terça-feira, 15 de abril de 2008

Porque os casamentos não duram

- Você vem?
- Agora não dá. Vai você. Boa noite.
- Assim? Tá fazendo o quê?
- Lendo. Vai lá. Dorme com os anjos.
Muxoxo. Ele está visivelmente desagradado. Dá uma volta pela sala, arruma os jornais no cesto, endireita as chaves e o documento do carro em cima da carteira. Suspira. Tenta mais uma vez.
- Mô?
- Hm?
- Vem dormir, vai.
- Num dá. Não vou conseguir largar esse livro tão cedo.
- Interessante, é? – diz ele em tom de dúvida.
- Demais!
- Ahn... tá bom – conforma-se - Boa noite...
Ele se aproxima e lhe dá um beijo. Ela corresponde. Ele a beija com um pouco mais de lascívia, tentando visivelmente fazê-la mudar de idéia e trocar as fibras de celulose recicladas por outras, de algodão. Ou melhor, pela ausência delas todas.
- Pára! – ela ri – Você não ia dormir?
- Ia, mas perdi o sono.
- Ué... Por que será? – ela brinca.
- Vem cá, deixa esse livro aí, vai.
- Não, benhê... Faz quase um mês que estou tentando ler esse aqui... Vai lá, amorzinho, vai descansar.
-Ah, se faz um mês, pode ser um mês e um dia, não?
- Não - ela ri - Não pode não... Não agüento mais de curiosidade!
- Você está me dispensando. – diz ele, afastando-se dela e franzindo a testa – De novo.
Ela abaixa o livro e olha para ele, surpresa.

- Eu? Desde quando?
- Desde sempre! – e, ao ver a expressão dela, explica – Faz algumas semanas que a gente...

O olhar dele é muito esclarecedor.

- Ah, não. Você não está falando sério, está?
- Estou, oras! Você está sempre correndo e nunca tem tempo para nós. Um dia é a academia, no outro é o regime, no outro está dolorida porque... – ele afina a voz para imitá-la – “a mulher da drenagem é uma doida, olha quanto roxo! Não ponha a mão em mim, estou um hematoma só!”
De estupefata, diante da inominável superficialidade com a qual o marido trata as necessidades femininas mais caras, ela passa à indignação.

- Semanas? – ela põe o livro na mesinha de centro – Semanas? – repete a pergunta aumentando levemente o tom de voz.

A fúria dela está sendo contida apenas pelos ponteiros do relógio. Afinal, já passa das onze. Ela mal pode acreditar na audácia aritmética dele:

- Nas minhas contas são cinco dias! - ela o corrige.
- É, mas você não está contando o fim de semana.

Um mero descuido numérico dele, conjugado à falta de percepção da mudança meteorológica do ambiente causada por um argumento que ela julgará desonesto. O resultado é o cataclismo matrimonial. Afinal, não foram nem cinco e nem sete. Nas contas dela, pensando melhor agora, foram seis E MEIO.

Pode-se perceber que a contenção social dela começa a rachar. O dilúvio verborrágico é iminente:

- Mesmo assim! Então são sete! Ou melhor, seis e meio! Ou sexta foi tão ruim que você já esqueceu? – ela está nervosa.
- Não! Mas foi... bem... muito rápido, né?
-Hã! – um exaurir rápido e preciso, indignado, em timbre elevado. Ela abre a boca, arregala os olhos e põe as mãos na cintura, aumentando a dramaticidade da cena.

Um raio estala no teto do apartamento. Salve-se quem puder!

- Culpe a declaração do seu imposto de renda por isso! Eu estava disponível. Aliás, disponibilíssima!

Agora o olhar dela é de desafio. O relógio acusa a hora de fazer silêncio, em respeito aos vizinhos. Ela levanta, enfurecida. Larga o livro na poltrona.

- Droga! – faz menção de sair.
- Aonde você vai? – pergunta ele.
- Vou dormir, não era isso que você queria?
- Ah, então vamos!- diz ele, satisfeito.
- Vamos? Onde vamos?
Ele não entende. Fica parado, dezenas de pontos de interrogação nadando no olhar.

- Vamos nada, cara pálida! Você dorme aqui, no sofá. Vamos é fazer a sua conta dar certo! – diz ela, irônica.
- Conta? Que conta? – ele está visivelmente confuso, mas sente um frio no estômago quando pensa que pode ter se colocado em uma enrascada.
- A das semanas. – ela profere as últimas palavras com o ar de superioridade de quem tem um royal flush, depositando as cartas na mesa – Boa noite!

-Mas...
- Boa noite! – diz ela, girando nos calcanhares e seguindo em direção ao quarto. Porta um sorriso de triunfo que ele não vê.

Ele, estático, observa a esposa seguir pelo corredor, escuta a porta bater e o ruído da chave, trancando todos os seus desejos e inspirações românticas em um calabouço de... semanas... Espera alguns minutos e por fim percebe que ela não cederá. Olha ao redor. Há o sofá e algumas almofadas. E o livro, o maldito livro, que ele pega, tencionando atirar pela janela. Pára, pensa na estupidez que fará. Olha a capa. Nada de mais. O título remete a alguma baboseira lacrimosa feminina.
A chave vira de novo. Ela abre a porta. Vem, de lingerie, passos decididos, na direção dele.

