quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Um caminho



Ficou um caminho por descobrir. Anos haviam se passado desde sua última tentativa. Ela ainda se lembrava do cheiro de terra molhada de chuva por debaixo do tapete de folhas que quiseram voar durante o vento forte, não tiveram coragem e caíram. Como ela, descansando na solidão dos caminhos pavimentados, com finais óbvios.

Na última vez, o temor vencera. Aquela senda era fascinante, mas pouco iluminada: um dossel de copas de árvores vedava parcialmente a entrada do sol. Muitos que lá haviam estado contaram-lhe de fadas. Ela queria muito seguir em frente e descobrir que aventuras a jornada descortinaria, porém receios e dúvidas entremeavam-lhe os passos e fisgavam seus joelhos. Sentiu frio. Titubeou e imaginou-se ameaçada por monstros.

Quase entregue, olhou para baixo e viu seus sapatinhos opacos e sujos dos passos incertos no chão úmido. Não aspirou o inebriante aroma das flores; envergonhou-se de seu desleixo. Não se alegrou com o canto das aves;  lamentou o cabelo desfeito. Por fim, angustiou-se tanto com sua figura descomposta, que não pôde mais. Esqueceu-se do que a trouxera ali e voltou correndo os poucos metros que havia percorrido. Parou na clareira, no terreno seguro e conhecido. E nunca mais lá voltou.

Desde então, havia sempre este anseio insatisfeito a pulsar-lhe no âmago. Percorreu outros caminhos, descobriu mundos novos, apossou-se de sentimentos que ensinaram-lhe ser apropriados. O penteado não mais se desfez, tampouco os sapatos se sujaram. É verdade que, com os anos, cortou os cabelos e calçou saltos altos; deixou a saia colorida em favor de calças pretas e trancou o sorriso. Convenceram-na de que era assim que devia ser e ela o fez.

E agora, isto. Um chamado de volta ao caminho esquecido, um sms, um convite dele para jantar. O medo acercou-se novamente. Ela queria achar uma evasiva, mas não conseguia! O tempo escoou.  Sentiu cheiro de terra molhada, olhou para baixo e viu seus sapatinhos de outrora.  Havia tantos anos! Talvez o caminho não fosse tão temível... Percebeu os cabelos crescendo em tranças. Somente um jantar, não é? Haveria mesmo fadas?

Uma joaninha dourada pousou em seu ombro,  reluzindo como ágata de fogo e cegando o temor, que atordoou-se. Vendo-se solto, o desejo transbordou e ela aceitou o convite. Enfim, embriagada pelo perfume das flores, deixou cair o celular no chão coberto de folhas. Não percebeu. Enveredava novamente pelo caminho esquecido, entretida por uma ave que cantava ao longe.


quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

A verdade


A verdade serve para muito pouco, na verdade. “Serve para a gente ter razão, mas também pode machucar”, pensou Guilherme, quando descobriu aquele surpreendente fato sobre o pai e temeu por Carolina.

Nunca poderia imaginar que seu  progenitor fosse capaz de manter algo tão bem escondido, que nem a mãe parecia saber. E disso ele tinha certeza, porque ela era péssima em guardar segredos – o pai vivia brigando com ela por contar-lhes as surpresas sem querer!

 Como era possível? Se ele estava sempre em família, participava dos jantares, das viagens, das idas ao clube aos finais de semana, como achava tempo para manter duas vidas paralelas sem que ninguém desconfiasse? Decerto haveria de ter pessoas que trabalhavam para ele e o ajudavam nesse mister. Ah, ele bem lembrava que, mesmo durante as férias o pai atendia ligações importantes e urgentes!

Então... era isso mesmo! Não era ele, sozinho, mas uma rede complexa e intrincada de pessoas sob o seu comando. Sentiu-se confuso, mas orgulhoso porque o pai era importante. Porém, rapidamente encheu-se de dúvida: e Carolina? Deveria contar-lhe e destruir a imagem do pai sério, sisudo e até por vezes chato? O que ela faria quando soubesse sua verdadeira identidade? E se ela se decepcionasse e sofresse?

Guilherme era o irmão mais velho, o responsável, seu super-herói! Não podia destruir a infância de Carolina! Guardaria este segredo o quanto fosse possível, até quando ela descobrisse por seus próprios meios. Então ofereceria colo, amparo e guarida, se ela precisasse do seu ombro filial.

“Algumas crianças são fortes e aguentam saber a verdade”, ponderou. Mas outras, como Carolina, seriam bem capazes de morrer de ciúme, se descobrissem que o verdadeiro trabalho do pai era gerir uma rede de entregas de presentes para as crianças do mundo, sob o codinome de Papai Noel.




segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Café


Disse-lhe o nome e tomou sua pequenina mão. Maroto, beijou-lhe o dedo anelar, onde haveria de colocar uma aliança um dia, (tinha certeza!). Conduziu-a delicadamente, fê-la dar a volta ao balcão e com um movimento suave, mas preciso, enlaçou-a pela cintura.

Ela não ofereceu resistência. Pousou mansamente as duas mãos no peito dele e presenteou-o com um sorriso ensolarado.  Fitaram-se por alguns instantes e amaram-se com os olhos, depois com o calor emanando dos rostos tão próximos e, finalmente, com as bocas. Não moveram as mãos, nem perscrutaram as línguas, porque aquele beijo era terno... e público.

