sexta-feira, 2 de maio de 2008

Conjecturas

Ela firma o polegar na pálpebra inferior para retocar o delineador. Não se conforma. Eu escuto e tento ajudá-la a responder o rol de perguntas que ela me infringe todas as sextas-feiras. Para ser bem honesta, não presto muita atenção no que respondo. A aflição que me causa ver o lápis delineador roçando a córnea parece impedir meu raciocínio.

- Por que ele olhou então?
- Porque você está muito bonita hoje.
- Ah, mas se foi isso, então por que ele não olhou logo quando eu cheguei?
- Por que talvez ele não tenha visto você chegar, oras!
- Hm... talvez. Mas não acho que seja isso. Será que ele quis se fazer de desinteressado?
- Não.. acho que não... sinceramente? Acho que ele não viu você mesmo.
- Então por que ele falou aquilo?
- Aquilo o quê?
- Que eu me escondo.
- Ah, veja só como tenho razão! Deve ser porque não viu você chegar mesmo.
- Duvido! Acho que ele quis mesmo foi me provocar.
- Provocar? Por que ele faria isso?
- Não sei... – ela pára com o dedo segurando a pálpebra e aponta o lápis para mim. Enquanto fala, vai desenhando suas conjecturas no ar - Por que ele segurou minha mão? E por que não segurou depois, quando eu quis? Por que andou do meu lado como se quisesse conversa? E por que desdenhou minha companhia e foi tomar café com os amigos quando saímos da sala de aula?
- Ai, meu Deus! Quantas perguntas! Você quer me deixar louca?
- Não ria do meu sofrimento.
- Sofrimento? – estou agoniada com tantas perguntas.
- Sim, você não vê que sofro? A expert em ciências aqui é você. Ajude-me a resolver essa equação!
- Equação? Que equação?
- Desta situação inusitada e frenética na qual me encontro!
- Não estou entendendo!
- Como não está entendendo? Ele não me quer!
- Quem disse isso?
- Está visível agora, não está?

Meu silêncio a deixa consternada. Não sei o que dizer. Sei que ele a quer. É visível e aferível. E o desenrolar dos fatos se mostra dolorosamente previsível. Porque eu o quero. Mais do que ela, que o descartará em algumas semanas, como faz com todos os que acabam sendo enredados por seus cabelos lisos, loiros e longos.

Eu o quero para sempre. Mas meus cabelos são cacheados e ficam eriçados em dias de chuva. Ainda assim, ouso querê-lo para sempre. Ou pelo menos, para o todo-sempre no qual um amor pode persistir. Devo dizer algo, ela me olha com o olhar delineado e desconfiado.

- Olha, vamos lá para fora, você está perdendo tempo. Temos somente alguns minutos antes do término do intervalo – digo, finalmente, sem muita convicção.

Ela joga o delineador caríssimo na bolsa obscenamente cara também. Arruma os seios perfeitos e volumosos devido ao recente implante, joga os cabelos para baixo e depois para cima com um movimento rápido da cabeça. Por alguns segundos, eles parecem flutuar no ar, brilhando como se fossem feitos do mesmo material das asas das fadas, que, quando voam, espargem aquele pó dourado; depois caem , escorregando pelos ombros torneados dela. Devo admitir, ela é linda. Dói-me perceber que sou apenas sombra. Dói-me ainda mais entender que até as mariposas preferem a luz.

São já semanas de angústia, assistindo o jogo que ela promove, bailando graciosamente, indo por vezes ao encontro dele e, por outras, repelindo qualquer aproximação. Ela me diz que é assim que se faz. Eu, porém, penso que seria mais fácil sentar-se à mesa e tomar um café, discutindo as idiossincrasias da sociedade. Mas quem se importa com o que eu penso?

