segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Barraco

Zé fechou a porta com força, jogou a chave do carro financiado no rack, bem ao lado da televisão, deu mais três passos e desabou no sofá.

- Eu quero o divórcio.


- O quê?


- Isso mesmo, Rita – bufou – Não agüento mais. Quero o divórcio.


- E posso saber por quê? – perguntou a moça com certo tom de ironia a tingir o timbre mezzo-soprano de um amargo de “saco-cheio”.


- Cansei.


- Cansou? Como assim, cansou?


- Cansei, Rita. Cansei!


- Do nada, Zé? De uma hora pra outra?


- É, Rita! – ele ajeitou o corpanzil no sofá na tentativa de concatenar as idéias e assim fazendo, apoiou o pé calçado em uma das almofadas. – Do nada? Você acha...


- Tira o pé do sofá, Zé! Quantas vezes eu tenho que dizer que ainda estamos pagando essa porcaria? – gritou Rita.


- Viu? É isso!


- Isso o que, Zé? Por que você está querendo me infernizar hoje?


- Eu? Eu é que estou querendo infernizar, Rita? Tem certeza?


- Não me provoca Zé, não me provoca que hoje eu não estou no meu juízo perfeito!


- Ah, isso você não está mesmo. Precisava fazer a cena que fez na loja?


- E o que você esperava que eu fizesse? A moça estava dando em cima de você!


- E eu vi alguma coisa Rita? De onde você tirou isso? Só porque ela resolveu dar um desconto? Precisava chamar a moça de gorda?


- Só um desconto? Você enlouqueceu? Ela passou a mão em você, eu vi!


- Ela estava ajeitando a camisa! Estava me ajudando... Já que você estava mais interessada em achar algo a mais para gastar mesmo...


- Gastar, Zé? É assim que você enxerga o meu interesse em fazê-lo se vestir melhor?


- E pra isso precisava gritar com a balconista?


- E tinha outro jeito de ela entender que não era pra pôr a mão em você?


- Ela entendeu rapidinho depois que você gritou que ela era uma mal-amada.


- Ela passou a mão na sua bunda!


- Ela foi tirar um fiapo que ficou grudado! Rita, você está ficando cada vez pior! Por causa de um fiapo precisava jogar todas as roupas do balcão no chão?


- Não, não precisava! Realmente! Precisava na verdade era bater a cabeça daquela cínica na parede, para ver se o bom-senso dela pegava no tranco!


- Ah, como se você quase não tivesse feito isso! Chacoalhou tanto a moça que ela quase vomitou.


- Que vomitasse, a sem-vergonha! Passando a mão no traseiro do marido das outras! Se bem que é bonito... – e deu um risinho abafado.


- Não foge do assunto Rita, não foge. Se eu não tivesse segurado você, agora a moça estaria sem a cabeça, que teria saído rolando do pescoço, tal a força com a qual você chacoalhou a pobre coitada!


- Eu mato você, Zé! Está defendendo a balconistazinha, agora, é? Então vai defender na rua, porque aqui você não fica!


- Ah, é? E você vai arcar com todos os crediários... Sozinha? – frisou a palavra com um sorrisinho cínico.


- Há! Um ou dois carnês? O que é isso perto de um marido traidor?


- São cinco carnês, Rita. Cinco! O carro, o conjunto de sofá, poltrona e mesa de centro, a geladeira, a máquina de lavar e a cama king-size!


- Isso! Vai! Joga na minha cara agora! Joga, diz que eu sou gastadeira!


- Não estou dizendo isso! Mas talvez fosse mais fácil se você se contivesse um pouco...


- Um pouco? Um pouco? Agora vai dizer que eu exagerei nas compras, hoje!


- Ah, não. Hoje não. Não ia dar mesmo, né?


- O que você está insinuando? – ela berrou. Estava fora de si.


- Não estou insinuando, estou dizendo: depois de você ter xingado, gritado, jogado as roupas do balcão no chão, chacoalhado a moça e dado um tapa na cara da coitada, ninguém ia querer vender mais nada pra gente, Rita.


- Zé, não me provoca que eu estou de sangue quente hoje! Me deixa, seu exu! Você está com dó? Vai lá, cuidar daquela coisinha! – abriu a porta da rua e apontou para fora, histérica – Vai!

Zé suspirou.

- Rita, eu não vou lá. Não quero cuidar da “coisinha”. Mas ajudaria muito se você se controlasse um pouco mais.


- Não! Não! – Rita desatou a chorar – Eu não acredito! Meu marido se engraçando com a balconista! – as lágrimas escorriam e lavavam a face recém esticada com toxina botulínica (paga em 24 vezes) da moça.


- Eu não estava me engraçando com a balconista, Rita! – acercou-se da esposa, tentando abraçá-la. Tomou uma cotovelada dela – Ai! Você está vendo como eu tenho razão? Ai...

Zé se sentou no sofá – cujas vinte e quatro parcelas haviam sido quitadas até a décima terceira – e ficou observando a esposa, que vertia um rio de lágrimas. Apesar da dor que a cotovelada causara, sentiu pena da Rita e resolveu mudar de tática.

- Rita.


- ...


- Rita, pára de chorar e vem aqui.


- ....


- Senta do meu lado, vem cá.

Rita olhou para ele, desconfiada.

- Vem cá. – ele deu três batidinhas de leve no assento do sofá. Mantinha o olhar reconciliador. Ela foi. Sentou-se ao lado dele, mantendo certa distância.

- Chora não – disse ele, puxando a esposa para perto de si. – Desculpa.

Ela se aninhou nos braços dele e foi pouco a pouco parando de chorar.

- Desculpa – disse ele novamente.


- Você ainda quer o divórcio?- choramingou a moça.


- Não, sua boba, eu amo você! – ele a apertou mais ainda e ela suspirou de alívio.


- Eu prometo que vou tentar me controlar da próxima vez.


Ele riu.


- Que foi? – disse ela, rapidamente aumentando o tom da voz.


- Shh... nada.... é que eu acho que lá a gente não entra mais não.... – o Zé tentava disfarçar o riso.


- É verdade, né?- Rita suspirou - Quem vai querer a gente lá depois de batermos tanto a porta da loja a ponto de estilhaçar o vidro?


- Nós? Que eu saiba, isso você fez sozinha...


- Zé! – ela ameaçou, voltando a se irritar – não me provoca!

Ele riu.

- Calma Rita, calma... Eu te amo. – ele beijou a testa dela e esticou a mão para pegar um dos bombons que estavam em cima da mesinha de centro.

Rita se aprumou incontinenti e bradou:

- Tira a mão dos meus bombons, Zé! Até parece que não sabe que eu preciso deles! Eu estou de TPM, não consegue ver? Ô diabo de homem!

E, esquivando-se dele, levantou-se, agarrou a caixa de bombons e foi chorar na cozinha.

– Me deixa, seu exu. Me deixa!

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Mortalha

Requiem aeternam dona eis, Domine, et lux perpetua luceat eis.
(Repouso eterno dá-lhes, Senhor, e luz perpétua os ilumine.)

