quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Ninguém está vendo.

publicado na Revista Substrato - CEPEGE, IGc/USP (novembro/08)


“- Ligo pra você.
Com essa frase, os dois encerraram a conversa. Ela foi embora esperando esse telefonema ansiosamente. Ele, nem tanto.”

Essa cena poderia ser característica de qualquer filme piegas de sessão da tarde. Nele, a mocinha seria uma atriz bonita, de traços delicados, trajando um vaporoso vestido florido. Ela sairia de cena andando por uma rua de Nova Iorque, na primavera. Nós, espectadores, vê-la-íamos ir embora, saltitante, enquanto ele se voltaria para o lado oposto, colocaria as mãos no bolso do casaco leve e iniciaria sua caminhada deixando o lugar. Se essa cena acontecesse nos primeiros trinta minutos do filme, saberíamos que haveria um conflito que se resolveria ao final, levando as adolescentes sonhadoras às lágrimas. Porém, essa situação passa longe de um filme.

A cena em questão se desenrola em um saguão de uma empresa, após uma entrevista de emprego onde a moça desfiou seus planos de futuro e descreveu habilidades e defeitos de sua personalidade. O homem, um funcionário da área de Recursos Humanos a entrevistou, fazendo as perguntas padronizadas, com uma ou outra variação aqui e ali, para garantir o elemento surpresa. A moça não se saiu bem, faltou-lhe desenvoltura, conhecimento e experiência na área. O entrevistador, após anotar alguns rabiscos na ficha da candidata, escolta a moça até o saguão da empresa, onde se despede, dizendo a frase supracitada.

O desenvolvimento da história, corriqueira, é interrompido no momento em que a moça toma o elevador e deixa as dependências do prédio, pois o entrevistador nunca ligará para a candidata. Nem mesmo para lhe dizer o que foi que lhe faltou para conseguir a vaga. A assertiva “ligo para você” serviu como o que se costuma denominar, na Lingüística, fim de turno, ou seja, o sinal que um interlocutor envia ao outro para indicar que sua fala ou seu discurso foi finalizado. Em um processo de comunicação, o fim de turno é utilizado ad libitum para garantir que haja entendimento e os interlocutores não atropelem suas falas mutuamente. Porém, extrapolando-se minimamente a definição lingüística e utilizando um pouco de poesia, poderíamos dizer que nós, seres humanos, utilizamo-nos de diversos “fins de turno” ilícitos para nos livrarmos de situações quaisquer que assolem nossa zona de conforto.

Em algum momento da década de 1970 houve a circulação de uma propaganda de cigarros que fazia apologia à malandragem e à necessidade de “ser esperto”. Nessa propaganda, o jogador de futebol da seleção brasileira Gerson se vangloriava de tirar vantagem das situações e por isso a justificativa para o comportamento em questão ficou conhecida como Lei de Gerson. Atualmente talvez seja bastante difícil encontrar algum jovem que saiba dizer de onde surgiu essa idéia. Porém, ela se encontra arraigada no comportamento da maioria dos brasileiros. É preciso ser esperto. Você deve levar vantagem em tudo. Se for preciso, minta. Distorça a realidade. Mude a descrição de um fato ou o ponto de vista de um acontecimento. Se alguém quiser confrontá-lo, finja desentendimento. E continue sua vida, obrigado, volte sempre.

Longe de ser somente uma idéia vilipendiosa e torpe, isso é uma estratégia social. Aprendemos desde cedo que dizer a verdade nem sempre é a melhor solução, especialmente se houver a possibilidade de magoar alguém. Torna-se preferível usar recursos como eufemismos, metáforas, parábolas e fábulas. Qualquer um de nós já se deparou com uma situação onde uma criança, cujo Superego ainda não foi totalmente desenvolvido, diz exatamente o que pensa, enquanto os adultos ao redor se contorcem de vergonha e os pais da criança lhe puxam as orelhas, muitas vezes, porém, abafando um riso, por saberem que as palavras proferidas, embora danosas, descreveram a mais pura realidade.

