check out Teaching is cool! to read about teaching!

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

A piscadela de Deus

Pedro Henrique soluçava baixinho, tentando segurar o choro, enquanto a mãe, zelosa, aplicava o remédio no ralado dos cotovelos e antebraços:

- Mas como foi que isso aconteceu?
- Caí do skate.

Maria Lúcia fez um muxoxo, resmungou algo para si mesma e o menino, antevendo a proibição, foi logo emendando:

- Mas não foi o skate, não, mãe.
- Ah, não? – redargüiu a mãe, levemente irritada – E o que foi então?
- Foi Deus que piscou!

Maria Lúcia parou, estupefata. Olhou para ele, sem saber, a princípio, se brigava ou condescendia. Ficou com o braço no ar, segurando o algodão embebido em iodo, repassando mentalmente as últimas peripécias do filho. Por fim, decidiu-se:

- Ora, com efeito, Pedro Henrique! Isso já está passando dos limites. Primeiro, surrupiou chicletes no mercadinho. Depois, levou advertência por bater no colega no recreio. Agora me aparece todo escalavrado por causa dessa porcaria desse skate e como se não bastasse tudo isso ainda põe a culpa em Deus?

O menino olhava assustado para a mãe, com medo do castigo:

- Mas desta vez não fui eu, não, mãe! Foi Deus, tô falando, foi Deus!

O vidro de iodo escorregou das mãos de Maria Lúcia e caiu no chão, esparramando todo o conteúdo e manchando o tapete alvo do banheiro. A mãe perdeu o controle e disse, rispidamente:
- Já chega, Pedro Henrique. Chega! Vá para o seu quarto. Já! Hoje não tem playstation, TV, internet, nada! Vai ficar no seu quarto, pensando no que fez! Onde já se viu, não crio filho para ser mau-caráter, ficar pondo a culpa em Deus! Te esconjuro, moleque!!

-Mas mãe...

-Para o quarto! Já!

O menino saiu, desconsolado. Maria Lúcia pôs as mãos na cabeça e resmungou:

- Isso só pode ser praga da mãe do Luís Alfredo. Aquela carola vive implicando comigo porque não pus o Pedro Henrique no catecismo. Ai, se ela escuta! Deus me livre! Vai chamar o menino de herege!

E foi exatamente isso que aconteceu. No domingo seguinte a avó, vendo o cotovelo do menino, destilou:

-Maria Lúcia, você não tem medo que o menino se mate com esses brinquedos? Quando Luisinho tinha a idade de Pedro Henrique nunca permitia que brincasse perigosamente. Preferia que ele ficasse estudando e lendo. Isso tornou meu filho o grande homem que é hoje.

Maria Lúcia suspirou. Ia articular a resposta, mas Pedro Henrique foi mais rápido:

-Vovozinha, não foi o skate, não! – E antes que a mãe pudesse fazer algo, complementou – Foi Deus que piscou, vó!

Pronto. Estava estabelecida a confusão. D. Clara, a mãe do Luís Alfredo, era uma mulher completamente devotada à igreja. A pobre senhora, boquiaberta, não conseguiu proferir som algum, chocada com a heresia do neto. Pedro Henrique, vendo a mãe desabar no sofá e não entendendo o que estava acontecendo, quis consertar a situação:

- É sim, vovozinha. De vez em quando, Deus pisca. E quando Ele pisca, acontecem coisas!

A avó surtou de um lado, pondo as mãos no coração e pedindo os remédios. Maria Lúcia surtou de outro, antevendo outra briga conjugal causada por uma reação exagerada da sogra. Luis Alfredo se movia feito barata tonta, não sabendo a quem acudir primeiro. Por fim, agarrou o braço do filho e chacoalhou o menino, gritando:

-Olha o que você fez! Vá para o seu quarto!

Pedro Henrique subiu as escadas chorando. A empregada, sentindo pena do menino, foi atrás, levando alguns biscoitos escondidos no avental.

- Olha o que eu trouxe pra você! Não fica assim, não.

