segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Surpresa

(out/1993)

Hoje fui pega de surpresa
por teus olhos que
sem descanso, brilhavam.
Teu sorriso, tão doce,
lembrava o pôr-do-sol
dos apaixonados...
Teus olhos e teu sorriso
me pegaram de surpresa.

Havia algo no ar, hoje.

Nossas palavras, minhas
próprias palavras me
encabularam.
Havia um rubor
que vagava por meu rosto
sem que eu percebesse.
Minhas palavras, meu rubor.
Ambos me pegaram de surpresa.

Foi tudo diferente, hoje!

Senti meus lábios
tremendo-
carência quase insana
de beijos.
Meu corpo estremeceu,
febril, com a tua presença.
Ambos meus lábios e a febre
me pegaram de surpresa.

Estava tudo tão insano hoje!!

Louca que fui
de não perceber o que
era óbvio.
Não foram teus olhos ou
teu sorriso,
ou minhas palavras febris
ou meus lábios rubros
que me pegaram de surpresa.

Houve tanta confusão hoje!!

Foi quando te vi
indo embora
sem levar sorriso, olhos,
febre, palavra ou lábios
é que entendi.
Você levava algo além.
E toda essa loucura que sinto por você
me pegou de surpresa.

Há bagunça dentro de mim, hoje.

Sinestesia

(set/93)
Teus olhos são surdos.
Teu tato, indiferente,
não vê as nuances de sorriso,
tampouco a brisa ingênua
que tolhe as palavras.
Tua boca é cega
e teus ouvidos, inertes,
não aspiram o aroma
dos amores divertidos,
dos gestos róseos de pôr-de-sol.
Em vão suspiros madrepérolas
atingem tua pele insensível.
Não vês razão no sabor macio
das ousadias que te rodeiam.
Nada te faz sentido
e ficas parado aí,
feito noite de verão suspensa no ar,
céu de namorados sem estrelas,
gota de licor sem textura.
Assumes o papel de idéia inacabada
e pendes, inerte,
por um fio de desconfiança....
És tão inabalável!
Não queres tu ensinar-me a ser assim?
Pudera eu tornar-me insensível
a tudo isto que me inspiras!

domingo, 4 de novembro de 2007

Domingo: um ensaio biológico pretensioso

Como descobri que a vida não valia a pena

(ago/1995)


Hoje é domingo. "Pé de cachimbo" ou "pede cachimbo"? Sei lá, nunca alguém soube explicar-me direito o que isso queria dizer. Duvido, porém, da segunda opção, cuja veracidade transformar-nos-ia, crianças, entretidas com a quadrinha, a atormentar repetidamente os mais velhos, em passivos coniventes com o péssimo hábito.

De qualquer forma, isso não muda o fato e hoje continua a ser domingo, dia em que acordamos cedo (para ir à missa ou à piscina - muuuuuuito cedo mesmo e assim prevenirmo-nos do causticante sol brasileiro) ou muito tarde. Sendo assim, o resto do dia torna-se facilmente preenchível com um bom almoço glutônico, com ou sem família, mas sempre com o refrigerante daquela famosa marca, em vasilhame tamanho família. Torna-se preciso esclarecer que eu disse "glutônico" acima e não "plutônico", em cujo caso o leitor encara um dilema de interpretação, podendo identificar-se com uma das duas hipóteses, a seguir: como acontece à quase totalidade dos jovens universitários, senhores descasados e donas-de-casa relapsas - tipo este em alarmante crescimento, apesar da proliferação de programas de TV vespertinos dedicados à manutenção desta tão laboriosa profissão - ao abrirem a geladeira e

1) depararem-se com restos de comida que não fariam jus sequer à refeição do cachorro de Walt Disney; ou

2) acreditarem que a possibilidade de haver algum vestígio comestível é tão remota quanto o último planeta de nosso sistema.

Esclarecida esta pequena confusão momentânea, voltemos ao domingo, dia em que, vencidos, optamos ao final pelo frango assado com farofa, ou pelo churrasquinho com cerveja.

