quarta-feira, 23 de maio de 2012

Cinquenta por cento!

(artigo de opinião publicado em http://www.sbs.com.br/virtual/etalk/index.asp em 18/05/2012)


 Há cerca de dois meses, precisei, como parte de minhas atribuições na editora, dar uma palestra sobre como lidar com grupos grandes de alunos. Enquanto preparava minha apresentação e escrevia notas de rodapé para tentar calafetar todos os “vazamentos” de um assunto que nunca esgota, pude perceber o quão distante minhas convicções atuais estão daquelas que trazia comigo quando iniciei na licenciatura. Naquela época, há cerca de 20 anos, acreditava que o sucesso da aula dependia de uma explanação completa, que exaurisse o tópico, seguida de infindáveis exercícios escritos. Hoje, porém, observo a prática na sala de aula como algo totalmente dependente dos indivíduos que estão presentes na interação daquele momento específico e de suas histórias. Cada aula é única, porque cada ser humano envolvido naquele acontecimento também o é. Porém, alguns fatores comuns continuam sendo preponderantes para o sucesso do aprendizado. 

A atitude do professor é o primeiro deles. Ao enxergar o aluno como tabula rasa ao invés de um ser repleto de História e conhecimento a ser compartilhado, o professor acaba resvalando em um dos maiores erros suicidas da prática pedagógica: ensinar conteúdo que não é relevante, significativo e contextualizado. Como o aluno não consegue se relacionar com nada deste conteúdo (ou quase nada), não se sente motivado a produzir. Se estivermos falando de alunos adultos, a motivação extrínseca (aquela promoção tão esperada, por exemplo) talvez prevaleça e ele se force a participar da aula. Porém, se os alunos forem adolescentes cheios de hormônios gritando mudanças que eles mesmos não compreendem, o professor terá de ser mais exigente e, muitas vezes, mais bravo. Com o que muitos professores não conseguem atinar é o fato de que alunos deixam de prestar atenção se não se sentem conectados com o objeto de estudo. É natural, portanto, que tentem achar “coisas mais interessantes para fazer” durante a aula. 


Recentemente, discutindo com um professor “mais tradicional”, escutei que mestres deveriam ter o direito de quebrar os celulares de seus alunos. Redargui com o seguinte argumento: “quando o senhor está assistindo algo muito interessante e seu celular toca, o senhor atende?”. Meu interlocutor baixou a cabeça, sabendo que sua resposta selava a questão. Completei: “precisamos fazer nossas aulas interessantes a ponto de nossos alunos conseguirem olhar seus celulares e se decidirem por não atendê-los.” Isso não é impossível. Porém, precisamos rever tanto o que ensinamos, quanto como ensinamos. Talvez o modo como ensinamos esteja tão ultrapassado, quando comparado à capacidade cognitiva dos alunos do séc XXI, que em poucos anos sejamos completamente substituídos por tablets e outros recursos tecnológicos vindouros. Gostaria de ser blindada e cética em relação aos apelos da cibernética e informática. Ao invés disso, sou profunda apreciadora delas. Mas também sou incrivelmente crédula das relações sociais. E não consigo assimilar aprendizado sem emoção, sorrisos, descobertas seguidas de “ohs!” entusiasmados e, - por que não?- um certo toque de frustração que impele a seguir em frente, desafiando para um novo resultado. Eu acredito no professor humano, ainda e apesar de tudo. 

Outra necessidade importante é a de compartilhar. Devido ao estresse, à competição e à pesada carga de trabalho, as conversas de sala de professores são frequentemente substituídas por reclamações sobre este aluno ou aquele grupo. O tempo que resta para compartilhar experiências bem sucedidas e sugestões sobre como lidar com os problemas praticamente não emerge em um intervalo de 15 ou 20 minutos. Além disso, em meio a tantas reclamações, um eventual professor vitorioso se sente desconfortável quando percebe que seus colegas estão desenvolvendo sentimentos e julgamentos ruins em relação àquele grupo com o qual ele se dá tão bem. Há quase um sentimento de inadequação e culpa: “Se todos reclamam e eu não, estou deixando de perceber algo.” Os valores são polarizados, contudo a agulha da bússola aponta outra direção que não o Norte: se você está contente com um grupo que os outros professores detestam, então é você quem está errado! 

