sexta-feira, 2 de maio de 2008

Conjecturas

Ela firma o polegar na pálpebra inferior para retocar o delineador. Não se conforma. Eu escuto e tento ajudá-la a responder o rol de perguntas que ela me infringe todas as sextas-feiras. Para ser bem honesta, não presto muita atenção no que respondo. A aflição que me causa ver o lápis delineador roçando a córnea parece impedir meu raciocínio.

- Por que ele olhou então?
- Porque você está muito bonita hoje.
- Ah, mas se foi isso, então por que ele não olhou logo quando eu cheguei?
- Por que talvez ele não tenha visto você chegar, oras!
- Hm... talvez. Mas não acho que seja isso. Será que ele quis se fazer de desinteressado?
- Não.. acho que não... sinceramente? Acho que ele não viu você mesmo.
- Então por que ele falou aquilo?
- Aquilo o quê?
- Que eu me escondo.
- Ah, veja só como tenho razão! Deve ser porque não viu você chegar mesmo.
- Duvido! Acho que ele quis mesmo foi me provocar.
- Provocar? Por que ele faria isso?
- Não sei... – ela pára com o dedo segurando a pálpebra e aponta o lápis para mim. Enquanto fala, vai desenhando suas conjecturas no ar - Por que ele segurou minha mão? E por que não segurou depois, quando eu quis? Por que andou do meu lado como se quisesse conversa? E por que desdenhou minha companhia e foi tomar café com os amigos quando saímos da sala de aula?
- Ai, meu Deus! Quantas perguntas! Você quer me deixar louca?
- Não ria do meu sofrimento.
- Sofrimento? – estou agoniada com tantas perguntas.
- Sim, você não vê que sofro? A expert em ciências aqui é você. Ajude-me a resolver essa equação!
- Equação? Que equação?
- Desta situação inusitada e frenética na qual me encontro!
- Não estou entendendo!
- Como não está entendendo? Ele não me quer!
- Quem disse isso?
- Está visível agora, não está?

Meu silêncio a deixa consternada. Não sei o que dizer. Sei que ele a quer. É visível e aferível. E o desenrolar dos fatos se mostra dolorosamente previsível. Porque eu o quero. Mais do que ela, que o descartará em algumas semanas, como faz com todos os que acabam sendo enredados por seus cabelos lisos, loiros e longos.

Eu o quero para sempre. Mas meus cabelos são cacheados e ficam eriçados em dias de chuva. Ainda assim, ouso querê-lo para sempre. Ou pelo menos, para o todo-sempre no qual um amor pode persistir. Devo dizer algo, ela me olha com o olhar delineado e desconfiado.

- Olha, vamos lá para fora, você está perdendo tempo. Temos somente alguns minutos antes do término do intervalo – digo, finalmente, sem muita convicção.

Ela joga o delineador caríssimo na bolsa obscenamente cara também. Arruma os seios perfeitos e volumosos devido ao recente implante, joga os cabelos para baixo e depois para cima com um movimento rápido da cabeça. Por alguns segundos, eles parecem flutuar no ar, brilhando como se fossem feitos do mesmo material das asas das fadas, que, quando voam, espargem aquele pó dourado; depois caem , escorregando pelos ombros torneados dela. Devo admitir, ela é linda. Dói-me perceber que sou apenas sombra. Dói-me ainda mais entender que até as mariposas preferem a luz.

São já semanas de angústia, assistindo o jogo que ela promove, bailando graciosamente, indo por vezes ao encontro dele e, por outras, repelindo qualquer aproximação. Ela me diz que é assim que se faz. Eu, porém, penso que seria mais fácil sentar-se à mesa e tomar um café, discutindo as idiossincrasias da sociedade. Mas quem se importa com o que eu penso?

Saímos do banheiro. Ela na frente. Ele está parado, conversando animadamente, em meio a alguns colegas. Seus olhos brilham, ele se despede do grupo e vem ao nosso encontro. Sei que hoje será o dia que me sentirei em pedaços. Em poucos minutos, ele a convidará para sair. Hoje é o último dia de aula antes das férias de julho. Não há mais tempo a perder. Nos poucos passos que o separam de nós duas, uma eternidade, sinto o choro preso inchando a garganta e fazendo arder meus olhos. Como no desenho animado, percebo o coração estilhaçando, os caquinhos suspensos apenas pela iminência da vergonha. Não posso e não devo fazer qualquer ruído. Qualquer um sabe que cacos de coração caindo no chão em meio aos colegas da faculdade fazem muito barulho. Praticamente um estrondo! Melhor mesmo será deixá-los cair no silêncio do meu quarto. Despencando no colchão, ainda úmidos das lágrimas, ninguém os ouvirá.

Ela abre um sorriso, que mais se assemelha a um colar de qualquer gema mais branca que a pérola. E mais reluzente. Simplesmente perfeito. Quando ela sorri, duas covinhas se formam no rosto cuidadosamente bronzeado no salão de estética. Simplesmente perfeito.

Ele está a dois passos de nós. Olho para o chão, para que não me vejam chorar de tristeza. Afinal, hoje será o dia deles. O dia em que o mundo celebrará o mais novo casal enamorado do orbe. Serei somente uma boba apaixonada vertendo lágrimas de rejeição. Não, eles não podem me ver assim. Abro minha bolsa barata, procurando algo. Cicuta, talvez? Encontro o maço de cigarros. Havia prometido parar, mas a resolução esmaece rapidamente. Procuro pelo isqueiro, enquanto ele, já próximo, nos saúda alegremente. Tremo in-sa-na-men-te agora. Onde está o isqueiro???

Ele pede para falar com ela a sós. Pergunta se me importo, eu aceno que não com a cabeça e digo “vai lá!” com o descaso projetado para essas horas. Afinal, sendo a melhor amiga dela desde o cursinho, esta é a melhor saída. Não cursar disciplinas juntas também seria uma estratégia, se fizéssemos a mesma graduação. Graças aos intelectos diametralmente opostos, havíamos entrado em cursos diferentes. Porém, essa disciplina havia se mostrado muito tentadora, ainda que fosse extra-curricular... Ele havia tido a mesma idéia. E apesar de nunca nos termos visto em alguma aula de Cálculo ou de Mecânica, eu o reconheci imediatamente quando veio falar com ela a primeira vez. Eu estava junto. Na sombra. Como sempre.

“Não é impressionante que você ainda não tenha se acostumado?”, pergunto a mim mesma. “Cadê essa porcaria de isqueiro? Preciso fumar, droga, se eu for pedir um fósforo na recepção eles verão meus olhos vermelhos! Mas eu tinha certeza que havia deixado um isqueiro aqui! “

Através das lágrimas que insistem em marejar minha visão, percebo os dois conversando perto do balcão. Não contentes em embaçar-me olhos, as lágrimas agora resolvem cair, inundando a face. Corro para o banheiro. Pego papel toalha e acabo borrando o delineador de marca genérica que uso às sextas-feiras, para esconder o tom cansado. Junto ao nariz nada envaidecedor que porto, agora inchado, os olhos constituem um conjunto verdadeiramente bizarro.

“Preciso me controlar!”, penso. “Que farei? Como sair dessa situação?”

Olho para as janelas do banheiro, mas elas são muito estreitas e estou acima do peso. Ela passaria pelas grades, silfidescamente, mas eu não. De que adiantaria? As janelas dão para o estacionamento, mas estamos no quinto andar. “Ótima saída!”, pondero. “Que besteira!”, percebo. Estou em frangalhos. Preciso fugir.

Porém, em um nanossegundo os eixos se invertem e o caos se instala. O universo busca a maior entropia sempre, não é o que dizem? Ela volta. Escancara a porta do banheiro e fuzila meu rosto molhado com os olhos injetados. Não entendo. Mas não há tempo para mais nenhuma conjectura. Ela dispara:

- Vai lá. Ele quer você. Sua traidora, você deu em cima dele sem me falar nada? Você sabe que estou apaixonada por ele e mesmo assim apunhala sua melhor amiga pelas costas?

Não consigo articular palavra. As lágrimas secam instantaneamente.

- Você e os seus emails. Eu já deveria saber! Nunca mais quero falar com você. Suma da minha frente e tomara que ele seja muito ruim de cama! Lista de discussão de Física Quântica, é? Nerds ridículos, todos vocês!

Ela tenta bater a porta, mas a mola a impede. Assisto enquanto ela se vai, cabelos esvoaçando. Ela é perfeita, mas ele prefere a mim. Tenho um acesso de riso. Olho no espelho. Até que não estou tão mal. Sim, vamos ao café e às idiossincrasias da sociedade. Algumas poucas vezes, parece-me, the pen, ou melhor, the keyboard is really mightier than the sword! Ou do silicone, como queira!

Imerso em colóide fétido

publicado na Revista Substrato - CEPEGE, IGc/USP (abril/08)


O teste

Você é mal-humorado? Que tal fazermos um teste? Responda as perguntas abaixo sem titubear. Considere seu estado inicial, nas CNTP (condições normais de temperatura e pressão):

Se XX, está de TPM.
Se XY, seu time perdeu ontem à noite e foi rebaixado para a segunda divisão.

1 – É dia de pagamento. Você está na fila do supermercado há trinta minutos. De repente, uma mulher logo à sua frente, cujas compras já estão sendo computadas, resolve sair da fila para buscar um último item que ela havia esquecido. A demora é exasperante, as pessoas atrás de você começam a reclamar. Quando a consumidora volta, ela grita com você, achando que você foi o causador da balbúrdia, agora generalizada. O que você faz?

A – responde à altura, com os mesmos xingamentos e provocações.
B – pragueja, torcendo para que a mulher fique careca e disforme dentro de um ano.
C – fica quieto, mas disfarçadamente fura o pacote de açúcar das compras dela para que vaze.
D – parte para a contenda física.
E – não dá muita importância para o fato.

2 – Você está muito cansado, pois passou o dia inteiro esperando em filas e mais filas de bancos. Está calor, você veste roupa social e agora a bateria do seu carro “arriou”. Seu celular está sem bateria e você não consegue encontrar um único orelhão por perto. Resolve voltar para casa de ônibus, para conseguir ajuda com o vizinho. O ônibus está lotado, mas você tem sorte e consegue um lugar, que ocupa rapidamente. No próximo ponto, um mocinho entra no ônibus. Ele carrega uma mochila nas costas, passa pela catraca e, na tentativa de se ajeitar nos únicos espaços disponíveis, acerta a bolsa na sua cabeça com força. O que você faz?

