Querido Antônio,
Escrevo-te, amedrontada, porque estas palavras talvez te atinjam os olhos e o coração tarde demais. Quisera eu ter o dom de vagar pelo passado! Talvez a saudade hoje não mais assomasse meus passos trôpegos de vergonha e cansados de vida. O tempo, sábio condutor das decisões mais relutantes, aparou-me as arestas. Sobra pouco de mim. Carrego, contudo, fardo pesado de lembranças e de "se eu tivesse...". Você, amado, é o maior deles.
Escrevo-te, pedindo perdão. Há muito deixei de duvidar que meus atos, antes ditos amorosos, foram em verdade egoístas. Não pensei em ti, contudo usei-te como desculpa para tudo o que fiz. Usei tua presença, teu sorriso, tuas necessidades e justifiquei-me, dizendo-me a mais pobre criatura.
Tu demandavas e eu, criatura de parcos princípios, deixei-te ao desamparo. Não te amei como devia. Não supri teus sentimentos e tuas necessidades. Não te dei minhas palavras doces e meus gestos carinhosos; enderecei-os a outros que não me amavam tanto quanto tu, mas que eu julgava serem mais importantes em minha vida, agora que já te embalado havia em meus braços. Não atinei com o fato de que tu podias, um dia, não ser mais meu. Pertencerias sempre a mim, ostentava eu, em minhas atitudes vis, grande certeza. Agora que tu te foste, sinto a dor mais pungente e mais amarga, relembrando-me a todo instante de tudo o que fiz.
Usei-te em meu próprio benefício, quando me foi necessário. Desfiz-me de tua presença, a princípio com ardis torpes e mais tarde sem cerimônia alguma, para borboletear entre as estrelas dos nobres salões da sociedade, tingindo de purpurina minhas asas de mariposa. Tu requisitavas minha presença no lar e quanto mais o fazias, mais me afastava de ti, julgando teu clamor inoportuno e sem razão. Por fim, quando já não me foi mais possível esconder do mundo que tu me causavas tédio com teus risinhos e tuas brincadeiras pueris, contratei aquela que ficou em meu lugar. Tu não o sabias, mas era eu quem pagava os serviços daquela que supria tua carência de modo muito aquém do desejado.
Minha alma sofre o efeito dos desatinos das épocas passadas. Anseio por teu perdão, agora que já não mais posso tê-lo perto de mim. Anseio por somente um daqueles muitos sorrisos que perdi. Anseio por minha paz, sim, é verdade! Porém vago por canteiros de insanidade quando entendo que sou aquela que te privou de tua paz. Pudera eu devolver-te tua vida ou ainda voltar e refazer todos os momentos que, destituídos de carinho e confiança, turvaram-te a vista, a ponto de fazer-te perder o Norte de tua existência e da tua idoneidade.
Perdoa-me, Antônio, por ter negado meu amor, meu carinho, minhas palavras de consolo e de compreensão, quando delas necessitaste. Perdoa-me por não ter compartilhado contigo valores mais belos e elevados do que aqueles que tu presenciaste em minhas atitudes. Perdoa-me por não estar eu mesma no cativeiro que a Justiça terrena te colocou por teus atos insanos e violentos. Certa estou, porém: a Justiça Divina far-me-á sempre atenta de que sou a maior responsável por tua falta de piedade para com teus iguais e de compreensão do valor da vida humana.
Tua atitude, impensada, traduzindo tanto ódio e rancor por mais um qualquer que se deitou comigo, difamando nosso lar, te levou ao cárcere físico. Juro-te, Antônio, amado – amado para sempre! - que minha alma definhará no cárcere eterno do inferno de saber que não fui digna do teu amor.
Tua mãe, que muito sofre,
Rosa.
1 comentários:
Caramba, Rachel, esse doeu! Já li o post 3 vezes, e em cada uma delas surge um sentimento diferente. Parabéns! Expusestes os maiores temores que eu tenho no coração em razão de filhos, e o orgulho que eu tenho de meus pais, que longe, ainda inspiram saudades, e fazem pensar o quanto é bom tê-los tido. Ao ver o que "aconteceu" com Antônio vejo o quanto sou feliz na vida.
Um beijo, e obrigado pelo sorriso de hoje.
O Balconista.
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