Esquecemos frequentemente que a cada par de seres humanos acontece uma nova interação e que esta pode ser totalmente diversa da de outro par. Quando isso é aplicado a um grupo e seus professores, a quantidade de diferentes resultados é uma miríade tão impressionante quanto maravilhosa. É saudável sim, para um aluno, não gostar de um professor e precisar aprender a se relacionar com ele. Afinal, isso acontecerá inúmeras vezes durante a sua vida e a escola é parte do processo de preparo deste aluno para a sociedade (ou pelo menos, deveria ser). Não é saudável para um professor, no entanto, não gostar de um aluno e não obter respaldo da coordenação da escola para lidar com isso. Infelizmente, se a indisposição com este aluno não for unânime, o professor se calará, pois não correrá o risco de ser considerado incompetente (e o contrário também se aplica). Olvidamos o humano, atropelamos o natural, em prol do acadêmico. E, todos os anos, professores em burn-out despejam seus atestados de doença no departamento de recursos humanos, enquanto as escolas cospem para a sociedade centenas de alunos adolescentes despreparados academica e socialmente. 

 Algumas boas notícias

 Um pouquinho de boa vontade. É somente isso que precisamos para começarmos uma história nova. Boa vontade para estudar e conhecer aquilo que nos amedronta, iniciativa para engatilharmos a discussão na sala dos professores ou na reunião pedagógica, criatividade para estabelecermos praticas novas, quando as que conhecemos e exaurimos já não funcionam mais. 

 Árvore de Natal

 Aprendi, lendo os artigos de Howard Gardner, o pai das Inteligências Múltiplas, que é impossível conseguir que todos os alunos prestem atenção à aula ao mesmo tempo. O que o pesquisador da Universidade de Harvard chamou de “Efeito da Árvore de Natal” se tornou uma evidência de sucesso em minha aula. Já que cada aluno traz em si uma configuração distinta de inteligências mais ou menos desenvolvidas, cada vez que minhas explicações enfatizarem um tipo de Inteligência, alguns deles dispersarão, pois a minha comunicação não estará sendo dirigida a eles. No entanto, outros prestarão atenção. E se eu andar pela sala enquanto falo, e se eu desenhar na lousa, e se eu mostrar uma animação, e se eu cantar… a cada mudança, olhos acenderão e apagarão, imitando perfeitamente uma árvore de Natal. É lindo… Mas também assustador, pois quando conseguimos perceber claramente esse efeito, nos tornamos mais conscientes de nosso papel no processo de mediação do conhecimento.  

Condutas irritantes

Os alunos nos brindam com enxurradas de sinais o tempo todo. Quando um aluno insiste em uma conduta irritante, aprendi a pensar sobre ela antes de reagir. Isso requer um grande autocontrole e a consciência de que “ não sou tão importante que este aluno queira fazer isso só para me provocar”. E quando me liberto desta visão simplista de centro do universo do aluno, consigo perceber que ele está sinalizando, geralmente com sua inteligência mais desenvolvida, um pedido de ajuda. “Não consigo aprender desta forma”, diz o menino que batuca constantemente na carteira com dois lápis, atrapalhando meu discurso. “Aprendo mexendo meu corpo e com música”, ele completa. “Preciso compartilhar minhas impressões para aprender”, indica a menina que tagarela com sua amiga. “Necessito de diagramas, regras e tempo para pensar sobre tudo isso”, declara, com seu silêncio, o aluno “inexpressivo” de um canto. “Por favor, dê-me a chance de expressar visualmente este objeto de estudo”, rabisca o aluno que desenha sem parar, no fundo da sala. Eles não estão se recusando a participar e sim, me mostrando como seus cérebros funcionam. Se eu conseguir visualizar, entender e promover estes ambientes de trabalho, eu os “laçarei” e os trarei para o meu mundo: o domínio do aprendizado e do prazer que esse processo me proporciona – afinal, foi isso que me tornou professora. Sentindo este mesmo prazer, estarão fisgados. E depois de algum tempo, abertos a novos processos. Somente quando atingirem este patamar, poderei instiga-los a tentar novos meios de catalisar as informações mediadas na aula e assim, desenvolverem outras inteligências que estejam um tantinho mais “adormecidas”.  

Pequenos ajudantes

 Outro subterfúgio que descobri ser especial é o que chamo de “pequenos ajudantes, grandes realizadores”. Quando conseguimos perceber as características preponderantes em um grupo (e algumas delas estão relacionadas às Inteligências mais desenvolvidas nos alunos), podemos utilizar estes pontos fortes a nosso favor. Peça aos alunos para desempenharem pequenas funções e tarefas, como por exemplo, achar uma música famosa do momento que traga o ponto gramatical estudado (para um aluno Lógico-Matemático e Musical) ou inventar um jogo com bola para ser executado fora da sala de aula e que contemple aquele conjunto léxico trabalhado (inteligências Linguística e Cinestésica), ou ainda um vídeo com uma manobra radical de skate ou surf, que ilustre a Lei Física discutida em sala (Visual e Lógico-Matemático). 

