(ago/1995)
Hoje é domingo. "Pé de cachimbo" ou "pede cachimbo"? Sei lá, nunca alguém soube explicar-me direito o que isso queria dizer. Duvido, porém, da segunda opção, cuja veracidade transformar-nos-ia, crianças, entretidas com a quadrinha, a atormentar repetidamente os mais velhos, em passivos coniventes com o péssimo hábito.
De qualquer forma, isso não muda o fato e hoje continua a ser domingo, dia em que acordamos cedo (para ir à missa ou à piscina - muuuuuuito cedo mesmo e assim prevenirmo-nos do causticante sol brasileiro) ou muito tarde. Sendo assim, o resto do dia torna-se facilmente preenchível com um bom almoço glutônico, com ou sem família, mas sempre com o refrigerante daquela famosa marca, em vasilhame tamanho família. Torna-se preciso esclarecer que eu disse "glutônico" acima e não "plutônico", em cujo caso o leitor encara um dilema de interpretação, podendo identificar-se com uma das duas hipóteses, a seguir: como acontece à quase totalidade dos jovens universitários, senhores descasados e donas-de-casa relapsas - tipo este em alarmante crescimento, apesar da proliferação de programas de TV vespertinos dedicados à manutenção desta tão laboriosa profissão - ao abrirem a geladeira e
1)depararem-se com restos de comida que não fariam jus sequer à refeição do cachorro de Walt Disney; ou
2) acreditarem que a possibilidade de haver algum vestígio comestível é tão remota quanto o último planeta de nosso sistema.
Esclarecida esta pequena confusão momentânea, voltemos ao domingo, dia em que, vencidos, optamos ao final pelo frango assado com farofa, ou pelo churrasquinho com cerveja.
Findo o almoço, seja lá de que natureza tenha sido, quase sempre retiramo-nos da mesa colocando em dúvida a perícia e o conhecimento dos taxonomistas mais famosos da história: somos homo sapiens ou boa constrictor? Talvez na época em que Darwin estabeleceu nossas ligações com longínquos antepassados, não houvesse frangos de "televisão canina" na padaria da esquina, muito menos refrigerantes tamanhos família, que, em associação físico-química com a farofa, nos classificariam mais próximos da temível jibóia do que de qualquer mamífero. Levando-se em consideração que constantemente somos compelidos pelo nicho ecológico ao qual pertencemos a apertar, sufocar, torcer e retorcer, enfim, asfixiar nosso suado dinheirinho mínimo, tal qual a jibóia, a fim de sobrevivermos em tão árido ambiente, começo a considerar a hipótese de que Darwin não sabia absolutamente nada de Biologia. Eu é que sei. E de agora em diante, considero registrada, aqui, nestas linhas, em princípio dedicadas à exaltação do glorioso dia de descanso, a minha nova ciência: a Taxonomia Social. E viva o frango assado!
A digestão processar-se-á lentamente, enquanto os últimos glóbulos sanguíneos que restam ociosos, livres do árduo labor que é a digestão dominical, tentam desvairadamente levar algum oxigênio ao cérebro, para que este possa comandar o único membro verdadeiramente indispensável ao nosso corpo, o dedão. Sem ele, inútil tornar-se-ia o esforço de Vento e Vácuo, os dois neurônios disponíveis para a tarefa de comandar o controle remoto, esta peça básica do mobiliário doméstico, verdadeiro item do lazer humano. Não, por favor, não tentem me corrigir, pois já refleti muito sobre o assunto e concluí que a televisão nada seria, sem a existência do controle remoto. Jogam-se fora a mesa de centro, o carpete, o aparelho de som, o sofá e até a televisão! Mas o controle remoto fica!! Contudo, a confusão torna-se iminente se os territórios de cada um dos entes familiares não estiverem previamente definidos e a posse desse astro da sala-de-estar legalmente estabelecido, pois dependerá da perícia técnica do comandante o sucesso da empreitada televisiva.
Conforme a tarde avança em direção ao ocaso, suamos intermitentemente e provamos, a cada nova posição corporal, a existência do atrito estático e do dinâmico entre as superfícies de contato dos dois pontos materiais: o sofá de plástico e o nosso epitélio. Não posso deixar de citar a grande criatividade que nos assoma, quando destas ocasiões, que deixaria "no chinelo" de dedo os mais afamados iogues de todos os tempos: sentados, quase sem poder respirar, processando a digestão; levemente inclinados, lutando contra o peso do sono que pede a sesta (ou será da consciência?); dormitando, a cabeça pendendo para cima e para baixo, tal qual um headbanger; finalmente horizontalizados, uma perna para cima, a outra jogada de lado, babando. Que grande performance! Que flexibilidade! Embalada por harmonioso balé de canais de TV, roncos, pegadinhas e banheiras, a tarde se esvai...