A – reclama, sacudindo o moço com força e exigindo que ele tire a mochila das costas.
B – arranca a mochila das costas dele e a atira pela janela.
C – promove o linchamento do moço no ônibus.
D - xinga o infeliz.
E – não dá muita importância para o fato.


3 – É época de Natal e você vai ao shopping center com sua mãe, a amiga e a avó desta, que é um “tantinho” senil. A fila do estacionamento é enorme e você até pensa em voltar outra hora, mas sua mãe é assertiva e você sabe que haverá discussão mais tarde, se não ficar. No entanto, a distinta senhora, avó da amiga da sua mãe, além de passar o trajeto inteiro criticando seu jeito de dirigir, agora resolveu discorrer sobre como você é lento para fazer algo tão simples quanto estacionar.

De repente, e já prestes a perder a paciência, você percebe uma família indo em direção a um carro. Consegue manobrar, colocar-se em posição estratégica para ocupar a vaga e estacionar. Liga o pisca-pisca, feliz. Porém, uma das crianças da família começa a chorar histericamente e a mãe delas resolve fazer um sermão ali mesmo. Você espera durante dez minutos, quando ela finalmente libera a vaga. Você engata a primeira marcha e, para seu completo desespero, outra mulher vem pela contramão e ocupa a vaga. A avó da amiga da sua mãe diz: “Viu? É um banana!”. O que vc faz?

A – acelera e colide de propósito com o carro da mulher.
B - bate na velhinha.
C – sai do carro para reclamar e exigir a vaga.
D – chama o segurança e faz um escarcéu, impedindo a mulher de seguir para suas compras.
E – não dá maior importância ao fato.

Para saber o resultado desse teste, compute os valores de cada item, segundo a tabela abaixo:

1
2
3
a
1000
1000
1000
b
500
500
500
c
100
100
100
d
50
50
50
e
0
0
0


Resultado do teste: Se você computou algum ponto, qualquer ponto que seja, eu não vou saber dizer se você é mal-humorado, mas posso afirmar categoricamente que você pertence à classe dos...

Mal-educados

Você pode não concordar com o resultado deste teste, afinal, não foi desenvolvido por um psicólogo ou estudioso da área do comportamento humano. Contudo, devo avisá-lo, caro leitor cujo resultado foi diferente de zero, que provavelmente as pessoas ao seu redor já lhe aplicaram alcunhas depreciativas, procuram esquivar-se da sua presença e, a todo o momento, lhe fornecem respostas prontas, talhadas antecipadamente, para evitarem maiores conflitos. Ninguém é real, sincero e honesto com você. Seus colegas de escritório combinam a cerveja escondido e saem de fininho, cada um pretextando algum compromisso inadiável na sexta-feira à noite. Mas a verdade “nua e crua”, caro leitor diferente de zero, é essa: ninguém gosta de gente mal-educada.

Nos últimos anos, a má-educação parece ter se alastrado e ocupado vilipendiosamente todos os nichos da sociedade. Antigamente, educação vinha “de berço”. Sabia-se onde colocar o guardanapo, com quais talheres comer, como agir perante a um “RSVP” (Répondez S'il Vous Plaît, ou, “responda, por favor”) no convite e quais as partes do colo e das pernas que deveriam ficar à mostra durante uma recepção de casamento. Respondia-se às provocações com “luvas de pelica”, tanto metaforicamente, quanto literalmente, em cujo caso, um tiro poderia selar o destino do destratante. Sim, havia a morte, fato deplorável. Mas não havia a palavra solta, o esgar de cinismo conjugado à ira, o tom de ameaça seguido de atos hoje corriqueiros, como: bater uma porta, gritar uma ofensa ou quebrar um objeto com raiva. Perder a cabeça em atitudes como essas era tido como algo tipicamente feminino. Muitos autores utilizaram este “atributo” para caracterizar a “cabecinha vazia” burguesa do final do século XIX, como a de madame Bovary, (de Gustav Flaubert) que, num acesso de raiva, por saber que seu amante não viria visitá-la, empurra sua filha, fazendo com que esta bata com a cabeça na cômoda e ponha-se a chorar.

É comum aceitarmos a má-educação quando oriunda das hierarquias mais altas – leiam-se chefes, professores e superiores em geral – pois, afinal, é o ganha-pão que se encontra em xeque. Sentimo-nos ameaçados, ficamos silenciosos, balançando a cabeça afirmativamente e concordando com tudo que a pessoa, mal-humorada e mal-educada, nos diz. Quem nunca se sentiu imerso em um colóide fétido após uma dessas explosões de raiva ou descontentamento de um superior? Os movimentos se tornam lentos e o digitar, suave, como se tudo estivesse coberto por uma gelatina pegajosa e ácida. Os músculos, retesados, evitam a troca gasosa com o ambiente, fazendo a respiração ser quase suspensa. Os cílios que revestem as narinas não conseguem oferecer resistência ao ar mais denso, tampouco o som consegue se propagar em ondas, ficando o ambiente em silêncio sepulcral. Tudo para que não haja outra combustão. Tudo para a que a paz não seja quebrada novamente.

É interessante notar que o causador do constrangimento sempre consegue emitir uma justificativa - o seu estandarte da auto-remissão - para justificar tal comportamento: “As vendas estão caindo”, “Estou me divorciando”, “Meu filho está doente”, e o impagável “Estou de TPM”. A tensão pré-menstrual, aliás, passou a ser justificativa para tudo, ganhando a simpatia da maior parte das mulheres da humanidade, inclusive, tendo sido usada para atenuar a pena de uma certa criminosa nos EUA.

Cena 1:

Mulher A: - Você viu isso? Ela estava de TPM, coitadinha, por isso esfaqueou, esquartejou, queimou e comeu os pedaços da vítima.
Mulher B: - Pobrezinha, não é à toa que ficou tão nervosa! TPM é fogo!
Mulher C: - É.... tadinha....

Cena 2:

Vendedor: - Parabéns, o senhor está adquirindo uma jóia belíssima! Assine aqui, esta promissória, penhorando sua alma.
Marido: - Por esse preço? Minha alma?? Querida, tem certeza?
Esposa: - Alfredo, olha aqui, hein? Estou de TPM, não me tenta, NÃO ME TENTA!!

Há ainda os indivíduos cujas mães se esmeraram na atividade de passar adiante os paradigmas comportamentais da sociedade à qual pertencem, sem, no entanto, encontrar respaldo na índole imaleável dos pequeninos. A estes convencionamos chamar “mal-aprendidos”. Na verdade, essa acepção é somente um deslocamento da origem do sistema ou uma boa-vontade maior ou menor do observador, como queira. Afinal, todo mal-educado é limitado, ou mal-aprendido.

Limitados seriam aqueles que, apesar de encontrarem os exemplos da boa educação na mídia, na escola, em seus pais ou superiores hierárquicos e em diversas pessoas com as quais interagem todos os dias, continuam a agir da mesma forma rude e impetuosa, não sendo capazes de dominar suas frustrações e desejos e colocá-los de maneira controlada ao seu interlocutor.

Mal-aprendido seria o indívíduo que apesar de conhecer os liames das atitudes que definem o comportamento aceito e desejado por seus pares, insiste em agir diferentemente, pois se acredita em condições e no direito de fazê-lo, seja por superioridade, seja por extrema condição de inferioridade.

No entanto, vale notar que algumas vezes a má-educação pode ser utilizada como um marcador social e cultural, incitando o indivíduo a agir de modo inconveniente para o meio em que se encontra, única e exclusivamente, para continuar sendo diferente, não absorver e não ser absorvido pela sociedade que o cerca. Nesse caso, o comportamento é permeado por uma falta de educação apenas aparente, sem, no entanto, corresponder àquela descrita acima.
É o caso dos migrantes nordestinos que, estando em São Paulo, montam suas barraquinhas no Largo da Batata e tocam música em volume bem alto, mexem com as mulheres que por ali passam e conversam entre si usando expressões que o paulistano não entenderá. Ou dos coreanos que dizem não entender o Português e nos deixam falando sozinhos, mas são absolutamente fluentes na língua quando querem negociar com o consumidor. Ou, ainda, os japoneses do bairro da Liberdade que caminham, de cabeça altiva, alguns passos à frente de suas esposas, enquanto estas carregam pacotes e permanecem obedientes.

Ao citar estes últimos, um episódio da minha pré-adolescência vem à baila, sendo propiciamente esclarecedor. Ao perceber a entrada de uma “senhorinha” japonesa abarrotada de sacolas e de seu marido, há muitos anos, em alguma estação do metrô da linha azul, cedi imediatamente o assento, que foi logo tomado pelo senhor oriental. Fiquei indignada e disse a ele que se levantasse, já que eu havia cedido meu lugar à senhora – a educação da minha cultura me impelia a isso – e não a ele, um homem – cuja cultura determinava essa atitude. Ele não se moveu. A senhorinha se encolheu. E eu desci na próxima estação, completamente enfurecida, mas sem dizer nada. Ambos estávamos corretos. Ambos fôramos bem-educados em relação ao outro. Estávamos apenas seguindo as orientações que nossas sociedades determinaram serem pertinentes.

Os traços culturais e a linguagem são o identificador do ser humano e do grupo ao qual ele pertence e é natural que muitas pessoas, perante o medo inconsciente de perderem sua identidade, resolvam agir de maneira considerada imprópria neste ou naquele lugar. Porém, proponho que realizemos agora uma outra identificação, independente de raça, cor e credo: a da boa educação. Digamos bom dia, boa tarde, boa noite, obrigado e por favor. Saibamos sorrir, “deixar pra lá”, não furemos filas e não carreguemos mochilas nas costas em ônibus lotados. Tentemos, por alguns instantes, imaginar como se sentiria aquele que conosco interage, quando resolvemos ser menos comedidos.

Ah! E, meninas, vão ao ginecologista, ao Padre Quevedo ou ao Papa, mas cuidem dessa TPM!



