publicado na Revista Substrato - CEPEGE, IGc/USP (abril/08)
O teste
Você é mal-humorado? Que tal fazermos um teste? Responda as perguntas abaixo sem titubear. Considere seu estado inicial, nas CNTP (condições normais de temperatura e pressão):
Se XX, está de TPM.
Se XY, seu time perdeu ontem à noite e foi rebaixado para a segunda divisão.
1 – É dia de pagamento. Você está na fila do supermercado há trinta minutos. De repente, uma mulher logo à sua frente, cujas compras já estão sendo computadas, resolve sair da fila para buscar um último item que ela havia esquecido. A demora é exasperante, as pessoas atrás de você começam a reclamar. Quando a consumidora volta, ela grita com você, achando que você foi o causador da balbúrdia, agora generalizada. O que você faz?
A – responde à altura, com os mesmos xingamentos e provocações.
B – pragueja, torcendo para que a mulher fique careca e disforme dentro de um ano.
C – fica quieto, mas disfarçadamente fura o pacote de açúcar das compras dela para que vaze.
D – parte para a contenda física.
E – não dá muita importância para o fato.
2 – Você está muito cansado, pois passou o dia inteiro esperando em filas e mais filas de bancos. Está calor, você veste roupa social e agora a bateria do seu carro “arriou”. Seu celular está sem bateria e você não consegue encontrar um único orelhão por perto. Resolve voltar para casa de ônibus, para conseguir ajuda com o vizinho. O ônibus está lotado, mas você tem sorte e consegue um lugar, que ocupa rapidamente. No próximo ponto, um mocinho entra no ônibus. Ele carrega uma mochila nas costas, passa pela catraca e, na tentativa de se ajeitar nos únicos espaços disponíveis, acerta a bolsa na sua cabeça com força. O que você faz?
A – reclama, sacudindo o moço com força e exigindo que ele tire a mochila das costas.
B – arranca a mochila das costas dele e a atira pela janela.
C – promove o linchamento do moço no ônibus.
D - xinga o infeliz.
E – não dá muita importância para o fato.
3 – É época de Natal e você vai ao shopping center com sua mãe, a amiga e a avó desta, que é um “tantinho” senil. A fila do estacionamento é enorme e você até pensa em voltar outra hora, mas sua mãe é assertiva e você sabe que haverá discussão mais tarde, se não ficar. No entanto, a distinta senhora, avó da amiga da sua mãe, além de passar o trajeto inteiro criticando seu jeito de dirigir, agora resolveu discorrer sobre como você é lento para fazer algo tão simples quanto estacionar.
De repente, e já prestes a perder a paciência, você percebe uma família indo em direção a um carro. Consegue manobrar, colocar-se em posição estratégica para ocupar a vaga e estacionar. Liga o pisca-pisca, feliz. Porém, uma das crianças da família começa a chorar histericamente e a mãe delas resolve fazer um sermão ali mesmo. Você espera durante dez minutos, quando ela finalmente libera a vaga. Você engata a primeira marcha e, para seu completo desespero, outra mulher vem pela contramão e ocupa a vaga. A avó da amiga da sua mãe diz: “Viu? É um banana!”. O que vc faz?
A – acelera e colide de propósito com o carro da mulher.
B - bate na velhinha.
C – sai do carro para reclamar e exigir a vaga.
D – chama o segurança e faz um escarcéu, impedindo a mulher de seguir para suas compras.
E – não dá maior importância ao fato.
Para saber o resultado desse teste, compute os valores de cada item, segundo a tabela abaixo:

Resultado do teste: Se você computou algum ponto, qualquer ponto que seja, eu não vou saber dizer se você é mal-humorado, mas posso afirmar categoricamente que você pertence à classe dos...