Se há 3 coisas com as quais mulher nunca se agüenta, essas são cólica menstrual, amor e curiosidade. Camila não estava naqueles dias, muito menos apaixonada, quando finalmente se deu por vencida e, ao lado de Daniela, subiu os primeiros degraus da entrada do prédio amarelo que avistavam todos os dias, de longe, de dentro do ônibus, no caminho para o escritório de advocacia, onde estagiavam. A construção velha, porém bem conservada, havia sido pintada de um tom de amarelo que seria esdrúxulo, se não fosse pela cor dos batentes das janelas, laranja, que ressaltava mais do que as paredes e relegava a estranheza da primeira cor a segundo plano.

Elas não precisaram tocar mais que duas vezes o interfone para que o zelador, um homem de cerca de 30 anos que a bebida havia transformado em 60, abrisse a porta com um sorriso desdentado. O homem de graduação alcoólica elevada apontou para o elevador e balbuciou algo ininteligível e volátil. Camila não titubeou. A curiosidade era maior. Caminhou pelo saguão pequeno e encardido, seguida por Daniela e apertou o botão. Uma luz acendeu no painel, demonstrando que o elevador, que estava no último andar, iniciava sua decida. Lento, porém de velocidade constante, não demoraria mais que 3 minutos para chegar ao térreo.

Kyrie eleison, Christe eleison, Kyrie eleison.
(Senhor tem piedade. Cristo tem piedade. Senhor tem piedade.)

Camila mal conseguia manter os olhos abertos de tanto sono, quando Daniela notou, pela primeira vez, a janela que destoava do resto do prédio alto, em rua movimentada de bairro barulhento e fedido da cidade. Descia o ônibus a rua a ritmo de intróito de réquiem, lento e catacúmbico, quase moribundo, no trânsito de todo-dia-amém. O prédio, de um amarelo envelhecido que lembrava a pele que cobre o hematoma quando o roxo já está desaparecendo, era feio e ressaltava no meio dos demais, especialmente pelos batentes laranjas. Mas aquela janela, no último andar, parcialmente fechada pelos tijolos, como se alguém houvesse decidido impedir a única entrada de luz daquele cômodo, realmente incomodou as moças.

Aprumando-se no banco do ônibus, Camila lembrou das leis de condomínio, que geralmente proíbem mudanças externas que desarmonizem a fachada do prédio e se perguntou que tipo de síndico era esse que permitia tal infração. Daniela concordou e ponderou que talvez ninguém ainda houvesse notado tamanha diferenciação em uma única janela, lá no alto, em meio a tanta poluição. Por fim, o ônibus andou e a mente de Camila voltou a fazer cálculos com a velocidade do carro, a bronca do chefe que o atraso fatalmente detonaria e quanto gastaria no almoço em doces para compensar a frustração do namoro recém-terminado.

Dies irae, dies illa solvet saeclum in favilla, teste David cum Sybilla.Quantus tremor est futurus, quando judex est venturus, cuncta stricte discussurus.
(Dia de ira, aquele dia no qual os séculos se desfarão em cinzas, assim testificam Davi e Sibila. Quanto temor haverá então, quando o Juiz vier, para julgar com rigor todas as coisas.)

Camila ainda sentia dorido o coração quando pensava em Cláudio e nas últimas palavras que proferiu na ocasião da briga derradeira. Havia surpreendido o namorado em flagrante delito de adultério no sofá de seu apartamento, com uma amiga sua. De vassoura na mão, varreu ambos, em trajes mínimos, para fora do apartamento, exigindo que se retirassem da residência, das vistas e da vida dela. Que fossem se trancar em algum lugar para copular como os animais que eram e que se emparedassem vivos, em algum motel da periferia, que ela não ligaria. Mas na casa dela?? Jamais!! Depois, bateu a porta com força descomunal, compatível com a raiva e o desgosto que sentia, causando uma rachadura na parede ao lado do batente, atirou o que encontrou pelo caminho janela abaixo, sentou-se no sofá, sentiu nojo, levantou, cambaleou... E caiu de joelhos no chão, chorando como criança e pedindo o colo da mãe.

Tuba mirum spargens sonum per sepulchra regionum, coget omnes ante thronum.Mors stupebit et natura, cum resurget creatura, judicanti responsura.
(A trombeta poderosa espalha seu som pela região dos sepulcros, para juntar todos diante do trono. A morte e a natureza se espantarão com as criaturas que ressurgem, para responderem ao juízo.)

A partir daquele momento, a moça ficaria exposta à apreciação da vizinhança fofoqueira, que fatalmente comentaria por tempos infindos a desventura da pobre estudante de Direito. Ah! E às multas do condomínio. Três, na verdade. A primeira, por fazer barulho depois das 10 horas da noite; a segunda, por jogar lixo pela janela (entendendo-se por “lixo” a camiseta desbotada de Cláudio), e a terceira, por pendurar roupa no terraço (a calcinha da amiga, que ficara presa em um dos ganchos da grade de proteção). O zelador, escutando a reclamação da moça, alguns dias depois, somente meneou a cabeça. A síndica disse que sentia muito, mas a ordem precisava ser mantida:

- Afinal, para quê servem as leis do condomínio, minha filha? Hã? Hã? – disse a mulher, sacudindo as mãos com longas unhas vermelho-fogo bem no rosto de Camila, como quem na verdade diz: “Percebeu o absurdo que você está me pedindo? Hello?"

Rex tremendae maiestatis, qui salvandos salvas gratis, salva me, fons pietatis.
(Ó Rei, de tremenda majestade, que ao salvar, salva gratuitamente, salva a mim, ó fonte de piedade).

Camila deu de ombros, apesar de sentir uma leve irritação com a incoerência da síndica. A senhora cobrava o bom cumprimento das leis de condomínio com vigor naquela oportunidade, mas habitualmente oferecia reuniões de “tapeué”, no salão de festas, na quarta-feira, a única noite em que se encontrava nas dependências do prédio e que deveria ser utilizada para deliberações sobre o bem-estar coletivo. Como estudante do terceiro ano de Direito, Camila já sabia como mover ações e ganhá-las. Podia muito bem processar o condomínio. Mas pensou na perda de tempo e sentiu um súbito cansaço, provavelmente advindo dos últimos insucessos amorosos, cujas lembranças minavam paulatinamente suas reservas de energia. Estava muito magoada. Foi Daniela, a amiga fiel e dedicada, colega de faculdade e estágio, quem a demoveu da idéia do processo.

- E mais, não quero mais ver você assim, Ca! Não se deixe abater por tão pouco, você tem muita fibra! Acho que você deveria se mudar daqui. Por que não fica uns tempos em casa?

-Não, obrigada. Estou bem. O contrato vence em cinco meses e eu não vou renová-lo. Preciso mesmo de outro lugar, esse aqui traz muitas memórias. Mas não posso fazer isso imediatamente...

- Faça quando achar melhor, mas faça logo! – redargüiu Daniela, com carinho.

Recordare Jesu pie, quod sum causa tuae viae, ne me perdas illa die.Quaerens me sedisti lassus, redemisti crucem passus; tantus labor non sit cassus.
(Lembra-te, ó Jesus piedoso, que fui a causa de tua peregrinação, não me perca naquele dia. Procurando-me, ficaste exausto, me redimiste morrendo na cruz que tanto trabalho não seja em vão.)