O Superego é a sociedade introjetada no indivíduo. A criança vai construindo a representação interna das normas sociais através de seu relacionamento com pais e adultos responsáveis por cuidarem dela. Um ser humano minimamente são, que apresente o desenvolvimento de suas habilidades cognitivas básicas, consegue aprender que há momentos em que certas coisas não devem ser ditas. A não ser que o indivíduo desenvolva problemas psicológicos ou psiquiátricos, ele aprende a utilizar a chamada “mentira cor-de-rosa” para conseguir se desvencilhar de situações que podem resultar em embaraços fenomenais. Quando isso não acontece, diz-se do indivíduo, na Psicanálise, que ele “não apresenta o Superego fortalecido”.

O problema básico proposto por Freud é que o ser humano apresenta “pulsões” – que poderíamos traduzir no linguajar cotidiano por “desejos”, ainda que esta palavra seja muito carregada de outros sentidos e de diversos usos que não necessariamente coincidem com a terminologia freudiana. As pulsões guiam toda uma série de comportamentos do indivíduo, mas as etapas pelas quais ele terá de percorrer para atingir o prazer dependerão do nível de coerção ao qual foi submetido e de sua capacidade de sublimação. Em outras palavras, o ser humano apresenta vontades, necessidades e desejos e a sociedade ensina estratégias “adequadas” para que nos apropriemos do prazer.

É claro que as linhas da Psicologia e até da Psicanálise divergem nesse sentido. Enquanto psicanalistas falam em pulsão e sublimação, behavioristas, por exemplo, dirão que o sistema de compensação do meio no qual o ser foi inserido será o fator delimitante decisivo para apontar quais mecanismos o indivíduo utilizará para alimentar suas vontades e necessidades. De qualquer forma, o ser humano apresenta instintos animais, características biológicas, medos, angústias e estratégias de sobrevivência. Juntos, todos esses elementos compõem um universo muito complexo onde ora o simbólico emerge, ora passa a ter caráter secundário, tornando cada um de nós indivíduos muito peculiares. Para uma adolescente, por exemplo, a fome pode ser menos importante que a atenção que ela angaria por causa do corpo perfeito, resultando em anorexia. O fator psicológico, nesse exemplo, (necessidade de carinho) suplanta o biológico (fome).

O pensamento judaico-cristão preconizou a orientação de que o ser humano desse menos vazão aos seus instintos terrenos e fosse mais centrado em outros valores, ditos espirituais. Se por um lado isso trouxe mais respeito às nossas relações, por outro causou uma série de conflitos inomináveis para aqueles cujas paixões são incontroláveis. Winnicott, importante psicanalista inglês do século XX, diz que o homem maduro é um ser capaz de dar vazão às suas necessidades sem com isso tornar-se completamente anti-social, identificando-se com a sociedade sem sacrificar sua espontaneidade. Porém, o paradigma social nos instiga a olvidarmos o que queremos e somos. Espera-se que não sejamos maus, não sintamos raiva ou ódio, não queiramos vingança, não procuremos desvairadamente a melhor posição social, mesmo que seja alcançada à custa de um de nossos pares. Sendo absolutamente realista, diria que isso equivale a pedir a um macaco que não pise nas cabeças de outros macacos do grupo para conseguir o melhor fruto da árvore. Sendo um do grupo, pediria que não pisassem em minha cabeça, por favor.

