terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Ninguem sabe...

Havia algo de muito terno naquelas linhas. Algo de titubeante e assustado, é verdade. Mas era infinitamente doce a curta mensagem, como a névoa no horizonte róseo ao amanhecer de um dia de verão que promete ser maravilhoso.
Ester enxugou as lágrimas. Não sabia direito porque as vertia, em um pranto tranqüilo – desenhavam as gotas caminhos delicadamente sinuosos por sua face -  mas sentia dorido o coração,  uma melancolia pesarosa  que somente a ausência do ser amado sabe causar.
Naquele momento, uma miríade de pensamentos perláceos refulgiam em sua mente ,  causando uma enorme confusão. À ausência dele na aula, eventualidade para qual ela não havia se preparado, seguiu-se um momento de fúria, de auto-estima mergulhando ao subsolo do ser e de um medo subitamente agigantado  de que todas as promessas que vinha acariciando em sonhos enamorados talvez não passassem de imaginação fértil, muito fértil.
Até mesmo o colega simpático que tomou o assento ao seu lado e procurou entabular conversa foi repelido com um esgar de frustração. Tentou o jovem ser sorridente e comunicativo, mas Ester simplesmente não lhe deu ouvidos. De posse do celular, escondido entre as camadas de camisetas coloridas e cool que, sobrepostas, tornavam a aparência femininamente desleixada, ausentou-se do recinto pretextando ir ao banheiro. No entanto, o único desejo que tinha era entender a causa de tamanha irritação que queimava, impedindo a moça de se sentar, se levantar, andar ou estacionar.
Por que não conseguia pensar? Por que sentia esse caleidoscópio a girar impiedoso dentro do peito, impedindo-a de vislumbrar qualquer coisa que não fosse a porta? Por que seu coração sobressaltava a todo minuto? Por que os olhos insistiam em fitar o mostrador do relógio enquanto ardiam a urgência do choro contido?
Com o escoar dos minutos, Ester finalmente aceitou que ele não vinha. No início da terceira aula, inconformada, amuou-se, afundou na cadeira e ficou esperando o tempo passar em meio às moléculas das reminiscências do sorriso dele e das reações bioquímicas que os feromônios do moço ausente haviam bagunçado. Quando a aula acabou, pegou a mochila, o fichário e a agenda e saiu cabisbaixa, macambúzia e contabilizando quantos eram  os  tantos centavos que haviam escoado do seu valor pelo ralo do amor -próprio, levados ao esgoto dos amores não correspondidos. Estava em frangalhos e não entendia a razão de reação tão exagerada.
Ao chegar em casa, custou a acreditar: a mensagem dele esperava, envergonhada, na caixa de emails. Desculpava-se pela ausência. Ester já havia notado que ele não gostava de escrever, porém tornava-se comunicativo quando junto estavam e distantes do mundo.  Cada linha da mensagem parecia reticente, mas significativa; simples, porém dotada de uma doçura tal que foi impossível à moça não flutuar, embalada pelos braços do sentimento que tanto havia olvidado e que por fim, resolveu aceitar. Estava apaixonada por ele.
Havia algo de muito terno nos olhos de Ester, iluminados pelas lágrimas de rendição. Algo de titubeante e assustado. Mas era infinitamente doce o sorriso que o coração lhe trazia aos lábios, como a névoa no horizonte róseo ao amanhecer de um dia de verão que promete ser maravilhoso.