O pai montava uma estante na sala. O menino brincava com um carrinho de plástico comprado na feira.
- Pai, de que são feitas as nuvens?
Muito difícil essa explicação para uma criança de 5 anos, ele pensou.
- De algodão. – voltou a parafusar a prateleira.
O menino girou o carrinho, tentou correr com ele de ponta cabeça no carpete, não conseguiu.
- Elas são macias?
Ele testou a firmeza da prateleira, gostou do que sentiu, olhou para o menino e respondeu:
- São... Devem ser, não é? Afinal, algodão é macio. – estendeu o braço, pegou a outra prateleira, colocou o parafuso em posição.
O menino olhou com mais atenção para as rodas do carrinho. Puxou uma delas. O eixo de metal trouxe a roda do outro lado consigo. Ele empurrou o conjunto para frente e para trás tencionando entender o movimento.
- Pai, será que elas são doces?
O parafuso estava emperrando. O pai suspirou:
- Acho que não. Eu nunca provei uma nuvem. O que você acha?
- Não sei. – ele empurrava e puxava o conjunto roda-eixo-roda com força.
- Gabriel, não faz assim, vai estragar o carrinho.- A voz do pai vibrou, esganiçada com o esforço, enquanto ele apoiava o peso do corpo contra a chave de fenda.
- Pai, acho que é doce sim.
- O que, Gabriel?
- A nuvem.
- Não sei, filho, não sei. Alcança aquele parafuso ali pro papai. – e apontou para um canto da sala para onde a peça havia rolado.
Gabriel largou o carrinho e foi na direção que o pai indicava. Pegou o parafuso, que chegava a ser grande nas mãos dele, esticou a mão para o pai, entregou a peça e voltou para sua almofada de bichinhos e para o carrinho.
- Pai, é doce. Eu tenho certeza.
O pai agora lia o folheto de montagem da estante. Achava que algo estava errado, ou algumas peças deviam faltar, pois dois furos o encaravam desafiadoramente, esperando para serem preenchidos por algo que definitivamente não se encontrava na caixa, tampouco no chão ou no saco plástico.
- É doce, pai.
- Ah, filho, não sei. Nunca provei uma nuvem. Vai perguntar pra sua mãe, vai.
- Sabe como eu sei?
- Ah! – duas tampinhas de plástico se fizeram visíveis como se materializadas de súbito, rolando por debaixo de um dos lados da caixa de papelão parcialmente rasgada e jogada no chão da sala.
- Papai!
De posse das tampinhas e visivelmente mais aliviado, o pai finalmente olhou para o menino, que o encarava, indignado. Ora, como poderiam ser duas tampinhas de plástico tão mais importantes do que as nuvens de açúcar?
- Desculpa, filho. É que o papai precisa montar isso antes do jogo começar.
Gabriel pegou o carrinho e se levantou. Foi saindo da sala, emburrado. O pai sentiu remorso, largou as tampinhas, as prateleiras e a chave de fenda. Agarrou o filho, deu uma volta com ele no ar e sentou no sofá. Os dois riam.
- Sim, Gabriel, as nuvens são doces.
- E como você sabe, papai? Você nunca provou!
- Ah, mas é só pensar um pouco! Você lembra quando fomos ao parque e você comeu algodão-doce?
- An-han.
- E quando encostava a língua, o algodão derretia?
- An-han.
- Então! Você não vê como as nuvens somem quando chove?
Os olhos do menino se iluminaram. Ele riu gostosamente.
- Papai, precisamos contar isso pra mamãe!
- Então vai lá, filho, enquanto eu acabo de montar isso aqui.
Pôs o filho no chão e se levantou, aliviado por cumprir seu papel de pai com decência. Deu um beijo na bochecha rosada de Gabriel, que se esquivou e saiu correndo em direção à cozinha, gritando:
- Mamãe! Mamãe! A chuva é de cuspe!
2 comentários:
Nossa, Rachel, eu amei seu texto...Fiquei aqui imaginando as nuvens e o quão simples e gostosa pode ser uma existência...
Um super beijo, Su...
Perfect!!!
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