É neste espírito que assistimos a Ensaio sobre a Cegueira (baseado no livro homônimo de Saramago) e encontramos o pior de nós mesmos estampado diante de nossos olhos e sendo jogado sem cerimônia contra nós. Vemos a vilipendiada condição humana, quando o lustro social não mais impera e a animalidade encontra vazão na busca pela sobrevivência. Não a sobrevivência meramente física e biológica, mas aquela que depende da sanidade do ser, destituído das estratégias que construímos ao longo de milhares de anos de sociedade, beirando, por isso, a loucura. Quando a cegueira branca se alastra pela humanidade como uma epidemia da qual somente a esposa de um médico é poupada sem explicação, um grupo é colocado em quarentena pelo governo. Confinados, recebendo parcas rações, reduzidos a animais, cometem abusos e absurdos. Tanto no filme quanto no livro, fica claro que tudo o que vemos acontecer é resultado de uma dor incomensurável e da necessidade de se proteger das ameaças externas, que agora não são mais visíveis e que podem, por isso, vir de qualquer lugar e a qualquer hora. E assim, voltamos a ser animais, matando, estuprando, roubando, traindo quem nos ama, espancando-nos uns aos outros e defecando no chão.

Não posso me furtar a pensar que, apesar de não apresentarmos a cegueira branca, nós somos assim, estes mesmos animais, porém cegos e loucos em muito menor grau. Esta é a condição humana. Fazemos o que nos é possível para sobreviver, para lidar com nossas frustrações, paixões e ansiedades, medos e angústias, pisando nas cabeças de outros da nossa própria espécie, em busca do fruto mais saboroso. Porém, isso não é reprochável. Só é digno de pena. Porque é uma necessidade do ser humano recorrer a válvulas de escape (lícitas ou não) nessa grande panela de pressão que é a sociedade. O mais curioso é que somos nós mesmos que fechamos a panela e instalamos a válvula – álcool, drogas, sexo, religião e quaisquer outros paliativos imaginários para minimizar o medo, a angústia, a frustração de não podermos dar vazão às nossas pulsões.

Sendo cozidos por todos os lados, a mentira cor-de-rosa mostra-se altamente refrescante, livrando-nos da situação constrangedora de não querermos contratar a candidata que não teve bom desempenho na entrevista, de não pretendermos mais sair com aquela determinada pessoa que perdeu interesse sexual para nós, ou , ainda, de termos que expressar nossa opinião sobre o vestido horroroso de lycra roxa e laranja da amiga gorda. Não sofremos do mal da cegueira branca, mas todos nós fingimos não enxergar o que está acontecendo enquanto mentimos desvairadamente em busca de paz. Será que algum dia conseguiremos ver sem tanto medo?


Agradecimentos: Gostaria de agradecer imensamente às psicólogas Alice L. Luzes (PUC-SP) e Elisa Amaral (USP-SP) por todos os momentos de discussão que culminaram nas conclusões expostas neste artigo.

Honestidade. Com "H" maiúsculo.

publicado na Revista Substrato - CEPEGE, IGc/USP (agosto/08)

- Teacher, que letra é aquela?
Levanto os olhos do caderno do Marcelinho[1], que eu corrigia, olho para o Carlos, o aluno que fez a pergunta e sigo a direção de seu dedo que aponta para a lousa, onde se via um “H” em letra bastão no início da frase “How many legs does an insect have?”
- Qual?
- Aquela ali. Do começo da frase.
- É um “H”.
- Maiúsculo?
- É. – pergunto-me se aquela conversa é realmente necessária. Pondero que o Carlos apresenta vários problemas de disciplina, uma ou outra característica que pode indicar hiperatividade e muitas evidências de dificuldade de concentração. Relembro as aulas de Psicologia e reflito se a pergunta sobre a letra não seria um indicativo de que Carlos está demonstrando, com tal atitude, uma premente necessidade de se desacoplar da realidade que o cerca. Tudo isso passa por minha cabeça em frações de segundo.