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Agradeço à Sueli Ramos pela revisão cuidadosa!

terça-feira, 15 de abril de 2008

Porque os casamentos não duram

- Você vem?
- Agora não dá. Vai você. Boa noite.
- Assim? Tá fazendo o quê?
- Lendo. Vai lá. Dorme com os anjos.
Muxoxo. Ele está visivelmente desagradado. Dá uma volta pela sala, arruma os jornais no cesto, endireita as chaves e o documento do carro em cima da carteira. Suspira. Tenta mais uma vez.
- Mô?
- Hm?
- Vem dormir, vai.
- Num dá. Não vou conseguir largar esse livro tão cedo.
- Interessante, é? – diz ele em tom de dúvida.
- Demais!
- Ahn... tá bom – conforma-se - Boa noite...
Ele se aproxima e lhe dá um beijo. Ela corresponde. Ele a beija com um pouco mais de lascívia, tentando visivelmente fazê-la mudar de idéia e trocar as fibras de celulose recicladas por outras, de algodão. Ou melhor, pela ausência delas todas.
- Pára! – ela ri – Você não ia dormir?
- Ia, mas perdi o sono.
- Ué... Por que será? – ela brinca.
- Vem cá, deixa esse livro aí, vai.
- Não, benhê... Faz quase um mês que estou tentando ler esse aqui... Vai lá, amorzinho, vai descansar.
-Ah, se faz um mês, pode ser um mês e um dia, não?
- Não - ela ri - Não pode não... Não agüento mais de curiosidade!
- Você está me dispensando. – diz ele, afastando-se dela e franzindo a testa – De novo.
Ela abaixa o livro e olha para ele, surpresa.

- Eu? Desde quando?
- Desde sempre! – e, ao ver a expressão dela, explica – Faz algumas semanas que a gente...

O olhar dele é muito esclarecedor.

- Ah, não. Você não está falando sério, está?
- Estou, oras! Você está sempre correndo e nunca tem tempo para nós. Um dia é a academia, no outro é o regime, no outro está dolorida porque... – ele afina a voz para imitá-la – “a mulher da drenagem é uma doida, olha quanto roxo! Não ponha a mão em mim, estou um hematoma só!”
De estupefata, diante da inominável superficialidade com a qual o marido trata as necessidades femininas mais caras, ela passa à indignação.

- Semanas? – ela põe o livro na mesinha de centro – Semanas? – repete a pergunta aumentando levemente o tom de voz.

A fúria dela está sendo contida apenas pelos ponteiros do relógio. Afinal, já passa das onze. Ela mal pode acreditar na audácia aritmética dele:

- Nas minhas contas são cinco dias! - ela o corrige.
- É, mas você não está contando o fim de semana.

Um mero descuido numérico dele, conjugado à falta de percepção da mudança meteorológica do ambiente causada por um argumento que ela julgará desonesto. O resultado é o cataclismo matrimonial. Afinal, não foram nem cinco e nem sete. Nas contas dela, pensando melhor agora, foram seis E MEIO.

Pode-se perceber que a contenção social dela começa a rachar. O dilúvio verborrágico é iminente:

- Mesmo assim! Então são sete! Ou melhor, seis e meio! Ou sexta foi tão ruim que você já esqueceu? – ela está nervosa.
- Não! Mas foi... bem... muito rápido, né?
-Hã! – um exaurir rápido e preciso, indignado, em timbre elevado. Ela abre a boca, arregala os olhos e põe as mãos na cintura, aumentando a dramaticidade da cena.

Um raio estala no teto do apartamento. Salve-se quem puder!

- Culpe a declaração do seu imposto de renda por isso! Eu estava disponível. Aliás, disponibilíssima!

Agora o olhar dela é de desafio. O relógio acusa a hora de fazer silêncio, em respeito aos vizinhos. Ela levanta, enfurecida. Larga o livro na poltrona.

- Droga! – faz menção de sair.
- Aonde você vai? – pergunta ele.
- Vou dormir, não era isso que você queria?
- Ah, então vamos!- diz ele, satisfeito.
- Vamos? Onde vamos?
Ele não entende. Fica parado, dezenas de pontos de interrogação nadando no olhar.

- Vamos nada, cara pálida! Você dorme aqui, no sofá. Vamos é fazer a sua conta dar certo! – diz ela, irônica.
- Conta? Que conta? – ele está visivelmente confuso, mas sente um frio no estômago quando pensa que pode ter se colocado em uma enrascada.
- A das semanas. – ela profere as últimas palavras com o ar de superioridade de quem tem um royal flush, depositando as cartas na mesa – Boa noite!

-Mas...
- Boa noite! – diz ela, girando nos calcanhares e seguindo em direção ao quarto. Porta um sorriso de triunfo que ele não vê.

Ele, estático, observa a esposa seguir pelo corredor, escuta a porta bater e o ruído da chave, trancando todos os seus desejos e inspirações românticas em um calabouço de... semanas... Espera alguns minutos e por fim percebe que ela não cederá. Olha ao redor. Há o sofá e algumas almofadas. E o livro, o maldito livro, que ele pega, tencionando atirar pela janela. Pára, pensa na estupidez que fará. Olha a capa. Nada de mais. O título remete a alguma baboseira lacrimosa feminina.
A chave vira de novo. Ela abre a porta. Vem, de lingerie, passos decididos, na direção dele.

Ele sorri. Ela mudou de idéia! Está perfumada, cabelos soltos... Linda! Ela estende a mão para ele. Ele segura a mão dela e está prestes a puxá-la para si, quando ela faz um movimento rápido e se solta.

- Dá o livro. – ela diz.

Ainda está brava. Ele juraria ver o ar menos denso ao redor da cabeça dela, as imagens retorcidas por causa da dissipação do calor. Ele engole em seco e estende o volume, que ela apanha sem nada dizer. De posse do livro, ela lhe dá as costas, apanha algo na mesinha de centro e sai em direção ao quarto.
- Boa noite... – ele praticamente sussurra.
- Ahã. – responde ela, antes de fechar a porta e trancá-la novamente.

Ele suspira. Senta-se no sofá, ajeita as almofadas e procura o controle remoto. “Pelo menos a TV...” pensa ele.

Não. Quando se trata deste tipo de desentendimento, a punição deve ser completa. Ela surrupiou o controle. Ele está fadado a uma noite sem aconchegos, sem sono e sem TV, a não ser que queira se exercitar, levantando-se cada vez que quiser mudar o canal. Acordará com dores nas costas e gemerá disfarçadamente o dia todo, andando pelo escritório, até que algum colega venha brincar:

- A noite ontem foi boa, hein? - completam o comentário tapinhas de felicitação nas costas.

E ele responderá, forjando um sorriso de satisfação:
- Nem te conto! Nem tem conto!

domingo, 6 de abril de 2008

Missiva

Querido Antônio,

Escrevo-te, amedrontada, porque estas palavras talvez te atinjam os olhos e o coração tarde demais. Quisera eu ter o dom de vagar pelo passado! Talvez a saudade hoje não mais assomasse meus passos trôpegos de vergonha e cansados de vida. O tempo, sábio condutor das decisões mais relutantes, aparou-me as arestas. Sobra pouco de mim. Carrego, contudo, fardo pesado de lembranças e de "se eu tivesse...". Você, amado, é o maior deles.

Escrevo-te, pedindo perdão. Há muito deixei de duvidar que meus atos, antes ditos amorosos, foram em verdade egoístas. Não pensei em ti, contudo usei-te como desculpa para tudo o que fiz. Usei tua presença, teu sorriso, tuas necessidades e justifiquei-me, dizendo-me a mais pobre criatura.

Tu demandavas e eu, criatura de parcos princípios, deixei-te ao desamparo. Não te amei como devia. Não supri teus sentimentos e tuas necessidades. Não te dei minhas palavras doces e meus gestos carinhosos; enderecei-os a outros que não me amavam tanto quanto tu, mas que eu julgava serem mais importantes em minha vida, agora que já te embalado havia em meus braços. Não atinei com o fato de que tu podias, um dia, não ser mais meu. Pertencerias sempre a mim, ostentava eu, em minhas atitudes vis, grande certeza. Agora que tu te foste, sinto a dor mais pungente e mais amarga, relembrando-me a todo instante de tudo o que fiz.

Usei-te em meu próprio benefício, quando me foi necessário. Desfiz-me de tua presença, a princípio com ardis torpes e mais tarde sem cerimônia alguma, para borboletear entre as estrelas dos nobres salões da sociedade, tingindo de purpurina minhas asas de mariposa. Tu requisitavas minha presença no lar e quanto mais o fazias, mais me afastava de ti, julgando teu clamor inoportuno e sem razão. Por fim, quando já não me foi mais possível esconder do mundo que tu me causavas tédio com teus risinhos e tuas brincadeiras pueris, contratei aquela que ficou em meu lugar. Tu não o sabias, mas era eu quem pagava os serviços daquela que supria tua carência de modo muito aquém do desejado.

Minha alma sofre o efeito dos desatinos das épocas passadas. Anseio por teu perdão, agora que já não mais posso tê-lo perto de mim. Anseio por somente um daqueles muitos sorrisos que perdi. Anseio por minha paz, sim, é verdade! Porém vago por canteiros de insanidade quando entendo que sou aquela que te privou de tua paz. Pudera eu devolver-te tua vida ou ainda voltar e refazer todos os momentos que, destituídos de carinho e confiança, turvaram-te a vista, a ponto de fazer-te perder o Norte de tua existência e da tua idoneidade.

Perdoa-me, Antônio, por ter negado meu amor, meu carinho, minhas palavras de consolo e de compreensão, quando delas necessitaste. Perdoa-me por não ter compartilhado contigo valores mais belos e elevados do que aqueles que tu presenciaste em minhas atitudes. Perdoa-me por não estar eu mesma no cativeiro que a Justiça terrena te colocou por teus atos insanos e violentos. Certa estou, porém: a Justiça Divina far-me-á sempre atenta de que sou a maior responsável por tua falta de piedade para com teus iguais e de compreensão do valor da vida humana.

Tua atitude, impensada, traduzindo tanto ódio e rancor por mais um qualquer que se deitou comigo, difamando nosso lar, te levou ao cárcere físico. Juro-te, Antônio, amado – amado para sempre! - que minha alma definhará no cárcere eterno do inferno de saber que não fui digna do teu amor.


Tua mãe, que muito sofre,

Rosa.

segunda-feira, 3 de março de 2008

Pequena autoridade

Paula procurava a escada com certa pressa. O shopping era novo e mal sinalizado. Ela já havia almoçado e vagado pelo labirinto de lojas por duas horas, antes de se dar conta de que passara algumas vezes na frente da mesma vitrine, na qual um letreiro mal escrito causava graça:

“Precisasse balconista de boa aparência com experiência. Trazer CV”

Paula riu consigo mesma na primeira vez que o leu, perguntando se a experiência se referia à aparência ou à moça. Na segunda vez, riu com a grafia do verbo. Finalmente, na terceira, percebeu que estava andando em círculos e que não sabia onde era a saída.

