segunda-feira, 3 de março de 2008

Pequena autoridade

Paula procurava a escada com certa pressa. O shopping era novo e mal sinalizado. Ela já havia almoçado e vagado pelo labirinto de lojas por duas horas, antes de se dar conta de que passara algumas vezes na frente da mesma vitrine, na qual um letreiro mal escrito causava graça:

“Precisasse balconista de boa aparência com experiência. Trazer CV”

Paula riu consigo mesma na primeira vez que o leu, perguntando se a experiência se referia à aparência ou à moça. Na segunda vez, riu com a grafia do verbo. Finalmente, na terceira, percebeu que estava andando em círculos e que não sabia onde era a saída.

Perambulou mais um pouco e avistou não as escadas ou alguma placa indicando o caminho, mas o sanitário. Havia um cercadinho de metal delimitando uma pequena área quadrada na frente da entrada do banheiro. Em um dos lados desse quadrado, uma catraca. Achou boa a idéia de parar e pedir a informação ao segurança sisudo, que portava uniforme de botões dourados e se postava ao lado da porta, do lado de dentro do cercadinho. Porém, havia fila e ela teve que esperar um pouco até conseguir chegar à catraca. Enquanto esperava, repassava mentalmente a lista de coisas que tinha para fazer e as contas do quanto havia gasto. Imersa na matemática, não percebeu que sua vez chegara e que o segurança espalmava a mão esperando alguma coisa.

- O quê? – perguntou Paula.

- São cinqüenta centavos, senhora. – o segurança falava apontando para uma plaquinha acima da cabeça dele, que informava o valor da entrada do sanitário. O homem era baixinho e a placa, exposta bem alta na parede, não ficava no campo de visão de quem falasse com ele.

- Eu vou ter que pagar pra fazer xixi? – riu a moça.

- A senhora é quem sabe. Se não pagar, não entra. – respondeu ele, com toda a seriedade.

Paula resolveu brincar com a situação.

- E se eu não tiver dinheiro?

- Então a senhora não entra.

- Mesmo que eu esteja apertada?

- Mesmo assim! - disse ele, com convicção.

Paula olhou de relance a caixinha onde ele guardava as moedas para troco e resolveu troçar um pouco mais do segurança.

- E se eu tiver uma nota grande e o senhor não tiver troco? – perguntou, fingindo a necessidade da pergunta e segurando o riso.

- Grande quanto?

- Ah... Grande... Digamos, de vinte?

- Então a senhora deverá esperar enquanto trocamos a nota.

- Mas o senhor vai deixar seu posto só para trocar a nota? – Paula não se agüentava de vontade de rir, mas manteve o tom de curiosidade séria.

- Não senhora, neste caso eu chamarei alguém para trocar a nota para a senhora. - ele mostrou o rádio, enquanto sua expressão denotava grande importância por portar tal aparelho.

- Mas... – Paula prendeu a respiração para não rir – Eu devo esperar aqui fora ou lá dentro enquanto o senhor troca a nota?

- Não sou eu quem vai trocá-la, eu já disse! – O segurança olhou para Paula como se a achasse burra.

- Ah, é verdade! Que cabeça a minha! Sim, enquanto a outra pessoa for trocar a nota, onde ficarei?

- Aqui fora, é lógico! – agora Paula tinha certeza de que o segurança a considerava mentalmente inapta, dada a expressão do rosto dele.

- Por quê?

- Porque se não tivermos troco, a senhora não vai poder entrar.

- E se eu estiver apertada?

- A senhora vai ter que segurar e trocar a nota em outro estabelecimento.

- E se eu fizer xixi nas calças?

- Sinto muito, senhora, são as regras. – disse ele, dando o assunto por encerrado.

Paula podia jurar que o tom de voz do homem era de consternação, nessa última frase. Talvez ele até sentisse pena da moça que faria xixi nas calças! Uma coisa estava clara, aquele homem realmente levava a sério todas as regras de seu trabalho. "Já que estou aqui... vou aproveitar e entrar. Sabe-se lá quando conseguirei achar a saída desse labirinto...", ponderou consigo mesma. Fuçando a bolsa, ela achou a moeda de cinqüenta centavos e a entregou.

- Obrigada. – ela disse.

Ele somente assentiu com a cabeça, indicou a catraca e ajudou Paula a girá-la.


- Há há... – riu Paula, entrando no sanitário – Meu xixi custa cinqüenta centavos...

Observando melhor o lugar, ela se perguntou o que era feito do dinheiro, já que não havia sabonete nem toalhas de papel para enxugar as mãos. Paula fez mentalmente a promessa de nunca mais ouvir as vizinhas, que a incitaram a procurar preços mais acessíveis no comércio daquele bairro, sacudiu as mãos para tentar secá-las e puxou a maçaneta da porta principal para sair. A porta não se moveu.