Vou até a lousa. Pego o apagador. Apago o “H”. Murmúrio geral da classe, que presta atenção a todo e qualquer movimento que eu descreva. Nessa idade, sete para oito anos, cada traço que a professora faz na lousa é um evento, uma diretriz, uma lei. Deve ser copiado à risca. Finalizaram o processo de alfabetização, já reconhecem a diferença entre letra bastão e letra cursiva faz tempo, mas não são autônomos ainda para decidirem qual usar, dependendo da ocasião. Pego o giz colorido, rosa. Na iluminação da sala àquela hora da manhã, o giz rosa é o mais visível no quadro verde-escuro liso e bem cuidado, sutilmente quadriculado de um verde ainda mais escuro com as linhas-guia. Faço novamente o “H”, agora em letra cursiva. Marta, uma menina de olhos perspicazes, pergunta:

- Teacher Rach, tem dois “o” depois do “H”?

E Paulo arremeda:

- Que letra é essa, teacher?
- It’s a capital “H”, Paulo. Um “H” maiúsculo.
- Não é não, teacher. Isso é um “N”

E Marcos intervém:

- Não, é um “N” ao contrário!

O murmúrio transforma-se em barulho. Muito barulho. Todos agora estão concentrados na necessidade de desvendar que letra é aquela que a teacher escreveu no começo da pergunta - a qual orienta somente um passo da atividade de leitura - e porque existem duas letras “o” logo depois da letra estranha. O primeiro “o”, na verdade, não é um “o” e sim parte do rebuscado H maiúsculo que aprendi a fazer quando era criança e o qual abandonei logo na adolescência em favor de letras mais “limpas” visualmente.

Suspiro. Por que estão fazendo isso comigo? O que custa concentrar-se na atividade e achar quantas pernas o diabo do inseto tem? Já não repetimos exaustivamente a pergunta quando conversamos sobre o conteúdo.? Tento acalmar meus pensamentos e retomar o controle da situação. Primeira aferição: os alunos estão somente sinalizando uma dificuldade e sou eu quem tem a responsabilidade de saná-la. É minha atribuição de professora, de educadora e de apaixonada pela profissão que abracei. Segunda aferição: estou frustrada porque percebi que não preparei a totalidade da aula do jeito que deveria, prevendo as todas as dificuldades e por isso estou jogando a culpa neles, caindo no chavão “crianças que não param quietas”.

Repasso mentalmente os steps de pre-reading que cansei de ensinar a professores como teacher trainer de EFL (English as a Foreign Language). Repito o mantra, verificando se não esqueci nada: contextualize, activate the students’ schemata, pre teach unknown words, set a meaningful and feasible first task… [2] Sim, eu os fiz. Todos os passos estão lá. O problema é mesmo o “H”.

Suspiro novamente. Nos meus lesson plans há uma seção, “Anticipated difficulties”, onde discorro sobre todas as suspresas que podem impedir o bom funcionamento da aula. Mind note to myself: incluir o “H”. Volto à realidade e vejo o efeito dessa letra na minha aula tão cuidadosamente planejada e discutida anteriormente: o grupo está descontrolado. Sinto-me o elétron da última ligação covalente do metano do pum da mosca do cocô do cavalo do bandido. Objetivos lingüísticos? Objetivos pedagógicos? Materiais a serem utilizados? Dificuldades antecipadas? Tempo de cada atividade? Procedimento para cada atividade? Estavam todos no lesson plan. Menos o “H”.

Linda aula sobre mamíferos, aves, répteis, anfíbios, insetos e peixes. Havia discutido com alguns amigos biólogos a validade dessa separação, que agora não é mais vigente no mundo científico. Ao aferirem filogeneticamente que a tartaruga está mais próxima dos mamíferos do que dos crocodilos e estes, mais próximos das aves do que das cobras, essa classificação perdeu o sentido à luz da Teoria da Evolução. Mas continua a ser ensinada nas escolas e por isso, acreditei que discorrer sobre o fato de que “snakes, lizards and alligators are reptiles”[3] não seria tão danoso para meus alunos, estando ainda no Fundamental I.

Meus olhos transparecem o desespero que começa a tomar conta de mim. Minha assistente de classe, aluna do último semestre da FE-USP, levanta-se, vem em minha direção e fala baixinho, estendendo a mão para pegar o giz:

-Posso?