Saímos do banheiro. Ela na frente. Ele está parado, conversando animadamente, em meio a alguns colegas. Seus olhos brilham, ele se despede do grupo e vem ao nosso encontro. Sei que hoje será o dia que me sentirei em pedaços. Em poucos minutos, ele a convidará para sair. Hoje é o último dia de aula antes das férias de julho. Não há mais tempo a perder. Nos poucos passos que o separam de nós duas, uma eternidade, sinto o choro preso inchando a garganta e fazendo arder meus olhos. Como no desenho animado, percebo o coração estilhaçando, os caquinhos suspensos apenas pela iminência da vergonha. Não posso e não devo fazer qualquer ruído. Qualquer um sabe que cacos de coração caindo no chão em meio aos colegas da faculdade fazem muito barulho. Praticamente um estrondo! Melhor mesmo será deixá-los cair no silêncio do meu quarto. Despencando no colchão, ainda úmidos das lágrimas, ninguém os ouvirá.

Ela abre um sorriso, que mais se assemelha a um colar de qualquer gema mais branca que a pérola. E mais reluzente. Simplesmente perfeito. Quando ela sorri, duas covinhas se formam no rosto cuidadosamente bronzeado no salão de estética. Simplesmente perfeito.

Ele está a dois passos de nós. Olho para o chão, para que não me vejam chorar de tristeza. Afinal, hoje será o dia deles. O dia em que o mundo celebrará o mais novo casal enamorado do orbe. Serei somente uma boba apaixonada vertendo lágrimas de rejeição. Não, eles não podem me ver assim. Abro minha bolsa barata, procurando algo. Cicuta, talvez? Encontro o maço de cigarros. Havia prometido parar, mas a resolução esmaece rapidamente. Procuro pelo isqueiro, enquanto ele, já próximo, nos saúda alegremente. Tremo in-sa-na-men-te agora. Onde está o isqueiro???

Ele pede para falar com ela a sós. Pergunta se me importo, eu aceno que não com a cabeça e digo “vai lá!” com o descaso projetado para essas horas. Afinal, sendo a melhor amiga dela desde o cursinho, esta é a melhor saída. Não cursar disciplinas juntas também seria uma estratégia, se fizéssemos a mesma graduação. Graças aos intelectos diametralmente opostos, havíamos entrado em cursos diferentes. Porém, essa disciplina havia se mostrado muito tentadora, ainda que fosse extra-curricular... Ele havia tido a mesma idéia. E apesar de nunca nos termos visto em alguma aula de Cálculo ou de Mecânica, eu o reconheci imediatamente quando veio falar com ela a primeira vez. Eu estava junto. Na sombra. Como sempre.

“Não é impressionante que você ainda não tenha se acostumado?”, pergunto a mim mesma. “Cadê essa porcaria de isqueiro? Preciso fumar, droga, se eu for pedir um fósforo na recepção eles verão meus olhos vermelhos! Mas eu tinha certeza que havia deixado um isqueiro aqui! “

Através das lágrimas que insistem em marejar minha visão, percebo os dois conversando perto do balcão. Não contentes em embaçar-me olhos, as lágrimas agora resolvem cair, inundando a face. Corro para o banheiro. Pego papel toalha e acabo borrando o delineador de marca genérica que uso às sextas-feiras, para esconder o tom cansado. Junto ao nariz nada envaidecedor que porto, agora inchado, os olhos constituem um conjunto verdadeiramente bizarro.

“Preciso me controlar!”, penso. “Que farei? Como sair dessa situação?”

Olho para as janelas do banheiro, mas elas são muito estreitas e estou acima do peso. Ela passaria pelas grades, silfidescamente, mas eu não. De que adiantaria? As janelas dão para o estacionamento, mas estamos no quinto andar. “Ótima saída!”, pondero. “Que besteira!”, percebo. Estou em frangalhos. Preciso fugir.

Porém, em um nanossegundo os eixos se invertem e o caos se instala. O universo busca a maior entropia sempre, não é o que dizem? Ela volta. Escancara a porta do banheiro e fuzila meu rosto molhado com os olhos injetados. Não entendo. Mas não há tempo para mais nenhuma conjectura. Ela dispara:

- Vai lá. Ele quer você. Sua traidora, você deu em cima dele sem me falar nada? Você sabe que estou apaixonada por ele e mesmo assim apunhala sua melhor amiga pelas costas?

Não consigo articular palavra. As lágrimas secam instantaneamente.

- Você e os seus emails. Eu já deveria saber! Nunca mais quero falar com você. Suma da minha frente e tomara que ele seja muito ruim de cama! Lista de discussão de Física Quântica, é? Nerds ridículos, todos vocês!