Paula puxou com mais decisão. A porta pareceu abrir, mas fechou-se de novo com força. Intrigada, observou os batentes, olhou de lado para ver se alguém compartilhava com ela o ridículo momento, mas não. Estava sozinha. Tentou novamente. Desta vez, puxou com força. A porta abriu e com ela veio o segurança, agarrado à maçaneta, do lado de fora.

- Há! Era a senhora que não deixava a porta fechar!

- Mas eu precisava abri-la!

- Para quê?

- Para sair! Para o quê mais? Ou o senhor acha que eu vou ficar aqui dentro para sempre?

O segurança não respondeu. Já havia voltado ao seu posto, a dez centímetros da porta.
Paula suspirou e ia sair quando se lembrou do motivo que a havia levado ao sanitário. Precisava saber onde estavam as escadas que desciam, indicando a saída.

- O senhor pode informar-me onde ficam as escadas? – enquanto Paula perguntava, dirigiu-se instintivamente para a catraca.

Ainda olhando para o segurança, mas intimamente querendo sair o mais rapidamente possível de lá, girou a catraca na direção óbvia, a da saída. A catraca girou sem resistência e Paula saiu.

- Não! Não! – o segurança meneava a cabeça em sinal de desaprovação. - A saída é por aqui! – disse, indicando um portãozinho minúsculo que ficava logo atrás dele.

Paula parou, assustada.

- E como o senhor queria que eu soubesse, se o senhor estava parado bem na frente dele? Oras... Desculpe-me! – ela não sabia bem o que dizer, tendo sido pega de surpresa pela reação exagerada do homem, que olhava para ela em desespero, com as duas mãos na cabeça, como se o mundo fosse acabar.

- Ah, olha só o que a senhora fez! – exclamou o segurança em tom choroso.

Ela levantou os braços, como se tivesse sido pega em flagrante.

- O que foi que eu fiz? – perguntou.

O segurança demonstrou a catraca com as duas mãos espalmadas para cima, como se estivesse apresentando um espetáculo:

- Quebrou a catraca! Ai! E agora?

- Quebrei a catraca? – ela estava atônita – Quebrei a catraca?

- A senhora girou para o lado errado! Quebrou. Foi isso. Quebrou! – e falando ao rádio comunicador – Atenção, por favor, segurança. Segurança! Na escuta?

O rádio fez um chiado e alguém respondeu do outro lado.

- QAP, positivo operante. Qual é o problema?

- Uma moça quebrou a catraca do banheiro.

- QSL, já estamos mandando alguém averiguar.


Paula mal podia acreditar no que ouvia. Deu um risinho, achando um absurdo em tudo aquilo e fez menção de sair. Foi impedida pelo segurança, que, saindo do cercadinho, avisou, em tom ameaçador.

- A senhora não vai a lugar nenhum. Depredação de patrimônio privado é crime.

A moça ia explodir em uma gargalhada, mas conteve-se.

- Como é que é? Depredação de patrimônio? Onde foi que o senhor viu isso? – disse ela, ofegante no esforço máximo de segurar o riso.

O segurança suspirou, olhou para cima, como se pedisse forças aos céus e apontou para os números do mostrador que indicava quantas vezes a catraca havia sido girada.

- Olhe! Olhe o que a senhora fez. Os números não mexem mais! – ele estava nervoso.

- Ah não, que grande besteira! Deixe-me ver – disse ela, agarrando uma das hastes de metal e fazendo menção de girá-la. Foi impedida pelo segurança, que gritou:

- Não! Não faça nada! – e rapidamente, para o rádio – Por favor, preciso de reforços. Urgente!

Paula protestou:

- Isso já está passando dos limites! Deixe-me ir. Que conversa mais estranha! O senhor está agindo como se eu fosse alguém perigoso! Preciso ir! – tentava empurrar o homenzinho, que se colocava à frente dela, impedindo a fuga ao mesmo tempo em que continuava a pedir reforços pelo rádio.

Fosse porque o homem, apesar de mais baixo, era mais forte, fosse devido à pequena multidão que se juntara ao redor da cena, em dado momento, Paula desistiu de lutar. Ofegante, perguntou:

- Está bem! Desisto! O que podemos fazer para resolver esta situação?

O homem, aprumando-se em seu uniforme, se preparava para responder, quando o rádio chiou novamente:

- Atenção. Águia no QAP?

Mais do que depressa, o homem puxou o rádio, olhou para a moça desafiadoramente e apertando o botãozinho lateral, respondeu:

- QAP. Águia falando.

“Águia?" , Paula pensou, "Águia??”

- A meliante ainda se encontra no estabelecimento?

- Positivo, chefia. Está nervosa. Está quebrando tudo.

- QSL. Viatura em QTI.

- QSL. QRT. Câmbio.

Paula começava a perder a paciência:

- Como é que é? Eu, meliante? Quebrando tudo? – fez menção de agarrar o rádio, no que foi prontamente impedida pelo homem, que desviou, driblou e dançou, enquanto comunicava a periculosidade da senhora a seu superior, a “chefia”...