A urgência dessa mudança, porém, tornou-se premente em apenas alguns dias. Cláudio, arrependido, procurou Camila, pretextando a recuperação das peças de roupas deixadas “por engano”, como ele mesmo afirmou. Encontrando uma tênue dúvida no coração da moça e falando pela fresta entre o batente e a porta, cuja corrente permitia somente a entrada do nariz dele, Cláudio foi suavizando a resistência de Camila com desculpas esfarrapadas e pueris. A moça, condoída pelas lágrimas de crocodilo que ele se esforçava em fazer soarem honestas, acabou abrindo a porta. Qual não foi o seu espanto quando Cláudio, ao invés de beijar-lhe ternamente o rosto e depois os lábios, como o fazia desde os primórdios do relacionamento, espalmou as duas mãos ao redor do pescoço da infeliz, que, assustada, gritou antes que o ar lhe faltasse por completo e a glote fechasse. Por sorte, a vizinha, uma senhora com a audição parcialmente neutralizada, chegava de sua caminhada diária exatamente naquele momento e, empunhando a sombrinha com tanta força quanto a artrite permitia, bateu na cabeça de Cláudio que, surpreendido, largou o pescoço da moça.

Confutatis maledictis, flammis acribus addictis, voca me cum benedictis.Oro supplex et acclinis, cor contritum quasi cinis, gere curam mei finis.
(Condenados os malditos e lançados às chamas devoradoras, chama-me junto aos benditos. Oro, suplicante e prostrado, o coração contrito, quase em cinzas, tomai conta do meu fim.)

- Eu volto! – ele ameaçou, enquanto corria para o elevador, que ainda se encontrava no andar – Volto e te mato! Se você não for minha, não será de mais ninguém!

Abrindo a porta do elevador rapidamente, Cláudio ainda fixou seu olhar, algo esgazeado de ódio, em Camila, que arfava, mas ainda teve forças para redargüir:

-Vai pro inferno, seu cretino! Adúltero maldito! Devia ser trancafiado em uma jaula, seu animal! Maldito!!! Malditooooo!!!! Te jogo na cadeia e te deixo apodrecendo lá! Malditoooo!!!

Enquanto Cláudio entrava no elevador e desaparecia, Camila correu à escada de emergência e despencou dois a dois os degraus. Queria saber quem havia permitido a entrada do ex-namorado no prédio sem sequer interfonar para o seu apartamento. Quase pôs abaixo a porta que isolava a escadaria do saguão de entrada e foi a muito custo que o zelador e Daniela, que chegava naquele momento, conseguiram conter o desvario da moça. Cláudio havia conseguido fugir.

Camila, ensandecida, partiu para cima do porteiro, tencionando esganar o pobre-coitado, abobado por horas e mais horas de televisão no exercício de suas funções - as quais nunca realmente foram bem exercidas, diga-se de passagem, pois ou ficava muito entretido com a novela, ou dormia, deixando o morador ao relento em plena madrugada. O incauto, ao seu interpelado quanto à entrada do agressor, respondeu, sem pensar:

-Afe, dona Camila, mas a senhora não disse que não precisava mais chamar quando o seu Cláudio chegava? Olha que não entendo, dona Camila, a senhora não deu a chave pra ele, achei que a briga era já tinha passado... Perdoa o homem, dona Camila! Afinal, foi coisa de homem, dona Camila, coisa de homem!

Lacrimosa dies illa, qua resurget ex favilla judicandus homo reus.Huic ergo parce Deus, pie Jesu Domine, dona eis requiem! Amen!
(Dia de lágrimas será aquele no qual os ressurgidos das cinzas serão julgados como réus. A este poupa, ó Deus, piedoso Senhor Jesus, dá-lhes repouso. Amém.)

Percebendo que não poderia estrangular o porteiro porque havia sido contida fisicamente pelo zelador e pela amiga e tendo plena consciência das conseqüências que tal insanidade lhe acarretaria, Camila não viu outra alternativa senão chorar. Um choro dorido e tão amargurado, que rapidamente fez seus olhos incharem a ponto de não conseguir enxergar e a forçou a procurar seu quarto e a escuridão, para fugir da vergonha e da enxaqueca. Apoiando-se em Daniela, enquanto voltava para seu apartamento, tomou a decisão de se mudar para qualquer lugar imediatamente, a fim de evitar novo confronto com o ex-namorado e outras cenas deprimentes como a que havia acabado de protagonizar.

Logo no dia seguinte conseguiu guarida na casa da avó, que morava em bairro mais afastado do escritório e da faculdade. Aquela mudança forçaria Camila a pegar dois ônibus para se locomover para qualquer lugar, mas ela não se importava. Tomaria chuva, acordaria mais cedo, enfrentaria as multidões ensardinhadas e malcriadas dos ônibus da hora do rush. Sofreria, contudo faria qualquer coisa para não ver Cláudio novamente!

Domine Jesu Christe! Rex gloriae! Libera animas omnium fidelium defunctorumde poenis inferni et de profundo lacu!
(Senhor Jesus Cristo! Rei da Glória! Liberta as almas de todos os que morreram, fiéis, das penas do inferno e do lago profundo!)

Passados alguns meses, um dia Camila se surpreendeu ao contabilizar mais de uma semana sem chorar nem sentir o peito contrito, mesmo ao observar qualquer coisa que lembrasse Cláudio. “Realmente, devo estar curando dessa doença”, pensou feliz. No mesmo dia, resolveu aceitar o convite para uma festa do pessoal da faculdade. Combinaram que matariam a última aula e se encontrariam no portão principal, a fim de organizarem as caronas para a casa de determinado amigo. Camila estava ansiosa, havia começado a se interessar por Marcelo, um aluno do último ano de Direito e ela sabia que ele estaria nessa festa. Eles já haviam trocado alguns sorrisos e olhares pelos corredores da faculdade. Na verdade, os dois protagonizavam aquela fase em que todos ao redor percebem o flerte, menos os próprios enamorados, que acreditam, com seus olhares esgazeados, óculos cor-de-rosa e expressões de bobos-alegres, esconder do resto do mundo o que estão sentindo.

Enquanto juntava os livros para sair, Camila viu Daniela acenando no corredor para que se apressasse. Parecia nervosa. Camila esperou que o professor desse sua aula por encerrada e saiu rapidamente.

- Mas o que você pensa que está fazendo, batendo as asas desse jeito no corredor? – provocou Camila, rindo.

- Ah deixa de sacanagem comigo, tenho novidades! O Marcelo, aquele que você paquera, disse pro Ronaldo que quer ficar com você!

- Sério? – Camila parou no meio do corredor - Hmm... não sei.... será que não é muito cedo?

- Como assim, cedo? Cedo para quê? Você não está pensando naquele imbecil do Cláudio ainda, está?

- Não! Não é isso, é que... Ah, acho que estou com medo, sei lá.

Daniela puxou Camila pela mão:

- Então deixa para sentir medo depois de beijar o Marcelo! Afinal, já está na hora de você enterrar o Cláudio, você não acha?

- É mesmo! Enterrar o meu passado... É isso que devo fazer!

As duas riram com a resolução falsa de Camila. Ambas sabiam que a decepção ainda era muito recente para que a moça, que acreditava em amores perfeitos, conseguisse engatilhar um novo relacionamento. Conversando animadamente, seguiram para o portão, a fim de encontrar o resto da turma.

- Como vocês demoraram! – disse Marcelo, ao ver as amigas. Aproximou-se de Camila, sorriu, beijou-lhe o rosto e disse que ela estava muito bonita.

- Que é isso, Marcelo, estou igual a todos os dias.