Incomodado, o chefe dela pigarreou. Afastaram somente os lábios –  tão difícil separar as almas quando vertem amor e desejo! – e riram baixinho. Não estavam envergonhados; fingiam apenas, para não suscitar a inveja das pessoas que nunca tiveram a sorte de amar e serem correspondidas. Viveriam felizes para sempre, ele sabia!

 Adorava cada particularidade daquela mulher: como às vezes uma mecha mais curta escapava-lhe do coque bem na nuca; como flutuava com rapidez e graça entre xícaras, muffins e lattes; como parecia cantar ao chamá-lo. Escreveria ela seu nome também no ar e sonharia, como ele fazia desde que entrara naquela Starbucks e se apaixonara por ela? Ah... ele poderia rodopiar para sempre naqueles olhos caramelos! Procurou-os para sorver doçura e...

— Raul? Raul! –  atrás do balcão, ela segurava o copo com o nome dele e não parecia feliz — O senhor é Raul? Espresso machiato?

Ele se desculpou timidamente com um aceno e, levantando-se, foi ao encontro dela, que deixou o café no balcão e logo se virou sem dizer palavra.  Mas ele não se importou com a frieza dela; sabe que um dia se fará notar. Então, dirá mais que seu nome: cantará seus anseios e a convidará para bailar sua poesia de amor.





terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Abandono


Teu coração dói
uma dor madura
de amor fugido,
De noites levadas
ao extremo esquecido.
O leite no copo,
a nata azeda;
e todos os choros
que o frio arremeda.
Não houve final,
o todo quebrou-se.
A porta entreaberta;
silêncio e foice.
Cobertas ao chão,
teu peito partido
e um resto de vida:
futuro encardido
e paz corrompida.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Dilema


Subiu as escadas e se refugiou no escritório. Precisava raciocinar sobre a longa discussão que tivera na reunião da manhã – a questão do aquecimento global era muito séria e demandava o intenso envolvimento de todos. Também precisava urgentemente encontrar uma solução para seu inadiável dilema pessoal ainda naquela tarde. Dispunha de somente mais algumas horas e estava muito apreensivo.

 Não queria ser mais um a promover ações que intensificassem os problemas ambientais do mundo – as opiniões veiculadas durante a discussão tinham-no auxiliado a aferir e decidir muito bem sua parcela de responsabilidade no ecossistema. Também não possuía capital suficiente para tomar medidas alternativas, tampouco desejava pedir emprestado qualquer tostão ao pai, empresário sênior. Não, de jeito nenhum! Só de pensar em ter de responder às perguntas que invariavelmente seriam feitas, já sentia o estômago embrulhar.

 O relógio apitou quatro horas: era tarde, tinha que se decidir! Levantou-se e andou de um lado para outro, sem padrão, sem sentido e sem saber o que fazer. Via-se pressionado entre duas opções difíceis: ou as críticas do pai, ou o vandalismo que teria de cometer. Pensou, repensou e, de repente, a vergonha de ser obrigado a descrever ao progenitor os detalhes de seu planejamento pareceu-lhe humilhante. Melhor seria aviltar a flora do que sofrer o vexame, ponderou. Suspirou e, sem alternativa e cheio de medo, pegou uma tesoura, deixou o escritório e desceu as escadas. Hesitava, a princípio; entretanto,  cada degrau vencido consolidava um pouco mais sua resolução.

Cruzou a sala com passos menos titubeantes; passou pelo corredor pisando mais forte e atravessou a cozinha acelerando. Quando chegou ao jardim, o dilema havia-se enfraquecido. Empunhando a tesoura, procurou as  margaridas mais belas e as achou em um cantinho onde o sol teimava mais tempo no inverno. Solenemente desculpou-se à Mãe Terra –  explicava-se, tentando calar a voz interior que repercutia culpa – e cortou os caules de três flores. Respirou aliviado: apesar do imenso conflito interno, tinha finalmente um buquê!

Agora faltava pouco para concluir seu plano e sentiu a ansiedade a beliscá-lo nas coxas e no pescoço. Estava enjoado: as borboletas em seu estômago voavam irriquietas! O incômodo era tanto que foi convencido por elas e voou diretamente para seu intento, outra flor.   Nem cumprimentou D. Silvia, a vizinha,   quando o atendeu à porta; disparou casa adentro, atravessando os cômodos sem pensar direito. Ganhou o quintal, onde Marina brincava de casinha e, arfando, parou na frente dela, bloqueando o sol e surrupiando o tênue calor naquele junho frio. As bonecas ficaram indignadas – ora, onde já se viu roubar-lhes o bem mais precioso dos dias de inverno iminente? Marina levantou a cabeça e vendo-o parado e mudo, deu voz às companheiras:

- Que é isso, Marcelo? Não vê que estamos tomando chá?

Enrubescendo, ele arregalou os olhos e estremeceu: todo o vocabulário dos seus 10 anos de vida desintegrara-se repentinamente! Marina, prestativa e acolhedora, estendeu-lhe uma xicarazinha vazia, convidando-o à fantasia. Mas uma mão dele estava metida no bolso (e ainda segurava a tesoura!) e a outra praticamente amassava as flores; a imaginação dele era outra e ele não aceitou o chá. 