Ele sorri. Ela mudou de idéia! Está perfumada, cabelos soltos... Linda! Ela estende a mão para ele. Ele segura a mão dela e está prestes a puxá-la para si, quando ela faz um movimento rápido e se solta.

- Dá o livro. – ela diz.

Ainda está brava. Ele juraria ver o ar menos denso ao redor da cabeça dela, as imagens retorcidas por causa da dissipação do calor. Ele engole em seco e estende o volume, que ela apanha sem nada dizer. De posse do livro, ela lhe dá as costas, apanha algo na mesinha de centro e sai em direção ao quarto.
- Boa noite... – ele praticamente sussurra.
- Ahã. – responde ela, antes de fechar a porta e trancá-la novamente.

Ele suspira. Senta-se no sofá, ajeita as almofadas e procura o controle remoto. “Pelo menos a TV...” pensa ele.

Não. Quando se trata deste tipo de desentendimento, a punição deve ser completa. Ela surrupiou o controle. Ele está fadado a uma noite sem aconchegos, sem sono e sem TV, a não ser que queira se exercitar, levantando-se cada vez que quiser mudar o canal. Acordará com dores nas costas e gemerá disfarçadamente o dia todo, andando pelo escritório, até que algum colega venha brincar:

- A noite ontem foi boa, hein? - completam o comentário tapinhas de felicitação nas costas.

E ele responderá, forjando um sorriso de satisfação:
- Nem te conto! Nem tem conto!

domingo, 6 de abril de 2008

Missiva

Querido Antônio,

Escrevo-te, amedrontada, porque estas palavras talvez te atinjam os olhos e o coração tarde demais. Quisera eu ter o dom de vagar pelo passado! Talvez a saudade hoje não mais assomasse meus passos trôpegos de vergonha e cansados de vida. O tempo, sábio condutor das decisões mais relutantes, aparou-me as arestas. Sobra pouco de mim. Carrego, contudo, fardo pesado de lembranças e de "se eu tivesse...". Você, amado, é o maior deles.

Escrevo-te, pedindo perdão. Há muito deixei de duvidar que meus atos, antes ditos amorosos, foram em verdade egoístas. Não pensei em ti, contudo usei-te como desculpa para tudo o que fiz. Usei tua presença, teu sorriso, tuas necessidades e justifiquei-me, dizendo-me a mais pobre criatura.

Tu demandavas e eu, criatura de parcos princípios, deixei-te ao desamparo. Não te amei como devia. Não supri teus sentimentos e tuas necessidades. Não te dei minhas palavras doces e meus gestos carinhosos; enderecei-os a outros que não me amavam tanto quanto tu, mas que eu julgava serem mais importantes em minha vida, agora que já te embalado havia em meus braços. Não atinei com o fato de que tu podias, um dia, não ser mais meu. Pertencerias sempre a mim, ostentava eu, em minhas atitudes vis, grande certeza. Agora que tu te foste, sinto a dor mais pungente e mais amarga, relembrando-me a todo instante de tudo o que fiz.

Usei-te em meu próprio benefício, quando me foi necessário. Desfiz-me de tua presença, a princípio com ardis torpes e mais tarde sem cerimônia alguma, para borboletear entre as estrelas dos nobres salões da sociedade, tingindo de purpurina minhas asas de mariposa. Tu requisitavas minha presença no lar e quanto mais o fazias, mais me afastava de ti, julgando teu clamor inoportuno e sem razão. Por fim, quando já não me foi mais possível esconder do mundo que tu me causavas tédio com teus risinhos e tuas brincadeiras pueris, contratei aquela que ficou em meu lugar. Tu não o sabias, mas era eu quem pagava os serviços daquela que supria tua carência de modo muito aquém do desejado.

Minha alma sofre o efeito dos desatinos das épocas passadas. Anseio por teu perdão, agora que já não mais posso tê-lo perto de mim. Anseio por somente um daqueles muitos sorrisos que perdi. Anseio por minha paz, sim, é verdade! Porém vago por canteiros de insanidade quando entendo que sou aquela que te privou de tua paz. Pudera eu devolver-te tua vida ou ainda voltar e refazer todos os momentos que, destituídos de carinho e confiança, turvaram-te a vista, a ponto de fazer-te perder o Norte de tua existência e da tua idoneidade.

Perdoa-me, Antônio, por ter negado meu amor, meu carinho, minhas palavras de consolo e de compreensão, quando delas necessitaste. Perdoa-me por não ter compartilhado contigo valores mais belos e elevados do que aqueles que tu presenciaste em minhas atitudes. Perdoa-me por não estar eu mesma no cativeiro que a Justiça terrena te colocou por teus atos insanos e violentos. Certa estou, porém: a Justiça Divina far-me-á sempre atenta de que sou a maior responsável por tua falta de piedade para com teus iguais e de compreensão do valor da vida humana.

Tua atitude, impensada, traduzindo tanto ódio e rancor por mais um qualquer que se deitou comigo, difamando nosso lar, te levou ao cárcere físico. Juro-te, Antônio, amado – amado para sempre! - que minha alma definhará no cárcere eterno do inferno de saber que não fui digna do teu amor.


Tua mãe, que muito sofre,

Rosa.