- Está não, está mais bonita... – e pegou as mãos dela. Camila riu e baixou os olhos, ruborizada.

- Solta as mãos dela!

Libera eas de ore leonis, ne absorbeat eas tatarus, ne cadant in obscurum
Sed signifer sanctus Michael repraesentet eas in lucem sanctam:
Quam olim Abrahae promisiti et semini ejus.
(Libertai-as da boca do leão, que não sejam absorvidas no inferno, nem caiam na escuridão: Mas que o santo arcanjo Miguel as introduza na luz santa: Conforme prometeste a Abraão e à sua descendência.)

Cláudio estava parado a poucos metros do casal e da turma, fuzilando Camila com o olhar de raiva.

- Solta as mãos dela ou vou ter que tomar uma providência – disse, apoiando uma das mãos na cintura e subindo um pouco a camisa. Todos viram o que parecia ser um revólver.

- Ele está armado! – alguém avisou, causando um alvoroço entre os amigos, que não sabiam o que fazer, mas não se moveram um centímetro de perto da moça, no intuito de protegê-la. Marcelo, porém, largou as mãos de Camila, desconcertado.

Cláudio pareceu não se importar com a reação que causara. Aproximou-se de Camila, lentamente. Um sorriso irônico dançava em seus lábios. Deliciava-se com a sensação de poder que a arma que carregava na cintura lhe dava.

- Vai sair? – perguntou.

- Não é da sua conta. – respondeu Camila.

- Aonde você pensa que vai?

- Já disse, não é da sua conta.

- Está namorando outra pessoa?

- Volto a dizer, não é da sua conta.

- Se eu fosse você, tomaria mais cuidado e me respeitaria mais.

- Não vou respeitar vagabundo que transa com minha amiga no meu sofá.

- Isso não significou nada, ela não era ninguém. Eu ainda amo você.

- Problema seu. Me deixa em paz. Não quero mais você.

- Mas eu ainda te quero.

- Não me interessa, me deixa em paz, vai embora!

- Cuidado... cuidado...

- Vou conseguir um mandado de restrição, se você não me deixar em paz. Vou jogar você na cadeia, você vai apodrecer trancado ali, se não me deixar em paz, estou avisando!

- Quem está avisando sou eu: cuidado...

Cláudio saiu lentamente, deixando Camila aterrorizada e certa de que ela deveria se ausentar por algum tempo de tudo o que tivesse ligação com sua vida, inclusive a faculdade. Resolveu trancar a matrícula, já que a seção de alunos ainda estava aberta e ir para casa. De lá, rumou para a rodoviária, sem não antes fazer um telefonema para uma tia que morava em outra cidade, bem longe, muito menor e menos confusa. Daniela entristeceu-se com a decisão da amiga, mas manteve seu apoio.

- Não quer mesmo ficar na minha casa?

- Não, obrigada, Dani. Eu realmente preciso de paz, agora.

Com essa decisão, Camila abria mão da própria liberdade, esperando conseguir, finalmente, um pouco de paz.


Hostias et preces tibi, Domine, laudis offerimus.Tu suscipe pro animabus illis, quarum hodie memoriam facimus: fac eas, Domine, de morte transire ad vitam, quam olim Abrahae promisisti, et semini ejus.
(Sacrifícios e preces a Ti, Senhor, oferecemos com louvores. Recebe-os em favor daquelas almas, das quais hoje nos lembramos: fazei-as, Senhor, da morte passarem para a vida, conforme prometeste a Abraão e à sua descendência.)

Um semestre se passou. Durante esse tempo, Camila descansou, chorou, teve pesadelos; passou a freqüentar a missa todos os domingos e a conversar muito, mas muito mesmo com a tia que, apesar de morar em cidade tão pequena e pacata, tinha um coração enorme e idéias um tanto revolucionárias para sua idade. Foi a tia quem a convenceu a matricular-se em um curso de jardinagem, que Camila adorou. A moça também passou a ajudar na horta, pintar panos de prato e bordar toalhinhas de lavabo. De vez em quando, Camila ligava para Daniela a fim de dar-lhe notícias e contar as novas aquisições para seu rol de habilidades. Daniela, que havia nascido e morado sempre na cidade gigante, ria muito com as novas peripécias de Camila e acrescentava que um dia ainda iria visitar a amiga e os sete filhos na fazenda e tirar leite da vaca.

- Você está maluca? Eu vou voltar! Preciso terminar a faculdade e continuar com a minha vida. Só estou dando um tempo... Não me sinto preparada ainda. – explicava Camila.

No começo, ela queria muito saber se Daniela havia visto Cláudio, mas não tinha coragem de perguntar. E, talvez porque durante esse tempo não o tivesse feito, ou talvez porque se esforçasse para esquecer o ex-namorado, ao cabo de seis meses Camila era realmente outra pessoa, mais calma, mais comedida, mais livre do que nunca de Cláudio. E pronta para retomar sua vida, do ponto onde a havia deixado.

Em um dia bastante ensolarado, Camila bateu à porta de Daniela, tencionando surpreendê-la. Fez-se anunciar na portaria do prédio com o nome de outra amiga, já que o porteiro era novo e não a reconheceria. Sua entrada foi granjeada quase prontamente e em poucos minutos estava defronte à porta do apartamento de Daniela. Tocou a campainha. Passados alguns minutos, pensou ter escutado um alvoroço e o ruído de um vidro qualquer que se quebrava. Lembrou-se que talvez estivesse chegando em má hora. Estaria a amiga ocupada? Mas logo a porta se abriu e Daniela, vestindo um roupão e arrumando os cabelos, a recebeu com um largo sorriso:

- Camila! Que surpresa!

- Se importa se eu ficar aqui até arranjar um lugar?

- Ficar aqui? Mas é claro! – Camila pensou notar que Daniela praticamente gritava, mas achou que talvez os seis meses que passara reclusa causavam o estranhamento – Entre!

Camila pegou uma mala e Daniela, a outra. Uma porta bateu na cozinha.

- Ah, nesse andar, o vento é inclemente! – riu Daniela. Mas não havia vento, pensou Camila. Ou havia? Teria ela passado muito tempo ao ar livre, no campo, onde as grandes tempestades, quando chegam, são amedrontadoramente cinematográficas?

Sanctus, sanctus, sanctus Dominus Deus Sabaoth! pleni sunt coeli et terra gloria tua.Osanna in excelsis.
(Santo, Santo, Santo, Senhor Deus dos Exércitos! Cheios estão os céus e a terra da Tua glória. Hosana nas alturas).

Em pouco tempo Camila já havia retomado toda a sua rotina, inclusive as aulas da faculdade e o estágio, no mesmo escritório que havia deixado às pressas, havia seis meses. O chefe continuava ranzinza e o trânsito, insuportável, mas Camila sorriu ao perceber que não tinha mais necessidade do chocolate após o almoço, agora que Cláudio não fazia parte de sua vida. Era verdade que às vezes ainda lembrava-se dele, porém, mais como um erro que não deve ser cometido, tampouco repetido. Uma lição bem aprendida, diria ela.