Ao invés disso, em um laivo de coragem e quase morrendo de taquicardia, Marcelo deixou que as borboletas escapassem pela boca; estendeu o braço, agarrado às flores e esganiçou as frases, cumprindo sua tão difícil missão:

-  Marina, hoje é Dia dos Namorados. Quer namorar comigo?


terça-feira, 18 de novembro de 2014

O grande evento


Estava feliz. Tereza havia se preparado para aquele evento especial, planejando o que faria quando as emoções embargassem sua voz. Entretanto, foi surpreendida por uma leveza no peito e tinha vontade de gritar ao mundo que se sentia contente e realizada!

É verdade que não gostara nem um pouco de ser maquiada, apesar de entender quando a filha mais velha insistiu que era preciso. As três filhas pediam-lhe constantemente mais feminilidade e Tereza se defendia, culpando as atribuições da vida por não permitirem tempo para “futilidades”. Suas unhas também estavam feitas, o cabelo fora arrumado e vestia um terninho muito caro, que ficara anos guardado, esperando uma oportunidade singular. Riu-se quando percebeu que, enfim, a oportunidade chegara.

Estavam todos na sala, aguardando. A vizinha achegou-se disfarçadamente e segredou-lhe ao ouvido algo sobre uma vassoura desaparecida, que ela nunca perdoaria, mesmo agora que Tereza se tornava especial perante todos. Curiosamente, aquele evento era algo propício, já que as relações entre elas estavam completamente deterioradas. Doravante, o nome de Tereza seria pronunciado com deferência! Bem feito, vizinha!

Voltou sua atenção para a família que amava com devoção e sentiu o peito aquecer. Havia proporcionado todo o calor que uma esposa pode oferecer; zelado por todos os joelhos e corações ralados que uma mãe deve cuidar; confeitado todos os bolos que a uma avó compete assar, sempre com muito carinho. O reconhecimento era  merecido.

Após tantos anos, até o marido viera. Vestia branco -  aquilo eram asas ou efeito da luz que ele emanava?  Tendo abrandado a saudade de todos, postou-se ao lado dela e carinhosamente ofereceu-lhe o braço:

-  Tê, que acha de partirmos antes da comoção aumentar?

Ela perscrutou um a um os rostos queridos, sorvendo as nuances de amor permeadas na doce melancolia da separação iminente. O momento era triste, mas a certeza de que cada minuto de vida fora bem aproveitado fê-la sorrir e cintilar.

- Sim, vamos.


De braços dados, beijaram de luz os amados que ficariam e, nostálgicos, volitaram em direção às estrelas rapidamente, para não presenciar a consternação quando todos se despedissem de Tereza pela última vez.


segunda-feira, 10 de novembro de 2014

A pedra azul


- Senhor seu doutor, não sei direito como foi, mas foi! Roguei à Nossa Senhora para cuidar do meu Raimundinho, que nem chorava mais. O senhor sabe como é a vida no sertão, as águas secam, os bichos morrem, até o assum-preto cessa a cantoria.

Diva trazia a face macilenta e os olhos, fundos.

- Dobrei minha esteira, pus Raimundinho para morrer no conforto e deitei no chão de terra. Não me vi dormir. Acordei com o sol castigando e achei aquela pedra estranha na minha mão. Era azul como o manto de Nossa Senhora! Mas meu menino, tão mirradinho, estava duro e frio. Chorei sem lágrimas – sabe, doutor, na seca, vai-se também a água da alma. Mas quando toquei Raimundo com pedra e tudo, o menino acordou!

O advogado achou graça na simplicidade da mulher. Entretanto, continuou intrigado com os fatos: a pedra existia; os mineralogistas desconheciam similares; naquele dia, o filho do vizinho amanhecera morto e as duas crianças – ambas sem pai – muito se pareciam! Acusada de trocar os bebês, Diva desfiava o terço, enquanto muitos revoltados, apinhados na frente da delegacia, chamavam-na ladra e herege.

Seria conduzida para o tribunal, acompanhada do advogado. Algemada, seguiu de cabeça baixa e olhos secos. À saída, porém, o guarda deixou-a passar e barrou o doutor. A pequena multidão, aglutinada à porta, facilmente alcançou a ré e arrastou-a para a praça, gritando impropérios.

De joelhos, Diva rezava quando a primeira pedra voou. Logo vieram outras e ainda outras e muitas mais... que não a atingiam; caíam ao seu redor e transformavam-se em água! Principiaram uma poça, que alargou-se e rapidamente virou rio, lavando e levando tudo. Assustados, todos correram. Alguns rezavam a Ave Maria, outros gritavam “milagre!”.


Quando a água escoou e o rio secou, Diva e Raimundo haviam desaparecido misteriosamente... e para sempre. A história ganhou o sertão no cordel e  Diva, eternizada em uma  estátua na praça da cidade, virou padroeira. Dizem que ela anuncia a primeira chuva depois do sofrimento da estiagem: aparece aos pés de Nossa Senhora e leva a pedra azul em uma das mãos. 