Ela tenta bater a porta, mas a mola a impede. Assisto enquanto ela se vai, cabelos esvoaçando. Ela é perfeita, mas ele prefere a mim. Tenho um acesso de riso. Olho no espelho. Até que não estou tão mal. Sim, vamos ao café e às idiossincrasias da sociedade. Algumas poucas vezes, parece-me, the pen, ou melhor, the keyboard is really mightier than the sword! Ou do silicone, como queira!

Imerso em colóide fétido

publicado na Revista Substrato - CEPEGE, IGc/USP (abril/08)


O teste

Você é mal-humorado? Que tal fazermos um teste? Responda as perguntas abaixo sem titubear. Considere seu estado inicial, nas CNTP (condições normais de temperatura e pressão):

Se XX, está de TPM.
Se XY, seu time perdeu ontem à noite e foi rebaixado para a segunda divisão.

1 – É dia de pagamento. Você está na fila do supermercado há trinta minutos. De repente, uma mulher logo à sua frente, cujas compras já estão sendo computadas, resolve sair da fila para buscar um último item que ela havia esquecido. A demora é exasperante, as pessoas atrás de você começam a reclamar. Quando a consumidora volta, ela grita com você, achando que você foi o causador da balbúrdia, agora generalizada. O que você faz?

A – responde à altura, com os mesmos xingamentos e provocações.
B – pragueja, torcendo para que a mulher fique careca e disforme dentro de um ano.
C – fica quieto, mas disfarçadamente fura o pacote de açúcar das compras dela para que vaze.
D – parte para a contenda física.
E – não dá muita importância para o fato.

2 – Você está muito cansado, pois passou o dia inteiro esperando em filas e mais filas de bancos. Está calor, você veste roupa social e agora a bateria do seu carro “arriou”. Seu celular está sem bateria e você não consegue encontrar um único orelhão por perto. Resolve voltar para casa de ônibus, para conseguir ajuda com o vizinho. O ônibus está lotado, mas você tem sorte e consegue um lugar, que ocupa rapidamente. No próximo ponto, um mocinho entra no ônibus. Ele carrega uma mochila nas costas, passa pela catraca e, na tentativa de se ajeitar nos únicos espaços disponíveis, acerta a bolsa na sua cabeça com força. O que você faz?

A – reclama, sacudindo o moço com força e exigindo que ele tire a mochila das costas.
B – arranca a mochila das costas dele e a atira pela janela.
C – promove o linchamento do moço no ônibus.
D - xinga o infeliz.
E – não dá muita importância para o fato.


3 – É época de Natal e você vai ao shopping center com sua mãe, a amiga e a avó desta, que é um “tantinho” senil. A fila do estacionamento é enorme e você até pensa em voltar outra hora, mas sua mãe é assertiva e você sabe que haverá discussão mais tarde, se não ficar. No entanto, a distinta senhora, avó da amiga da sua mãe, além de passar o trajeto inteiro criticando seu jeito de dirigir, agora resolveu discorrer sobre como você é lento para fazer algo tão simples quanto estacionar.

De repente, e já prestes a perder a paciência, você percebe uma família indo em direção a um carro. Consegue manobrar, colocar-se em posição estratégica para ocupar a vaga e estacionar. Liga o pisca-pisca, feliz. Porém, uma das crianças da família começa a chorar histericamente e a mãe delas resolve fazer um sermão ali mesmo. Você espera durante dez minutos, quando ela finalmente libera a vaga. Você engata a primeira marcha e, para seu completo desespero, outra mulher vem pela contramão e ocupa a vaga. A avó da amiga da sua mãe diz: “Viu? É um banana!”. O que vc faz?

A – acelera e colide de propósito com o carro da mulher.
B - bate na velhinha.
C – sai do carro para reclamar e exigir a vaga.
D – chama o segurança e faz um escarcéu, impedindo a mulher de seguir para suas compras.
E – não dá maior importância ao fato.