Paula, cansada, deu-se por vencida. Olhando ao redor, percebeu que o número de observadores havia aumentado e todos comentavam a cena. Resolveu ficar quieta e apoiou-se no cercadinho de metal. O segurança foi impedi-la, acreditando-se tratar de mais uma “depredação”.

- Tô quieta, agora! – disse, levantando as mãos em sinal de rendição. Espumaria de raiva se não fosse uma certa comicidade dos acontecimentos e a vergonha que começara a sentir, vendo-se analisada e julgada por dezenas de olhos desconhecidos.

O segurança somente apontou o indicador e o dedo médio para os próprios olhos e depois para ela, como se dissesse: “estou observando você”.

- E agora? – ela perguntou – O que vai acontecer?

- Agora vamos esperar a chefia decidir.

Paula suspirou. Tudo por um xixi de cinqüenta centavos e uma simples informação! Enquanto esperava, ela se recriminava por ter saído de casa de manhã, por ter resolvido ir fazer compras em um bairro tão afastado de sua casa, só para economizar um pouco mais. Jurou : “ De agora em diante, xixi, só no Iguatemi!” E se resignou.

- Vai demorar? Tô com pressa.

- A chefia é ocupada. A senhora vai ter que esperar.

Ao cabo de quinze minutos que pareceram imensamente mais longos para Paula, as pessoas começaram a se dispersar. A chefia ainda não havia dado sinal de vida. O rádio também não chiara. E tudo voltara ao normal.

Paula pensou consigo mesma que se quisesse sair dali, precisaria ser esperta. Pensou, imaginou, elocubrou... Em poucos minutos achou-se de posse do que ela acreditou ser “o plano perfeito” de fuga na cabeça. Treinou algumas vezes na imaginação. E resolveu colocá-lo em prática.

- Senhor segurança, preciso ir ao banheiro.

- A senhora não tente me enganar!

- É verdade! Toda essa confusão... Me deu vontade!

- Está bem. Mas ai da senhora se fugir, hein?

- Fugir? Por onde? Só se fosse voando pela janela, né?

- Há! – exclamou o segurança – Conheço gente como a senhora!

- De que tipo, que voa? – Paula suspirou.

- A senhora quer ou não quer ir ao banheiro?

- Quero.

- São cinqüenta centavos.

- Eu sei. Tome.

Paula entrou no banheiro. Agarrou a nécessaire correndo, vasculhou, vasculhou e acabou jogando todo o conteúdo na pia, achando por fim o que procurava. Agarrando o tubo de pasta de dentes, elevou o objeto acima da cabeça, como se levantasse um troféu e bradou:

- Vencerei!

Alguns minutos depois, saía, com os olhos vermelhos, em prantos.

- Senhor segurança, eu realmente preciso ir!

O homem olhava para a moça com desconfiança.

- Senhor, é verdade. Enquanto estava lá dentro, recebi uma ligação. Minha avó teve um derrame, está no hospital. Minha família está desesperada, preciso ir! Por favor, deixe-me ir!

O segurança estava impassível. Paula bradava:

- Pelo amor de Deus, deixe-me ir! Minha avozinha está morrendo no hospital. Talvez eu nem chegue a tempo!

Paula gritava e chorava, uivava, clamando iminente a morte da avozinha querida. Com a gritaria, algumas pessoas voltaram a se agrupar. Comentavam entre si:

- O que aconteceu?


- Parece que morreu gente lá dentro.


- Nossa! Alguém teve um derrame!

A roda de curiosos aumentava.

- Morreu uma senhora!


- Nossa senhora!


- Um médico! Precisamos de um médico!

Em poucos minutos, a balbúrdia havia se estabelecido novamente. Pessoas gritavam por um médico, que logo se apresentou, na figura de um senhor tatuado e com a barba por fazer, vestindo uma regata suja de molho de tomate na barriga, que disse:

- Sou médico.

- Dêem passagem, o homem é médico!

- O médico está aqui! Saiam da frente!


O pobre segurança tentou barrar a entrada do suposto médico. Este, ofendido, bradava estar sendo impedido de exercer a profissão. Havia uma pessoa morrendo lá dentro! O segurança, que já era baixinho, foi ficando cada vez menor diante do número de pessoas que se aglomerou ao redor do cercadinho. Alguém teve a idéia de remover as barras de metal. Logo havia gente tentando arrancá-las da parede. Todos gritavam. Finalmente, catraca, cercadinho e segurança voaram pelos ares, a porta foi arrombada e a pequena multidão invadiu o banheiro.

No meio da confusão, ninguém notou Paula, que se esgueirou pelas pessoas, escondendo o rosto. Parou o primeiro curioso mais afastado, perguntou pelas escadas e em tempo recorde conseguiu sair do prédio, jurando nunca mais voltar.

Na mesma noite, Paula visitou a avó, levando flores e uma caixa de doces.

- Vovó. obrigada por existir! A senhora é a inspiração da minha vida!