraram a Alegria para a boca da Menina, que sorriu, enquanto a Vergonha lhe corava as bochechas por simples e espontânea vontade.
-Qual brinco? Ahn... Você está com os dois... – a Percepção tentava desesperadamente chegar à cabeça do Menino, mas encontrou o caminho bloqueado pelos Hormônios alucinados e baderneiros, que não quiseram lhe dar passagem. Tentou o caminho pelo nervo óptico, mas o Deslumbramento já havia ocupado o lugar. Resignada, ficou esperando por uma oportunidade, parada no céu da boca dele, enquanto Menino e Menina se olhavam como se fossem velhos amigos.
- Ah, eu achei que tinha perdido! Que susto! – a Ansiedade pulava no coração dela, fazendo com que ele balançasse no peito, tão forte, tão forte, que até o estômago fechou a boca para não deixá-lo entrar.
O Instinto de Preservação do Menino, percebendo a situação constrangedora que emergiria em segundos, resolveu a questão: correu ao sistema nervoso simpático e convenceu a Iniciativa a empurrar as palavras para fora da boca do Menino. Perdendo o Equilíbrio, saíram todas desajeitadas e fora de ordem, reclamando muito e quase gritando:
-Tá calor, né? Você mora por aqui? Vamos tomar um sorvete?
A Coragem, lépida, correu para a língua da menina e, junto com a Segurança, fê-la dizer:
-Legal!
A esse sorvete seguiram-se muitos outros. Criatividade e Coragem se ufanavam de terem conseguido juntar o Menino e a Menina, o casal perfeito. A Convivência se encarregou de empurrar a Paixão, sempre serelepe, para um cantinho qualquer do coração e convidou o Amor para tomar conta do local e o Respeito, para habitar as cabeças dos dois. Por conta disso, O Menino e a Menina começaram a namorar. Ela carregava a Alegria e a Doçura nos olhos, no sorriso e no jeitinho faceiro. Ele trazia a Responsabilidade nas atitudes, o Carinho nas palavras e a Proteção nos gestos cuidadosos.
Menino e Menina viveriam felizes para sempre, se não fosse uma rixa antiga entra a Coragem e a Insegurança. Acontece que ambas vêm brigando desde os primórdios da Humanidade, uma constantemente impedindo a outra de se contentar no controle das atitudes dos Homens. E foi assim que um dia, vendo a Coragem tagarelar com a Auto-Estima e a Felicidade, animadamente, sobre como havia unido forças com a Criatividade, para juntar o Menino e a Menina, resolveu a rival aproveitar o ensejo para se vingar.
“Contendas antigas requerem revanches apropriadas”, pensou a Insegurança. Correu, então, a se mancomunar com a Indiferença e o Ciúme, certa de que seriam aliados competentíssimos para a empreitada. E eles realmente o eram! Confabularam por algum tempo, deliberaram, votaram e escreveram. Definiram os papéis de cada um. E partiram para o ataque.
A Indiferença assomou ao coração do Menino. Fez com que a Gentileza ficasse estacionada na faringe, sem conseguir atingir a língua. Bem que o diafragma tentou, algumas vezes, expelir a Gentileza com força, mas ela subia até o palato mole e lá encontrava pendurada a Frieza, que a empurrava de volta para baixo. Enquanto isso, desempenhando seu papel no emboscada, o Ciúme, instalado confortavelmente no ouvido da Menina, apoiava os pés no estribo e fingia ora cavalgar, gritando sugestões malévolas, ora martelar na bigorna, fazendo-se presente e notado a toda hora.
Não foi preciso muito tempo para que a Distância conseguisse, finalmente, colocar entre ambos seu corpo molengo, obeso e denso. Menino e Menina, acossados pela Indiferença e pela Mágoa, que se juntara ao grupo por nunca entrar em acordo com a Felicidade, quase não se falavam. Algumas semanas depois, resolveram terminar o Compromisso que, amuado, saiu chorando, sendo consolado pelo Reconhecimento. O amigo batia carinhosamente no ombro do colega derrotado e cabisbaixo, dizendo: “Não fique assim, você bem que tentou, fez a sua parte!”
O menino retomou sua Vida de menino adolescente. Voltou a freqüentar as festas e a beber muito nelas para tentar calar a Saudade. A menina trancou-se em seu quarto, escrevendo poesias para dar vazão à Tristeza. Estavam reduzidos a menino e menina, sem paixão, felicidade, amor e coragem. E esta estória pararia por aqui, se não fosse a Incerteza.
Sim, a Incerteza, muito incerta de tudo, havia sido esquecida por todos, inclusive pela Indiferença, que bailava cinicamente na frente da Coragem e da Criatividade, quando deu a vingança por consumada. O Compromisso, vendo a cena, partiu para a briga com a Mágoa. O Ciúme ria desvairadamente até ser calado pela Frieza, que chamou a atenção para o tamanho do Amor, vindo na direção deles com cara de poucos amigos. No meio daquela confusão, a Incerteza vagava sem rumo e foi parar inadvertidamente no coração da menina, expulsando a Tristeza, que, não tendo para onde ir e receando o qüiproquó lá fora, correu a se esconder no coração do menino, certa de que lá ninguém a acharia.