Findo o almoço, seja lá de que natureza tenha sido, quase sempre retiramo-nos da mesa colocando em dúvida a perícia e o conhecimento dos taxonomistas mais famosos da história: somos homo sapiens ou boa constrictor? Talvez na época em que Darwin estabeleceu nossas ligações com longínquos antepassados, não houvesse frangos de "televisão canina" na padaria da esquina, muito menos refrigerantes tamanhos família, que, em associação físico-química com a farofa, nos classificariam mais próximos da temível jibóia do que de qualquer mamífero. Levando-se em consideração que constantemente somos compelidos pelo nicho ecológico ao qual pertencemos a apertar, sufocar, torcer e retorcer, enfim, asfixiar nosso suado dinheirinho mínimo, tal qual a jibóia, a fim de sobrevivermos em tão árido ambiente, começo a considerar a hipótese de que Darwin não sabia absolutamente nada de Biologia. Eu é que sei. E de agora em diante, considero registrada, aqui, nestas linhas, em princípio dedicadas à exaltação do glorioso dia de descanso, a minha nova ciência: a Taxonomia Social. E viva o frango assado!

A digestão processar-se-á lentamente, enquanto os últimos glóbulos sanguíneos que restam ociosos, livres do árduo labor que é a digestão dominical, tentam desvairadamente levar algum oxigênio ao cérebro, para que este possa comandar o único membro verdadeiramente indispensável ao nosso corpo, o dedão. Sem ele, inútil tornar-se-ia o esforço de Vento e Vácuo, os dois neurônios disponíveis para a tarefa de comandar o controle remoto, esta peça básica do mobiliário doméstico, verdadeiro item do lazer humano. Não, por favor, não tentem me corrigir, pois já refleti muito sobre o assunto e concluí que a televisão nada seria, sem a existência do controle remoto. Jogam-se fora a mesa de centro, o carpete, o aparelho de som, o sofá e até a televisão! Mas o controle remoto fica!! Contudo, a confusão torna-se iminente se os territórios de cada um dos entes familiares não estiverem previamente definidos e a posse desse astro da sala-de-estar legalmente estabelecido, pois dependerá da perícia técnica do comandante o sucesso da empreitada televisiva.

Conforme a tarde avança em direção ao ocaso, suamos intermitentemente e provamos, a cada nova posição corporal, a existência do atrito estático e do dinâmico entre as superfícies de contato dos dois pontos materiais: o sofá de plástico e o nosso epitélio. Não posso deixar de citar a grande criatividade que nos assoma, quando destas ocasiões, que deixaria "no chinelo" de dedo os mais afamados iogues de todos os tempos: sentados, quase sem poder respirar, processando a digestão; levemente inclinados, lutando contra o peso do sono que pede a sesta (ou será da consciência?); dormitando, a cabeça pendendo para cima e para baixo, tal qual um headbanger; finalmente horizontalizados, uma perna para cima, a outra jogada de lado, babando. Que grande performance! Que flexibilidade! Embalada por harmonioso balé de canais de TV, roncos, pegadinhas e banheiras, a tarde se esvai...

O pôr-do-sol há muito se foi, mas ninguém percebeu as nuances maravilhosas de púrpura, rosa e lilás refletindo nas nuvens, depois um leve flash verde e por fim o azul, escurecendo, escurecendo, tornando a Lua, nossa amiga redonda e pálida, bacante de um quadro arcadista, boiando na imensidão celeste, tal qual uma pastilha de antiácido. Ao invés disso, a voz do apresentador das video-cassetadas vai se tornando mais próxima, mais distinta, mais forte ... e acordamos.

Limpando a baba e recobrando a consciência, sorvemos mais um copo do líquido também usado para desentupir privadas. A visão volta ao normal e é preenchida rapidamente por glúteos e pernas e seios e mais glúteos, numa profusão de carnes e músculos e pagode e suor... Os músculos do dedão, um tanto retesados, pois Vento e Vácuo haviam sido chamados para ajudar a comandar o socorro das microvilosidades intestinais, violentadas pela quantidade de gordura recebida, são requisitados novamente para um segundo round. Enlouquecido, o dedão pressiona numa velocidade cada vez maior os botões dos canais na procura insana, demenciada, de algo mais concreto para nossas bases filosóficas. A velocidade com que se exercita só não chega a ser quântica porque antes mesmo de atingí-la nosso espaço já perdeu as arestas e o tempo parece algo muito, muito subliminar. Afinal, quando foi que 5 horas couberam em uma?!