O menino enxugou as lágrimas na manga da camiseta, enquanto a empregada emendava:

- Mas também, que idéia estranha essa, a sua, de pôr a culpa em Deus! Olha que Ele castiga, hein? Coisa feia, menino, ficar mentindo desse jeito!

Pedro Henrique adorava a Maria, que tomava conta dele desde que ele era pequenininho. Era ela quem sempre arranjava um jeito de amainar os castigos que ele, traquina e hiperativo, colecionava desde que havia se entendido por gente. Pensou rapidamente nas proporções que aquela história estava tomando e decidiu que não queria decepcionar a Maria, nem perder os biscoitos de chocolate dela.

- Mas eu não estava mentindo, Maria, não mesmo! Deus piscou! Eu vi!

- Ai, menino, não fala uma coisa dessas, onde já se viu, ver Deus piscar!

- Mas eu vi!

- Viu mesmo? Como?

Pedro Henrique relatou o suposto acontecido. Descia a rua de skate, em alta velocidade. De repente, viu um clarão e no meio dele, um velhinho, simpático, que piscou para ele. Então, caiu.

-Era Deus, Maria, eu sei! – insistiu o menino, com um olho na empregada e o outro nos biscoitos.

-Vixe Nossa Senhora, Virgem Santíssima, será que pode ser verdade uma coisa dessas? O menino vê esp’ríto?

- Não, Maria, não era espírito, era Deus!

Maria, como a maior parte dos brasileiros, professava uma fé um tanto enviesada, que misturava os ingredientes de tudo aquilo que era bonito, conveniente e condescendente de todas as religiões que conhecera. Por isso, em meio às velas, imagens de santos, comunhão sem confissão e livros da Zíbia, devotava suas orações ao desconhecido, pedindo proteção. No dia seguinte toda a vizinhança já comentava que o menino era médium e santo.

- Mas a senhora tem certeza, D. Maria? Aquele menino roubou o mercadinho outro dia! - ponderou o açougueiro.

-Ah, seu Zé! E o menino Jesus também não aprontava? É menino, é garoto! Estou dizendo, Pedro Henrique é santo! Viu Deus! Nem Jesus foi, foi Deus mesmo!

- Ah, D. Maria, se é milagreiro, será que ele cura minhas costas? Não posso mais de dor...

-Seu Zé... será? Trago o menino aqui amanhã.

- Deus lhe pague, D. Maria. Deus lhe pague!

No dia seguinte, Maria levou Pedro Henrique ao açougue. Seu Zé, meio desconfiado, abaixou um tantinho de nada as calças e mostrou o ponto que doía. O menino, exercitando a malandragem, olhou, suspirou... olhou de novo...observou tudo ao seu redor, tentando achar uma saída... e nada. Seu Zé já ia ficando aflito, sentindo-se um tanto ridículo, ao submeter sua lombalgia à apreciação de um garoto de 12 anos. E estava quase desistindo, quando Pedro Henrique exclamou:

- Ahá!!

Esta exclamação foi seguida pelo cochicho dos demais que presenciavam a cena:

- Ahá o que??

- Ele disse “ahá!”

- O menino falou!

- Glória a Deus!

E diante do assombro de todos, Pedro Henrique, forjando um ar solene e se esforçando para não rir, apontou o culpado:

- Seu Zé, Deus piscou. Deus piscou e me disse que a sua dor é por causa daquilo ali.

- Aquilo ali é um banquinho. Um banquinho, Pedro Henrique?

- Sim, seu Zé, um banquinho. – Pedro Henrique escondia o riso – o banquinho foi tomado pelo demônio. Jogue o banquinho fora, reze 3 pais-nossos e espere alguns dias. A dor vai passar.

Houve um murmúrio de assombro. Seu Zé suspirou. E findos cinco dias, a dor realmente havia passado. Ninguém notou que o banquinho era muito baixo para o seu Zé, que afiava as facas em posição completamente desconfortável. Tampouco alguém ponderou que o demônio certamente estaria muito ocupado com as guerras que assolam a humanidade para se apossar de um banquinho e das costas de um pobre açougueiro. O fato é que a dor havia passado e seu Zé resolveu apregoar as virtudes do menino milagreiro pelos quatro cantos do bairro, a todos quanto quisessem ouvir!