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Célia



“Dizem que o cérebro ainda funciona por alguns segundos quando a cabeça é decepada. A de Herculano pendeu, enquanto o combustível da aeronave, espalhando-se, incendiava um inferno ao redor. Horrorizado, notou que o fogo consumia suas pernas”.  Foi tudo que Jorge conseguiu criar naquela noite.

Era a primeira vez que descrevia uma tragédia. Autor de romances eróticos, havia acumulado uma pequena fortuna e fingia ser feliz.  Escrevia, contudo, para expurgar os anseios lascivos que o atormentavam desde que conhecera Célia. A franzina intelectual não o queria para mais que alguns encontros íntimos esporádicos. Nunca lera um livro dele, achava-o rasteiro e preferia Schoppenhauer. Jorge, dominado, sonhava Célia, respirava Célia, torturava-se Célia. O shibari da japonesa encordoara-o de tal forma que resolveu escrever algo contundente e profundo, laçando-a para sempre.

Meses após a decisão,  pouco havia produzido. Naquela noite, desfeito, ébrio e drogado, ele delirava. O âmago e o sexo pulsavam, enquanto as labaredas do cenário que descrevia lambiam-lhe as coxas. Um zunido persistente, resultado da combinação de alucinógenos, embalava-o.

Perambulava pela imaginação, saltando corpos desmembrados e desviando de destroços flamejantes e gotas de parafina derretida. Através da fumaça, divisava o rosto de Célia estertorando de prazer e odiava-a libidinosamente. Imediatamente depois, agarrava-se aos saltos das botas dela e chorava, submisso.  O zumbido havia crescido drasticamente com a agonia e já impedia qualquer razão. Lembrava turbinas de avião, mas ele conhecia aquela ensurdecedora volúpia!

Um estrondo arrebatou-o de volta à realidade. Viu um clarão pela janela e fragmentos de fuselagem se aproximando. Estilhaçaram a porta de vidro e um deles o atingiu, em cheio, no pescoço, estalando como o chicote dela.  

Dizem que o cérebro funciona por alguns segundos quando a cabeça é decepada. “Celia, ofegante”. Foi seu último pensamento, enquanto  um pedaço da asa da aeronave deitava a sala abaixo.




Choro




Todas lágrimas do mundo pareciam nascer nos olhos dela.  Amália era frágil:  o corpo, encharcado de água e sal; os olhos, comportas dando vazão à alma.

A crítica mais ferrenha partia da avó. A velha, tez curtida de lavoura e coração calejado pela enxada, nutria a convicção de que Amália deveria crescer forte, “porque o mundo é seco e mau”. À iminência do choro da neta, corria para apanhar o relho, enquanto  Amália fugia para ensopar o colo da mãe, que lhe dava a preciosa guarida. A engelhada sacudia a cabeça e arrotava:

- Ainda te ensino! Fracota!

Em uma manhã fria e nublada, enfim, houve a lição. O canarinho de Amália cessou o canto e a menina encontrou-o, teso,  no fundo da gaiola. Temerosa, tocou-lhe o peito endurecido. Gemeu, apanhou o bichinho delicadamente e, percebendo-o cadáver, correu pela casa em prantos:

- Socorro! – gritou, com a voz embargada e rios cortando a expressão dorida.

Quem acudiu foi a avó, com a vassoura na mão:

- É hoje que te endireito, chorona!

Amália vislumbrou a iminência do castigo através das lágrimas. Não se mexeu, porém o susto conteve o pranto. Estendeu as mãos em concha na direção da ressequida idosa, que se aproximou com trovões no peito. As vagas de desespero de Amália estavam contidas pelos olhos acuados,  mas o rugir das ondas vibrou-lhe a voz:

- O Lilo morreu, vovó!


As pupilas das duas se entrelaçaram. Subitamente, a angústia de Amália agarrou as pernas da velha. E então, aconteceu:  o coelhinho da avó, esmagado pela roda da carroça do pai árido, saltitou da infância na debulha  e fez-se vivo. O coração gretado pulsou, pulsou... e minou lembranças freáticas. Rendeu-se.  Os olhos, exaustos, verteram amor em um choro sentido. E assim fazendo, a avozinha finalmente entendeu o outro lado do mundo.

Desejo




Era metástase.

Deixou o hospital com a verborragia médica vazando pelas orelhas e o nada toldando os olhos frouxos. As pernas não quiseram mais: decretaram greve no último degrau. Tropeçou e desabou na calçada, esparramando o corpo, os documentos e os pedaços da alma, remendados há muito só mesmo por necessidade.

Ninguém acudiu. Levantou-se como pôde, foi catando os pertences e colocando-os na bolsa. Menos aquele envelope. Não lhe pertencia. Mas a quem devolver? O papel, sedoso e o conteúdo, macio, despertaram-lhe algo. Observou ao redor, deu de ombros, meteu o dedo no canto onde a cola não grudara e o abriu. O recheio era um retalho de veludo roxo. Bordada em dourado, nas letras que ela, semi-analfabeta, entendeu por teimosia, uma promessa: “Com o coração puro, faça um desejo.”