Esta atitude promove a auto-estima do aluno que a realiza, pois ele se sente importante e valorizado e por isso tenderá a cooperar cada vez mais. A opinião dele influenciará o grupo pouco a pouco e outros alunos, sentindo o mesmo, participarão ainda mais. Com o tempo, a aula se transforma em um local de cooperação. O aspecto imprescindível deste processo, o respeito, é garantido quando o professor critica ou elogia escolhendo as palavras com cuidado e ensinando esta atitude aos alunos, que o observam. Sempre me lembro do professor Keating, do filme Sociedade dos Poetas Mortos, que ao criticar seus alunos, o fazia de modo divertido e amoroso, sendo por isso admirado por seus pupilos.  

Eles não escolheram estar lá!

 Grupos grandes de adolescentes podem ser aterrorizantes. Na minha experiência, foram sempre fantásticos, mesmo quando muito difíceis de lidar. É uma fase bastante complexa e densa. Seus cérebros estão se reorganizando fisicamente e há desequilíbrio hormonal, além de ser um período de luto da infância. Tudo é trágico, exacerbado, doloroso e nossos alunos são sempre os “incompreendidos” por todos, protagonizando uma verdadeira “teoria da conspiração”. Além disso, têm sono exagerado, fome, sensações que não aprenderam a denominar e com as quais não sabem lidar. Como se não bastasse todo este desconforto, ainda são obrigados a estar em um local no qual muitas vezes se sentem expostos (os colegas podem ser muito cruéis entre si) e do qual não podem fugir. 

 O aluno é obrigado a estar na sala de aula. Você já parou para raciocinar sobre isso? Nós, professores, temos um propósito em ir para a escola e, salvo exceções, prazer em desempenhar nossa função. Eles não. E esse espaço pertence às duas partes, ou seja, a sala de aula não é somente do professor, é do aluno também. Poderia discorrer por muito mais tempo sobre a propriedade do aluno sobre a sala de aula, divagando sobre as escolhas infelizes que os professores fazem nas interações com seus pupilos, especialmente quando se sentem assoberbados por suas obrigações, mas vou me limitar a dizer algo que pode soar agressivo, embora não seja essa a intenção: Você escolheu estar lá. Seu aluno não. Pense nisso!  

Pareando alunos

Costumo utilizar combinações diversas de alunos, que dependem do desenvolvimento deles e das características da atividade que estou monitorando : dois alunos fortes, um forte com um “fraco”, um agitado com um mais calmo, etc. Sempre que os alunos reclamam dos grupamentos que faço, digo-lhes que estou pensando no crescimento individual deles, nas características mais marcantes e em como um pode ajudar o outro; que embora seja muito mais prazeroso trabalhar com um amigo próximo, muitas vezes as nossa escolha de parceiro de trabalho não otimiza nossos resultados – e eu, como professora, consigo enxergar nuances que eles ainda não aprenderam a ver. Se você resolver testar este subterfúgio, prepare-se para responder perguntas como: “então qual é meu ponto forte?” e presenteie seu aluno com sua observação respeitosa e consistente do que ele tem de melhor. E surpreenda-se quando ele pedir para trabalhar com um colega com o qual não tem afinidade e explicar suas razões, assumindo a responsabilidade por seu processo de aprendizado.  

A bagunça

Já é hora de pararmos de achar que ser “legal” é ser permissivo. Podemos sim ser amorosos com nossos alunos sem, no entanto, permitirmos indisciplina e desorganização. E isso nos leva a ponderar: Qual é a diferença entre um momento agitado, mas produtivo e “bagunça”? Agitação não significa que os alunos não estejam produzindo e aprendendo. Barulho indiscriminado e sem sentido, sim. Você se lembra do conceito de árvore de Natal? Sempre vai haver burburinho e mobilização em ambientes de produção e esta é a medida confiável. Há produção e os alunos estão engajados no tópico? Então não é bagunça. Seu aluno está dispersando energia valiosa em atividades que não enriquecem a interação proposta e não está se dirigindo (ainda que em uma trajetória meandrante) para o objetivo esperado? Então é bagunça. Vale lembrar que defino objetivo de uma aula como o desenvolvimento ou o fortalecimento de habilidades e não o acúmulo de proposições gramaticais (de Wittgenstein). Nenhum professor deveria ainda acreditar, nos dias de hoje, que ensinar é transmitir fatos os quais os alunos podem acessar facilmente em uma pesquisa na Internet…  

