- Você vem?
- Agora não dá. Vai você. Boa noite.
- Assim? Tá fazendo o quê?
- Lendo. Vai lá. Dorme com os anjos.
Muxoxo. Ele está visivelmente desagradado. Dá uma volta pela sala, arruma os jornais no cesto, endireita as chaves e o documento do carro em cima da carteira. Suspira. Tenta mais uma vez.
- Mô?
- Hm?
- Vem dormir, vai.
- Num dá. Não vou conseguir largar esse livro tão cedo.
- Interessante, é? – diz ele em tom de dúvida.
- Demais!
- Ahn... tá bom – conforma-se - Boa noite...
Ele se aproxima e lhe dá um beijo. Ela corresponde. Ele a beija com um pouco mais de lascívia, tentando visivelmente fazê-la mudar de idéia e trocar as fibras de celulose recicladas por outras, de algodão. Ou melhor, pela ausência delas todas.
- Pára! – ela ri – Você não ia dormir?
- Ia, mas perdi o sono.
- Ué... Por que será? – ela brinca.
- Vem cá, deixa esse livro aí, vai.
- Não, benhê... Faz quase um mês que estou tentando ler esse aqui... Vai lá, amorzinho, vai descansar.
-Ah, se faz um mês, pode ser um mês e um dia, não?
- Não - ela ri - Não pode não... Não agüento mais de curiosidade!
- Você está me dispensando. – diz ele, afastando-se dela e franzindo a testa – De novo.
Ela abaixa o livro e olha para ele, surpresa.
- Eu? Desde quando?
- Desde sempre! – e, ao ver a expressão dela, explica – Faz algumas semanas que a gente...
O olhar dele é muito esclarecedor.
- Ah, não. Você não está falando sério, está?
- Estou, oras! Você está sempre correndo e nunca tem tempo para nós. Um dia é a academia, no outro é o regime, no outro está dolorida porque... – ele afina a voz para imitá-la – “a mulher da drenagem é uma doida, olha quanto roxo! Não ponha a mão em mim, estou um hematoma só!”
De estupefata, diante da inominável superficialidade com a qual o marido trata as necessidades femininas mais caras, ela passa à indignação.
- Semanas? – ela põe o livro na mesinha de centro – Semanas? – repete a pergunta aumentando levemente o tom de voz.
A fúria dela está sendo contida apenas pelos ponteiros do relógio. Afinal, já passa das onze. Ela mal pode acreditar na audácia aritmética dele:
- Nas minhas contas são cinco dias! - ela o corrige.
- É, mas você não está contando o fim de semana.
Um mero descuido numérico dele, conjugado à falta de percepção da mudança meteorológica do ambiente causada por um argumento que ela julgará desonesto. O resultado é o cataclismo matrimonial. Afinal, não foram nem cinco e nem sete. Nas contas dela, foram seis E MEIO.
Pode-se perceber que a contenção social dela começa a rachar. O dilúvio verborrágico é iminente:
- Mesmo assim! Então são sete! Ou melhor, seis e meio! Ou sexta foi tão ruim que você já esqueceu? – ela está nervosa.
- Não! Mas foi... bem... muito rápido, né?
-Hã! – um exaurir rápido e preciso, indignado, em timbre elevado. Ela abre a boca, arregala os olhos e põe as mãos na cintura, aumentando a dramaticidade da cena.
Um raio estala no teto do apartamento. Salve-se quem puder!
- Culpe a declaração do seu imposto de renda por isso! Eu estava disponível. Aliás, disponibilíssima!
Agora o olhar dela é de desafio. O relógio acusa a hora de fazer silêncio, em respeito aos vizinhos. Ela levanta, enfurecida. Larga o livro na poltrona.
- Droga! – faz menção de sair.
- Aonde você vai? – pergunta ele.
- Vou dormir, não era isso que você queria?
- Ah, então vamos!- diz ele, satisfeito.
- Vamos? Onde vamos?
Ele não entende. Fica parado, dezenas de pontos de interrogação nadando no olhar.
- Vamos nada, cara pálida! Você dorme aqui, no sofá. Vamos é fazer a sua conta dar certo! – diz ela, irônica.
- Conta? Que conta? – ele está visivelmente confuso, mas sente um frio no estômago quando pensa que pode ter se colocado em uma enrascada.
- A das semanas. – ela profere as últimas palavras com o ar de superioridade de quem tem um royal flush, depositando as cartas na mesa – Boa noite!
-Mas...
- Boa noite! – diz ela, girando nos calcanhares e seguindo em direção ao quarto. Porta um sorriso de triunfo que ele não vê.
Ele, estático, observa a esposa seguir pelo corredor, escuta a porta bater e o ruído da chave, trancando todos os seus desejos e inspirações românticas em um calabouço de... semanas... Espera alguns minutos e por fim percebe que ela não cederá. Olha ao redor. Há o sofá e algumas almofadas. E o livro, o maldito livro, que ele pega, tencionando atirar janela fora. Pára, pensa na estupidez que fará. Olha a capa. Nada de mais. O título remete a alguma baboseira lacrimosa feminina.
A chave vira de novo. Ela abre a porta. Vem, de lingerie, passos decididos, na direção dele.
Ele sorri. Ela mudou de idéia! Está perfumada, cabelos soltos... Linda! Ela estende a mão para ele. Ele segura a mão dela e está prestes a puxá-la para si, quando ela faz um movimento rápido e se solta.
- Dá o livro. – ela diz.
Ainda está brava. Ele juraria ver o ar menos denso ao redor da cabeça dela, as imagens retorcidas por causa da dissipação do calor. Ele engole em seco e estende o volume, que ela apanha sem nada dizer. De posse do livro, ela lhe dá as costas, apanha algo na mesinha de centro e sai em direção ao quarto.
- Boa noite... – ele praticamente sussurra.
- Ahã. – responde ela, antes de fechar a porta e trancá-la novamente.
Ele suspira. Senta-se no sofá, ajeita as almofadas e procura o controle remoto. “Pelo menos a TV...” pensa ele.
Não. Quando se trata deste tipo de desentendimento, a punição deve ser completa. Ela surrupiou o controle. Ele está fadado a uma noite sem aconchegos, sem sono e sem TV, a não ser que queira se exercitar, levantando-se cada vez que quiser mudar o canal. Acordará com dores nas costas e gemerá disfarçadamente o dia todo, andando pelo escritório, até que algum colega venha brincar:
- A noite ontem foi boa, hein? - completam o comentário tapinhas de felicitação nas costas.
E ele responderá, forjando um sorriso de satisfação:
- Nem te conto! Nem tem conto!
4 comentários:
Um dos meus maiores medos, Rach, é protagonizar uma cena dessa qualquer dia desses...rs
Ótimo texto, um beijo!
rach, feliz aniversário atrasado!!! bjos empata
huahuahauhua
pior é que é isso mesmo - no dia seguinte vem aqueles comentários de "aê, hein? mandou todas ontem!" ou, como ja ouvi, "empinou a biciletinha?"
o.O
hahahahahah
Gostei do blog, parabéns!
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