Marcelo foi quem mais se alegrou com a volta de Camila. Logo os dois já haviam se entendido e estavam namorando. Em pouco tempo ela se mudou para a casa dele, deixando Daniela um tanto triste pela perda da companhia, mas satisfeita com a alegria da amiga. Marcelo queria casar e Camila, que gostava dele cada vez mais, se surpreendeu dizendo “sim” quando o namorado ajoelhou ao seu lado, durante um jantar a dois em um restaurante famoso da cidade. Formavam, verdadeiramente, o casal direito: estudavam as leis, estagiavam na advocacia e agiam com tanta retidão, que os amigos resolveram celebrar o noivado com uma festa surpresa para os dois, no apartamento de Daniela.

- Ao encontro que deveria ter acontecido há seis meses! - disse um dos colegas da faculdade, estourando o champanhe.

As risadas corriam soltas e a música, um tanto alta, quando o zelador tocou a campainha do apartamento, pedindo que o barulho cessasse, depois de interfonar mais de três vezes. Daniela pediu a todos que baixassem as vozes e diminuiu o volume da música, pois não queria pagar uma multa.

- Melhor assim – disse - Tenho certeza de que minha paz será garantida também... Afinal, para quê servem as leis de condomínio?

- É verdade – atalhou Camila – o prédio do Marcelo, ou melhor, o nosso prédio...

- Ainda está se acostumando ou pretende fugir, Camila? – alguém comentou em voz mais alta, causando o riso generalizado e certa confusão de comentários. Todos gostavam muito do casal e estavam imensamente felizes com essa união.

Benedictis, qui venit in nomine Domini. Osanna in excelsis.
(Bendito o que vem em nome do Senhor. Hosana nas alturas)

Camila continuou:

- O nosso prédio – disse, olhando significativamente para Marcelo e frisando a palavra “nosso”, enquanto o noivo se aproximava e a enlaçava carinhosamente pela cintura – é cheio de regras, mas fico tão contente com isso! Tenho uma sensação tão forte de segurança!

- É para isso que servem as leis do condomínio, não é? – Marcelo beijou a noiva no rosto. Depois, dirigindo-se a todos que estavam na sala, continuou – Mas eu descobri um segredinho da minha futura mulher... – e piscou significativamente.

O barulho aumentou novamente com os comentários e a vizinha de baixo passou a bater no teto com a vassoura, sinalizando que haviam quebrado as regras mais uma vez. Marcelo fez um olhar de suspense, segurou a respiração, todos fizeram silêncio para escutar o que ele tinha a revelar:

- A Camila é neurótica por esse negócio de regras de condomínio! Vocês acreditam que ela vem implicando com a janela de um prédio que ela vê no caminho para o escritório?

- Ah, isso não é justo! – Camila se defendeu – aquela janela é horrível! Ademais, não fui eu quem a notou, foi a Daniela! – riu ao culpar, de brincadeira, a amiga – Ela sabe que eu não agüento essas coisas esteticamente incorretas!

- Há, há, há... Fala a grande advogada... O Direito aplicado à Arquitetura! – Daniela levantou os braços e fez uma grande reverência à amiga, suscitando gargalhadas – Mas é verdade, tenho que concordar... Aquele prédio é horrível! – adicionou Daniela – Batentes laranjas e paredes amarelas. Simplesmente medonho!

- Mas o pior mesmo é aquela janelinha, a única lá em cima, fechada com tijolos aparentes! Destoa de todo o resto! – defendeu-se Camila – Será que o prédio não tem um síndico?

- Se tiver, ele deve ser daltônico! – alguém brincou.

- Estou quase indo lá para investigar! – revelou Daniela – De tanto que a Camila reclama dessa janela, todos os dias! Quero saber por que a lei não está sendo cumprida! – falou em tom autoritário, mas rindo, ao mesmo tempo.

- Não é de todo uma má idéia... – ponderou Camila

- Ora, deixa de piada! – Marcelo olhou para a noiva, achando graça no comentário.

Mas Daniela e Camila perceberam que ambas tinham a mesma curiosidade. E selaram o trato com um olhar significativo: iriam averiguar o que estava acontecendo e que janela era aquela. Afinal de contas, as leis de condomínio devem ser cumpridas!

Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, dona eis requiem.Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, dona eis réquiem sempiternam.
(Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo: dai-lhes o repouso.
Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo: dai-lhes o repouso eterno.)


O elevador era sinistro, tanto quanto o eram as paredes internas do saguão. O prédio era antigo e o chão parecia não ver um esfregão há décadas. Daniela e Camila se entreolharam. O porteiro havia recostado atrás do balcão e roncava sob o efeito do álcool. Uma garrafa de pinga, vazia, estava caída aos pés dele. As moças sorriram, pensando a mesma coisa.

- É... – disse Camila – Acho que não tem síndico aqui não...

Daniela abriu a porta do elevador e olhou para Camila:

- Nós vamos mesmo? – perguntou com receio.

Camila respirou profundamente, como se tomasse coragem e respondeu, resoluta:

- Vamos!

Ambas entraram no elevador e Camila, olhando os botões do painel, hesitou, antes de apertar o 13, o último andar.

- Treze, meu número de sorte! – tentou brincar para disfarçar o medo.

O elevador começou a se mover. De repente, sofreu um tranco, parou por alguns segundos. As moças arregalaram os olhos e Camila pensou que a idéia de investigar uma janela era tão boba! Mas o elevador voltou a se mover e logo tudo estaria acabado. No 13º andar, o elevador parou. Daniela olhava para baixo e não se moveu.

E a porta se abriu.

Era Cláudio.

Camila atônita, exclamou:

- Mas o que significa isso? Daniela? O que...

Daniela sorriu para Cláudio:

- A entrega está feita. Onde está meu pagamento?

Cláudio puxou as duas para fora do elevador. Abraçou Daniela pela cintura e beijou a boca da moça.

- Já já. Cuidemos disso primeiro. – disse, afastando Daniela e olhando para Camila.

A moça, apavorada, entrou no elevador e puxou a porta, tentando fugir, mas Cláudio manteve o botão do elevador pressionado e a porta interna não fechou. Camila, entrando em verdadeiro desespero, gritou por socorro. Depois, pediu ajuda à amiga. Daniela olhava para o chão e não se moveu. Por fim, Camila pediu misericórdia. E a voz lhe faltou. Começou a chorar. Daniela continuava olhando para o chão e não se moveu.

Cláudio agarrou a ex-namorada com força e tampou o nariz da moça com um lenço úmido. De repente, Daniela, excitada com a aventura, pegou o revólver da cintura de Cláudio e deu uma coronhada na cabeça da amiga, que desmaiou. Cláudio protestou:

- Que foi isso? Eu já tinha tudo sob controle!

- Só para garantir, meu amor, só para garantir!


Lux aeterna luceat eis, Domine.
Cum Sanctis tuis in aeternum: quia pius es.Requiem aeternam dona eis, Domine.
(Que a luz eterna os ilumine, Senhor
Com os teus santos pela eternidade: pois és piedoso.
Repouso eterno dá-lhes, Senhor)

Camila acordou com brutal dor de cabeça, em meio à escuridão que somente uma nesga de luz traía. Tateou ao seu redor, sentiu o chão de tacos. Havia um cheiro indefinido no ar. Tateou mais um pouco e achou um pano levemente umedecido e um vidro, ao seu lado, no chão. Pegou o vidro, levantou-se com dificuldade e se aproximou do lugar onde um filete de luz indicava a conexão com o mundo exterior. Passando a mão, percebeu a textura de tijolos e cimento entre eles. Ah, o cheiro era de parede recém erguida! Mas não era só disso. Havia algo mais. Acostumando os olhos à escuridão, aproximou o vidro que tinha nas mãos da fresta de dois dedos de largura, um ponto não cimentado entre dois tijolos e leu o rótulo: clorofórmio. Olhando pela fresta, Camila percebeu a rua e os prédios, os mesmos que via todos os dias pelo lado de fora, pela janela do ônibus.