Entrego-lhe o giz e minha confiança. Entrego-lhe tudo o que me faz acreditar ser professora enquanto assisto meus 18 anos de prática de ensino se esvaírem nas curvas de um “H” maiúsculo em letra cursiva, cuidadosamente desenhado dentro dos quadradinhos formados pelas linhas-guia do quadro. Ela vira para a classe e diz:

- Ready now, it’s an “H”. Let’s go back to our groups and go on with the activity, ok?[4]

Há um contentamento geral. Escuto as interjeições de alívio e súbito entendimento, o farfalhar do papel sendo preparado para ser apagado, “can I use the eraser, please?”[5] e finalmente a paz: os grupos voltam a trabalhar como se nada tivesse acontecido. Sento-me, derrotada. A terceira aferição, contundente e dolorosa, é inegável: toda a experiência que tenho não me preparou completamente para o trabalho que desempenho hoje. Preciso aprender a fazer as tais letras cursivas da maneira correta.

Enquanto observo e monitoro os alunos trabalhando, minha assistente percebe meu desapontamento e tenta melhorar meu humor, se oferecendo para me ajudar com a caligrafia. Agradeço e aceito a ajuda. Afinal, já havia acontecido com outra turma, não com o “H” e sim o “T” maiúsculo. Conforme os minutos passam e a sensação de frustração amaina, percebo que a frase “dar ao aluno o que ele precisa” nunca fez tanto sentido. Não importa quanta experiência eu tenha ou quão importante seja o conteúdo a ser abordado. Minhas ferramentas são inapropriadas para esse contexto. Preciso reciclar meus recursos.

Apesar de muito já haver discutido em treinamentos e cursos o planejamento do quadro –alguns professores parecem se esmerar em fazer um mosaico de informações que ao final da aula lembram um patchwork de ininteligibilidades e qualquer pessoa com o mínimo de bom senso sabe que alunos visuais necessitam de um quadro organizado - nunca havia ponderado que a caligrafia pudesse interferir no bom andamento de uma aula,. Também fui treinada para ensinar pessoas cuja primeira língua não usa o alfabeto latino, conhecendo todas as idiossincrasias de idiomas como coreano e o russo em contraste com o Inglês. Mas um “H” maiúsculo? Ninguém havia me prevenido... Minha mente repassa os itens mais comumente abordados nos treinamentos que dei e recebi nesses anos todos: o que faz um aluno aprender? O que faz uma aula fracassar?

Muito já foi discutido e existe um senso comum, apesar de adotarmos teóricos cujas linhas de pensamento algumas vezes se apresentam diametralmente opostas : o aluno aprende quando o que é ensinado é relevante, útil e tem relação com a sua realidade. Ignorando as controvérsias que causam os PCNs[6] quando são publicados, a maior parte dos educadores sérios tem como linha mestra de seu trabalho a minimização da abordagem de assuntos que nada influirão na formação profissional e humana do ser que se encontra sob sua responsabilidade nesse processo de construção de conhecimento. No entanto, há os profissionais que são colocados nessa posição sem possuírem noção alguma das estratégias mais básicas de ensino e aprendizagem – muitos deles frutos do processo acadêmico de Iniciação Científica, Mestrado, Doutorado – cuja produção científica assume vulto muito maior do que o exercício da docência. É comum escutarmos dizer sobre um professor da universidade que “ sabe muito sobre determinado assunto, mas não sabe ensiná-lo... ”.

Estudiosos da Educação discutem constantemente a validade das fases de desenvolvimento de Piaget, contrastando essa visão com a mediação vigotskiana, a educação bancária de Paulo Freire, a semelhança de famílias de Wittgenstein e com muitas outras abordagens. Há uma miríade de linhas a serem seguidas e todas são frutos de muita observação e ponderações profundamente coerentes. De modo muito simplista, podemos dizer que todas funcionam, dependendo do aluno. Aliam-se à essas teorias, outras tantas que cuidam do lado afetivo da aprendizagem, da interação professor – pupilo e pupilo – objeto de estudo ( a “matéria” em si), do ambiente e das relações sociais de poder e autoridade, inseridas no contexto escolar.