Um desejo? Seria galhofa? Mastigou um palavrão. As ideias, em frangalhos, não grudavam, nem se ordenavam. Pensou em pedaços: o câncer, as dívidas, o sumiço do marido, a solidão, o filho... o aniversário do filho! O Júlio pedira-lhe uns Auistar vermelhos. Era tudo que seus 12 anos acarinhavam. Outro naco de pensamento trouxe a voz do doutor:

- Não há. Sinto muito, D. Antônia.

Não lhe doia o coração a morte iminente, mas a sina arrastada e sofrida. A rejeição. A pena, sussurrada entre os vizinhos. Um pedido? Desejar a cura para levar o fardo quilômetros adiante? E o filho? A força que já quase não bastava nascia da risada do Júlio. Não iria abandoná-lo, conhecia essa dor. Amava-o loucamente. Não podia desapontá-lo, era mãe!

Apertou os olhos e espremeu o coração em um pedido sincero. E, quase sem vontade, respirou e retomou a vida. Arrastou-se.

Abriu a porta de casa e encontrou o filho na sala, sentadinho. Ele tinha as bochechas molhadas de alegria. E abraçava os tênis novos.




quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Bem me quer


- Bem me quer, mal me quer; bem me quer, mal me quer; bem me quer...

Parou, indecisa. A última pétala, presa firmemente ao miolo da flor, anunciava o mal-me-quer. Isso não estava certo, não podia ser! A pétala que restava não era tão grande como as outras, era só a metade ou talvez uma bem pequenininha. Puxou a trança comprida e enfiou a ponta na boca. Mastigou devagarinho os fios enquanto pensava. Seria um mal-me-quer menor? Ou menos intenso? Não é possível que ele não gostasse dela, ora essa, justo ela, a menina mais bonita da turma!

Pensando bem, aquela pétala também não era das mais coloridas. Talvez o mal-me-quer dele fosse algo momentâneo, suscitado quando ela lhe recusara o beijo. Ora bolas, como ela poderia beijá-lo, ainda que fosse na bochecha, em frente a tantas testemunhas? Havia meninas pulando amarelinha ali do lado e meninos jogando algo que parecia futebol (e rapidamente tornou-se rugby, quando um aluno mais velho resolveu troçar e surrupiou a bola).  E a D. Rute, enorme em seu avental amarelo-gema-de-ovo, a vigiar - era ela quem fazia os curativos das crianças quando se escalavravam nas brincadeiras e todos lhe tinham muito medo. Não, aquele beijo não seria possível ali, daquele jeito.

Pediu-lhe que se encontrasse com ela atrás da quadra de esportes, depois da aula. E era ali, sentada de pernas cruzadas em uma faixa de grama amornada pelo sol da tarde, que ela raciocinava. Puxou a barra da saia plissada com a mão livre (a outra segurava firmemente a flor),  cobriu os joelhos e olhou para a pétala.

Era menor e desbotada. Tinha certeza agora, observando melhor. Mas ainda assim, era mal-me-quer! Não há viva alma neste mundo que não saiba o que isso signifique. Não  há hipótese de sentir o coração leve quando a última pétala sobra assim. Há quem ouse roubar e diga a si mesmo que contou errado ou se confundiu na ordem das palavras. Quem pretendem enganar? A ordem é clara: bem, depois, mal, depois, bem... e havia sobrado o mal. Só porque ela lhe havia negado um beijo?!

Os olhos se encheram de desconforto.  “Ele não gosta de mim”. Atirou a flor longe, mas era muito leve e pousou pertinho do joelho dela. Parecia toca-la sutilmente, consolando-a. Baixou a cabeça e deixou a decepção transbordar na forma de uma lágrima redonda e brilhante. Bem que a mãe tinha avisado que os meninos são todos uns tolos! Ela nunca mais lhe emprestaria a borracha perfumada ou os lápis de cor! Nem aceitaria quando ele lhe soprasse as respostas da tabuada do oito, muito menos fingiria esquecer como se faz o truque para a do nove. Isso mesmo! Passaria horas decorando os números, se fosse preciso, mas nunca mais lhe pediria ajuda!

É engraçado como as resoluções de mal-me-quer nos dão coragem... Pois apesar de aquela lágrima ter rolado e uma outra, ainda mais redonda e brilhante, continuar pendendo de seus cílios escuros e longos, ela se julgou subitamente forte. Jogou a trança para trás, estufou o peito e levantou a cabeça. Fechou os olhos, deixando-se banhar pelo sol ameno e acolhedor, completando  mentalmente a lista do que nunca mais faria por ele, já que mal ele a queria.

Quando chegou ao sétimo ítem – rir dos gracejos dele – sentiu algo na bochecha. Algo quente, que se espalhou rapidamente pelo corpo, fez disparar o coração, arrepiou a trança e assustou a lágrima, que largou os cílios. Um beijo! Abriu os olhos: ele corria e já estava longe. Surpresa e levemente indignada, quis correr atrás dele. Só meia alma saiu, a outra metade ainda estava aproveitando o calor do contato inesperado e ficou.

Pensou em gritar e chamar a D. Rute, mas a pétala, tocando-lhe o joelho com doçura, a conteve. Não sabia bem o que sentia. (Como nomear o momento que nos foge ao alcance e nos deixa com as mãos e a boca vazias?) Olhou para o mal-me-quer tão mirradinho e sem cor. Parecia ainda menor, agora!