Um calafrio percorreu seu corpo e a certeza de que havia selado seu destino sem se dar conta despencou em sua alma, gelando até a última fibra da sua coragem: havia presenciado a construção de seu esquife de tijolos, dia após dia, arquitetado pelo namorado dispensado e pela falsa amiga. A janela que destoava era a mortalha de Camila. Sentiu um súbito cansaço, as pernas amoleceram. Desabou no chão, de joelhos, chorando e pedindo o colo da mãe. Depois de muito soluçar, cansada, deitou-se no chão. Percebeu que havia escurecido, pois a luz que antes entrava pela fresta agora se resumia a uma claridade muito tênue. Tentou colocar os pensamentos em ordem. Quais seriam suas chances de sobrevivência? Procurariam por ela, isso era certo. Porém, alguém se lembraria da janela de tijolos, mencionada em uma brincadeira na última festa?

-Tudo bem... – suspirou, tentando ficar calma.

Ainda havia a esperança de que o síndico fosse mais zeloso que a morte no cumprimento dos deveres. Afinal de contas, para quê servem as leis de condomínio?

Et lux perpetua luceat eis. Cum Sanctis tuis in aeternum: quia pius es.
(E que a luz perpétua os ilumine . Com os teus santos pela eternidade: pois és piedoso.)


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Nota para os curiosos: a janela existe. Ela pode ser vista descendo-se a Brigadeiro Luís Antônio de ônibus. O prédio está do lado esquerdo de quem desce a rua, mais ao fundo, logo depois da R. Cris Tronbjerg.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

A piscadela de Deus

Pedro Henrique soluçava baixinho, tentando segurar o choro, enquanto a mãe, zelosa, aplicava o remédio no ralado dos cotovelos e antebraços:

- Mas como foi que isso aconteceu?
- Caí do skate.

Maria Lúcia fez um muxoxo, resmungou algo para si mesma e o menino, antevendo a proibição, foi logo emendando:

- Mas não foi o skate, não, mãe.
- Ah, não? – redargüiu a mãe, levemente irritada – E o que foi então?
- Foi Deus que piscou!

Maria Lúcia parou, estupefata. Olhou para ele, sem saber, a princípio, se brigava ou condescendia. Ficou com o braço no ar, segurando o algodão embebido em iodo, repassando mentalmente as últimas peripécias do filho. Por fim, decidiu-se:

- Ora, com efeito, Pedro Henrique! Isso já está passando dos limites. Primeiro, surrupiou chicletes no mercadinho. Depois, levou advertência por bater no colega no recreio. Agora me aparece todo escalavrado por causa dessa porcaria desse skate e como se não bastasse tudo isso ainda põe a culpa em Deus?

O menino olhava assustado para a mãe, com medo do castigo:

- Mas desta vez não fui eu, não, mãe! Foi Deus, tô falando, foi Deus!

O vidro de iodo escorregou das mãos de Maria Lúcia e caiu no chão, esparramando todo o conteúdo e manchando o tapete alvo do banheiro. A mãe perdeu o controle e disse, rispidamente:
- Já chega, Pedro Henrique. Chega! Vá para o seu quarto. Já! Hoje não tem playstation, TV, internet, nada! Vai ficar no seu quarto, pensando no que fez! Onde já se viu, não crio filho para ser mau-caráter, ficar pondo a culpa em Deus! Te esconjuro, moleque!!

-Mas mãe...

-Para o quarto! Já!

O menino saiu, desconsolado. Maria Lúcia pôs as mãos na cabeça e resmungou:

- Isso só pode ser praga da mãe do Luís Alfredo. Aquela carola vive implicando comigo porque não pus o Pedro Henrique no catecismo. Ai, se ela escuta! Deus me livre! Vai chamar o menino de herege!

E foi exatamente isso que aconteceu. No domingo seguinte a avó, vendo o cotovelo do menino, destilou:

-Maria Lúcia, você não tem medo que o menino se mate com esses brinquedos? Quando Luisinho tinha a idade de Pedro Henrique nunca permitia que brincasse perigosamente. Preferia que ele ficasse estudando e lendo. Isso tornou meu filho o grande homem que é hoje.

Maria Lúcia suspirou. Ia articular a resposta, mas Pedro Henrique foi mais rápido:

-Vovozinha, não foi o skate, não! – E antes que a mãe pudesse fazer algo, complementou – Foi Deus que piscou, vó!

Pronto. Estava estabelecida a confusão. D. Clara, a mãe do Luís Alfredo, era uma mulher completamente devotada à igreja. A pobre senhora, boquiaberta, não conseguiu proferir som algum, chocada com a heresia do neto. Pedro Henrique, vendo a mãe desabar no sofá e não entendendo o que estava acontecendo, quis consertar a situação:

- É sim, vovozinha. De vez em quando, Deus pisca. E quando Ele pisca, acontecem coisas!

A avó surtou de um lado, pondo as mãos no coração e pedindo os remédios. Maria Lúcia surtou de outro, antevendo outra briga conjugal causada por uma reação exagerada da sogra. Luis Alfredo se movia feito barata tonta, não sabendo a quem acudir primeiro. Por fim, agarrou o braço do filho e chacoalhou o menino, gritando:

-Olha o que você fez! Vá para o seu quarto!

Pedro Henrique subiu as escadas chorando. A empregada, sentindo pena do menino, foi atrás, levando alguns biscoitos escondidos no avental.

- Olha o que eu trouxe pra você! Não fica assim, não.

O menino enxugou as lágrimas na manga da camiseta, enquanto a empregada emendava:

- Mas também, que idéia estranha essa, a sua, de pôr a culpa em Deus! Olha que Ele castiga, hein? Coisa feia, menino, ficar mentindo desse jeito!

Pedro Henrique adorava a Maria, que tomava conta dele desde que ele era pequenininho. Era ela quem sempre arranjava um jeito de amainar os castigos que ele, traquina e hiperativo, colecionava desde que havia se entendido por gente. Pensou rapidamente nas proporções que aquela história estava tomando e decidiu que não queria decepcionar a Maria, nem perder os biscoitos de chocolate dela.

- Mas eu não estava mentindo, Maria, não mesmo! Deus piscou! Eu vi!

- Ai, menino, não fala uma coisa dessas, onde já se viu, ver Deus piscar!

- Mas eu vi!

- Viu mesmo? Como?

Pedro Henrique relatou o suposto acontecido. Descia a rua de skate, em alta velocidade. De repente, viu um clarão e no meio dele, um velhinho, simpático, que piscou para ele. Então, caiu.

-Era Deus, Maria, eu sei! – insistiu o menino, com um olho na empregada e o outro nos biscoitos.

-Vixe Nossa Senhora, Virgem Santíssima, será que pode ser verdade uma coisa dessas? O menino vê esp’ríto?

- Não, Maria, não era espírito, era Deus!