Para saber o resultado desse teste, compute os valores de cada item, segundo a tabela abaixo:

1
2
3
a
1000
1000
1000
b
500
500
500
c
100
100
100
d
50
50
50
e
0
0
0


Resultado do teste: Se você computou algum ponto, qualquer ponto que seja, eu não vou saber dizer se você é mal-humorado, mas posso afirmar categoricamente que você pertence à classe dos...

Mal-educados

Você pode não concordar com o resultado deste teste, afinal, não foi desenvolvido por um psicólogo ou estudioso da área do comportamento humano. Contudo, devo avisá-lo, caro leitor cujo resultado foi diferente de zero, que provavelmente as pessoas ao seu redor já lhe aplicaram alcunhas depreciativas, procuram esquivar-se da sua presença e, a todo o momento, lhe fornecem respostas prontas, talhadas antecipadamente, para evitarem maiores conflitos. Ninguém é real, sincero e honesto com você. Seus colegas de escritório combinam a cerveja escondido e saem de fininho, cada um pretextando algum compromisso inadiável na sexta-feira à noite. Mas a verdade “nua e crua”, caro leitor diferente de zero, é essa: ninguém gosta de gente mal-educada.

Nos últimos anos, a má-educação parece ter se alastrado e ocupado vilipendiosamente todos os nichos da sociedade. Antigamente, educação vinha “de berço”. Sabia-se onde colocar o guardanapo, com quais talheres comer, como agir perante a um “RSVP” (Répondez S'il Vous Plaît, ou, “responda, por favor”) no convite e quais as partes do colo e das pernas que deveriam ficar à mostra durante uma recepção de casamento. Respondia-se às provocações com “luvas de pelica”, tanto metaforicamente, quanto literalmente, em cujo caso, um tiro poderia selar o destino do destratante. Sim, havia a morte, fato deplorável. Mas não havia a palavra solta, o esgar de cinismo conjugado à ira, o tom de ameaça seguido de atos hoje corriqueiros, como: bater uma porta, gritar uma ofensa ou quebrar um objeto com raiva. Perder a cabeça em atitudes como essas era tido como algo tipicamente feminino. Muitos autores utilizaram este “atributo” para caracterizar a “cabecinha vazia” burguesa do final do século XIX, como a de madame Bovary, (de Gustav Flaubert) que, num acesso de raiva, por saber que seu amante não viria visitá-la, empurra sua filha, fazendo com que esta bata com a cabeça na cômoda e ponha-se a chorar.

É comum aceitarmos a má-educação quando oriunda das hierarquias mais altas – leiam-se chefes, professores e superiores em geral – pois, afinal, é o ganha-pão que se encontra em xeque. Sentimo-nos ameaçados, ficamos silenciosos, balançando a cabeça afirmativamente e concordando com tudo que a pessoa, mal-humorada e mal-educada, nos diz. Quem nunca se sentiu imerso em um colóide fétido após uma dessas explosões de raiva ou descontentamento de um superior? Os movimentos se tornam lentos e o digitar, suave, como se tudo estivesse coberto por uma gelatina pegajosa e ácida. Os músculos, retesados, evitam a troca gasosa com o ambiente, fazendo a respiração ser quase suspensa. Os cílios que revestem as narinas não conseguem oferecer resistência ao ar mais denso, tampouco o som consegue se propagar em ondas, ficando o ambiente em silêncio sepulcral. Tudo para que não haja outra combustão. Tudo para a que a paz não seja quebrada novamente.

É interessante notar que o causador do constrangimento sempre consegue emitir uma justificativa - o seu estandarte da auto-remissão - para justificar tal comportamento: “As vendas estão caindo”, “Estou me divorciando”, “Meu filho está doente”, e o impagável “Estou de TPM”. A tensão pré-menstrual, aliás, passou a ser justificativa para tudo, ganhando a simpatia da maior parte das mulheres da humanidade, inclusive, tendo sido usada para atenuar a pena de uma certa criminosa nos EUA.

Cena 1:

Mulher A: - Você viu isso? Ela estava de TPM, coitadinha, por isso esfaqueou, esquartejou, queimou e comeu os pedaços da vítima.
Mulher B: - Pobrezinha, não é à toa que ficou tão nervosa! TPM é fogo!
Mulher C: - É.... tadinha....