Em meio a todas essas vertentes, encontramo-nos agora a discutir o futuro do curso da LIGEA. Professores e alunos têm estabelecido discussões acirradas sobre o que deve conter a grade curricular e qual será o perfil do profissional formado pelo curso. A proposição de “formar um educador com conhecimento sobre a dinâmica interna e externa do Planeta e da interação entre Geosfera, Hidrosfera, Atmosfera, Biosfera e Noosfera, de forma a usar os conhecimentos do Sistema Terra no uso sustentável dos recursos naturais com ênfase nos recursos minerais, hídricos e energéticos para a formação de um cidadão crítico para enfrentar os problemas ambientais na sociedade atual” é extremamente desafiadora, porém absolutamente coerente com a demanda do nosso país atualmente.

Contudo, nada nessa discussão fará sentido se em algum momento não forem garantidos os meios pelos quais esses educadores serão instrumentalizados de maneira satisfatória. Um verdadeiro educador precisa saber entender várias linguagens, ser flexível para aceitar paradigmas diferentes e se adaptar a eles, ser ousado para testar novas técnicas sem contudo expor seus alunos aos perigos de uma prática pedagógica homicida, conhecer suficientemente o que ensina para saber onde buscar mais informações quando o aparato escolar não estiver a contento e para catalisar a informação, digeri-la previamente, de modo que os alunos possam absorvê-la e não expeli-la totalmente por ser muito complexa para suas estruturas cognitivas.

O educador consciente procurará recursos proveitosos para sua aula e não “shows pirotécnicos”; preparará cada sessão pensando no perfil do grupo e não uma seqüência de atividades que lhe servirá ad libitum enquanto aquele conjunto de informações for vigente; fará uma apresentação de power point que será válida em um determinado contexto e a modificará conforme o grupo e o momento; especificará tarefas úteis e relevantes para o processo de aprendizado e não para o sistema de avaliação; preocupar-se-á com a preparação, contextualização e confecção de perguntas significativas prévias à leitura de um texto e não simplesmente distribuirá as copias e dirá “Leiam e discutiremos”.

O educador autêntico saberá utilizar-se das palavras, mas também dos gestos de aproximação, da musicalidade da entonação na fala, da teatralidade natural de quem ama o que faz. Saberá escutar através dos ouvidos, mas também através dos sentidos. Saberá entender que quando algo não funciona, a primeira coisa a ser feita não é culpar e sim remediar. Saberá procurar os meios necessários para reciclar seu conhecimento e suas técnicas. Finalmente, saberá ser humilde para aceitar que nem sempre acertará, apesar de todos os títulos angariados e artigos publicados. Saberá usar de honestidade em suas práticas, para ser verdadeiramente um educador. Honestidade com H maiúsculo. E em letra cursiva.


Agradecimentos:
Meus mais sinceros agradecimentos aos biólogos Paulo Enrique C. Peixoto (UNICAMP), André Victor Lucci Freitas (UNICAMP) e Alex Martins dos Santos pelas sugestões e ponderações cuidadosas! E aos amigos Vinícius B. Fuentes, Francesca Pozzi e Marc Neilson por todo o apoio e sugestões durante o processo.


[1] Os nomes das crianças foram trocados..
[2] Contextualizar, relacionar ao universo do aluno, ensinar antes palavras que possam impedir o cumprimento da tarefa, definir uma primeira tarefa factível e significativa...
[3] Cobras, lagartos e jacarés são répteis.
[4] Pronto, agora é um “H”. Vamos voltar aos grupos e continuar a atividade, ok?
[5] Posso usar a borracha, por favor?

[6] Parâmetros Curriculares Nacionais - referências de qualidade para os Ensinos Fundamental e Médio do país, elaboradas pelo Governo Federal.