Perambulou mais um pouco e avistou não as escadas ou alguma placa indicando o caminho, mas o sanitário. Havia um cercadinho de metal delimitando uma pequena área quadrada na frente da entrada do banheiro. Em um dos lados desse quadrado, uma catraca. Achou boa a idéia de parar e pedir a informação ao segurança sisudo, que portava uniforme de botões dourados e se postava ao lado da porta, do lado de dentro do cercadinho. Porém, havia fila e ela teve que esperar um pouco até conseguir chegar à catraca. Enquanto esperava, repassava mentalmente a lista de coisas que tinha para fazer e as contas do quanto havia gasto. Imersa na matemática, não percebeu que sua vez chegara e que o segurança espalmava a mão esperando alguma coisa.

- O quê? – perguntou Paula.

- São cinqüenta centavos, senhora. – o segurança falava apontando para uma plaquinha acima da cabeça dele, que informava o valor da entrada do sanitário. O homem era baixinho e a placa, exposta bem alta na parede, não ficava no campo de visão de quem falasse com ele.

- Eu vou ter que pagar pra fazer xixi? – riu a moça.

- A senhora é quem sabe. Se não pagar, não entra. – respondeu ele, com toda a seriedade.

Paula resolveu brincar com a situação.

- E se eu não tiver dinheiro?

- Então a senhora não entra.

- Mesmo que eu esteja apertada?

- Mesmo assim! - disse ele, com convicção.

Paula olhou de relance a caixinha onde ele guardava as moedas para troco e resolveu troçar um pouco mais do segurança.

- E se eu tiver uma nota grande e o senhor não tiver troco? – perguntou, fingindo a necessidade da pergunta e segurando o riso.

- Grande quanto?

- Ah... Grande... Digamos, de vinte?

- Então a senhora deverá esperar enquanto trocamos a nota.

- Mas o senhor vai deixar seu posto só para trocar a nota? – Paula não se agüentava de vontade de rir, mas manteve o tom de curiosidade séria.

- Não senhora, neste caso eu chamarei alguém para trocar a nota para a senhora. - ele mostrou o rádio, enquanto sua expressão denotava grande importância por portar tal aparelho.

- Mas... – Paula prendeu a respiração para não rir – Eu devo esperar aqui fora ou lá dentro enquanto o senhor troca a nota?

- Não sou eu quem vai trocá-la, eu já disse! – O segurança olhou para Paula como se a achasse burra.

- Ah, é verdade! Que cabeça a minha! Sim, enquanto a outra pessoa for trocar a nota, onde ficarei?

- Aqui fora, é lógico! – agora Paula tinha certeza de que o segurança a considerava mentalmente inapta, dada a expressão do rosto dele.

- Por quê?

- Porque se não tivermos troco, a senhora não vai poder entrar.

- E se eu estiver apertada?

- A senhora vai ter que segurar e trocar a nota em outro estabelecimento.

- E se eu fizer xixi nas calças?

- Sinto muito, senhora, são as regras. – disse ele, dando o assunto por encerrado.

Paula podia jurar que o tom de voz do homem era de consternação, nessa última frase. Talvez ele até sentisse pena da moça que faria xixi nas calças! Uma coisa estava clara, aquele homem realmente levava a sério todas as regras de seu trabalho. "Já que estou aqui... vou aproveitar e entrar. Sabe-se lá quando conseguirei achar a saída desse labirinto...", ponderou consigo mesma. Fuçando a bolsa, ela achou a moeda de cinqüenta centavos e a entregou.

- Obrigada. – ela disse.

Ele somente assentiu com a cabeça, indicou a catraca e ajudou Paula a girá-la.


- Há há... – riu Paula, entrando no sanitário – Meu xixi custa cinqüenta centavos...

Observando melhor o lugar, ela se perguntou o que era feito do dinheiro, já que não havia sabonete nem toalhas de papel para enxugar as mãos. Paula fez mentalmente a promessa de nunca mais ouvir as vizinhas, que a incitaram a procurar preços mais acessíveis no comércio daquele bairro, sacudiu as mãos para tentar secá-las e puxou a maçaneta da porta principal para sair. A porta não se moveu.

Paula puxou com mais decisão. A porta pareceu abrir, mas fechou-se de novo com força. Intrigada, observou os batentes, olhou de lado para ver se alguém compartilhava com ela o ridículo momento, mas não. Estava sozinha. Tentou novamente. Desta vez, puxou com força. A porta abriu e com ela veio o segurança, agarrado à maçaneta, do lado de fora.

- Há! Era a senhora que não deixava a porta fechar!

- Mas eu precisava abri-la!

- Para quê?

- Para sair! Para o quê mais? Ou o senhor acha que eu vou ficar aqui dentro para sempre?

O segurança não respondeu. Já havia voltado ao seu posto, a dez centímetros da porta.
Paula suspirou e ia sair quando se lembrou do motivo que a havia levado ao sanitário. Precisava saber onde estavam as escadas que desciam, indicando a saída.

- O senhor pode informar-me onde ficam as escadas? – enquanto Paula perguntava, dirigiu-se instintivamente para a catraca.

Ainda olhando para o segurança, mas intimamente querendo sair o mais rapidamente possível de lá, girou a catraca na direção óbvia, a da saída. A catraca girou sem resistência e Paula saiu.

- Não! Não! – o segurança meneava a cabeça em sinal de desaprovação. - A saída é por aqui! – disse, indicando um portãozinho minúsculo que ficava logo atrás dele.

Paula parou, assustada.

- E como o senhor queria que eu soubesse, se o senhor estava parado bem na frente dele? Oras... Desculpe-me! – ela não sabia bem o que dizer, tendo sido pega de surpresa pela reação exagerada do homem, que olhava para ela em desespero, com as duas mãos na cabeça, como se o mundo fosse acabar.

- Ah, olha só o que a senhora fez! – exclamou o segurança em tom choroso.

Ela levantou os braços, como se tivesse sido pega em flagrante.

- O que foi que eu fiz? – perguntou.

O segurança demonstrou a catraca com as duas mãos espalmadas para cima, como se estivesse apresentando um espetáculo:

- Quebrou a catraca! Ai! E agora?

- Quebrei a catraca? – ela estava atônita – Quebrei a catraca?

- A senhora girou para o lado errado! Quebrou. Foi isso. Quebrou! – e falando ao rádio comunicador – Atenção, por favor, segurança. Segurança! Na escuta?

O rádio fez um chiado e alguém respondeu do outro lado.

- QAP, positivo operante. Qual é o problema?

- Uma moça quebrou a catraca do banheiro.

- QSL, já estamos mandando alguém averiguar.


Paula mal podia acreditar no que ouvia. Deu um risinho, achando um absurdo em tudo aquilo e fez menção de sair. Foi impedida pelo segurança, que, saindo do cercadinho, avisou, em tom ameaçador.

- A senhora não vai a lugar nenhum. Depredação de patrimônio privado é crime.

A moça ia explodir em uma gargalhada, mas conteve-se.

- Como é que é? Depredação de patrimônio? Onde foi que o senhor viu isso? – disse ela, ofegante no esforço máximo de segurar o riso.

O segurança suspirou, olhou para cima, como se pedisse forças aos céus e apontou para os números do mostrador que indicava quantas vezes a catraca havia sido girada.

- Olhe! Olhe o que a senhora fez. Os números não mexem mais! – ele estava nervoso.

- Ah não, que grande besteira! Deixe-me ver – disse ela, agarrando uma das hastes de metal e fazendo menção de girá-la. Foi impedida pelo segurança, que gritou:

- Não! Não faça nada! – e rapidamente, para o rádio – Por favor, preciso de reforços. Urgente!

Paula protestou:

- Isso já está passando dos limites! Deixe-me ir. Que conversa mais estranha! O senhor está agindo como se eu fosse alguém perigoso! Preciso ir! – tentava empurrar o homenzinho, que se colocava à frente dela, impedindo a fuga ao mesmo tempo em que continuava a pedir reforços pelo rádio.

Fosse porque o homem, apesar de mais baixo, era mais forte, fosse devido à pequena multidão que se juntara ao redor da cena, em dado momento, Paula desistiu de lutar. Ofegante, perguntou:

- Está bem! Desisto! O que podemos fazer para resolver esta situação?

O homem, aprumando-se em seu uniforme, se preparava para responder, quando o rádio chiou novamente:

- Atenção. Águia no QAP?

Mais do que depressa, o homem puxou o rádio, olhou para a moça desafiadoramente e apertando o botãozinho lateral, respondeu:

- QAP. Águia falando.

“Águia?" , Paula pensou, "Águia??”

- A meliante ainda se encontra no estabelecimento?

- Positivo, chefia. Está nervosa. Está quebrando tudo.

- QSL. Viatura em QTI.

- QSL. QRT. Câmbio.

Paula começava a perder a paciência:

- Como é que é? Eu, meliante? Quebrando tudo? – fez menção de agarrar o rádio, no que foi prontamente impedida pelo homem, que desviou, driblou e dançou, enquanto comunicava a periculosidade da senhora a seu superior, a “chefia”...

Paula, cansada, deu-se por vencida. Olhando ao redor, percebeu que o número de observadores havia aumentado e todos comentavam a cena. Resolveu ficar quieta e apoiou-se no cercadinho de metal. O segurança foi impedi-la, acreditando-se tratar de mais uma “depredação”.

- Tô quieta, agora! – disse, levantando as mãos em sinal de rendição. Espumaria de raiva se não fosse uma certa comicidade dos acontecimentos e a vergonha que começara a sentir, vendo-se analisada e julgada por dezenas de olhos desconhecidos.

O segurança somente apontou o indicador e o dedo médio para os próprios olhos e depois para ela, como se dissesse: “estou observando você”.

- E agora? – ela perguntou – O que vai acontecer?

- Agora vamos esperar a chefia decidir.

Paula suspirou. Tudo por um xixi de cinqüenta centavos e uma simples informação! Enquanto esperava, ela se recriminava por ter saído de casa de manhã, por ter resolvido ir fazer compras em um bairro tão afastado de sua casa, só para economizar um pouco mais. Jurou : “ De agora em diante, xixi, só no Iguatemi!” E se resignou.

- Vai demorar? Tô com pressa.

- A chefia é ocupada. A senhora vai ter que esperar.