Exaurido, o dedão desiste e opta por alternar 5 segundos neste canal e 5 no outro, bem na hora em que o estômago recosta em algum canto do organismo, alegre por ter conseguido terminar a digestão. Os esquadrões de proteinases e lipases se abraçam euforicamente no duodeno, gritando "hurras" de júbilo por terem vencido mais este desafio. Nunca uma equipe de componentes tão diversos trabalhou tão bem em conjunto! Nunca houvera desafio tão grande a ser vencido! "Comer a pele do frango, que idéia mais besta", comenta uma base nitrogenada, ao que uma enzima inteira, em uníssono responde "isso, não foi nada, pior foi a pururuca antes!". "Vamos, vamos! Cada um pro seu lugar, a festa acabou, até semana que vem!" concluem a balbúrdia, as microvilosidades, tão hospitaleiras quanto o bispo daquela igreja famosa, recebendo os demônios incorporados nos fiéis.

Porém, é chegada a hora de consultar o forno em busca de sobras para saciar aquela fome que só a ociosidade árdua sabe causar e, no caso de nos depararmos com o vácuo, recorrermos ao duo microondas-pipoca. Alguém que possua um indicador ainda funcionando, (depois da hegemonia dos dedões nos remotos, os indicadores, destituídos de quaisquer outras tarefas, se incumbiram, por conta própria, de apontar os defeitos alheios) pode usá-lo, em casos isolados, para discar para um serviço de entrega de comida.

O fato é que não importa muito o que se ingira a essa altura do campeonato, ou melhor, do domingo, pois o organismo não vai digerir mesmo! Deixará a comida passar sem resistência ou mandará tudo pra fora, com boa vontade e resolução tão fortes quanto a dos regimes de segunda-feira, enquanto o passivo espectador, ainda segurando o controle remoto e olhando fixamente para a tela da TV, vendo a platéia ganhar dinheiro, raciocina - se é que isso é possível- se deveria ou não comer mais um pedaço da pizza de calabresa.

Sair de baixo da luz da sala e ir para baixo do chuveiro, é a isso que nos conclamam as reminiscências recônditas dos ensinamentos maternos. Fá-lo-emos com felicidade, já que a hora de ir para a cama se achega. É com um calafrio de prazer que a água morna, tépida, escorre por nossas costas, enquanto lembramos das delícias conjugais que nos esperam, antes da última noite de sono que precede o bater do cartão. Afinal, o que poderia ser mais gostoso, mais prazeroso, mais deleitoso do que deitar na cama com a esposa, abraçá-la carinhosamente e até com uma pitada de lascívia...

... e deleitar-se com o debate da última fase do Brasileirão?!

sábado, 3 de novembro de 2007

Obsessão

(abril/1994)


Ela não precisava de um motivo para começar. Bastava estar viva. O impulso, latente, transportava-a a uma outra realidade, onde se sentia angustiada. A vontade tornava-se insuportável, sugando a resistência que um resquício de razão, ainda que tênue, lutava para sobrepor a tudo.

Pensamentos de onipotência começavam a surgir. Queria e podia. Queria e faria! Mas a razão, num esforço sobre humano, ainda controlava pernas e braços, deixando-os inertes e desobedientes aos comandos dela. Exasperada, sentia a pressão sanguínea subir, veias e artérias inchando nas mãos, têmporas e pescoço. O coração, acelerado pela descarga de adrenalina, batia descompassado. Estava ofegante.

Lágrimas agora invadiam seus olhos e transbordavam, inundando o rosto e seu desespero. À lembrança das vezes em que se deixara levar pela vontade, sua garganta escancarou-se num grito de dor excruciante. Não! Não poderia deixar-se vencer! Tinha que ser racional e controlar-se, antes que o arrependimento, pontual e inexorável, viesse cumprir sua tarefa diária, roubando-lhe sono.