Mal-educados
Você pode não concordar com o resultado deste teste, afinal, não foi desenvolvido por um psicólogo ou estudioso da área do comportamento humano. Contudo, devo avisá-lo, caro leitor cujo resultado foi diferente de zero, que provavelmente as pessoas ao seu redor já lhe aplicaram alcunhas depreciativas, procuram esquivar-se da sua presença e, a todo o momento, lhe fornecem respostas prontas, talhadas antecipadamente, para evitarem maiores conflitos. Ninguém é real, sincero e honesto com você. Seus colegas de escritório combinam a cerveja escondido e saem de fininho, cada um pretextando algum compromisso inadiável na sexta-feira à noite. Mas a verdade “nua e crua”, caro leitor diferente de zero, é essa: ninguém gosta de gente mal-educada.
Nos últimos anos, a má-educação parece ter se alastrado e ocupado vilipendiosamente todos os nichos da sociedade. Antigamente, educação vinha “de berço”. Sabia-se onde colocar o guardanapo, com quais talheres comer, como agir perante a um “RSVP” (Répondez S'il Vous Plaît, ou, “responda, por favor”) no convite e quais as partes do colo e das pernas que deveriam ficar à mostra durante uma recepção de casamento. Respondia-se às provocações com “luvas de pelica”, tanto metaforicamente, quanto literalmente, em cujo caso, um tiro poderia selar o destino do destratante. Sim, havia a morte, fato deplorável. Mas não havia a palavra solta, o esgar de cinismo conjugado à ira, o tom de ameaça seguido de atos hoje corriqueiros, como: bater uma porta, gritar uma ofensa ou quebrar um objeto com raiva. Perder a cabeça em atitudes como essas era tido como algo tipicamente feminino. Muitos autores utilizaram este “atributo” para caracterizar a “cabecinha vazia” burguesa do final do século XIX, como a de madame Bovary, (de Gustav Flaubert) que, num acesso de raiva, por saber que seu amante não viria visitá-la, empurra sua filha, fazendo com que esta bata com a cabeça na cômoda e ponha-se a chorar.
É comum aceitarmos a má-educação quando oriunda das hierarquias mais altas – leiam-se chefes, professores e superiores em geral – pois, afinal, é o ganha-pão que se encontra em xeque. Sentimo-nos ameaçados, ficamos silenciosos, balançando a cabeça afirmativamente e concordando com tudo que a pessoa, mal-humorada e mal-educada, nos diz. Quem nunca se sentiu imerso em um colóide fétido após uma dessas explosões de raiva ou descontentamento de um superior? Os movimentos se tornam lentos e o digitar, suave, como se tudo estivesse coberto por uma gelatina pegajosa e ácida. Os músculos, retesados, evitam a troca gasosa com o ambiente, fazendo a respiração ser quase suspensa. Os cílios que revestem as narinas não conseguem oferecer resistência ao ar mais denso, tampouco o som consegue se propagar em ondas, ficando o ambiente em silêncio sepulcral. Tudo para que não haja outra combustão. Tudo para a que a paz não seja quebrada novamente.
É interessante notar que o causador do constrangimento sempre consegue emitir uma justificativa - o seu estandarte da auto-remissão - para justificar tal comportamento: “As vendas estão caindo”, “Estou me divorciando”, “Meu filho está doente”, e o impagável “Estou de TPM”. A tensão pré-menstrual, aliás, passou a ser justificativa para tudo, ganhando a simpatia da maior parte das mulheres da humanidade, inclusive, tendo sido usada para atenuar a pena de uma certa criminosa nos EUA.
Cena 1:
Mulher A: - Você viu isso? Ela estava de TPM, coitadinha, por isso esfaqueou, esquartejou, queimou e comeu os pedaços da vítima.
Mulher B: - Pobrezinha, não é à toa que ficou tão nervosa! TPM é fogo!
Mulher C: - É.... tadinha....
Cena 2:
Vendedor: - Parabéns, o senhor está adquirindo uma jóia belíssima! Assine aqui, esta promissória, penhorando sua alma.
Marido: - Por esse preço? Minha alma?? Querida, tem certeza?