Não havia nem dez dias e já a fila na porta da casa de Maria Lúcia dobrava a esquina da rua. Todos queriam ver Pedro Henrique, consultar com o santo infante, motivados por dores do corpo, do coração, da alma e, principalmente, do bolso. D. Clara, a avó, quase precisou de outra ponte de safena. Persignava-se dia e noite, rezava terço após terço em silêncio, ora sentada na sala de estar de Maria Lúcia, ora na igreja. De vez em quando uma lágrima rolava silenciosamente pelo rosto enrugado da velhinha:

-Que mal fiz, Senhor, para merecer tal castigo? Um neto herege? Possuído pelo mal?- dizia para si mesma e para Deus, em suas orações.

Luís Alfredo, em viagem pela empresa, soube da notícia e vaticinou:

- Esse moleque desordeiro! Não teremos mais sossego!

Enquanto isso, Pedro Henrique ficava cada vez mais assombrado com o poder de sua mentira. Sabiamente, continuava acusando Deus de piscar favoravelmente para uns, quando conseguia perceber aquilo que a ignorância dos mal-instruídos e parcamente treinados nas charadas intelectuais da vida teimava em velar; desfavoravelmente para outros, quando nem o olhar mais arguto podia acusar a causa da desarmonia física ou monetária na vida do consulente. Não houve padre, reza ou rosário que contivesse o crescimento daquele fenômeno. Por fim, coube à família de Pedro Henrique a resignação muda, que virou organização das filas com distribuição de senhas, que se transformou em admiração quando os primeiros presentes de agradecimento começaram a chegar... E que acabou virando um escritório de administração com uma conta bancária bastante pródiga ao cabo de alguns anos.

Porém Deus, piscando ou não, tudo vê...

Pedro Henrique contava 23 anos. Voltava de uma viagem bem sucedida pela América Latina onde os templos da seita da Piscadela de Deus perfilavam-se, harmoniosos e profícuos, por vários países. Cultos à pálpebra divina eram rezados em várias línguas e dialetos. Havia setores diversos, grupos para jovens com música mais ritmada e dançante, sessões para os mais idosos, onde se afirmava a importância da sabedoria angariada ao longo dos anos de vida, além de uma linha inteira de produtos para grávidas, cujo slogan dizia: Deus piscará para seu nenê também!

Chegando ao saguão do aeroporto, onde alguns fiéis portavam cartões com o olho de Hórus – os marqueteiros acharam melhor remeter as raízes da seita ao Egito antigo, antevendo grande faturamento com pacotes de viagens turísticas para as ruínas e construções místicas daquele país – e o esperavam para uma sessão de autógrafos, Pedro Henrique desmaiou.

Levado às pressas para o hospital mais próximo e após receber os primeiros socorros, os médicos, consternados, pediram exames corriqueiros, que exigiram exames mais profundos, que requisitaram uma biópsia, que revelou um câncer em estágio avançado. Todos ficaram chocados com a notícia de que o menino que via Deus, agora um jovem adulto, tinha um punhado de células baderneiras e indisciplinadas em seu organismo, causando um estrago que nem mesmo Deus havia visto – ou, se vira, não avisara. Correntes de orações foram organizadas. Terços de contas de olhinhos foram desfiados à exaustão. O câncer se transformou rapidamente em metástase. Debalde a luta insana com a quimioterapia ao seu lado, o menino que viu Deus ia, finalmente, vê-Lo de perto.

Desesperado, em seu leito no hospital, Pedro Henrique acreditava estar sofrendo uma grande injustiça. Passou a maldizer Deus:

-Aquele ingrato, eu tudo fiz por Ele, menti em Seu nome, oras, juntei dinheiro com o qual fiz obras sociais, trouxe pessoas para adorarem Seus olhos, agora tão impiedosos comigo. Sou Seu alvo, serei Seu mártir! - e chorava copiosamente.

