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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Barraco

Zé fechou a porta com força, jogou a chave do carro financiado no rack, bem ao lado da televisão, deu mais três passos e desabou no sofá.

- Eu quero o divórcio.


- O quê?


- Isso mesmo, Rita – bufou – Não agüento mais. Quero o divórcio.


- E posso saber por quê? – perguntou a moça com certo tom de ironia a tingir o timbre mezzo-soprano de um amargo de “saco-cheio”.


- Cansei.


- Cansou? Como assim, cansou?


- Cansei, Rita. Cansei!


- Do nada, Zé? De uma hora pra outra?


- É, Rita! – ele ajeitou o corpanzil no sofá na tentativa de concatenar as idéias e assim fazendo, apoiou o pé calçado em uma das almofadas. – Do nada? Você acha...


- Tira o pé do sofá, Zé! Quantas vezes eu tenho que dizer que ainda estamos pagando essa porcaria? – gritou Rita.


- Viu? É isso!


- Isso o que, Zé? Por que você está querendo me infernizar hoje?


- Eu? Eu é que estou querendo infernizar, Rita? Tem certeza?


- Não me provoca Zé, não me provoca que hoje eu não estou no meu juízo perfeito!


- Ah, isso você não está mesmo. Precisava fazer a cena que fez na loja?


- E o que você esperava que eu fizesse? A moça estava dando em cima de você!


- E eu vi alguma coisa Rita? De onde você tirou isso? Só porque ela resolveu dar um desconto? Precisava chamar a moça de gorda?


- Só um desconto? Você enlouqueceu? Ela passou a mão em você, eu vi!


- Ela estava ajeitando a camisa! Estava me ajudando... Já que você estava mais interessada em achar algo a mais para gastar mesmo...


- Gastar, Zé? É assim que você enxerga o meu interesse em fazê-lo se vestir melhor?


- E pra isso precisava gritar com a balconista?


- E tinha outro jeito de ela entender que não era pra pôr a mão em você?


- Ela entendeu rapidinho depois que você gritou que ela era uma mal-amada.


- Ela passou a mão na sua bunda!


- Ela foi tirar um fiapo que ficou grudado! Rita, você está ficando cada vez pior! Por causa de um fiapo precisava jogar todas as roupas do balcão no chão?


- Não, não precisava! Realmente! Precisava na verdade era bater a cabeça daquela cínica na parede, para ver se o bom-senso dela pegava no tranco!


- Ah, como se você quase não tivesse feito isso! Chacoalhou tanto a moça que ela quase vomitou.


- Que vomitasse, a sem-vergonha! Passando a mão no traseiro do marido das outras! Se bem que é bonito... – e deu um risinho abafado.


- Não foge do assunto Rita, não foge. Se eu não tivesse segurado você, agora a moça estaria sem a cabeça, que teria saído rolando do pescoço, tal a força com a qual você chacoalhou a pobre coitada!


- Eu mato você, Zé! Está defendendo a balconistazinha, agora, é? Então vai defender na rua, porque aqui você não fica!


- Ah, é? E você vai arcar com todos os crediários... Sozinha? – frisou a palavra com um sorrisinho cínico.


- Há! Um ou dois carnês? O que é isso perto de um marido traidor?


- São cinco carnês, Rita. Cinco! O carro, o conjunto de sofá, poltrona e mesa de centro, a geladeira, a máquina de lavar e a cama king-size!


- Isso! Vai! Joga na minha cara agora! Joga, diz que eu sou gastadeira!


- Não estou dizendo isso! Mas talvez fosse mais fácil se você se contivesse um pouco...


- Um pouco? Um pouco? Agora vai dizer que eu exagerei nas compras, hoje!


- Ah, não. Hoje não. Não ia dar mesmo, né?


- O que você está insinuando? – ela berrou. Estava fora de si.