O pôr-do-sol há muito se foi, mas ninguém percebeu as nuances maravilhosas de púrpura, rosa e lilás refletindo nas nuvens, depois um leve flash verde e por fim o azul, escurecendo, escurecendo, tornando a Lua, nossa amiga redonda e pálida, bacante de um quadro arcadista, boiando na imensidão celeste, tal qual uma pastilha de antiácido. Ao invés disso, a voz do apresentador das video-cassetadas vai se tornando mais próxima, mais distinta, mais forte ... e acordamos.
Limpando a baba e recobrando a consciência, sorvemos mais um copo do líquido também usado para desentupir privadas. A visão volta ao normal e é preenchida rapidamente por glúteos e pernas e seios e mais glúteos, numa profusão de carnes e músculos e pagode e suor... Os músculos do dedão, um tanto retesados, pois Vento e Vácuo haviam sido chamados para ajudar a comandar o socorro das microvilosidades intestinais, violentadas pela quantidade de gordura recebida, são requisitados novamente para um segundo round. Enlouquecido, o dedão pressiona numa velocidade cada vez maior os botões dos canais na procura insana, demenciada, de algo mais concreto para nossas bases filosóficas. A velocidade com que se exercita só não chega a ser quântica porque antes mesmo de atingí-la nosso espaço já perdeu as arestas e o tempo parece algo muito, muito subliminar. Afinal, quando foi que 5 horas couberam em uma?!
Exaurido, o dedão desiste e opta por alternar 5 segundos neste canal e 5 no outro, bem na hora em que o estômago recosta em algum canto do organismo, alegre por ter conseguido terminar a digestão. Os esquadrões de proteinases e lipases se abraçam euforicamente no duodeno, gritando "hurras" de júbilo por terem vencido mais este desafio. Nunca uma equipe de componentes tão diversos trabalhou tão bem em conjunto! Nunca houvera desafio tão grande a ser vencido! "Comer a pele do frango, que idéia mais besta", comenta uma base nitrogenada, ao que uma enzima inteira, em uníssono responde "isso, não foi nada, pior foi a pururuca antes!". "Vamos, vamos! Cada um pro seu lugar, a festa acabou, até semana que vem!" concluem a balbúrdia, as microvilosidades, tão hospitaleiras quanto o bispo daquela igreja famosa, recebendo os demônios incorporados nos fiéis.
Porém, é chegada a hora de consultar o forno em busca de sobras para saciar aquela fome que só a ociosidade árdua sabe causar e, no caso de nos depararmos com o vácuo, recorrermos ao duo microondas-pipoca. Alguém que possua um indicador ainda funcionando, (depois da hegemonia dos dedões nos remotos, os indicadores, destituídos de quaisquer outras tarefas, se incumbiram, por conta própria, de apontar os defeitos alheios) pode usá-lo, em casos isolados, para discar para um serviço de entrega de comida.
O fato é que não importa muito o que se ingira a essa altura do campeonato, ou melhor, do domingo, pois o organismo não vai digerir mesmo! Deixará a comida passar sem resistência ou mandará tudo pra fora, com boa vontade e resolução tão fortes quanto a dos regimes de segunda-feira, enquanto o passivo espectador, ainda segurando o controle remoto e olhando fixamente para a tela da TV, vendo a platéia ganhar dinheiro, raciocina - se é que isso é possível- se deveria ou não comer mais um pedaço da pizza de calabresa.
Sair de baixo da luz da sala e ir para baixo do chuveiro, é a isso que nos conclamam as reminiscências recônditas dos ensinamentos maternos. Fá-lo-emos com felicidade, já que a hora de ir para a cama se achega. É com um calafrio de prazer que a água morna, tépida, escorre por nossas costas, enquanto lembramos das delícias conjugais que nos esperam, antes da última noite de sono que precede o bater do cartão. Afinal, o que poderia ser mais gostoso, mais prazeroso, mais deleitoso do que deitar na cama com a esposa, abraçá-la carinhosamente e até com uma pitada de lascívia...
... e deleitar-se com o debate da última fase do Brasileirão?!
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