Porém, a onda morna que havia bagunçado toda a menina por dentro, ironicamente colocou a razão, que estava deslocada, no lugar certo. De repente, tudo fez sentido. Apanhou a flor e beijou a pétala. E foi correndo para casa, com a firme intenção de mantê-la muito bem guardada, porque afinal se  lembrara que as últimas palavras que havia dito eram, com efeito, “bem me quer”!

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Segunda pós eleições presidenciais...

Bom, vamos lá. Segundona de ressaca. Quem viu seu candidato ganhar comemorou, gritou, se abraçou, postou no Facebook e foi dormir feliz; quem viu seu candidato perder, chorou, esbravejou, xingou, congratulou os opositores,  postou no Facebook e também foi dormir, porque, afinal, não se gira a economia, nem se faz congestionamento de trânsito nesse país sem trabalho, né? (rsrs)

Quase todo mundo acordou com o fígado gritando nessa segunda pós eleições. Nada mais natural: em um país adolescente como o Brasil, com um povo latino  apaixonado, sofredor, trabalhador e lanhado, que ainda carrega os hematomas da ditadura militar, só poderia haver ânimos exaltados em um segundo turno tão acirrado como este.

Meu candidato não ganhou e é claro que estou desanimada. Mas não tão desanimada a ponto de achar que meus irmãos nordestinos são inferiores a mim (tenho ojeriza de quem pensa assim!!). Eles escolheram diferentemente do que eu escolheria e entendo perfeitamente as razões deles, porque meu trabalho de doutorado, a área que estudo, é lá. E garanto a vcs, que se eu fosse eles, votaria assim também.

O que eu simplesmente não entendo são pessoas ditas "esclarecidas", "estudadas" e - vamos combinar, diante do grosso da população neste país - "afortunadas",  julgarem e ofenderem outras pessoas que votaram diferentemente delas.... ou, ainda pior, emitirem comentários racistas e preconceituosos. Não esqueci dos vaticínios hecatômbicos, simplesmente gostaria de fechar meus olhos a eles... mas não vou. Também não os entendo.

Gente, um país não é feito de unanimidades. Assim como as pessoas não são bidimensionais. Já pensou se a gente se apaixonasse  somente pelo perfil de alguém? "Eu gosto dela em 2D, mas quando ela vira... aquela aresta... ugh....". Todas as pessoas, universos individuais, têm coisas boas e ruins e ideias boas e ruins. Quando alguém se torna meu amigo, é o cômputo geral, o saldo entre positivo e negativo que determina se esta pessoa ficará na minha vida ou não (e tenho perfeita consciência de que coisas que parecem boas para mim podem não parecer para outras pessoas!). Assim como os candidatos e seus programas de governo. Assim como governos passados. Assim como tudo na vida!!!

Enxergar o mundo com olhos maniqueístas é pueril, é projetar desenhos da Disney no mundo real. Ninguém é só uma bruxa má, ninguém é só uma Bela Adormecida. Achar que um governo vai dar conta das necessidades de todo um país, de uma vez só, é mais infantil ainda (ainda mais de um país de proporções continentais como o Brasil). Assim como o é fechar os olhos ao presente - "se não os vejo, também não me vêem". E todos os educadores e pais de crianças muito pequenas conhecem aquela característica do "objeto encantado": se eu vejo, existe; se não está mais, não existe. Negar fatos passados é assumir uma postura infantilizada DEMAIS perante a vida.

Porém, o que mais me deixou boquiaberta em relação a essas eleições, foi a incapacidade geral das pessoas em contextualizar as coisas em seus momentos históricos. Quando FHC assumiu a presidência, o momento era outro, tanto dentro como fora do país. Alguém na minha TL disse que o Brasil não teve projeção internacional durante o governo dele. Sinto muito em discordar, tivemos sim e muito positiva. Assim como também tivemos durante o primeiro mandato de Lula. Invalidar o que outros fizeram para brilhar a sua luz é feio, muito feio ( e “Deus tá vendo!” :P  )

Não ser capaz de perceber que um governo conseguiu determinadas vitórias porque barreiras foram quebradas e a estabilidade econômica foi alcançada por um antecessor é o mesmo que ganhar uma prova de 100 metros rasos sem entender que foi preciso aprender a andar primeiro; ou dominar bem uma língua antes de escrever um livro premiado. Invalidar FHC é quase o mesmo que acreditar em "geração espontânea" (lembra daquela aula de biologia?).

Agora, atenção!! Invalidar o bolsa família, que tirou tanta gente da fome, é a mesmíssima coisa. Criticar o seu irmão de luta diária, em um país ainda tão novo, mas já tão surrado de ignorância, roubos e violência contra o cidadão - ou alguém aí discorda que pagar tantos impostos e não ver quase nada de benefícios é uma violência? - é, no mínimo, tão pueril quanto bater no amiguinho porque ele pegou um brinquedo primeiro. E perpetrar comentários racistas e preconceituosos, ainda pior: é nojento, individualista, egoísta, presunçoso e dá cadeia (ainda bem!).