- Não estou insinuando, estou dizendo: depois de você ter xingado, gritado, jogado as roupas do balcão no chão, chacoalhado a moça e dado um tapa na cara da coitada, ninguém ia querer vender mais nada pra gente, Rita.


- Zé, não me provoca que eu estou de sangue quente hoje! Me deixa, seu exu! Você está com dó? Vai lá, cuidar daquela coisinha! – abriu a porta da rua e apontou para fora, histérica – Vai!

Zé suspirou.

- Rita, eu não vou lá. Não quero cuidar da “coisinha”. Mas ajudaria muito se você se controlasse um pouco mais.


- Não! Não! – Rita desatou a chorar – Eu não acredito! Meu marido se engraçando com a balconista! – as lágrimas escorriam e lavavam a face recém esticada com toxina botulínica (paga em 24 vezes) da moça.


- Eu não estava me engraçando com a balconista, Rita! – acercou-se da esposa, tentando abraçá-la. Tomou uma cotovelada dela – Ai! Você está vendo como eu tenho razão? Ai...

Zé se sentou no sofá – cujas vinte e quatro parcelas haviam sido quitadas até a décima terceira – e ficou observando a esposa, que vertia um rio de lágrimas. Apesar da dor que a cotovelada causara, sentiu pena da Rita e resolveu mudar de tática.

- Rita.


- ...


- Rita, pára de chorar e vem aqui.


- ....


- Senta do meu lado, vem cá.

Rita olhou para ele, desconfiada.

- Vem cá. – ele deu três batidinhas de leve no assento do sofá. Mantinha o olhar reconciliador. Ela foi. Sentou-se ao lado dele, mantendo certa distância.

- Chora não – disse ele, puxando a esposa para perto de si. – Desculpa.

Ela se aninhou nos braços dele e foi pouco a pouco parando de chorar.

- Desculpa – disse ele novamente.


- Você ainda quer o divórcio?- choramingou a moça.


- Não, sua boba, eu amo você! – ele a apertou mais ainda e ela suspirou de alívio.


- Eu prometo que vou tentar me controlar da próxima vez.


Ele riu.


- Que foi? – disse ela, rapidamente aumentando o tom da voz.


- Shh... nada.... é que eu acho que lá a gente não entra mais não.... – o Zé tentava disfarçar o riso.


- É verdade, né?- Rita suspirou - Quem vai querer a gente lá depois de batermos tanto a porta da loja a ponto de estilhaçar o vidro?


- Nós? Que eu saiba, isso você fez sozinha...


- Zé! – ela ameaçou, voltando a se irritar – não me provoca!

Ele riu.

- Calma Rita, calma... Eu te amo. – ele beijou a testa dela e esticou a mão para pegar um dos bombons que estavam em cima da mesinha de centro.

Rita se aprumou incontinenti e bradou:

- Tira a mão dos meus bombons, Zé! Até parece que não sabe que eu preciso deles! Eu estou de TPM, não consegue ver? Ô diabo de homem!

E, esquivando-se dele, levantou-se, agarrou a caixa de bombons e foi chorar na cozinha.

– Me deixa, seu exu. Me deixa!

4 comentários:

Anônimo disse...

Em alguns momentos me senti lendo uma mistura de Veríssimo com Danuza. Moça, tu tem o dom! Que delícia foi me aventurar por essa linhas bem escritas. Consegui visualizar o Zé... Foi muito bom mesmo! Amei! Mande mais! Bjks Ju

Fabiana disse...

Oi querida! Está ótimo! É muito real mesmo, dá pra vizualizar direitinho o brasileiro nas personagens.Excelente Rach! Parabéns e vá em frente! Acredite em si mesma! Beijo, Fabi

lela.camarero disse...

Que delícia, Rachel. Quero mais... Bjs, MHelena

Anônimo disse...

Rachel,

Cenas do cotidiano do matrimônio... leve e gostoso de ler, parabéns.

Daniel