Ao cabo de quinze minutos que pareceram imensamente mais longos para Paula, as pessoas começaram a se dispersar. A chefia ainda não havia dado sinal de vida. O rádio também não chiara. E tudo voltara ao normal.

Paula pensou consigo mesma que se quisesse sair dali, precisaria ser esperta. Pensou, imaginou, elocubrou... Em poucos minutos achou-se de posse do que ela acreditou ser “o plano perfeito” de fuga na cabeça. Treinou algumas vezes na imaginação. E resolveu colocá-lo em prática.

- Senhor segurança, preciso ir ao banheiro.

- A senhora não tente me enganar!

- É verdade! Toda essa confusão... Me deu vontade!

- Está bem. Mas ai da senhora se fugir, hein?

- Fugir? Por onde? Só se fosse voando pela janela, né?

- Há! – exclamou o segurança – Conheço gente como a senhora!

- De que tipo, que voa? – Paula suspirou.

- A senhora quer ou não quer ir ao banheiro?

- Quero.

- São cinqüenta centavos.

- Eu sei. Tome.

Paula entrou no banheiro. Agarrou a nécessaire correndo, vasculhou, vasculhou e acabou jogando todo o conteúdo na pia, achando por fim o que procurava. Agarrando o tubo de pasta de dentes, elevou o objeto acima da cabeça, como se levantasse um troféu e bradou:

- Vencerei!

Alguns minutos depois, saía, com os olhos vermelhos, em prantos.

- Senhor segurança, eu realmente preciso ir!

O homem olhava para a moça com desconfiança.

- Senhor, é verdade. Enquanto estava lá dentro, recebi uma ligação. Minha avó teve um derrame, está no hospital. Minha família está desesperada, preciso ir! Por favor, deixe-me ir!

O segurança estava impassível. Paula bradava:

- Pelo amor de Deus, deixe-me ir! Minha avozinha está morrendo no hospital. Talvez eu nem chegue a tempo!

Paula gritava e chorava, uivava, clamando iminente a morte da avozinha querida. Com a gritaria, algumas pessoas voltaram a se agrupar. Comentavam entre si:

- O que aconteceu?


- Parece que morreu gente lá dentro.


- Nossa! Alguém teve um derrame!

A roda de curiosos aumentava.

- Morreu uma senhora!


- Nossa senhora!


- Um médico! Precisamos de um médico!

Em poucos minutos, a balbúrdia havia se estabelecido novamente. Pessoas gritavam por um médico, que logo se apresentou, na figura de um senhor tatuado e com a barba por fazer, vestindo uma regata suja de molho de tomate na barriga, que disse:

- Sou médico.

- Dêem passagem, o homem é médico!

- O médico está aqui! Saiam da frente!


O pobre segurança tentou barrar a entrada do suposto médico. Este, ofendido, bradava estar sendo impedido de exercer a profissão. Havia uma pessoa morrendo lá dentro! O segurança, que já era baixinho, foi ficando cada vez menor diante do número de pessoas que se aglomerou ao redor do cercadinho. Alguém teve a idéia de remover as barras de metal. Logo havia gente tentando arrancá-las da parede. Todos gritavam. Finalmente, catraca, cercadinho e segurança voaram pelos ares, a porta foi arrombada e a pequena multidão invadiu o banheiro.

No meio da confusão, ninguém notou Paula, que se esgueirou pelas pessoas, escondendo o rosto. Parou o primeiro curioso mais afastado, perguntou pelas escadas e em tempo recorde conseguiu sair do prédio, jurando nunca mais voltar.

Na mesma noite, Paula visitou a avó, levando flores e uma caixa de doces.

- Vovó. obrigada por existir! A senhora é a inspiração da minha vida!



segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Barraco

Zé fechou a porta com força, jogou a chave do carro financiado no rack, bem ao lado da televisão, deu mais três passos e desabou no sofá.

- Eu quero o divórcio.


- O quê?


- Isso mesmo, Rita – bufou – Não agüento mais. Quero o divórcio.


- E posso saber por quê? – perguntou a moça com certo tom de ironia a tingir o timbre mezzo-soprano de um amargo de “saco-cheio”.


- Cansei.


- Cansou? Como assim, cansou?


- Cansei, Rita. Cansei!


- Do nada, Zé? De uma hora pra outra?


- É, Rita! – ele ajeitou o corpanzil no sofá na tentativa de concatenar as idéias e assim fazendo, apoiou o pé calçado em uma das almofadas. – Do nada? Você acha...


- Tira o pé do sofá, Zé! Quantas vezes eu tenho que dizer que ainda estamos pagando essa porcaria? – gritou Rita.


- Viu? É isso!


- Isso o que, Zé? Por que você está querendo me infernizar hoje?


- Eu? Eu é que estou querendo infernizar, Rita? Tem certeza?


- Não me provoca Zé, não me provoca que hoje eu não estou no meu juízo perfeito!


- Ah, isso você não está mesmo. Precisava fazer a cena que fez na loja?


- E o que você esperava que eu fizesse? A moça estava dando em cima de você!


- E eu vi alguma coisa Rita? De onde você tirou isso? Só porque ela resolveu dar um desconto? Precisava chamar a moça de gorda?


- Só um desconto? Você enlouqueceu? Ela passou a mão em você, eu vi!


- Ela estava ajeitando a camisa! Estava me ajudando... Já que você estava mais interessada em achar algo a mais para gastar mesmo...


- Gastar, Zé? É assim que você enxerga o meu interesse em fazê-lo se vestir melhor?


- E pra isso precisava gritar com a balconista?


- E tinha outro jeito de ela entender que não era pra pôr a mão em você?


- Ela entendeu rapidinho depois que você gritou que ela era uma mal-amada.


- Ela passou a mão na sua bunda!


- Ela foi tirar um fiapo que ficou grudado! Rita, você está ficando cada vez pior! Por causa de um fiapo precisava jogar todas as roupas do balcão no chão?


- Não, não precisava! Realmente! Precisava na verdade era bater a cabeça daquela cínica na parede, para ver se o bom-senso dela pegava no tranco!


- Ah, como se você quase não tivesse feito isso! Chacoalhou tanto a moça que ela quase vomitou.


- Que vomitasse, a sem-vergonha! Passando a mão no traseiro do marido das outras! Se bem que é bonito... – e deu um risinho abafado.


- Não foge do assunto Rita, não foge. Se eu não tivesse segurado você, agora a moça estaria sem a cabeça, que teria saído rolando do pescoço, tal a força com a qual você chacoalhou a pobre coitada!


- Eu mato você, Zé! Está defendendo a balconistazinha, agora, é? Então vai defender na rua, porque aqui você não fica!


- Ah, é? E você vai arcar com todos os crediários... Sozinha? – frisou a palavra com um sorrisinho cínico.


- Há! Um ou dois carnês? O que é isso perto de um marido traidor?


- São cinco carnês, Rita. Cinco! O carro, o conjunto de sofá, poltrona e mesa de centro, a geladeira, a máquina de lavar e a cama king-size!


- Isso! Vai! Joga na minha cara agora! Joga, diz que eu sou gastadeira!


- Não estou dizendo isso! Mas talvez fosse mais fácil se você se contivesse um pouco...


- Um pouco? Um pouco? Agora vai dizer que eu exagerei nas compras, hoje!


- Ah, não. Hoje não. Não ia dar mesmo, né?


- O que você está insinuando? – ela berrou. Estava fora de si.


- Não estou insinuando, estou dizendo: depois de você ter xingado, gritado, jogado as roupas do balcão no chão, chacoalhado a moça e dado um tapa na cara da coitada, ninguém ia querer vender mais nada pra gente, Rita.


- Zé, não me provoca que eu estou de sangue quente hoje! Me deixa, seu exu! Você está com dó? Vai lá, cuidar daquela coisinha! – abriu a porta da rua e apontou para fora, histérica – Vai!

Zé suspirou.

- Rita, eu não vou lá. Não quero cuidar da “coisinha”. Mas ajudaria muito se você se controlasse um pouco mais.


- Não! Não! – Rita desatou a chorar – Eu não acredito! Meu marido se engraçando com a balconista! – as lágrimas escorriam e lavavam a face recém esticada com toxina botulínica (paga em 24 vezes) da moça.


- Eu não estava me engraçando com a balconista, Rita! – acercou-se da esposa, tentando abraçá-la. Tomou uma cotovelada dela – Ai! Você está vendo como eu tenho razão? Ai...

Zé se sentou no sofá – cujas vinte e quatro parcelas haviam sido quitadas até a décima terceira – e ficou observando a esposa, que vertia um rio de lágrimas. Apesar da dor que a cotovelada causara, sentiu pena da Rita e resolveu mudar de tática.

- Rita.


- ...


- Rita, pára de chorar e vem aqui.


- ....


- Senta do meu lado, vem cá.

Rita olhou para ele, desconfiada.

- Vem cá. – ele deu três batidinhas de leve no assento do sofá. Mantinha o olhar reconciliador. Ela foi. Sentou-se ao lado dele, mantendo certa distância.

- Chora não – disse ele, puxando a esposa para perto de si. – Desculpa.

Ela se aninhou nos braços dele e foi pouco a pouco parando de chorar.

- Desculpa – disse ele novamente.


- Você ainda quer o divórcio?- choramingou a moça.


- Não, sua boba, eu amo você! – ele a apertou mais ainda e ela suspirou de alívio.


- Eu prometo que vou tentar me controlar da próxima vez.


Ele riu.


- Que foi? – disse ela, rapidamente aumentando o tom da voz.


- Shh... nada.... é que eu acho que lá a gente não entra mais não.... – o Zé tentava disfarçar o riso.


- É verdade, né?- Rita suspirou - Quem vai querer a gente lá depois de batermos tanto a porta da loja a ponto de estilhaçar o vidro?


- Nós? Que eu saiba, isso você fez sozinha...


- Zé! – ela ameaçou, voltando a se irritar – não me provoca!

Ele riu.

- Calma Rita, calma... Eu te amo. – ele beijou a testa dela e esticou a mão para pegar um dos bombons que estavam em cima da mesinha de centro.

Rita se aprumou incontinenti e bradou:

- Tira a mão dos meus bombons, Zé! Até parece que não sabe que eu preciso deles! Eu estou de TPM, não consegue ver? Ô diabo de homem!

E, esquivando-se dele, levantou-se, agarrou a caixa de bombons e foi chorar na cozinha.

– Me deixa, seu exu. Me deixa!

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Mortalha

Requiem aeternam dona eis, Domine, et lux perpetua luceat eis.
(Repouso eterno dá-lhes, Senhor, e luz perpétua os ilumine.)