Não, eu não acho que meu candidato era o salvador da pátria. Dentro da minha limitada visão de classe média que se acha roubada o tempo todo (trabalho com carteira assinada desde os 15 anos e desde muito cedo paguei IR, convênio de saúde, seguro do carro e tantas outras coisas que o Estado deveria prover exatamente com esse dinheiro que suprimiu de todo mundo), achei que era hora de mudar. Lembra que falei lá em cima sobre o cômputo geral? Pois é, no cômputo geral, o governo do PT já não está sendo satisfatório pra mim.

(Aqui vale um comentário pra quem eu acha que eu deveria votar na Dilma só porque tenho bolsa do Ciências sem Fronteira: isso é uma versão moderna de coronelismo ou dos tickets de leite dos candidatos nas favelas, na minha infância, em SP. Deixem de ser hipócritas, a minha bolsa foi conferida por um Comitê Científico que analisou meu projeto e o considerou útil para o país, passei por um crivo do CNPq  E da Universidade do Minho para ser aceita... e as bolsas de pós graduação no exterior já existiam antes da Dilma, pelo amor de Deus!)

Pois bem, assumo minha visão limitada, mas sei claramente que TODOS NÓS TEMOS VISÃO LIMITADA. Se vc acha que não tem, procure um psicólogo, porque isso não é normal e vc está falhando em enxergar  uma coisa crucial: não somos infalíveis.

Tendo dito tudo isso, agradeço imensamente aos meus amigos que foram cordiais e educados e que, sabendo que eu discordava deles, ou não discutiram o assunto, ou se absteram de comentar meus posts sobre meu candidato. Aos que foram grosseiros ou maleducados, desejo boas conversas com o Unfriend.

A todos nós, brasileiros, desejo muita garra, confiança e amor, para dar apoio à presidente quando ela precisar fazer a coisa certa, para nos unirmos e nos respeitarmos sempre que a situação demandar e para garantir a boa comunicação nos momentos de crise, se eles existirem.

E à nossa presidente reeleita, humildade e bom senso de se lembrar, diante dos números,
(- 54.501.118 pessoas votaram na Dilma,
 - 51.041.155 pessoas votaram no Aécio,
 - 30.137.479 pessoas NÃO VOTARAM! )


que a maior parte da população brasileira espera e anseia por um futuro muito melhor.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

O livro (Jônia)


- Eu já vivi isso, sabe? – suspirou, entregando-lhe o livro.
Jônia desenrolou rapidamente alguns metros de novelo de memória e completou:
- Eu já vivi muito... – olhou para o relógio de pêndulo no canto da sala -  Eu já vivi demais.

E o sorriso saiu amargo.

Felipe não deu conta do mundo de nuances que passearam pelo rosto da mulher, entretido com a biografia insípida que as orelhas de capa costumam trazer. Olhou rapidamente para Jônia, como quem diz “estou ouvindo” e folheou casualmente o livro, parando aqui e acolá.

- Disseram-me ser muito bom. – finalmente encarou Jônia enquanto punha o livro na mochila.
- É. É sim.
- Obrigado por emprestá-lo. Sou um leitor rápido, você sabe. Devolvo em... duas semanas? – enquanto falava, avançava em direção à porta da sala.

Jônia entendeu que todos os beijos do mundo não seriam revividos naquele momento. Apressou-se, mecanicamente, lutando contra o que lhe convidava o íntimo: meter a chave no bolso, sentar-se no chão e fazer birra. Estapeou a alma, destrancou a porta e abriu uma fresta. Mas estancou no meio do caminho, o cérebro gritando-lhe sobre o “aviso”.

- Felipe,  preciso dizer uma coisa.

“Meu Deus... agora não, agora não!”,  ele tentava manter discreta a ansiedade em escapar de ainda outra cena dolorida, como todas as dezenas que protagonizavam desde que ele, resignado e vencido pela depressão dela, pedira o divórcio.

- Fala, Jônia. Mas não demora, que tenho compromisso.
- O livro, Felipe, o livro. Se sentir tristeza, a menor que seja, para. Fecha, guarda, levanta e sai. Escuta com atenção, por favor.

Já há muito Felipe conhecia as tendências dramáticas dela – ainda mais exacerbadas depois da separação – e a imaginação fértil. Pensou em mandar que se calasse, depois quis avançar para a porta e sair sem palavra, mas a alma trazia as cicatrizes de toda aquela jornada abortada e se conteve. Não custava uma pontinha de paciência e ele se agarrou a ela como náufrago. “Todas as separações são difíceis”, pensou.

- Estou escutando, Jônia. Já anotei mentalmente. Não vou esquecer.
- Promete? – o olhar doído saltava da porta sendo aberta para o rosto que ela venerava.
- Sim.
- Ainda te amo.
- Se cuida.

Felipe desceu as escadas de dois em dois degraus. Queria desintegrar aquela atmosfera de culpa e dor que achava tanta razão dentro de si. Jônia fechou a porta devagarinho. Escutou o click da lingueta da fechadura, virou a chave duas vezes e passou a corrente. Olhou para baixo e quase sem querer notou as unhas dos pés.

- Devia tê-las feito antes. Agora já não importa.

Apagou as luzes e subiu lentamente os degraus, carregando todo o peso da dor de quem assistiu ruírem os planos e já não porta forças para desenhar outros. Não chorava, não podia mais lágrimas. Sangrava.