Os rótulos

Quando cursei Psicologia da Educação, há muitos anos, quis fazer uma investigação a respeito de rótulos que os alunos aceitam para si sem questionar. Pesquisei o 3º ano do EF I, a respeito da palavra bagunceiro. Perguntei a 20 alunos considerados indisciplinados se havia algo que eles escutavam sobre si mesmos na escola o tempo todo. A resposta foi: “Eu sou bagunceiro”. Então os inquiri: “O que significa ser bagunceiro?” A resposta geral, embora expressada de formas diferentes, foi: “ é não colocar de volta no lugar algo que você usou”. 

 Sabemos muito bem que não é este o significado de bagunceiro neste contexto. Imagine a confusão na cabeça de uma criança que é chamada de bagunceira o tempo todo, mas não consegue entender a razão, já que não deixou nada fora do lugar. A consistência dessa atitude leva à desistência em entender e à aceitação do rótulo. “Sou bagunceiro. Não sei o que isso significa, mas deve ser ruim, já que a expressão e o tom de voz da pessoa que assim me denomina não é agradável quando fala de mim”. 

 Estamos acostumados a rotular o aluno de acordo com nossas expectativas e não pensamos muito em como esse julgamento pode influenciar sua perspectiva sobre si e sobre os que o circundam. Desde então, tenho observado o meu uso de certas palavras, e especialmente da frase “você é….”. Não, você não é, sou eu quem acha “isso” sobre você. Na verdade, você é um mundo de histórias incríveis que eu não vou conseguir enxergar, se continuar insistindo em dizer que “você é…”. 

 Para resolver conflitos, substituí meu julgamento por uma pergunta: “O que você acha disto?” E depois de ouvir a resposta deles, aprendi a dizer como me sentia: “ Sabe, estou me sentindo desmotivada, pois preparei esta aula e estou vendo que ela não está sendo interessante para você”. Sem julgamentos, sem brigas, sem desculpas e sempre com muito respeito. E pouco a pouco meus alunos foram se acostumando a se responsabilizar por suas atitudes.  

Cinquenta por cento

 Poderia dizer que tudo o que fazemos, se muito bem planejado e pensado, talvez atinja cinquenta por cento de sucesso. Não mais do que isso. Acredito que somos responsáveis por exatamente metade do que acontece na sala de aula. O resto depende de fatores ambientais, sociais, administrativos, históricos e tantos outros, que se torna impossível nomear todos, além, é claro, dos próprios alunos. No entanto, quando estes cinquenta por cento que nos pertencem são entregues, muitas vezes inicia-se uma reação em cadeia que culmina em grande progresso. Não posso garantir a conduta do meu colega professor que já se cansou da labuta e faz tudo mecanicamente e sem um pingo de paixão. Mas posso dizer que meus alunos, depois de algum tempo convivendo dentro das rotinas que estabeleci, do respeito, e sob a gratidão que assoma quando se percebem realizadores de pequenos feitos cotidianos, começam a apresentar novas atitudes perante a aula, a matéria, os colegas e até os funcionários da escola. 

 Falsa é a pretensão de que somente uma pratica pedagógica resolva e tenho perfeita compreensão que realidades distintas demandam espaços de tempo profundamente diversos para receberem e estabelecerem mudanças. Escolas públicas de periferia vão requerer anos de paciência, intervenção e estratégias diferentes de escolas particulares de bairros de classe alta. Contudo, a mudança se faz necessária e eu diria que é urgente, pois apesar dessas serem realidades muito diferentes, os produtos são, de certa forma, parecidos. Estamos despejando na sociedade jovens completamente despreparados para lidar com as responsabilidades que vão enfrentar. A classe social não é mais fator separatista. Tanto o jovem da periferia quanto o menino abastado dirigem alcoolizados e matam; tanto a jovem de classe média alta quanto a menina paupérrima engravidam muito cedo. Muitos se tornam usuários de entorpecentes, jogam lixos nas ruas, não respeitam nem valorizam a experiência e sabedoria dos mais idosos e propagam os valores mais pífios da sociedade ocidental, que promove somente o belo e sensual. 

Usarei de licença poética para dizer que um professor sozinho não faz verão. São necessários muitos, em muitas frentes, trabalhando arduamente para mudar a realidade que observamos hoje. Quero acreditar, no entanto, que um professor sozinho pode sim fazer um sol brilhar. E que muitos professores, acendendo seus soizinhos particulares, possam um dia promover um verão educacional em nosso país.