Parou. Respirou fundo, enxugou as lágrimas e tentou mover-se. A razão, sorridente, livrou-a das correntes que prendiam os braços e as pernas. O ar pareceu respirável e a noite, um berço atraente. Sorria.

E foi com um suspiro de alívio e resignação que a moça, mais calma, fechou devagarzinho a porta da geladeira.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Offline

Ben ainda estava online, mas ausente, quando Carol olhou pela última vez sua lista de contatos do msn. Eram três e meia da manhã de uma sexta-feira. Ficou admirando os nomes, pensando se devia ou não tomar a providência que sua cabeça ordenava: ignorá-lo, bloqueá-lo, excluí-lo. Qualquer uma das possibilidades fazia o coração apertar. Pensar em ficar sem falar com ele, sem o seu bom dia alegre quando ligava o computador, sem as piadas que faziam-na abafar o riso para que a supervisora não percebesse que ela se ocupava com algo além do cotidiano do escritório... ah, isso seria muito difícil. Havia contas a pagar, planilhas a fazer, emails a responder, transformando a vida daquela moça criativa em um caldo insosso de tododia. E havia Ben, em algum outro lugar da cidade, digitando um mundo recheado de novidades e divertimentos que a faziam sonhar. Abrir mão de tudo aquilo parecia ser algo pesado demais. Mas era chegada a hora de lidar com a dor que ela sentia. Ela realmente não conseguia discernir qual seria a pior: a dor da saudade ou a do sentimento não correspondido.

Havia muitos meses que outro relacionamento mal-sucedido tolhera sua coragem de se aventurar socialmente e passara a se refugiar no mundo virtual, onde conseguia ser eloqüente e segura de si. Carol suspirou. Olhando fixamente para o nome dele, não via mais as letras, agora borradas, mas sim o dia em que se conheceram, através de um site de relacionamentos. Por pouco não sentiu novamente, com a mesma intensidade, admiração e o susto que tivera com as frases atiladas e a verve feroz e arrebatadora dele. Pela primeira vez em muito tempo, alguém a fazia “calar”, tornando os músculos das suas mãos tesos, sem saberem direito o que deviam digitar. Ben havia conseguido o quase impossível: fazer a Carol ficar quieta, pensativa e retraída. A cada frase que ele digitava, uma série de indagações assomavam a cabeça e a imaginação dela.

A dúvida era tão forte e a curiosidade, tão persistente, que ela não titubeou em aceitar o convite para almoçar, alguns dias depois. Ela já havia visto fotos dele, estrangeiro, alto, bonito, mas quando ele chegou, atrasado, quase saltando pela janela do táxi, enfiado no jeans claro e na camiseta vermelha com dizeres engraçados, ela se assustou com o turbilhão de informações que transitaram na sua intranet, verdadeiro furor de downloads de hormônios e sensações correndo por todos os terminais do seu organismo. “Um moleque”, ela diria mais tarde, à amiga e confidente da Ouvidoria, “um garotinho de 12 anos ligado no 220. Simplesmente adorável!”.

Sentindo uma pontada no peito, os nomes dos contatos voltaram a ficar nítidos na visão dela, enquanto tomava consciência do sentimento que recrudescia quando lembrava de cada detalhe dos encontros que tiveram. Ben ainda estava online. Carol clicou em cima do nome dele com o botão direito do mouse e observou, por alguns segundo, a opção “bloquear contato”. Tentou imaginar como seria um dia de trabalho sem os comentários dele sobre as músicas que ela ouvia. Pensou no que faria se não falasse mais com aquele que fazia trocadilhos engraçados com seu subnick a toda hora.

“Talvez não seja tão difícil, já passei por coisas piores e superei”, pensou. “Afinal, sou uma mulher ou uma ameba?”, brincou consigo mesma, tentando sorrir. Mas a dor continuava lá, inflexível, tornando espásticos os músculos da face dela. Uma atitude se fazia necessária e ela sabia bem qual era. Porém, quanto mais consciente ficava da única saída que existia, mais a coragem enfraquecia, afinava qual corda que vai desfiando ao sofrer uma grande tração, os cordõezinhos que lhe emprestam a robustez se rompendo, devagarzinho, fazendo o coração de Carol bater descompassado sob o efeito da adrenalina, à iminência da queda no vazio da incerteza.