Cena 2:

Vendedor: - Parabéns, o senhor está adquirindo uma jóia belíssima! Assine aqui, esta promissória, penhorando sua alma.
Marido: - Por esse preço? Minha alma?? Querida, tem certeza?
Esposa: - Alfredo, olha aqui, hein? Estou de TPM, não me tenta, NÃO ME TENTA!!

Há ainda os indivíduos cujas mães se esmeraram na atividade de passar adiante os paradigmas comportamentais da sociedade à qual pertencem, sem, no entanto, encontrar respaldo na índole imaleável dos pequeninos. A estes convencionamos chamar “mal-aprendidos”. Na verdade, essa acepção é somente um deslocamento da origem do sistema ou uma boa-vontade maior ou menor do observador, como queira. Afinal, todo mal-educado é limitado, ou mal-aprendido.

Limitados seriam aqueles que, apesar de encontrarem os exemplos da boa educação na mídia, na escola, em seus pais ou superiores hierárquicos e em diversas pessoas com as quais interagem todos os dias, continuam a agir da mesma forma rude e impetuosa, não sendo capazes de dominar suas frustrações e desejos e colocá-los de maneira controlada ao seu interlocutor.

Mal-aprendido seria o indívíduo que apesar de conhecer os liames das atitudes que definem o comportamento aceito e desejado por seus pares, insiste em agir diferentemente, pois se acredita em condições e no direito de fazê-lo, seja por superioridade, seja por extrema condição de inferioridade.

No entanto, vale notar que algumas vezes a má-educação pode ser utilizada como um marcador social e cultural, incitando o indivíduo a agir de modo inconveniente para o meio em que se encontra, única e exclusivamente, para continuar sendo diferente, não absorver e não ser absorvido pela sociedade que o cerca. Nesse caso, o comportamento é permeado por uma falta de educação apenas aparente, sem, no entanto, corresponder àquela descrita acima.
É o caso dos migrantes nordestinos que, estando em São Paulo, montam suas barraquinhas no Largo da Batata e tocam música em volume bem alto, mexem com as mulheres que por ali passam e conversam entre si usando expressões que o paulistano não entenderá. Ou dos coreanos que dizem não entender o Português e nos deixam falando sozinhos, mas são absolutamente fluentes na língua quando querem negociar com o consumidor. Ou, ainda, os japoneses do bairro da Liberdade que caminham, de cabeça altiva, alguns passos à frente de suas esposas, enquanto estas carregam pacotes e permanecem obedientes.

Ao citar estes últimos, um episódio da minha pré-adolescência vem à baila, sendo propiciamente esclarecedor. Ao perceber a entrada de uma “senhorinha” japonesa abarrotada de sacolas e de seu marido, há muitos anos, em alguma estação do metrô da linha azul, cedi imediatamente o assento, que foi logo tomado pelo senhor oriental. Fiquei indignada e disse a ele que se levantasse, já que eu havia cedido meu lugar à senhora – a educação da minha cultura me impelia a isso – e não a ele, um homem – cuja cultura determinava essa atitude. Ele não se moveu. A senhorinha se encolheu. E eu desci na próxima estação, completamente enfurecida, mas sem dizer nada. Ambos estávamos corretos. Ambos fôramos bem-educados em relação ao outro. Estávamos apenas seguindo as orientações que nossas sociedades determinaram serem pertinentes.

Os traços culturais e a linguagem são o identificador do ser humano e do grupo ao qual ele pertence e é natural que muitas pessoas, perante o medo inconsciente de perderem sua identidade, resolvam agir de maneira considerada imprópria neste ou naquele lugar. Porém, proponho que realizemos agora uma outra identificação, independente de raça, cor e credo: a da boa educação. Digamos bom dia, boa tarde, boa noite, obrigado e por favor. Saibamos sorrir, “deixar pra lá”, não furemos filas e não carreguemos mochilas nas costas em ônibus lotados. Tentemos, por alguns instantes, imaginar como se sentiria aquele que conosco interage, quando resolvemos ser menos comedidos.

Ah! E, meninas, vão ao ginecologista, ao Padre Quevedo ou ao Papa, mas cuidem dessa TPM!



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Agradeço à Sueli Ramos pela revisão cuidadosa!