Ela firma o polegar na pálpebra inferior para retocar o delineador. Não se conforma. Eu escuto e tento ajudá-la a responder o rol de perguntas que ela me infringe todas as sextas-feiras. Para ser bem honesta, não presto muita atenção no que respondo. A aflição que me causa ver o lápis delineador roçando a córnea parece impedir meu raciocínio.
- Por que ele olhou então?
- Porque você está muito bonita hoje.
- Ah, mas se foi isso, então por que ele não olhou logo quando eu cheguei?
- Por que talvez ele não tenha visto você chegar, oras!
- Hm... talvez. Mas não acho que seja isso. Será que ele quis se fazer de desinteressado?
- Não.. acho que não... sinceramente? Acho que ele não viu você mesmo.
- Então por que ele falou aquilo?
- Aquilo o quê?
- Que eu me escondo.
- Ah, veja só como tenho razão! Deve ser porque não viu você chegar mesmo.
- Duvido! Acho que ele quis mesmo foi me provocar.
- Provocar? Por que ele faria isso?
- Não sei... – ela pára com o dedo segurando a pálpebra e aponta o lápis para mim. Enquanto fala, vai desenhando suas conjecturas no ar - Por que ele segurou minha mão? E por que não segurou depois, quando eu quis? Por que andou do meu lado como se quisesse conversa? E por que desdenhou minha companhia e foi tomar café com os amigos quando saímos da sala de aula?
- Ai, meu Deus! Quantas perguntas! Você quer me deixar louca?
- Não ria do meu sofrimento.
- Sofrimento? – estou agoniada com tantas perguntas.
- Sim, você não vê que sofro? A expert em ciências aqui é você. Ajude-me a resolver essa equação!
- Equação? Que equação?
- Desta situação inusitada e frenética na qual me encontro!
- Não estou entendendo!
- Como não está entendendo? Ele não me quer!
- Quem disse isso?
- Está visível agora, não está?
Meu silêncio a deixa consternada. Não sei o que dizer. Sei que ele a quer. É visível e aferível. E o desenrolar dos fatos se mostra dolorosamente previsível. Porque eu o quero. Mais do que ela, que o descartará em algumas semanas, como faz com todos os que acabam sendo enredados por seus cabelos lisos, loiros e longos.
Eu o quero para sempre. Mas meus cabelos são cacheados e ficam eriçados em dias de chuva. Ainda assim, ouso querê-lo para sempre. Ou pelo menos, para o todo-sempre no qual um amor pode persistir. Devo dizer algo, ela me olha com o olhar delineado e desconfiado.
- Olha, vamos lá para fora, você está perdendo tempo. Temos somente alguns minutos antes do término do intervalo – digo, finalmente, sem muita convicção.
Ela joga o delineador caríssimo na bolsa obscenamente cara também. Arruma os seios perfeitos e volumosos devido ao recente implante, joga os cabelos para baixo e depois para cima com um movimento rápido da cabeça. Por alguns segundos, eles parecem flutuar no ar, brilhando como se fossem feitos do mesmo material das asas das fadas, que, quando voam, espargem aquele pó dourado; depois caem , escorregando pelos ombros torneados dela. Devo admitir, ela é linda. Dói-me perceber que sou apenas sombra. Dói-me ainda mais entender que até as mariposas preferem a luz.
São já semanas de angústia, assistindo o jogo que ela promove, bailando graciosamente, indo por vezes ao encontro dele e, por outras, repelindo qualquer aproximação. Ela me diz que é assim que se faz. Eu, porém, penso que seria mais fácil sentar-se à mesa e tomar um café, discutindo as idiossincrasias da sociedade. Mas quem se importa com o que eu penso?
Saímos do banheiro. Ela na frente. Ele está parado, conversando animadamente, em meio a alguns colegas. Seus olhos brilham, ele se despede do grupo e vem ao nosso encontro. Sei que hoje será o dia que me sentirei em pedaços. Em poucos minutos, ele a convidará para sair. Hoje é o último dia de aula antes das férias de julho. Não há mais tempo a perder. Nos poucos passos que o separam de nós duas, uma eternidade, sinto o choro preso inchando a garganta e fazendo arder meus olhos. Como no desenho animado, percebo o coração estilhaçando, os caquinhos suspensos apenas pela iminência da vergonha. Não posso e não devo fazer qualquer ruído. Qualquer um sabe que cacos de coração caindo no chão em meio aos colegas da faculdade fazem muito barulho. Praticamente um estrondo! Melhor mesmo será deixá-los cair no silêncio do meu quarto. Despencando no colchão, ainda úmidos das lágrimas, ninguém os ouvirá.
Ela abre um sorriso, que mais se assemelha a um colar de qualquer gema mais branca que a pérola. E mais reluzente. Simplesmente perfeito. Quando ela sorri, duas covinhas se formam no rosto cuidadosamente bronzeado no salão de estética. Simplesmente perfeito.
Ele está a dois passos de nós. Olho para o chão, para que não me vejam chorar de tristeza. Afinal, hoje será o dia deles. O dia em que o mundo celebrará o mais novo casal enamorado do orbe. Serei somente uma boba apaixonada vertendo lágrimas de rejeição. Não, eles não podem me ver assim. Abro minha bolsa barata, procurando algo. Cicuta, talvez? Encontro o maço de cigarros. Havia prometido parar, mas a resolução esmaece rapidamente. Procuro pelo isqueiro, enquanto ele, já próximo, nos saúda alegremente. Tremo in-sa-na-men-te agora. Onde está o isqueiro???
