sexta-feira, 30 de julho de 2010

Nuvens


O pai montava uma estante na sala. O menino brincava com um carrinho de plástico comprado na feira.

- Pai, de que são feitas as nuvens?

Muito difícil essa explicação para uma criança de 5 anos, ele pensou.

- De algodão. – voltou a parafusar a prateleira.

O menino girou o carrinho, tentou correr com ele de ponta cabeça no carpete, não conseguiu.

- Elas são macias?

Ele testou a firmeza da prateleira, gostou do que sentiu, olhou para o menino e respondeu:

- São... Devem ser, não é? Afinal, algodão é macio. – estendeu o braço, pegou a outra prateleira, colocou o parafuso em posição.

O menino olhou com mais atenção para as rodas do carrinho. Puxou uma delas. O  eixo de metal trouxe a roda do outro lado consigo. Ele empurrou o conjunto para frente e para trás tencionando entender o movimento.

- Pai, será que elas são doces?

O parafuso estava emperrando. O pai suspirou:

- Acho que não. Eu nunca provei uma nuvem. O que você acha?

- Não sei. – ele empurrava e puxava o conjunto roda-eixo-roda com força.

- Gabriel, não faz assim, vai estragar o carrinho.- A voz do pai vibrou, esganiçada com o esforço, enquanto ele apoiava o peso do corpo contra a chave de fenda.

- Pai, acho que é doce sim.

- O que, Gabriel?

- A nuvem.

- Não sei, filho, não sei. Alcança aquele parafuso ali pro papai. – e apontou para um canto da sala para onde a peça havia rolado.

Gabriel largou o carrinho e foi  na direção que o pai indicava. Pegou o parafuso, que chegava a ser grande nas mãos dele, esticou a mão para o pai,  entregou a peça e voltou para sua almofada de bichinhos e para o carrinho.

- Pai, é doce. Eu tenho certeza.

O pai agora lia o folheto de montagem da estante. Achava que algo estava errado, ou algumas peças deviam faltar, pois dois furos o encaravam desafiadoramente, esperando para serem preenchidos por  algo que definitivamente não se encontrava na caixa, tampouco no chão ou no saco plástico.

- É doce, pai.

- Ah, filho, não sei. Nunca provei uma nuvem. Vai perguntar pra sua mãe, vai.

- Sabe como eu sei?

- Ah! – duas tampinhas de plástico se fizeram visíveis  como se materializadas de súbito, rolando por debaixo de um dos lados da caixa de papelão parcialmente rasgada e jogada no chão da sala.

- Papai!

De posse das tampinhas e visivelmente mais aliviado, o pai finalmente olhou para o menino, que o encarava, indignado. Ora, como poderiam ser duas tampinhas de plástico tão mais importantes do que as nuvens de açúcar?

- Desculpa, filho. É que o papai precisa montar isso antes do jogo começar.

Gabriel pegou o carrinho e se levantou. Foi saindo da sala, emburrado. O pai sentiu remorso, largou as tampinhas, as prateleiras e a chave de fenda. Agarrou o filho, deu uma volta com ele no ar e sentou no sofá. Os dois riam.

- Sim, Gabriel, as nuvens são doces.

- E como você sabe, papai? Você nunca provou!

- Ah, mas é só pensar um pouco! Você lembra quando fomos ao parque e você comeu algodão-doce?

- An-han.

- E quando encostava a língua, o algodão derretia?

- An-han.

- Então! Você não vê como as nuvens somem quando chove?

Os olhos do menino se iluminaram. Ele riu gostosamente.

- Papai, precisamos contar isso pra mamãe!

- Então vai lá, filho, enquanto eu acabo de montar isso aqui.

Pôs o filho no chão e se levantou, aliviado por cumprir seu papel de pai com decência. Deu um beijo na bochecha rosada de Gabriel, que se esquivou e saiu correndo em direção à cozinha, gritando:

- Mamãe! Mamãe! A chuva é de cuspe!

domingo, 18 de julho de 2010

Mas o que está acontecendo??

Se você reparar nas datas das postagens, verá que não escrevo há algum tempo. Tenho usado toda a minha criatividade em outros projetos que demandam toda a minha energia. Há um livro sendo feito, muitas aulas sendo preparadas e relatórios sendo escritos...

Logo, logo, porém, espero ter tempo para postar aqui novamente!