domingo, 19 de setembro de 2010

Denúncia

Ela ouve o barulho do carro parando e o freio de mão sendo puxado. Com isso, sua respiração acelera. Abre o pequeno vidro da janelinha da recepção:
- Boa noite – diz a recepcionista do motel, sempre com a mesma inflexão, desenvolvida através dos muitos anos insulsos no mesmo cargo, no mesmo horário e no mesmo local.
O casal dentro carro parece estar em lua-de-mel. Taynara adora observar recém-casados, chega a se embevecer com o carinho que dispensam um ao outro. Porém, subitamente se apruma, quando recebe os documentos e percebe que, apesar das alianças, os nomes dos dois não revelam a comunhão cartorial. Observando melhor, pode enxergar a diferença de idade e compreende a imagem à sua frente. “Ah, cachorro!”, pensa, enquanto elabora uma cena mental da esposa sofrida, menopáusica, a esperar em casa pelo marido que nunca virá jantar.
Taynara entrega as chaves da suíte ao motorista cinqüentão, que não percebe sua expressão contrariada e espera o carro partir. Então, com um sorriso cínico a bailar pelos lábios entreabertos, se dedica à sua missão, com todo o devotamento de alguém que acredita estar desempenhando uma tarefa praticamente divina. Faz uma busca completa dos nomes online. O nome da moça revela instantaneamente perfis em sites, listas de convocados para chamada de matrícula e um blog. O dele, poucas coisas, links insípidos e sem importância. Em menos de 3 horas, Taynara se ufana de ter conseguido deixar um recado no perfil da esposa dele, em um site de relacionamentos: “Dona corna, presta atenção no maridão!”
Toda a noite dá-se o mesmo: à conferência dos documentos, segue-se uma busca minuciosa que, sendo bem sucedida, culmina em uma denúncia, a qual Taynara chama de “justiça”. Pois que “pobre da mulher, ta lá, sozinha, só porque tá pelancuda, tadinha, não merece essa safadeza!”
No início, Taynara usava o computador da recepção. Mas um vírus contraído através de uma operação mais descuidada, quando a moça acessou inadvertidamente um site pornográfico, fez com que o patrão revisse a magnanimidade de tal condescendência: cortou a internet. Taynara precisou parcelar um notebook e adquirir o tal 3G. Endividou até a alma, mas o coração, peremptoriamente machucado no passado pela conduta infiel do único amor que tivera, fez de sua missão algo tão arraigado, que deixá-la de lado seria inconcebível.
Todas as noites, a recepcionista solteira de 45 anos, encalhada e ressequida pela amargura, pesquisava nomes, clicava em links, suava frio, até conseguir, pelo menos uma vez ao turno – número do qual se vangloriava, pois nunca havia falhado totalmente – denunciar maridos e esposas infiéis. No afã de ser mais produtiva e aumentar seu número de sucessos, Taynara aprendeu tudo o que pôde ou conseguiu sobre internet. E às colegas que a rendiam na troca de turno, e para quem relatava seus feitos, recitava sempre o mesmo mantra: “Mais um sem vergonha vai ter o que merece quando chegar em casa”.
As moças não entendiam a raiva de Taynara. A princípio, comentavam suas impressões, sussurrando e discorrendo sobre o despautério da colega entre elas. Depois, passaram a sentir pena. Uma delas aconselhou Taynara a procurar ajuda psicológica e quase foi atirada pela janelinha da recepção. Outra, mais arteira, sugeriu que Taynara escolhesse um dos clientes, pesquisasse sua vida e tentasse se fazer notada online. Recebeu um tenebroso olhar como resposta. Por fim, as amigas se uniram e, pretextando uma cervejinha para comemorar o aniversário de uma delas, arrastaram Taynara para o bar e para o lado de um amigo galanteador da irmã da prima da vizinha da moça da lavanderia. O homem, apesar de bem-apanhado, também carregava uma galhada do passado, por entre os cabelos lustrosos e penteados para trás, a sombrear o sorriso esgarçado.