Se há 3 coisas com as quais mulher nunca se agüenta, essas são cólica menstrual, amor e curiosidade. Camila não estava naqueles dias, muito menos apaixonada, quando finalmente se deu por vencida e, ao lado de Daniela, subiu os primeiros degraus da entrada do prédio amarelo que avistavam todos os dias, de longe, de dentro do ônibus, no caminho para o escritório de advocacia, onde estagiavam. A construção velha, porém bem conservada, havia sido pintada de um tom de amarelo que seria esdrúxulo, se não fosse pela cor dos batentes das janelas, laranja, que ressaltava mais do que as paredes e relegava a estranheza da primeira cor a segundo plano.

Elas não precisaram tocar mais que duas vezes o interfone para que o zelador, um homem de cerca de 30 anos que a bebida havia transformado em 60, abrisse a porta com um sorriso desdentado. O homem de graduação alcoólica elevada apontou para o elevador e balbuciou algo ininteligível e volátil. Camila não titubeou. A curiosidade era maior. Caminhou pelo saguão pequeno e encardido, seguida por Daniela e apertou o botão. Uma luz acendeu no painel, demonstrando que o elevador, que estava no último andar, iniciava sua decida. Lento, porém de velocidade constante, não demoraria mais que 3 minutos para chegar ao térreo.

Kyrie eleison, Christe eleison, Kyrie eleison.
(Senhor tem piedade. Cristo tem piedade. Senhor tem piedade.)

Camila mal conseguia manter os olhos abertos de tanto sono, quando Daniela notou, pela primeira vez, a janela que destoava do resto do prédio alto, em rua movimentada de bairro barulhento e fedido da cidade. Descia o ônibus a rua a ritmo de intróito de réquiem, lento e catacúmbico, quase moribundo, no trânsito de todo-dia-amém. O prédio, de um amarelo envelhecido que lembrava a pele que cobre o hematoma quando o roxo já está desaparecendo, era feio e ressaltava no meio dos demais, especialmente pelos batentes laranjas. Mas aquela janela, no último andar, parcialmente fechada pelos tijolos, como se alguém houvesse decidido impedir a única entrada de luz daquele cômodo, realmente incomodou as moças.

Aprumando-se no banco do ônibus, Camila lembrou das leis de condomínio, que geralmente proíbem mudanças externas que desarmonizem a fachada do prédio e se perguntou que tipo de síndico era esse que permitia tal infração. Daniela concordou e ponderou que talvez ninguém ainda houvesse notado tamanha diferenciação em uma única janela, lá no alto, em meio a tanta poluição. Por fim, o ônibus andou e a mente de Camila voltou a fazer cálculos com a velocidade do carro, a bronca do chefe que o atraso fatalmente detonaria e quanto gastaria no almoço em doces para compensar a frustração do namoro recém-terminado.

Dies irae, dies illa solvet saeclum in favilla, teste David cum Sybilla.Quantus tremor est futurus, quando judex est venturus, cuncta stricte discussurus.
(Dia de ira, aquele dia no qual os séculos se desfarão em cinzas, assim testificam Davi e Sibila. Quanto temor haverá então, quando o Juiz vier, para julgar com rigor todas as coisas.)

Camila ainda sentia dorido o coração quando pensava em Cláudio e nas últimas palavras que proferiu na ocasião da briga derradeira. Havia surpreendido o namorado em flagrante delito de adultério no sofá de seu apartamento, com uma amiga sua. De vassoura na mão, varreu ambos, em trajes mínimos, para fora do apartamento, exigindo que se retirassem da residência, das vistas e da vida dela. Que fossem se trancar em algum lugar para copular como os animais que eram e que se emparedassem vivos, em algum motel da periferia, que ela não ligaria. Mas na casa dela?? Jamais!! Depois, bateu a porta com força descomunal, compatível com a raiva e o desgosto que sentia, causando uma rachadura na parede ao lado do batente, atirou o que encontrou pelo caminho janela abaixo, sentou-se no sofá, sentiu nojo, levantou, cambaleou... E caiu de joelhos no chão, chorando como criança e pedindo o colo da mãe.

Tuba mirum spargens sonum per sepulchra regionum, coget omnes ante thronum.Mors stupebit et natura, cum resurget creatura, judicanti responsura.
(A trombeta poderosa espalha seu som pela região dos sepulcros, para juntar todos diante do trono. A morte e a natureza se espantarão com as criaturas que ressurgem, para responderem ao juízo.)

A partir daquele momento, a moça ficaria exposta à apreciação da vizinhança fofoqueira, que fatalmente comentaria por tempos infindos a desventura da pobre estudante de Direito. Ah! E às multas do condomínio. Três, na verdade. A primeira, por fazer barulho depois das 10 horas da noite; a segunda, por jogar lixo pela janela (entendendo-se por “lixo” a camiseta desbotada de Cláudio), e a terceira, por pendurar roupa no terraço (a calcinha da amiga, que ficara presa em um dos ganchos da grade de proteção). O zelador, escutando a reclamação da moça, alguns dias depois, somente meneou a cabeça. A síndica disse que sentia muito, mas a ordem precisava ser mantida:

- Afinal, para quê servem as leis do condomínio, minha filha? Hã? Hã? – disse a mulher, sacudindo as mãos com longas unhas vermelho-fogo bem no rosto de Camila, como quem na verdade diz: “Percebeu o absurdo que você está me pedindo? Hello?"

Rex tremendae maiestatis, qui salvandos salvas gratis, salva me, fons pietatis.
(Ó Rei, de tremenda majestade, que ao salvar, salva gratuitamente, salva a mim, ó fonte de piedade).

Camila deu de ombros, apesar de sentir uma leve irritação com a incoerência da síndica. A senhora cobrava o bom cumprimento das leis de condomínio com vigor naquela oportunidade, mas habitualmente oferecia reuniões de “tapeué”, no salão de festas, na quarta-feira, a única noite em que se encontrava nas dependências do prédio e que deveria ser utilizada para deliberações sobre o bem-estar coletivo. Como estudante do terceiro ano de Direito, Camila já sabia como mover ações e ganhá-las. Podia muito bem processar o condomínio. Mas pensou na perda de tempo e sentiu um súbito cansaço, provavelmente advindo dos últimos insucessos amorosos, cujas lembranças minavam paulatinamente suas reservas de energia. Estava muito magoada. Foi Daniela, a amiga fiel e dedicada, colega de faculdade e estágio, quem a demoveu da idéia do processo.

- E mais, não quero mais ver você assim, Ca! Não se deixe abater por tão pouco, você tem muita fibra! Acho que você deveria se mudar daqui. Por que não fica uns tempos em casa?

-Não, obrigada. Estou bem. O contrato vence em cinco meses e eu não vou renová-lo. Preciso mesmo de outro lugar, esse aqui traz muitas memórias. Mas não posso fazer isso imediatamente...

- Faça quando achar melhor, mas faça logo! – redargüiu Daniela, com carinho.

Recordare Jesu pie, quod sum causa tuae viae, ne me perdas illa die.Quaerens me sedisti lassus, redemisti crucem passus; tantus labor non sit cassus.
(Lembra-te, ó Jesus piedoso, que fui a causa de tua peregrinação, não me perca naquele dia. Procurando-me, ficaste exausto, me redimiste morrendo na cruz que tanto trabalho não seja em vão.)

A urgência dessa mudança, porém, tornou-se premente em apenas alguns dias. Cláudio, arrependido, procurou Camila, pretextando a recuperação das peças de roupas deixadas “por engano”, como ele mesmo afirmou. Encontrando uma tênue dúvida no coração da moça e falando pela fresta entre o batente e a porta, cuja corrente permitia somente a entrada do nariz dele, Cláudio foi suavizando a resistência de Camila com desculpas esfarrapadas e pueris. A moça, condoída pelas lágrimas de crocodilo que ele se esforçava em fazer soarem honestas, acabou abrindo a porta. Qual não foi o seu espanto quando Cláudio, ao invés de beijar-lhe ternamente o rosto e depois os lábios, como o fazia desde os primórdios do relacionamento, espalmou as duas mãos ao redor do pescoço da infeliz, que, assustada, gritou antes que o ar lhe faltasse por completo e a glote fechasse. Por sorte, a vizinha, uma senhora com a audição parcialmente neutralizada, chegava de sua caminhada diária exatamente naquele momento e, empunhando a sombrinha com tanta força quanto a artrite permitia, bateu na cabeça de Cláudio que, surpreendido, largou o pescoço da moça.

Confutatis maledictis, flammis acribus addictis, voca me cum benedictis.Oro supplex et acclinis, cor contritum quasi cinis, gere curam mei finis.
(Condenados os malditos e lançados às chamas devoradoras, chama-me junto aos benditos. Oro, suplicante e prostrado, o coração contrito, quase em cinzas, tomai conta do meu fim.)

- Eu volto! – ele ameaçou, enquanto corria para o elevador, que ainda se encontrava no andar – Volto e te mato! Se você não for minha, não será de mais ninguém!

Abrindo a porta do elevador rapidamente, Cláudio ainda fixou seu olhar, algo esgazeado de ódio, em Camila, que arfava, mas ainda teve forças para redargüir:

-Vai pro inferno, seu cretino! Adúltero maldito! Devia ser trancafiado em uma jaula, seu animal! Maldito!!! Malditooooo!!!! Te jogo na cadeia e te deixo apodrecendo lá! Malditoooo!!!

Enquanto Cláudio entrava no elevador e desaparecia, Camila correu à escada de emergência e despencou dois a dois os degraus. Queria saber quem havia permitido a entrada do ex-namorado no prédio sem sequer interfonar para o seu apartamento. Quase pôs abaixo a porta que isolava a escadaria do saguão de entrada e foi a muito custo que o zelador e Daniela, que chegava naquele momento, conseguiram conter o desvario da moça. Cláudio havia conseguido fugir.

Camila, ensandecida, partiu para cima do porteiro, tencionando esganar o pobre-coitado, abobado por horas e mais horas de televisão no exercício de suas funções - as quais nunca realmente foram bem exercidas, diga-se de passagem, pois ou ficava muito entretido com a novela, ou dormia, deixando o morador ao relento em plena madrugada. O incauto, ao seu interpelado quanto à entrada do agressor, respondeu, sem pensar:

-Afe, dona Camila, mas a senhora não disse que não precisava mais chamar quando o seu Cláudio chegava? Olha que não entendo, dona Camila, a senhora não deu a chave pra ele, achei que a briga era já tinha passado... Perdoa o homem, dona Camila! Afinal, foi coisa de homem, dona Camila, coisa de homem!