Ele pede para falar com ela a sós. Pergunta se me importo, eu aceno que não com a cabeça e digo “vai lá!” com o descaso projetado para essas horas. Afinal, sendo a melhor amiga dela desde o cursinho, esta é a melhor saída. Não cursar disciplinas juntas também seria uma estratégia, se fizéssemos a mesma graduação. Graças aos intelectos diametralmente opostos, havíamos entrado em cursos diferentes. Porém, essa disciplina havia se mostrado muito tentadora, ainda que fosse extra-curricular... Ele havia tido a mesma idéia. E apesar de nunca nos termos visto em alguma aula de Cálculo ou de Mecânica, eu o reconheci imediatamente quando veio falar com ela a primeira vez. Eu estava junto. Na sombra. Como sempre.
“Não é impressionante que você ainda não tenha se acostumado?”, pergunto a mim mesma. “Cadê essa porcaria de isqueiro? Preciso fumar, droga, se eu for pedir um fósforo na recepção eles verão meus olhos vermelhos! Mas eu tinha certeza que havia deixado um isqueiro aqui! “
Através das lágrimas que insistem em marejar minha visão, percebo os dois conversando perto do balcão. Não contentes em embaçar-me olhos, as lágrimas agora resolvem cair, inundando a face. Corro para o banheiro. Pego papel toalha e acabo borrando o delineador de marca genérica que uso às sextas-feiras, para esconder o tom cansado. Junto ao nariz nada envaidecedor que porto, agora inchado, os olhos constituem um conjunto verdadeiramente bizarro.
“Preciso me controlar!”, penso. “Que farei? Como sair dessa situação?”
Olho para as janelas do banheiro, mas elas são muito estreitas e estou acima do peso. Ela passaria pelas grades, silfidescamente, mas eu não. De que adiantaria? As janelas dão para o estacionamento, mas estamos no quinto andar. “Ótima saída!”, pondero. “Que besteira!”, percebo. Estou em frangalhos. Preciso fugir.
Porém, em um nanossegundo os eixos se invertem e o caos se instala. O universo busca a maior entropia sempre, não é o que dizem? Ela volta. Escancara a porta do banheiro e fuzila meu rosto molhado com os olhos injetados. Não entendo. Mas não há tempo para mais nenhuma conjectura. Ela dispara:
- Vai lá. Ele quer você. Sua traidora, você deu em cima dele sem me falar nada? Você sabe que estou apaixonada por ele e mesmo assim apunhala sua melhor amiga pelas costas?
Não consigo articular palavra. As lágrimas secam instantaneamente.
- Você e os seus emails. Eu já deveria saber! Nunca mais quero falar com você. Suma da minha frente e tomara que ele seja muito ruim de cama! Lista de discussão de Física Quântica, é? Nerds ridículos, todos vocês!
Ela tenta bater a porta, mas a mola a impede. Assisto enquanto ela se vai, cabelos esvoaçando. Ela é perfeita, mas ele prefere a mim. Tenho um acesso de riso. Olho no espelho. Até que não estou tão mal. Sim, vamos ao café e às idiossincrasias da sociedade. Algumas poucas vezes, parece-me, the pen, ou melhor, the keyboard is really mightier than the sword! Ou do silicone, como queira!
5 comentários:
O mais legal é conseguir fazer as devidas associações com os momentos presentes.
Como sempre, amei o texto! =D
Beijo enorme!
hahahaha.... não.. dessa vez, a única associação é que eu também não tenho silicone! o resto é baseado no Big Bang Theory: Penny X Leslie ("The Hamburger Postulate").
Aff... isso daqui tá quase tão empoeirado quanto o meu blog. Credo. =P
Ai deus, como não li isso antes???
eu vou ter um treco, rach, um treco...
Malditos nerds...
hehehehehehehhee
Rachel,
Estive no CEPEGE, nas comemorações de seus 50 anos e lá ganhei um exemplar da revista Substrato e, neste, vi sua crônica, embora vc afirme que "ninguém está vendo".
Não sei se vc é geóloga, mas tenho um amigo que diz que todo geólogo é meio poeta. Vc faz poesia em prosa, adorei seu texto e daí vim parar, literalmente em seu blog.
Já o percorri quase todo e só posso dezer que é uma leitura prazerosa e muito profunda, mas escrita de forma leve, coloquial, muito legal de ler. Gosto muito da maneira como vc inicia seus textos, gerando um "suspense" que nos faz ir até o fim. Tipo Garcia Marques em 100 anos de solidão, ou crônica de uma morte anunciada.
Sou um geólogo brucutu, formado aí na usp, em 1975, embora tenha vindo das veredas e sertões do sudoeste baiano. Vi e vivi muita coisa nesses meus anos de exercício da geologia por esse brasilzão de meu Deus. Tipo um "geornalista", fui recolhendo causos, anotando frases, legendando fotos preto e branco e assim acumulei um material que me foi vital nos 75 dias de licença média que tive de passar após uma cirurgia em 2007. Daí pra eu passar meus alfarrábios para um blog foi um pulo. Qdo entrei no seu blog levei até um susto, pq tem o mesmo layout. Batizei de Marteladas literárias, um mix de causos verídicos, outros floreados, algumas poesia e etc. Como eu digo na apresentação, um porta retrato cibernético. Bom , não é propaganda pois nem divulgo meu blog, pouca pessoas o conhecem. Apenas achei muito parecido com o seu. É isso. Um abraço, Reginaldo (http://regineto.blogspot.com)
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