Maria, como a maior parte dos brasileiros, professava uma fé um tanto enviesada, que misturava os ingredientes de tudo aquilo que era bonito, conveniente e condescendente de todas as religiões que conhecera. Por isso, em meio às velas, imagens de santos, comunhão sem confissão e livros da Zíbia, devotava suas orações ao desconhecido, pedindo proteção. No dia seguinte toda a vizinhança já comentava que o menino era médium e santo.

- Mas a senhora tem certeza, D. Maria? Aquele menino roubou o mercadinho outro dia! - ponderou o açougueiro.

-Ah, seu Zé! E o menino Jesus também não aprontava? É menino, é garoto! Estou dizendo, Pedro Henrique é santo! Viu Deus! Nem Jesus foi, foi Deus mesmo!

- Ah, D. Maria, se é milagreiro, será que ele cura minhas costas? Não posso mais de dor...

-Seu Zé... será? Trago o menino aqui amanhã.

- Deus lhe pague, D. Maria. Deus lhe pague!

No dia seguinte, Maria levou Pedro Henrique ao açougue. Seu Zé, meio desconfiado, abaixou um tantinho de nada as calças e mostrou o ponto que doía. O menino, exercitando a malandragem, olhou, suspirou... olhou de novo...observou tudo ao seu redor, tentando achar uma saída... e nada. Seu Zé já ia ficando aflito, sentindo-se um tanto ridículo, ao submeter sua lombalgia à apreciação de um garoto de 12 anos. E estava quase desistindo, quando Pedro Henrique exclamou:

- Ahá!!

Esta exclamação foi seguida pelo cochicho dos demais que presenciavam a cena:

- Ahá o que??

- Ele disse “ahá!”

- O menino falou!

- Glória a Deus!

E diante do assombro de todos, Pedro Henrique, forjando um ar solene e se esforçando para não rir, apontou o culpado:

- Seu Zé, Deus piscou. Deus piscou e me disse que a sua dor é por causa daquilo ali.

- Aquilo ali é um banquinho. Um banquinho, Pedro Henrique?

- Sim, seu Zé, um banquinho. – Pedro Henrique escondia o riso – o banquinho foi tomado pelo demônio. Jogue o banquinho fora, reze 3 pais-nossos e espere alguns dias. A dor vai passar.

Houve um murmúrio de assombro. Seu Zé suspirou. E findos cinco dias, a dor realmente havia passado. Ninguém notou que o banquinho era muito baixo para o seu Zé, que afiava as facas em posição completamente desconfortável. Tampouco alguém ponderou que o demônio certamente estaria muito ocupado com as guerras que assolam a humanidade para se apossar de um banquinho e das costas de um pobre açougueiro. O fato é que a dor havia passado e seu Zé resolveu apregoar as virtudes do menino milagreiro pelos quatro cantos do bairro, a todos quanto quisessem ouvir!

Não havia nem dez dias e já a fila na porta da casa de Maria Lúcia dobrava a esquina da rua. Todos queriam ver Pedro Henrique, consultar com o santo infante, motivados por dores do corpo, do coração, da alma e, principalmente, do bolso. D. Clara, a avó, quase precisou de outra ponte de safena. Persignava-se dia e noite, rezava terço após terço em silêncio, ora sentada na sala de estar de Maria Lúcia, ora na igreja. De vez em quando uma lágrima rolava silenciosamente pelo rosto enrugado da velhinha:

-Que mal fiz, Senhor, para merecer tal castigo? Um neto herege? Possuído pelo mal?- dizia para si mesma e para Deus, em suas orações.

Luís Alfredo, em viagem pela empresa, soube da notícia e vaticinou:

- Esse moleque desordeiro! Não teremos mais sossego!

Enquanto isso, Pedro Henrique ficava cada vez mais assombrado com o poder de sua mentira. Sabiamente, continuava acusando Deus de piscar favoravelmente para uns, quando conseguia perceber aquilo que a ignorância dos mal-instruídos e parcamente treinados nas charadas intelectuais da vida teimava em velar; desfavoravelmente para outros, quando nem o olhar mais arguto podia acusar a causa da desarmonia física ou monetária na vida do consulente. Não houve padre, reza ou rosário que contivesse o crescimento daquele fenômeno. Por fim, coube à família de Pedro Henrique a resignação muda, que virou organização das filas com distribuição de senhas, que se transformou em admiração quando os primeiros presentes de agradecimento começaram a chegar... E que acabou virando um escritório de administração com uma conta bancária bastante pródiga ao cabo de alguns anos.

Porém Deus, piscando ou não, tudo vê...

Pedro Henrique contava 23 anos. Voltava de uma viagem bem sucedida pela América Latina onde os templos da seita da Piscadela de Deus perfilavam-se, harmoniosos e profícuos, por vários países. Cultos à pálpebra divina eram rezados em várias línguas e dialetos. Havia setores diversos, grupos para jovens com música mais ritmada e dançante, sessões para os mais idosos, onde se afirmava a importância da sabedoria angariada ao longo dos anos de vida, além de uma linha inteira de produtos para grávidas, cujo slogan dizia: Deus piscará para seu nenê também!

Chegando ao saguão do aeroporto, onde alguns fiéis portavam cartões com o olho de Hórus – os marqueteiros acharam melhor remeter as raízes da seita ao Egito antigo, antevendo grande faturamento com pacotes de viagens turísticas para as ruínas e construções místicas daquele país – e o esperavam para uma sessão de autógrafos, Pedro Henrique desmaiou.

Levado às pressas para o hospital mais próximo e após receber os primeiros socorros, os médicos, consternados, pediram exames corriqueiros, que exigiram exames mais profundos, que requisitaram uma biópsia, que revelou um câncer em estágio avançado. Todos ficaram chocados com a notícia de que o menino que via Deus, agora um jovem adulto, tinha um punhado de células baderneiras e indisciplinadas em seu organismo, causando um estrago que nem mesmo Deus havia visto – ou, se vira, não avisara. Correntes de orações foram organizadas. Terços de contas de olhinhos foram desfiados à exaustão. O câncer se transformou rapidamente em metástase. Debalde a luta insana com a quimioterapia ao seu lado, o menino que viu Deus ia, finalmente, vê-Lo de perto.

Desesperado, em seu leito no hospital, Pedro Henrique acreditava estar sofrendo uma grande injustiça. Passou a maldizer Deus:

-Aquele ingrato, eu tudo fiz por Ele, menti em Seu nome, oras, juntei dinheiro com o qual fiz obras sociais, trouxe pessoas para adorarem Seus olhos, agora tão impiedosos comigo. Sou Seu alvo, serei Seu mártir! - e chorava copiosamente.

As obras sociais, convém o leitor saber, se resumiam a duas casas sem reboco e pintura, no qual o templo dizia abrigar algumas crianças órfãs e promover seus estudos, mas que na verdade continham apenas poucas camas enfileiradas, sem colchões, esperando pela assinatura de alguma mão (ainda seca) no órgão público pertinente, para receber um alvará qualquer.

Maria, a empregada, continuava trazendo os biscoitos ao menino, agora preso àquela cama no hospital. Pedro não os comia mais, dado o constante enjôo com que era brindado pela quimioterapia, mas apreciava a presença da empregada, velha conhecida, que lhe devotada um amor de quase mãe, já que a mãe, agraciada por muitas piscadelas de Deus com renda mais do que favorável, vivia em viagens e ainda não havia podido visitar o filho.