Deu certo. Os dois, unidos pela tragédia que assolara a vida amorosa de ambos, se identificaram tanto, que em pouco tempo foram morar juntos. Compraram móveis e eletrodomésticos no carnê, entupiram a mesinha de centro de bibelôs dos quais Taynara nunca se desfaria e praticaram o kama-sutra em todos os 3 cômodos do apartamento de João, o namorado.
Após alguns meses, porém, com a rotina do relacionamento estabelecida e tendo as doces azáfamas matrimoniais arrefecidas, Taynara se viu às voltas com a abstinência de adrenalina. Olhou para o notebook, que ainda trazia consigo, agora para mandar recadinhos apaixonados para João, e pensou, elocubrou... e sucumbiu à tentação. Com o próximo par de documentos à mão, reiniciou a rotina de antes. Em poucas horas, o vício já havia reconquistado todos os cantos de seu cérebro. Nas próximas noites, Taynara se percebeu mais eficiente do que nunca, e em uma quarta-feira, atingiu o incrível número de 3 denúncias! Desta vez, porém, temendo que as colegas denunciassem sua mania para o namorado, manteve tudo em sigilo.
Taynara considerava que ninguém poderia conceber a santidade do serviço que prestava às pessoas! Dificilmente perceberiam a nobreza do seu intuito, que era a de restabelecer a verdade e a honestidade nas relações humanas, forçando cônjuges a despirem-se das falácias que impunham aqueles que amavam, ou que diziam amar. Por fim, ainda que relutantemente, admitiu: nunca, em hipótese alguma, relegaria novamente à indiferença aquilo que havia sido seu empenho caro por tantas noites solitárias, antes que João aparecesse em sua vida.
            Estava a moça justamente pensando em quão digno era seu mister, quando, certa noite, o patrão pediu que cobrisse a falta de uma recepcionista em outro motel da rede. Taynara aquiesceu, considerando que, afinal de contas, era quinta-feira, João tinha futebol com os amigos e nem daria pela falta dela, já que sempre voltava tarde. Pegou a bolsa e foi, aceitando a carona do patrão, que seguia para o outro prédio, em outra parte da cidade.
            Ainda bem que tinha seu 3G! Taynara exultou, enquanto colocava suas coisas na prateleira e abria seu notebook! O primeiro carro, um casal normal, não a animou. Eram mesmo casados. O segundo, também não. Eram  muito jovens e não usavam aliança. Foi o terceiro carro, porém, que proporcionou à Taynara toda a adrenalina da qual ela precisava. Pelo vidro fumê ainda fechado da janelinha, Taynara reconheceu nada mais, nada menos que João. No banco do passageiro, as pernas cruzadas de uma mulher usando uma saia curta e saltos altos. Enrijecida pelo susto, balbulciou um boa noite em voz esganiçada enquanto abria uma fresta da janela e enfiava a mão para fora, pedindo os documentos. João também parecia não querer ser visto, pois imediatamente os forneceu, sem olhar para cima. Escondia o rosto com a mão esquerda, exibindo a aliança que selava o pacto entre Taynara e ele.
            A recepcionista esticou a mão trêmula e entregou a chave. Viu o carro partir rapidamente através do mar de decepção que inundava seus olhos. Suspirou. Considerou tudo o que havia construído com João nos últimos oito meses – não era pouco. Pensando bem, se comparado ao castelo em sua imaginação, era  irrisório, mas, convenhamos, não somente de fantasias mirabolantes pode um ser-humano viver! Sentou-se. Respirou profundamente. Tentou se acalmar. Entretanto, bem no âmago do seu ser, uma urgência, uma carência, um pedido forte, animalesco - quase biológico! -  começou a brotar. Sentiu o coração descompassando, o suor porejando a testa, enquanto a idéia agigantava e se avolumava diante de seus olhos, feito besta informe. Em poucos minutos, já não pôde mais concatenar idéia, diante da premência daquela necessidade. Jogou o notebook longe, estilhaçando a tela e seus sonhos.
- Ao diabo com a internet!- gritou. Com as mãos suadas, discou os números que conhecia tão bem e esperou, a alucinada ferocidade contida, para grunhir, em falso timbre, quando sua mãe atendeu a ligação:
            - Presta atenção, sua filha é uma corna! To avisando! É corna!