Esposa: - Alfredo, olha aqui, hein? Estou de TPM, não me tenta, NÃO ME TENTA!!
Há ainda os indivíduos cujas mães se esmeraram na atividade de passar adiante os paradigmas comportamentais da sociedade à qual pertencem, sem, no entanto, encontrar respaldo na índole imaleável dos pequeninos. A estes convencionamos chamar “mal-aprendidos”. Na verdade, essa acepção é somente um deslocamento da origem do sistema ou uma boa-vontade maior ou menor do observador, como queira. Afinal, todo mal-educado é limitado, ou mal-aprendido.
Limitados seriam aqueles que, apesar de encontrarem os exemplos da boa educação na mídia, na escola, em seus pais ou superiores hierárquicos e em diversas pessoas com as quais interagem todos os dias, continuam a agir da mesma forma rude e impetuosa, não sendo capazes de dominar suas frustrações e desejos e colocá-los de maneira controlada ao seu interlocutor.
Mal-aprendido seria o indívíduo que apesar de conhecer os liames das atitudes que definem o comportamento aceito e desejado por seus pares, insiste em agir diferentemente, pois se acredita em condições e no direito de fazê-lo, seja por superioridade, seja por extrema condição de inferioridade.
No entanto, vale notar que algumas vezes a má-educação pode ser utilizada como um marcador social e cultural, incitando o indivíduo a agir de modo inconveniente para o meio em que se encontra, única e exclusivamente, para continuar sendo diferente, não absorver e não ser absorvido pela sociedade que o cerca. Nesse caso, o comportamento é permeado por uma falta de educação apenas aparente, sem, no entanto, corresponder àquela descrita acima.
É o caso dos migrantes nordestinos que, estando em São Paulo, montam suas barraquinhas no Largo da Batata e tocam música em volume bem alto, mexem com as mulheres que por ali passam e conversam entre si usando expressões que o paulistano não entenderá. Ou dos coreanos que dizem não entender o Português e nos deixam falando sozinhos, mas são absolutamente fluentes na língua quando querem negociar com o consumidor. Ou, ainda, os japoneses do bairro da Liberdade que caminham, de cabeça altiva, alguns passos à frente de suas esposas, enquanto estas carregam pacotes e permanecem obedientes.
Ao citar estes últimos, um episódio da minha pré-adolescência vem à baila, sendo propiciamente esclarecedor. Ao perceber a entrada de uma “senhorinha” japonesa abarrotada de sacolas e de seu marido, há muitos anos, em alguma estação do metrô da linha azul, cedi imediatamente o assento, que foi logo tomado pelo senhor oriental. Fiquei indignada e disse a ele que se levantasse, já que eu havia cedido meu lugar à senhora – a educação da minha cultura me impelia a isso – e não a ele, um homem – cuja cultura determinava essa atitude. Ele não se moveu. A senhorinha se encolheu. E eu desci na próxima estação, completamente enfurecida, mas sem dizer nada. Ambos estávamos corretos. Ambos fôramos bem-educados em relação ao outro. Estávamos apenas seguindo as orientações que nossas sociedades determinaram serem pertinentes.
Os traços culturais e a linguagem são o identificador do ser humano e do grupo ao qual ele pertence e é natural que muitas pessoas, perante o medo inconsciente de perderem sua identidade, resolvam agir de maneira considerada imprópria neste ou naquele lugar. Porém, proponho que realizemos agora uma outra identificação, independente de raça, cor e credo: a da boa educação. Digamos bom dia, boa tarde, boa noite, obrigado e por favor. Saibamos sorrir, “deixar pra lá”, não furemos filas e não carreguemos mochilas nas costas em ônibus lotados. Tentemos, por alguns instantes, imaginar como se sentiria aquele que conosco interage, quando resolvemos ser menos comedidos.
Ah! E, meninas, vão ao ginecologista, ao Padre Quevedo ou ao Papa, mas cuidem dessa TPM!
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Agradeço à Sueli Ramos pela revisão cuidadosa!
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