As obras sociais, convém o leitor saber, se resumiam a duas casas sem reboco e pintura, no qual o templo dizia abrigar algumas crianças órfãs e promover seus estudos, mas que na verdade continham apenas poucas camas enfileiradas, sem colchões, esperando pela assinatura de alguma mão (ainda seca) no órgão público pertinente, para receber um alvará qualquer.

Maria, a empregada, continuava trazendo os biscoitos ao menino, agora preso àquela cama no hospital. Pedro não os comia mais, dado o constante enjôo com que era brindado pela quimioterapia, mas apreciava a presença da empregada, velha conhecida, que lhe devotada um amor de quase mãe, já que a mãe, agraciada por muitas piscadelas de Deus com renda mais do que favorável, vivia em viagens e ainda não havia podido visitar o filho.

Com sua fé enviesada, Maria continuava acendendo velas, lendo livros da Zíbia e comungando sem confessar. Foi em algum centro espírita que escutou a amiga falar do menino milagreiro do bairro do Afasta Cipó, na periferia de cidadela vizinha. Amando Pedro Henrique com devoção, Maria estava disposta a tentar “de um tudo” para salvar seu menino querido.

Em sua próxima visita, passando a mão na cabeça de Pedro, sussurou:

- Pedro, meu filho.

- Hmm? – respondeu, quase sem forças, Pedro Henrique.

- Deixa eu trazê um menino pra te ajudá?

- Ahn?

- Diz que tem um menino que faz milagre. Deixa eu trazê ele aqui pra te salvá?

- Que menino? Que milagre? – Pedro Henrique juntou forças para repelir a idéia – Milagre nada, Maria, não existe milagre! Não existe Deus. Se existe, ele fechou Seus olhos e não quer mais me ver!

- Arre, menino, não fala assim, que horror, credo, eu hein?

- Sai, Maria, sai! Me deixa em paz.

Mas Maria tinha fibra, vontade e crença. Brasileira, na melhor acepção da palavra. Pediu um trocado para um plantonista aqui, uma enfermeira lá... E no final da semana já havia juntado o dinheiro da corrida para buscar o menino milagreiro de táxi, já que o motorista de Pedro Henrique preferia ficar jogando dominó com os motoristas das ambulâncias no pátio do hospital. Sem esperar ordem de quem quer que fosse, lá se foi Maria para o bairro de Afasta Cipó, com o endereço do menino escrito a lápis em um pedaço de papel.

O casebre tinha teto de zinco e um cômodo só, onde vivam o menino milagreiro, a mãe e sete irmãos. O pai havia saído para comprar leite e não voltara mais, quando a mãe ficou grávida de trigêmeos. O banheiro era uma casinha afastada e a latrina, um buraco cavado no chão. Havia uma pá que se podia usar para cobrir o buraco com terra. E era só isso. Joãozinho, o menino milagreiro, vivia em paz, apesar da extrema pobreza. Em um dia de muita chuva, houve um deslizamento que soterrou o casebre. Joãozinho, o único que não estava debaixo dos escombros, não descansou enquanto não fez os bombeiros escavarem um por um seus irmãos e a mãe. Sabia exatamente onde estavam, porque, segundo ele, Deus havia lhe ditado o que fazer.

Desde então, dava consultas, ajudando as pessoas que Deus julgava por bem auxiliar, à guisa de caridade ou em troca de um pedaço de pão ou uma caixa de leite, se o consulente quisesse ajudar. E se lhe dissessem que isso era um absurdo, que devia cobrar, redargüia que Deus escolhia seus instrumentos. E que também escolhia onde, em que caixa e em que estado os guardaria.

Vendo o desespero de Maria, Joãozinho não pensou duas vezes, puxou água do poço e se lavou como pôde, vestiu a roupa mais limpa que tinha e seguiu com ela para o hospital. O menino de 12 anos, encardido e maltrapilho, entrou no hospital olhando para baixo, como se asfixiado por todas as normas que ditam respeito às instituições sociais, aquelas mesmas normas que não enxergam a envergadura do coração, somente a dos cifrões. Andando pelos corredores, praticamente pedia desculpas pelo estado em que se apresentava às paredes caiadas. Foi barrado por um enfermeiro cuja tenacidade Maria, a muito custo, dobrou, pois o horário de visitas já havia acabado e não se podia permitir tamanha aviltação purulenta em ala tão asséptica.

