Ben ainda estava online, mas ausente, quando Carol olhou pela última vez sua lista de contatos do msn. Eram três e meia da manhã de uma sexta-feira. Ficou admirando os nomes, pensando se devia ou não tomar a providência que sua cabeça ordenava: ignorá-lo, bloqueá-lo, excluí-lo. Qualquer uma das possibilidades fazia o coração apertar. Pensar em ficar sem falar com ele, sem o seu bom dia alegre quando ligava o computador, sem as piadas que faziam-na abafar o riso para que a supervisora não percebesse que ela se ocupava com algo além do cotidiano do escritório... ah, isso seria muito difícil. Havia contas a pagar, planilhas a fazer, emails a responder, transformando a vida daquela moça criativa em um caldo insosso de tododia. E havia Ben, em algum outro lugar da cidade, digitando um mundo recheado de novidades e divertimentos que a faziam sonhar. Abrir mão de tudo aquilo parecia ser algo pesado demais. Mas era chegada a hora de lidar com a dor que ela sentia. Ela realmente não conseguia discernir qual seria a pior: a dor da saudade ou a do sentimento não correspondido.
Havia muitos meses que outro relacionamento mal-sucedido tolhera sua coragem de se aventurar socialmente e passara a se refugiar no mundo virtual, onde conseguia ser eloqüente e segura de si. Carol suspirou. Olhando fixamente para o nome dele, não via mais as letras, agora borradas, mas sim o dia em que se conheceram, através de um site de relacionamentos. Por pouco não sentiu novamente, com a mesma intensidade, admiração e o susto que tivera com as frases atiladas e a verve feroz e arrebatadora dele. Pela primeira vez em muito tempo, alguém a fazia “calar”, tornando os músculos das suas mãos tesos, sem saberem direito o que deviam digitar. Ben havia conseguido o quase impossível: fazer a Carol ficar quieta, pensativa e retraída. A cada frase que ele digitava, uma série de indagações assomavam a cabeça e a imaginação dela.
A dúvida era tão forte e a curiosidade, tão persistente, que ela não titubeou em aceitar o convite para almoçar, alguns dias depois. Ela já havia visto fotos dele, estrangeiro, alto, bonito, mas quando ele chegou, atrasado, quase saltando pela janela do táxi, enfiado no jeans claro e na camiseta vermelha com dizeres engraçados, ela se assustou com o turbilhão de informações que transitaram na sua intranet, verdadeiro furor de downloads de hormônios e sensações correndo por todos os terminais do seu organismo. “Um moleque”, ela diria mais tarde, à amiga e confidente da Ouvidoria, “um garotinho de 12 anos ligado no 220. Simplesmente adorável!”.
Sentindo uma pontada no peito, os nomes dos contatos voltaram a ficar nítidos na visão dela, enquanto tomava consciência do sentimento que recrudescia quando lembrava de cada detalhe dos encontros que tiveram. Ben ainda estava online. Carol clicou em cima do nome dele com o botão direito do mouse e observou, por alguns segundo, a opção “bloquear contato”. Tentou imaginar como seria um dia de trabalho sem os comentários dele sobre as músicas que ela ouvia. Pensou no que faria se não falasse mais com aquele que fazia trocadilhos engraçados com seu subnick a toda hora.
“Talvez não seja tão difícil, já passei por coisas piores e superei”, pensou. “Afinal, sou uma mulher ou uma ameba?”, brincou consigo mesma, tentando sorrir. Mas a dor continuava lá, inflexível, tornando espásticos os músculos da face dela. Uma atitude se fazia necessária e ela sabia bem qual era. Porém, quanto mais consciente ficava da única saída que existia, mais a coragem enfraquecia, afinava qual corda que vai desfiando ao sofrer uma grande tração, os cordõezinhos que lhe emprestam a robustez se rompendo, devagarzinho, fazendo o coração de Carol bater descompassado sob o efeito da adrenalina, à iminência da queda no vazio da incerteza.