O menino, como se acordasse de um sono profundo, estranhando o coração premido pela Tristeza, resolveu andar um pouco pela vizinhança, para espairecer. A menina, não sabendo ao certo o que fazer, saiu do quarto, deu voltas pela casa, abriu a porta da geladeira algumas vezes e ficou delineando a comida com os olhos, enquanto cérebro delineava o Vazio. Voltou para o quarto, olhou, olhou... Voltou para a sala. Notando que Tristeza se fôra e percebendo que o Arrependimento e a Amargura, irmãos siameses, brincavam de bate-bate nas paredes da cabeça, quis sair também.
Foi justamente neste ponto que começamos a nossa estória e é precisamente aqui que ela começa a se resolver, porque se não houvesse resolução eu mesma não a inventaria, temendo que a Fantasia viesse cobrar sua comissão por emprestar-me seu lápis furta-cor e seu papel multi-dimensional.
Enquanto a rusga corria solta entre Rancor, Mágoa, Indiferença, Paixão e Amor, menino e menina vagavam pela rua, sendo vigiados por um par de olhos meigos, de alguém que escapara sorrateiramente da confusão. Os dois, de tanto andar à procura da Solução, acabaram se encontrando. É claro que o Destino fez sua parte, por dever há muito um favor à dona dos olhos meigos. Quando a menina pensava tocar a Solução, eis que o Destino soprava mais forte, um sopro de Dúvida, fazendo com que as mãos da menina continuassem vazias. O menino, por sua vez, pulava, tentando abocanhar a Solução, mas o Destino içava a cordinha pela qual aquela vinha suspensa, como se fôra uma piñata. A Solução, cansada de correr para cá e para lá, pular e dar cambalhoras a mando do Destino, já estava completamente esbaforida quando menino e menina se perceberam na mesma calçada, no mesmo caminho, na mesma Vida.
Fez-se silêncio. Até os passarinhos pararam de cantar naquela tarde ensolarada. A Vergonha correu novamente para as bochechas da menina, como no primeiro dia. A Tristeza, que até então estava confortavelmente instalada no coração do menino, percebendo que algo no plano dera errado, fugiu espavorida. A Coragem e a Criatividade, ocupadas tentando neutralizar as múltiplas garras do Rancor, não entenderam quando a Insegurança gritou:
-Não, isso não pode acontecer!!
Mas era tarde demais. A Incerteza, sempre muito incerta do que fazer, rindo muito e achando o desenrolar dos fatos algo inusitado, havia cutucado a Memória, que, percebendo a deixa, abandonara a briga e correra para perto dos dois, auxiliada pela dona dos olhos meigos. O menino lembrou-se da Menina e de como ela trazia a Doçura nos olhos. A menina viu o Menino e desejou o Carinho que sempre abrigava nas mãos. Coragem e Criatividade, vendo a cena, largaram o Rancor, que caiu no chão e fugiu rastejando mais do que depressa e quiseram se aproximar, mas a dona dos olhos meigos foi decidida:
- Deixem isso comigo.
Menino e Menina agora estavam frente a frente e se olhavam, sem dizer nada.
A dona dos olhos meigos convocou a Felicidade a tomar a dianteira do Menino. Então, ele piscou um olho e a Menina sorriu-lhe, feliz. A Vida parecia, ali, naquele momento, um pedacinho de chocolate a derreter, devagarzinho, nas bocas dos dois. Ele se aproximou com as mãos nos bolsos, segurando o Nada, acariciando a Ansiedade. Ela passou a mão nos cabelos tencionando ajeitá-los. Não conseguiu: uma mecha insistia em permanecer sobre um dos olhos, tapando a vista. Dava-lhe, com isso, um ar tão maroto, tão feminino, tão familiar!
Tirando as mãos dos bolsos - deixava de lado a Ansiedade, indo de encontro à Iniciativa - ele domou a mecha rebelde dos cabelos dela. A Ansiedade, sentindo-se traída e desprezada pelo menino, correu às mãos que a garota, nervosa, retorcia, mas achou o lugar muito desconfortável. Alojou-se, enfim, nos olhos de ambos, bem na hora em que a menina abria um sorriso dourado. Beijaram-se. O dourado do sorriso se espalhou. Impregnou, invasivo, o dia, o sol e até mesmo a lágrima discreta que umedecia o olhar dele.
A dona dos olhos meigos esfregou a mãos, satisfeita, enquanto Paixão, Felicidade e Cumplicidade batiam palmas e congratulavam a amiga.
-Não falei para deixar comigo? Trabalho feito!! – disse, orgulhosa, a Reconciliação.
2 comentários:
Rach, este texto é, de longe, o mais bonito que li nos últimos anos.
Espero que o menino e a menina vençam a Mágoa, a Tristeza, a Indiferença e tantos outros sentimentos ruins que às vezes assolam nossa mente e permeiam o coração.
Beijo enorme para vc.
Muuuito fofo e muito bem escrito, como sempre !!
=)
Postar um comentário