Lacrimosa dies illa, qua resurget ex favilla judicandus homo reus.Huic ergo parce Deus, pie Jesu Domine, dona eis requiem! Amen!
(Dia de lágrimas será aquele no qual os ressurgidos das cinzas serão julgados como réus. A este poupa, ó Deus, piedoso Senhor Jesus, dá-lhes repouso. Amém.)

Percebendo que não poderia estrangular o porteiro porque havia sido contida fisicamente pelo zelador e pela amiga e tendo plena consciência das conseqüências que tal insanidade lhe acarretaria, Camila não viu outra alternativa senão chorar. Um choro dorido e tão amargurado, que rapidamente fez seus olhos incharem a ponto de não conseguir enxergar e a forçou a procurar seu quarto e a escuridão, para fugir da vergonha e da enxaqueca. Apoiando-se em Daniela, enquanto voltava para seu apartamento, tomou a decisão de se mudar para qualquer lugar imediatamente, a fim de evitar novo confronto com o ex-namorado e outras cenas deprimentes como a que havia acabado de protagonizar.

Logo no dia seguinte conseguiu guarida na casa da avó, que morava em bairro mais afastado do escritório e da faculdade. Aquela mudança forçaria Camila a pegar dois ônibus para se locomover para qualquer lugar, mas ela não se importava. Tomaria chuva, acordaria mais cedo, enfrentaria as multidões ensardinhadas e malcriadas dos ônibus da hora do rush. Sofreria, contudo faria qualquer coisa para não ver Cláudio novamente!

Domine Jesu Christe! Rex gloriae! Libera animas omnium fidelium defunctorumde poenis inferni et de profundo lacu!
(Senhor Jesus Cristo! Rei da Glória! Liberta as almas de todos os que morreram, fiéis, das penas do inferno e do lago profundo!)

Passados alguns meses, um dia Camila se surpreendeu ao contabilizar mais de uma semana sem chorar nem sentir o peito contrito, mesmo ao observar qualquer coisa que lembrasse Cláudio. “Realmente, devo estar curando dessa doença”, pensou feliz. No mesmo dia, resolveu aceitar o convite para uma festa do pessoal da faculdade. Combinaram que matariam a última aula e se encontrariam no portão principal, a fim de organizarem as caronas para a casa de determinado amigo. Camila estava ansiosa, havia começado a se interessar por Marcelo, um aluno do último ano de Direito e ela sabia que ele estaria nessa festa. Eles já haviam trocado alguns sorrisos e olhares pelos corredores da faculdade. Na verdade, os dois protagonizavam aquela fase em que todos ao redor percebem o flerte, menos os próprios enamorados, que acreditam, com seus olhares esgazeados, óculos cor-de-rosa e expressões de bobos-alegres, esconder do resto do mundo o que estão sentindo.

Enquanto juntava os livros para sair, Camila viu Daniela acenando no corredor para que se apressasse. Parecia nervosa. Camila esperou que o professor desse sua aula por encerrada e saiu rapidamente.

- Mas o que você pensa que está fazendo, batendo as asas desse jeito no corredor? – provocou Camila, rindo.

- Ah deixa de sacanagem comigo, tenho novidades! O Marcelo, aquele que você paquera, disse pro Ronaldo que quer ficar com você!

- Sério? – Camila parou no meio do corredor - Hmm... não sei.... será que não é muito cedo?

- Como assim, cedo? Cedo para quê? Você não está pensando naquele imbecil do Cláudio ainda, está?

- Não! Não é isso, é que... Ah, acho que estou com medo, sei lá.

Daniela puxou Camila pela mão:

- Então deixa para sentir medo depois de beijar o Marcelo! Afinal, já está na hora de você enterrar o Cláudio, você não acha?

- É mesmo! Enterrar o meu passado... É isso que devo fazer!

As duas riram com a resolução falsa de Camila. Ambas sabiam que a decepção ainda era muito recente para que a moça, que acreditava em amores perfeitos, conseguisse engatilhar um novo relacionamento. Conversando animadamente, seguiram para o portão, a fim de encontrar o resto da turma.

- Como vocês demoraram! – disse Marcelo, ao ver as amigas. Aproximou-se de Camila, sorriu, beijou-lhe o rosto e disse que ela estava muito bonita.

- Que é isso, Marcelo, estou igual a todos os dias.

- Está não, está mais bonita... – e pegou as mãos dela. Camila riu e baixou os olhos, ruborizada.

- Solta as mãos dela!

Libera eas de ore leonis, ne absorbeat eas tatarus, ne cadant in obscurum
Sed signifer sanctus Michael repraesentet eas in lucem sanctam:
Quam olim Abrahae promisiti et semini ejus.
(Libertai-as da boca do leão, que não sejam absorvidas no inferno, nem caiam na escuridão: Mas que o santo arcanjo Miguel as introduza na luz santa: Conforme prometeste a Abraão e à sua descendência.)

Cláudio estava parado a poucos metros do casal e da turma, fuzilando Camila com o olhar de raiva.

- Solta as mãos dela ou vou ter que tomar uma providência – disse, apoiando uma das mãos na cintura e subindo um pouco a camisa. Todos viram o que parecia ser um revólver.

- Ele está armado! – alguém avisou, causando um alvoroço entre os amigos, que não sabiam o que fazer, mas não se moveram um centímetro de perto da moça, no intuito de protegê-la. Marcelo, porém, largou as mãos de Camila, desconcertado.

Cláudio pareceu não se importar com a reação que causara. Aproximou-se de Camila, lentamente. Um sorriso irônico dançava em seus lábios. Deliciava-se com a sensação de poder que a arma que carregava na cintura lhe dava.

- Vai sair? – perguntou.

- Não é da sua conta. – respondeu Camila.

- Aonde você pensa que vai?

- Já disse, não é da sua conta.

- Está namorando outra pessoa?

- Volto a dizer, não é da sua conta.

- Se eu fosse você, tomaria mais cuidado e me respeitaria mais.

- Não vou respeitar vagabundo que transa com minha amiga no meu sofá.

- Isso não significou nada, ela não era ninguém. Eu ainda amo você.

- Problema seu. Me deixa em paz. Não quero mais você.

- Mas eu ainda te quero.

- Não me interessa, me deixa em paz, vai embora!

- Cuidado... cuidado...

- Vou conseguir um mandado de restrição, se você não me deixar em paz. Vou jogar você na cadeia, você vai apodrecer trancado ali, se não me deixar em paz, estou avisando!

- Quem está avisando sou eu: cuidado...

Cláudio saiu lentamente, deixando Camila aterrorizada e certa de que ela deveria se ausentar por algum tempo de tudo o que tivesse ligação com sua vida, inclusive a faculdade. Resolveu trancar a matrícula, já que a seção de alunos ainda estava aberta e ir para casa. De lá, rumou para a rodoviária, sem não antes fazer um telefonema para uma tia que morava em outra cidade, bem longe, muito menor e menos confusa. Daniela entristeceu-se com a decisão da amiga, mas manteve seu apoio.

- Não quer mesmo ficar na minha casa?

- Não, obrigada, Dani. Eu realmente preciso de paz, agora.

Com essa decisão, Camila abria mão da própria liberdade, esperando conseguir, finalmente, um pouco de paz.


Hostias et preces tibi, Domine, laudis offerimus.Tu suscipe pro animabus illis, quarum hodie memoriam facimus: fac eas, Domine, de morte transire ad vitam, quam olim Abrahae promisisti, et semini ejus.
(Sacrifícios e preces a Ti, Senhor, oferecemos com louvores. Recebe-os em favor daquelas almas, das quais hoje nos lembramos: fazei-as, Senhor, da morte passarem para a vida, conforme prometeste a Abraão e à sua descendência.)

Um semestre se passou. Durante esse tempo, Camila descansou, chorou, teve pesadelos; passou a freqüentar a missa todos os domingos e a conversar muito, mas muito mesmo com a tia que, apesar de morar em cidade tão pequena e pacata, tinha um coração enorme e idéias um tanto revolucionárias para sua idade. Foi a tia quem a convenceu a matricular-se em um curso de jardinagem, que Camila adorou. A moça também passou a ajudar na horta, pintar panos de prato e bordar toalhinhas de lavabo. De vez em quando, Camila ligava para Daniela a fim de dar-lhe notícias e contar as novas aquisições para seu rol de habilidades. Daniela, que havia nascido e morado sempre na cidade gigante, ria muito com as novas peripécias de Camila e acrescentava que um dia ainda iria visitar a amiga e os sete filhos na fazenda e tirar leite da vaca.

- Você está maluca? Eu vou voltar! Preciso terminar a faculdade e continuar com a minha vida. Só estou dando um tempo... Não me sinto preparada ainda. – explicava Camila.

No começo, ela queria muito saber se Daniela havia visto Cláudio, mas não tinha coragem de perguntar. E, talvez porque durante esse tempo não o tivesse feito, ou talvez porque se esforçasse para esquecer o ex-namorado, ao cabo de seis meses Camila era realmente outra pessoa, mais calma, mais comedida, mais livre do que nunca de Cláudio. E pronta para retomar sua vida, do ponto onde a havia deixado.

Em um dia bastante ensolarado, Camila bateu à porta de Daniela, tencionando surpreendê-la. Fez-se anunciar na portaria do prédio com o nome de outra amiga, já que o porteiro era novo e não a reconheceria. Sua entrada foi granjeada quase prontamente e em poucos minutos estava defronte à porta do apartamento de Daniela. Tocou a campainha. Passados alguns minutos, pensou ter escutado um alvoroço e o ruído de um vidro qualquer que se quebrava. Lembrou-se que talvez estivesse chegando em má hora. Estaria a amiga ocupada? Mas logo a porta se abriu e Daniela, vestindo um roupão e arrumando os cabelos, a recebeu com um largo sorriso:

- Camila! Que surpresa!

- Se importa se eu ficar aqui até arranjar um lugar?

- Ficar aqui? Mas é claro! – Camila pensou notar que Daniela praticamente gritava, mas achou que talvez os seis meses que passara reclusa causavam o estranhamento – Entre!

Camila pegou uma mala e Daniela, a outra. Uma porta bateu na cozinha.