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Nuvens


O pai montava uma estante na sala. O menino brincava com um carrinho de plástico comprado na feira.

- Pai, de que são feitas as nuvens?

Muito difícil essa explicação para uma criança de 5 anos, ele pensou.

- De algodão. – voltou a parafusar a prateleira.

O menino girou o carrinho, tentou correr com ele de ponta cabeça no carpete, não conseguiu.

- Elas são macias?

Ele testou a firmeza da prateleira, gostou do que sentiu, olhou para o menino e respondeu:

- São... Devem ser, não é? Afinal, algodão é macio. – estendeu o braço, pegou a outra prateleira, colocou o parafuso em posição.

O menino olhou com mais atenção para as rodas do carrinho. Puxou uma delas. O  eixo de metal trouxe a roda do outro lado consigo. Ele empurrou o conjunto para frente e para trás tencionando entender o movimento.

- Pai, será que elas são doces?

O parafuso estava emperrando. O pai suspirou:

- Acho que não. Eu nunca provei uma nuvem. O que você acha?

- Não sei. – ele empurrava e puxava o conjunto roda-eixo-roda com força.

- Gabriel, não faz assim, vai estragar o carrinho.- A voz do pai vibrou, esganiçada com o esforço, enquanto ele apoiava o peso do corpo contra a chave de fenda.

- Pai, acho que é doce sim.

- O que, Gabriel?

- A nuvem.

- Não sei, filho, não sei. Alcança aquele parafuso ali pro papai. – e apontou para um canto da sala para onde a peça havia rolado.

Gabriel largou o carrinho e foi  na direção que o pai indicava. Pegou o parafuso, que chegava a ser grande nas mãos dele, esticou a mão para o pai,  entregou a peça e voltou para sua almofada de bichinhos e para o carrinho.

- Pai, é doce. Eu tenho certeza.

O pai agora lia o folheto de montagem da estante. Achava que algo estava errado, ou algumas peças deviam faltar, pois dois furos o encaravam desafiadoramente, esperando para serem preenchidos por  algo que definitivamente não se encontrava na caixa, tampouco no chão ou no saco plástico.

- É doce, pai.

- Ah, filho, não sei. Nunca provei uma nuvem. Vai perguntar pra sua mãe, vai.

- Sabe como eu sei?

- Ah! – duas tampinhas de plástico se fizeram visíveis  como se materializadas de súbito, rolando por debaixo de um dos lados da caixa de papelão parcialmente rasgada e jogada no chão da sala.

- Papai!

De posse das tampinhas e visivelmente mais aliviado, o pai finalmente olhou para o menino, que o encarava, indignado. Ora, como poderiam ser duas tampinhas de plástico tão mais importantes do que as nuvens de açúcar?

- Desculpa, filho. É que o papai precisa montar isso antes do jogo começar.

Gabriel pegou o carrinho e se levantou. Foi saindo da sala, emburrado. O pai sentiu remorso, largou as tampinhas, as prateleiras e a chave de fenda. Agarrou o filho, deu uma volta com ele no ar e sentou no sofá. Os dois riam.

- Sim, Gabriel, as nuvens são doces.

- E como você sabe, papai? Você nunca provou!

- Ah, mas é só pensar um pouco! Você lembra quando fomos ao parque e você comeu algodão-doce?

- An-han.

- E quando encostava a língua, o algodão derretia?

- An-han.

- Então! Você não vê como as nuvens somem quando chove?

Os olhos do menino se iluminaram. Ele riu gostosamente.

- Papai, precisamos contar isso pra mamãe!

- Então vai lá, filho, enquanto eu acabo de montar isso aqui.

Pôs o filho no chão e se levantou, aliviado por cumprir seu papel de pai com decência. Deu um beijo na bochecha rosada de Gabriel, que se esquivou e saiu correndo em direção à cozinha, gritando:

- Mamãe! Mamãe! A chuva é de cuspe!

domingo, 18 de julho de 2010

Mas o que está acontecendo??

Se você reparar nas datas das postagens, verá que não escrevo há algum tempo. Tenho usado toda a minha criatividade em outros projetos que demandam toda a minha energia. Há um livro sendo feito, muitas aulas sendo preparadas e relatórios sendo escritos...

Logo, logo, porém, espero ter tempo para postar aqui novamente!