Pedro Henrique dormia, profundamente, anestesiado.

João olhou para Maria, como se pedisse permissão para chegar mais perto do leito. Maria somente olhava.

João deu dois passos e se colocou ao lado de Pedro. Espalmou as mãos acima da cabeça do enfermo, sem o tocar e fechou os olhos. No íntimo do seu ser algo parecido com uma prece brotou com sinceridade. Maria somente olhava.

João suspirou. Parecia até que fazia força para romper as barreiras que a doença, ingrata, havia construído ao redor do organismo de Pedro, muros de contenção e domínio, que sequer a quimioterapia conseguia debelar. Maria somente olhava.

João começou a suar, firmemente compenetrado naquilo que sabia ser seu dever, ainda que não soubesse ao certo o motivo pelo qual devia fazê-lo. Diminutas gotículas de suor começaram a brotar na testa de Pedro. Uma leve agitação tomou conta do enfermo que, embora sedado, demonstrava sentir, ainda que debilmente, que algo interferia na organização da doença. Maria observava atentamente.

Agora, o suor escorria abundantemente do rosto de João. Pedro se agitava. O monitor passou a apitar, acusando a taquicardia. Um enfermeiro correu ao quarto e foi impedido de entrar pelo corpanzil de Maria que barrava a porta. Ela, porém, não tirava os olhos do leito.

João arfava, Pedro arfava, Maria arfava.

O enfermeiro, estático, observava a cena, assustado e sem forças para se mover, como se algum poder o impedisse de agir. Parecia que uma energia descomunal isolava aquele quarto do resto do hospital. O monitor apitou com mais violência, enquanto o suor de Pedro encharcava os lençóis e a respiração de João se tornava mais e mais rápida...

De repente, o monitor parou. Houve um átimo de silêncio e espera angustiante e logo o bip-bip ritmado dos aparelhos trouxe todos de volta a realidade. João balbuciou “Graças a Deus” e deixou cair as mãos ao longo do corpo. Pedro abriu os olhos:

- Que houve? Que luz era essa? Maria, que está acontecendo?

O enfermeiro aproveitou que Maria limpava as lágrimas e corria para junto de Pedro. Entrou no quarto e agarrou Joãozinho, para levá-lo, “que o horário de visita já acabou faz tempo!”

- Como está meu menino?

- Não sei, estou bem, que aconteceu?

- Ah, filho, foi Deus. Agora eu tenho certeza. Foi Deus. Usou o menino que eu trouxe, Pedrinho.

- Que menino?

- Esse aqui... ué! Cadê o menino?

Por mais que procurassem, ninguém achava Joãozinho. O enfermeiro disse que havia levado o menino para fora daquela ala e o deixado sentado em um banco no saguão do hospital. Porém, ninguém no saguão o havia visto. Tampouco os seguranças de quaisquer saídas do edifício sabiam dele. Nem mesmo os motoristas dos táxis e ambulâncias que jogavam dominós e cartas em vários pontos ao redor do estacionamento. Ou os transeuntes. Ninguém vira Joãozinho.

No bairro do Afasta Cipó, não havia viva alma que soubesse quem era o menino, quando Pedro Henrique, completamente restabelecido, tendo fechado a igreja e doado seus inúmeros bens a várias instituições de caridade, foi procurar por ele. No lugar do casebre não havia vestígio de família alguma, nem de oito filhos, nem de nenhum. No meio do terreno onde deveria estar o casebre de João, somente um toco de madeira onde se lia “Mat 18:27” lembrava que alguém passara por ali.

Alguns dias depois, um tanto intrigado, Pedro pegou uma Bíblia. Abrindo o Evangelho de Mateus em 18:27, arrepiou-se todo e deixou-se cair em uma cadeira. O versículo dizia: O senhor daquele servo, pois, movido de compaixão, soltou-o, e perdoou-lhe a dívida.

1 comentários:

Lívia disse...

Dona Rach, eu quero comprar o livro, fazfavô...