Com sua fé enviesada, Maria continuava acendendo velas, lendo livros da Zíbia e comungando sem confessar. Foi em algum centro espírita que escutou a amiga falar do menino milagreiro do bairro do Afasta Cipó, na periferia de cidadela vizinha. Amando Pedro Henrique com devoção, Maria estava disposta a tentar “de um tudo” para salvar seu menino querido.

Em sua próxima visita, passando a mão na cabeça de Pedro, sussurou:

- Pedro, meu filho.

- Hmm? – respondeu, quase sem forças, Pedro Henrique.

- Deixa eu trazê um menino pra te ajudá?

- Ahn?

- Diz que tem um menino que faz milagre. Deixa eu trazê ele aqui pra te salvá?

- Que menino? Que milagre? – Pedro Henrique juntou forças para repelir a idéia – Milagre nada, Maria, não existe milagre! Não existe Deus. Se existe, ele fechou Seus olhos e não quer mais me ver!

- Arre, menino, não fala assim, que horror, credo, eu hein?

- Sai, Maria, sai! Me deixa em paz.

Mas Maria tinha fibra, vontade e crença. Brasileira, na melhor acepção da palavra. Pediu um trocado para um plantonista aqui, uma enfermeira lá... E no final da semana já havia juntado o dinheiro da corrida para buscar o menino milagreiro de táxi, já que o motorista de Pedro Henrique preferia ficar jogando dominó com os motoristas das ambulâncias no pátio do hospital. Sem esperar ordem de quem quer que fosse, lá se foi Maria para o bairro de Afasta Cipó, com o endereço do menino escrito a lápis em um pedaço de papel.

O casebre tinha teto de zinco e um cômodo só, onde vivam o menino milagreiro, a mãe e sete irmãos. O pai havia saído para comprar leite e não voltara mais, quando a mãe ficou grávida de trigêmeos. O banheiro era uma casinha afastada e a latrina, um buraco cavado no chão. Havia uma pá que se podia usar para cobrir o buraco com terra. E era só isso. Joãozinho, o menino milagreiro, vivia em paz, apesar da extrema pobreza. Em um dia de muita chuva, houve um deslizamento que soterrou o casebre. Joãozinho, o único que não estava debaixo dos escombros, não descansou enquanto não fez os bombeiros escavarem um por um seus irmãos e a mãe. Sabia exatamente onde estavam, porque, segundo ele, Deus havia lhe ditado o que fazer.

Desde então, dava consultas, ajudando as pessoas que Deus julgava por bem auxiliar, à guisa de caridade ou em troca de um pedaço de pão ou uma caixa de leite, se o consulente quisesse ajudar. E se lhe dissessem que isso era um absurdo, que devia cobrar, redargüia que Deus escolhia seus instrumentos. E que também escolhia onde, em que caixa e em que estado os guardaria.

Vendo o desespero de Maria, Joãozinho não pensou duas vezes, puxou água do poço e se lavou como pôde, vestiu a roupa mais limpa que tinha e seguiu com ela para o hospital. O menino de 12 anos, encardido e maltrapilho, entrou no hospital olhando para baixo, como se asfixiado por todas as normas que ditam respeito às instituições sociais, aquelas mesmas normas que não enxergam a envergadura do coração, somente a dos cifrões. Andando pelos corredores, praticamente pedia desculpas pelo estado em que se apresentava às paredes caiadas. Foi barrado por um enfermeiro cuja tenacidade Maria, a muito custo, dobrou, pois o horário de visitas já havia acabado e não se podia permitir tamanha aviltação purulenta em ala tão asséptica.

Pedro Henrique dormia, profundamente, anestesiado.

João olhou para Maria, como se pedisse permissão para chegar mais perto do leito. Maria somente olhava.

João deu dois passos e se colocou ao lado de Pedro. Espalmou as mãos acima da cabeça do enfermo, sem o tocar e fechou os olhos. No íntimo do seu ser algo parecido com uma prece brotou com sinceridade. Maria somente olhava.

João suspirou. Parecia até que fazia força para romper as barreiras que a doença, ingrata, havia construído ao redor do organismo de Pedro, muros de contenção e domínio, que sequer a quimioterapia conseguia debelar. Maria somente olhava.

João começou a suar, firmemente compenetrado naquilo que sabia ser seu dever, ainda que não soubesse ao certo o motivo pelo qual devia fazê-lo. Diminutas gotículas de suor começaram a brotar na testa de Pedro. Uma leve agitação tomou conta do enfermo que, embora sedado, demonstrava sentir, ainda que debilmente, que algo interferia na organização da doença. Maria observava atentamente.

Agora, o suor escorria abundantemente do rosto de João. Pedro se agitava. O monitor passou a apitar, acusando a taquicardia. Um enfermeiro correu ao quarto e foi impedido de entrar pelo corpanzil de Maria que barrava a porta. Ela, porém, não tirava os olhos do leito.

João arfava, Pedro arfava, Maria arfava.

O enfermeiro, estático, observava a cena, assustado e sem forças para se mover, como se algum poder o impedisse de agir. Parecia que uma energia descomunal isolava aquele quarto do resto do hospital. O monitor apitou com mais violência, enquanto o suor de Pedro encharcava os lençóis e a respiração de João se tornava mais e mais rápida...

De repente, o monitor parou. Houve um átimo de silêncio e espera angustiante e logo o bip-bip ritmado dos aparelhos trouxe todos de volta a realidade. João balbuciou “Graças a Deus” e deixou cair as mãos ao longo do corpo. Pedro abriu os olhos:

- Que houve? Que luz era essa? Maria, que está acontecendo?

O enfermeiro aproveitou que Maria limpava as lágrimas e corria para junto de Pedro. Entrou no quarto e agarrou Joãozinho, para levá-lo, “que o horário de visita já acabou faz tempo!”

- Como está meu menino?

- Não sei, estou bem, que aconteceu?

- Ah, filho, foi Deus. Agora eu tenho certeza. Foi Deus. Usou o menino que eu trouxe, Pedrinho.

- Que menino?

- Esse aqui... ué! Cadê o menino?

Por mais que procurassem, ninguém achava Joãozinho. O enfermeiro disse que havia levado o menino para fora daquela ala e o deixado sentado em um banco no saguão do hospital. Porém, ninguém no saguão o havia visto. Tampouco os seguranças de quaisquer saídas do edifício sabiam dele. Nem mesmo os motoristas dos táxis e ambulâncias que jogavam dominós e cartas em vários pontos ao redor do estacionamento. Ou os transeuntes. Ninguém vira Joãozinho.

No bairro do Afasta Cipó, não havia viva alma que soubesse quem era o menino, quando Pedro Henrique, completamente restabelecido, tendo fechado a igreja e doado seus inúmeros bens a várias instituições de caridade, foi procurar por ele. No lugar do casebre não havia vestígio de família alguma, nem de oito filhos, nem de nenhum. No meio do terreno onde deveria estar o casebre de João, somente um toco de madeira onde alguem havia esculpido, mal e porcamente, algo parecido com “Mat 18:27”, lembrava que alguém passara por ali.

Alguns dias depois, um tanto intrigado, Pedro pegou uma Bíblia. Abrindo o Evangelho de Mateus em 18:27, arrepiou-se todo e deixou-se cair em uma cadeira. O versículo dizia: O senhor daquele servo, pois, movido de compaixão, soltou-o, e perdoou-lhe a dívida.