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sábado, 3 de novembro de 2007

Obsessão

(abril/1994)


Ela não precisava de um motivo para começar. Bastava estar viva. O impulso, latente, transportava-a a uma outra realidade, onde se sentia angustiada. A vontade tornava-se insuportável, sugando a resistência que um resquício de razão, ainda que tênue, lutava para sobrepor a tudo.

Pensamentos de onipotência começavam a surgir. Queria e podia. Queria e faria! Mas a razão, num esforço sobre humano, ainda controlava pernas e braços, deixando-os inertes e desobedientes aos comandos dela. Exasperada, sentia a pressão sanguínea subir, veias e artérias inchando nas mãos, têmporas e pescoço. O coração, acelerado pela descarga de adrenalina, batia descompassado. Estava ofegante.

Lágrimas agora invadiam seus olhos e transbordavam, inundando o rosto e seu desespero. À lembrança das vezes em que se deixara levar pela vontade, sua garganta escancarou-se num grito de dor excruciante. Não! Não poderia deixar-se vencer! Tinha que ser racional e controlar-se, antes que o arrependimento, pontual e inexorável, viesse cumprir sua tarefa diária, roubando-lhe sono.

Parou. Respirou fundo, enxugou as lágrimas e tentou mover-se. A razão, sorridente, livrou-a das correntes que prendiam os braços e as pernas. O ar pareceu respirável e a noite, um berço atraente. Sorria.

E foi com um suspiro de alívio e resignação que a moça, mais calma, fechou devagarzinho a porta da geladeira.

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