- Ah, nesse andar, o vento é inclemente! – riu Daniela. Mas não havia vento, pensou Camila. Ou havia? Teria ela passado muito tempo ao ar livre, no campo, onde as grandes tempestades, quando chegam, são amedrontadoramente cinematográficas?

Sanctus, sanctus, sanctus Dominus Deus Sabaoth! pleni sunt coeli et terra gloria tua.Osanna in excelsis.
(Santo, Santo, Santo, Senhor Deus dos Exércitos! Cheios estão os céus e a terra da Tua glória. Hosana nas alturas).

Em pouco tempo Camila já havia retomado toda a sua rotina, inclusive as aulas da faculdade e o estágio, no mesmo escritório que havia deixado às pressas, havia seis meses. O chefe continuava ranzinza e o trânsito, insuportável, mas Camila sorriu ao perceber que não tinha mais necessidade do chocolate após o almoço, agora que Cláudio não fazia parte de sua vida. Era verdade que às vezes ainda lembrava-se dele, porém, mais como um erro que não deve ser cometido, tampouco repetido. Uma lição bem aprendida, diria ela.

Marcelo foi quem mais se alegrou com a volta de Camila. Logo os dois já haviam se entendido e estavam namorando. Em pouco tempo ela se mudou para a casa dele, deixando Daniela um tanto triste pela perda da companhia, mas satisfeita com a alegria da amiga. Marcelo queria casar e Camila, que gostava dele cada vez mais, se surpreendeu dizendo “sim” quando o namorado ajoelhou ao seu lado, durante um jantar a dois em um restaurante famoso da cidade. Formavam, verdadeiramente, o casal direito: estudavam as leis, estagiavam na advocacia e agiam com tanta retidão, que os amigos resolveram celebrar o noivado com uma festa surpresa para os dois, no apartamento de Daniela.

- Ao encontro que deveria ter acontecido há seis meses! - disse um dos colegas da faculdade, estourando o champanhe.

As risadas corriam soltas e a música, um tanto alta, quando o zelador tocou a campainha do apartamento, pedindo que o barulho cessasse, depois de interfonar mais de três vezes. Daniela pediu a todos que baixassem as vozes e diminuiu o volume da música, pois não queria pagar uma multa.

- Melhor assim – disse - Tenho certeza de que minha paz será garantida também... Afinal, para quê servem as leis de condomínio?

- É verdade – atalhou Camila – o prédio do Marcelo, ou melhor, o nosso prédio...

- Ainda está se acostumando ou pretende fugir, Camila? – alguém comentou em voz mais alta, causando o riso generalizado e certa confusão de comentários. Todos gostavam muito do casal e estavam imensamente felizes com essa união.

Benedictis, qui venit in nomine Domini. Osanna in excelsis.
(Bendito o que vem em nome do Senhor. Hosana nas alturas)

Camila continuou:

- O nosso prédio – disse, olhando significativamente para Marcelo e frisando a palavra “nosso”, enquanto o noivo se aproximava e a enlaçava carinhosamente pela cintura – é cheio de regras, mas fico tão contente com isso! Tenho uma sensação tão forte de segurança!

- É para isso que servem as leis do condomínio, não é? – Marcelo beijou a noiva no rosto. Depois, dirigindo-se a todos que estavam na sala, continuou – Mas eu descobri um segredinho da minha futura mulher... – e piscou significativamente.

O barulho aumentou novamente com os comentários e a vizinha de baixo passou a bater no teto com a vassoura, sinalizando que haviam quebrado as regras mais uma vez. Marcelo fez um olhar de suspense, segurou a respiração, todos fizeram silêncio para escutar o que ele tinha a revelar:

- A Camila é neurótica por esse negócio de regras de condomínio! Vocês acreditam que ela vem implicando com a janela de um prédio que ela vê no caminho para o escritório?

- Ah, isso não é justo! – Camila se defendeu – aquela janela é horrível! Ademais, não fui eu quem a notou, foi a Daniela! – riu ao culpar, de brincadeira, a amiga – Ela sabe que eu não agüento essas coisas esteticamente incorretas!

- Há, há, há... Fala a grande advogada... O Direito aplicado à Arquitetura! – Daniela levantou os braços e fez uma grande reverência à amiga, suscitando gargalhadas – Mas é verdade, tenho que concordar... Aquele prédio é horrível! – adicionou Daniela – Batentes laranjas e paredes amarelas. Simplesmente medonho!

- Mas o pior mesmo é aquela janelinha, a única lá em cima, fechada com tijolos aparentes! Destoa de todo o resto! – defendeu-se Camila – Será que o prédio não tem um síndico?

- Se tiver, ele deve ser daltônico! – alguém brincou.

- Estou quase indo lá para investigar! – revelou Daniela – De tanto que a Camila reclama dessa janela, todos os dias! Quero saber por que a lei não está sendo cumprida! – falou em tom autoritário, mas rindo, ao mesmo tempo.

- Não é de todo uma má idéia... – ponderou Camila

- Ora, deixa de piada! – Marcelo olhou para a noiva, achando graça no comentário.

Mas Daniela e Camila perceberam que ambas tinham a mesma curiosidade. E selaram o trato com um olhar significativo: iriam averiguar o que estava acontecendo e que janela era aquela. Afinal de contas, as leis de condomínio devem ser cumpridas!

Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, dona eis requiem.Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, dona eis réquiem sempiternam.
(Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo: dai-lhes o repouso.
Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo: dai-lhes o repouso eterno.)


O elevador era sinistro, tanto quanto o eram as paredes internas do saguão. O prédio era antigo e o chão parecia não ver um esfregão há décadas. Daniela e Camila se entreolharam. O porteiro havia recostado atrás do balcão e roncava sob o efeito do álcool. Uma garrafa de pinga, vazia, estava caída aos pés dele. As moças sorriram, pensando a mesma coisa.

- É... – disse Camila – Acho que não tem síndico aqui não...

Daniela abriu a porta do elevador e olhou para Camila:

- Nós vamos mesmo? – perguntou com receio.

Camila respirou profundamente, como se tomasse coragem e respondeu, resoluta:

- Vamos!

Ambas entraram no elevador e Camila, olhando os botões do painel, hesitou, antes de apertar o 13, o último andar.

- Treze, meu número de sorte! – tentou brincar para disfarçar o medo.

O elevador começou a se mover. De repente, sofreu um tranco, parou por alguns segundos. As moças arregalaram os olhos e Camila pensou que a idéia de investigar uma janela era tão boba! Mas o elevador voltou a se mover e logo tudo estaria acabado. No 13º andar, o elevador parou. Daniela olhava para baixo e não se moveu.

E a porta se abriu.

Era Cláudio.

Camila atônita, exclamou:

- Mas o que significa isso? Daniela? O que...

Daniela sorriu para Cláudio:

- A entrega está feita. Onde está meu pagamento?

Cláudio puxou as duas para fora do elevador. Abraçou Daniela pela cintura e beijou a boca da moça.

- Já já. Cuidemos disso primeiro. – disse, afastando Daniela e olhando para Camila.

A moça, apavorada, entrou no elevador e puxou a porta, tentando fugir, mas Cláudio manteve o botão do elevador pressionado e a porta interna não fechou. Camila, entrando em verdadeiro desespero, gritou por socorro. Depois, pediu ajuda à amiga. Daniela olhava para o chão e não se moveu. Por fim, Camila pediu misericórdia. E a voz lhe faltou. Começou a chorar. Daniela continuava olhando para o chão e não se moveu.

Cláudio agarrou a ex-namorada com força e tampou o nariz da moça com um lenço úmido. De repente, Daniela, excitada com a aventura, pegou o revólver da cintura de Cláudio e deu uma coronhada na cabeça da amiga, que desmaiou. Cláudio protestou:

- Que foi isso? Eu já tinha tudo sob controle!

- Só para garantir, meu amor, só para garantir!


Lux aeterna luceat eis, Domine.
Cum Sanctis tuis in aeternum: quia pius es.Requiem aeternam dona eis, Domine.
(Que a luz eterna os ilumine, Senhor
Com os teus santos pela eternidade: pois és piedoso.
Repouso eterno dá-lhes, Senhor)

Camila acordou com brutal dor de cabeça, em meio à escuridão que somente uma nesga de luz traía. Tateou ao seu redor, sentiu o chão de tacos. Havia um cheiro indefinido no ar. Tateou mais um pouco e achou um pano levemente umedecido e um vidro, ao seu lado, no chão. Pegou o vidro, levantou-se com dificuldade e se aproximou do lugar onde um filete de luz indicava a conexão com o mundo exterior. Passando a mão, percebeu a textura de tijolos e cimento entre eles. Ah, o cheiro era de parede recém erguida! Mas não era só disso. Havia algo mais. Acostumando os olhos à escuridão, aproximou o vidro que tinha nas mãos da fresta de dois dedos de largura, um ponto não cimentado entre dois tijolos e leu o rótulo: clorofórmio. Olhando pela fresta, Camila percebeu a rua e os prédios, os mesmos que via todos os dias pelo lado de fora, pela janela do ônibus.

Um calafrio percorreu seu corpo e a certeza de que havia selado seu destino sem se dar conta despencou em sua alma, gelando até a última fibra da sua coragem: havia presenciado a construção de seu esquife de tijolos, dia após dia, arquitetado pelo namorado dispensado e pela falsa amiga. A janela que destoava era a mortalha de Camila. Sentiu um súbito cansaço, as pernas amoleceram. Desabou no chão, de joelhos, chorando e pedindo o colo da mãe. Depois de muito soluçar, cansada, deitou-se no chão. Percebeu que havia escurecido, pois a luz que antes entrava pela fresta agora se resumia a uma claridade muito tênue. Tentou colocar os pensamentos em ordem. Quais seriam suas chances de sobrevivência? Procurariam por ela, isso era certo. Porém, alguém se lembraria da janela de tijolos, mencionada em uma brincadeira na última festa?

-Tudo bem... – suspirou, tentando ficar calma.

Ainda havia a esperança de que o síndico fosse mais zeloso que a morte no cumprimento dos deveres. Afinal de contas, para quê servem as leis de condomínio?

Et lux perpetua luceat eis. Cum Sanctis tuis in aeternum: quia pius es.
(E que a luz perpétua os ilumine . Com os teus santos pela eternidade: pois és piedoso.)


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Nota para os curiosos: a janela existe. Ela pode ser vista descendo-se a Brigadeiro Luís Antônio de ônibus. O prédio está do lado esquerdo de quem desce a rua, mais ao fundo, logo depois da R. Cris Tronbjerg.