Ela já havia apagado o número dele da memória do celular e do chip. Já havia se livrado das fotos que salvara no desktop e deletado o único email tão simpático que ele havia enviado, numa brincadeira. Excluíra o histórico do msn para não ceder à tentação de ler as conversas e livrara-se dos cookies, para tornar mais difícil o carregamento da página do blog dele. Porém, nada disso fez efeito na alma. Como se os cookies estivessem inseridos no processador dual core do cérebro, a imagem dele continuava a pairar, pixel a pixel, na retina dela, em altíssima resolução. E a dor... a dor... a dor... ritmada, pungente, constante, a fazer as vezes de metrônomo, regendo o pulsar do coração. Carol subia e descia o cursor, ora escolhendo excluir, ora bloquear o contato, sem, contudo, decidir-se por nenhuma das opções.
Nos últimos dias, os dois andavam discutindo muito. Não havia nada que Carol falasse que Ben não redargüisse com veemência e até com rispidez, em certos momentos. A jovem secretária a princípio ficara magoada e levara alguns diálogos ao conhecimento e apreciação da colega da Ouvidoria e de outra amiga muito próxima, que havia conhecido no curso de inglês e cuja paciência era invejável. Ambas foram taxativas mas ortogonais. A colega de trabalho achou que ele correspondia aos anseios de Carol. A outra chamou a atenção para o fato de que a amiga andava muito diferente do que era e deixava transparecer nas conversas digitais uma ingenuidade que não lhe era peculiar, o que provavelmente causava a irritação de Ben.
“Isso já está beirando o ridículo!”, ela pensou. Nunca havia precisado dos conselhos de outrem para decidir seu próprio algoritmo! Nunca havia cogitado ser dependente dos emoticons de um homem que, embora fosse apaixonante e muito atraente, talvez não quisesse nada além de uma conexão de banda larga com ela. Certamente Carol não teria percebido a velocidade de transmissão desse dado sentimental se não fosse a última discussão deles, quando ele a acusou de ser infantil, porque vivia trocando o nick e por isso descia e subia na lista de contatos dele. Ela indignada, o chamara de chato e digitara o smiley que mostrava a língua. Ele a ameaçara com o bloqueio. Nesse exato momento, o sistema afetivo de Carol acusou o erro, todas as janelas do coração foram fechadas e nenhum outro dado foi salvo, exceto aquele que ela temia: estava apaixonada.
Carol suspirou. Estava operando em modo seguro há mais tempo do que desejava. Pensou que o software da vida dela precisava de um upgrade. Era tarde, queria ir para casa, desligar-se daquele computador e livrar-se do vício o qual aquela rotina havia se tornado, saturando todo o seu sistema. Cogitou uma vida real e sentiu até alguma ansiedade pensando que um namorado, um sorvete e um parque seriam virtualmente agradáveis. Sorriu com o paradoxo da frase. Em um breve parênteses, refletiu que não seria nada mal um upgrade no hardware também, um corte de cabelo novo ou talvez até um tratamento estético relâmpago para o verão que se aproximava, se o orçamento permitisse. Sorriu novamente, mas dessa vez o sorriso foi de alívio.
Ben ainda estava online, mas ausente, quando Carol olhou pela última vez sua lista de contatos do msn. Eram quatro e meia da manhã de um sábado. O subnick dele dizia algo sobre criação destrutiva e destruição construtiva. Carol decidiu que era hora de reconstruir sua vida. Rapidamente, clicou com o botão direito em cima do nick dele, selecionou “excluir” e “ também bloquear”. Fechou o programa e desligou a máquina. Tudo parecia estar certo. Restava averiguar por quanto tempo ainda a memória ram do seu corpo guardaria aquele anseio. “Nada que uma boa noite de sono não resolva!”, disse Carol, em tom destemido, enquanto apagava as luzes e fechava a porta. No íntimo, porém, torcia para que o disco rígido dela não houvesse salvo mais do que uma ou outra piada dele, que ela descobriria, inadvertidamente, enquanto fizesse o back-up, algum dia no futuro.
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