Ela já havia apagado o número dele da memória do celular e do chip. Já havia se livrado das fotos que salvara no desktop e deletado o único email tão simpático que ele havia enviado, numa brincadeira. Excluíra o histórico do msn para não ceder à tentação de ler as conversas e livrara-se dos cookies, para tornar mais difícil o carregamento da página do blog dele. Porém, nada disso fez efeito na alma. Como se os cookies estivessem inseridos no processador dual core do cérebro, a imagem dele continuava a pairar, pixel a pixel, na retina dela, em altíssima resolução. E a dor... a dor... a dor... ritmada, pungente, constante, a fazer as vezes de metrônomo, regendo o pulsar do coração. Carol subia e descia o cursor, ora escolhendo excluir, ora bloquear o contato, sem, contudo, decidir-se por nenhuma das opções.

Nos últimos dias, os dois andavam discutindo muito. Não havia nada que Carol falasse que Ben não redargüisse com veemência e até com rispidez, em certos momentos. A jovem secretária a princípio ficara magoada e levara alguns diálogos ao conhecimento e apreciação da colega da Ouvidoria e de outra amiga muito próxima, que havia conhecido no curso de inglês e cuja paciência era invejável. Ambas foram taxativas mas ortogonais. A colega de trabalho achou que ele correspondia aos anseios de Carol. A outra chamou a atenção para o fato de que a amiga andava muito diferente do que era e deixava transparecer nas conversas digitais uma ingenuidade que não lhe era peculiar, o que provavelmente causava a irritação de Ben.

“Isso já está beirando o ridículo!”, ela pensou. Nunca havia precisado dos conselhos de outrem para decidir seu próprio algoritmo! Nunca havia cogitado ser dependente dos emoticons de um homem que, embora fosse apaixonante e muito atraente, talvez não quisesse nada além de uma conexão de banda larga com ela. Certamente Carol não teria percebido a velocidade de transmissão desse dado sentimental se não fosse a última discussão deles, quando ele a acusou de ser infantil, porque vivia trocando o nick e por isso descia e subia na lista de contatos dele. Ela indignada, o chamara de chato e digitara o smiley que mostrava a língua. Ele a ameaçara com o bloqueio. Nesse exato momento, o sistema afetivo de Carol acusou o erro, todas as janelas do coração foram fechadas e nenhum outro dado foi salvo, exceto aquele que ela temia: estava apaixonada.

Carol suspirou. Estava operando em modo seguro há mais tempo do que desejava. Pensou que o software da vida dela precisava de um upgrade. Era tarde, queria ir para casa, desligar-se daquele computador e livrar-se do vício o qual aquela rotina havia se tornado, saturando todo o seu sistema. Cogitou uma vida real e sentiu até alguma ansiedade pensando que um namorado, um sorvete e um parque seriam virtualmente agradáveis. Sorriu com o paradoxo da frase. Em um breve parênteses, refletiu que não seria nada mal um upgrade no hardware também, um corte de cabelo novo ou talvez até um tratamento estético relâmpago para o verão que se aproximava, se o orçamento permitisse. Sorriu novamente, mas dessa vez o sorriso foi de alívio.

Ben ainda estava online, mas ausente, quando Carol olhou pela última vez sua lista de contatos do msn. Eram quatro e meia da manhã de um sábado. O subnick dele dizia algo sobre criação destrutiva e destruição construtiva. Carol decidiu que era hora de reconstruir sua vida. Rapidamente, clicou com o botão direito em cima do nick dele, selecionou “excluir” e “ também bloquear”. Fechou o programa e desligou a máquina. Tudo parecia estar certo. Restava averiguar por quanto tempo ainda a memória ram do seu corpo guardaria aquele anseio. “Nada que uma boa noite de sono não resolva!”, disse Carol, em tom destemido, enquanto apagava as luzes e fechava a porta. No íntimo, porém, torcia para que o disco rígido dela não houvesse salvo mais do que uma ou outra piada dele, que ela descobriria, inadvertidamente, enquanto fizesse o back-up, algum dia no futuro.