Sangravam o peito, as pernas pesadas, os braços dormentes, a garganta apertada, a língua  abandonada.

Sangrou o corpo todo até a última gota na banheira.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Eu sou chata.



Chatos.

Todo mundo sabe o que é um chato. É aquele indivíduo cujo comportamento enerva a gente. Aquela pessoa que vemos de longe, vindo em nossa direção e faz-nos considerar seriamente mergulhar no primeiro latão de lixo, só para fugirmos a tempo de evitar alguma interação.

Pois bem. Sou uma chata.

Curiosamente, as pessoas ainda não perceberam isso. Sou presenteada com sorrisos e cumprimentos; tenho companhia para as refeições, mesmo quando sento em algum canto isolado do refeitório; recebo mensagens no Facebook e telefonemas de pessoas que não conhecem a minha sandice de nunca atender as ligações. E o Whatsapp então? Bombando!?! Mas, gente, como isso é possível? Essas pessoas doidas não percebem que eu sou insuportável?

Tá bom, não sou aquela que zurra em voz estridente (a minha diretora de gravação dos trabalhos de voice over sempre diz que tenho voz de adolescente), de risada escarrapachada que faz os amigos morrerem de vergonha (tenho um amigo que gosta de me contar piadas só para me escutar rir), ou daquele tipo que mete a mão no prato alheio para pegar uma batata frita, mesmo não tendo intimidade nenhuma com o “alheio”. Nunca! Aliás, nem cumprimentar com beijo alguém que já esteja comendo, eu cumprimento. Mamã me ensinou assim. Mamã foi educada por freiras russas e francesas. Ela deve saber... e eu acato.

Também não causo doenças, como os artrópodes hematófagos que deram origem ao termo. Não pico, não mordo (bem, mordo, mas só quando requisitada, devo esclarecer) e não sugo o sangue de ninguém (nem dinheiro, que é o sangue de alguns). Mas, ainda assim... sou irremediavelmente chata!

Sou aquele porre de pessoa que não encoxa ninguem nas filas. Nunca funguei no cangote de uma senhora, senhor, moço ou moça. Tampouco quis receber uma fungada e, para garantir que a pessoa atrás de mim tenha sua alegria podada, sempre levo uma mochila volumosa nas costas. Como as pessoas que compartilharam uma fila comigo devem ter ficado frustradas!

Sou aquela morosa que segura a porta do elevador quando vê alguém vindo naquele passo meio rapidinho, meio “eu quero correr mas tenho vergonha de correr então vou andar rápido mas não estou rápido coisa nenhuma e devo estar sendo ridículo agora que droga!” Sim, eu seguro a porta. As pessoas que estão dentro do elevador, esperando, me odeiam. E aquele que vinha em saltitos envergonhados fica muito triste por ver suprimida a oportunidade de reclamar. Mas, o que fazer se eu sou tão desinteressante? Como lutar contra a minha própria natureza, que me impele a atitudes mesquinhas como esta?

Sinto admitir, mas cumprimento as faxineiras. E  peço licença para passar quando estão limpando o chão do corredor porque, no meu entender, isso é uma das expressões máximas da chatice!  Não há nada mais irritante do que ser interrompido quando se está trabalhando, não é? Ou ser colocado em evidência, quando ninguém quer enxergar ou até mesmo saber que você existe.  Mas deleito-me na minha impertinência, pobres faxineiras! E as cumprimento com um sorriso largo e, mais especialmente ainda, a senhorinha da limpeza do meu departamento na universidade, que -  só porque quero amolar a todos -  considero uma pessoa também.

Sou azucrinante e não faço barulho depois das 10 da noite, ainda que esteja dentro do meu quarto, ainda que não conheça nenhum dos meus vizinhos direito. Ora -  vamos combinar! -  qual o intuito de dormir, quando é bem mais legal se entreter com a alegria de um vizinho cantando a plenos pulmões e chacoalhando o corpo ensandecidamente, em roupas íntimas, no ritmo contagiante do último funk carioca da moda?

Ah, é verdade, ia esquecendo de contabilizar: sou monótona e justamente por isso não gosto de funk carioca. E, para completar, caso reste alguma dúvida de que eu seja cansativa, aí vai uma revelação bombástica, talvez o pináculo da minha doença: acredito que cariocas, paulistas, amazonenses, piauienses, matogrossenses, negros, brancos, índios, crianças, gays e pastores evangélicos são todos iguais. Conclusão: eu não gosto de funk porque é carioca; eu não gosto de funk porque sou chata mesmo.

Adoro causar bocejos e por isso conto que sou aborrecidamente inconveniente quando uso o banheiro, dou descarga e jogo o papel no lugar correto. Quero que a próxima pessoa, ao entrar no cubículo, seja do shopping, da rodoviária, ou do banheiro do hostel, nem saiba que passei por ali. Quero que se sinta solitária e não tenha o que pensar ou com o que se entreter, vendo o banheiro em condições de uso. E dou descarga duas vezes, se preciso. Pensa em uma pessoa enfastiante!! Uso toda a minha energia só para garantir que ninguém fique feliz. Eu sou, com orgulho, deveras enfadonha!

Uma das facetas mais irritantes da minha chatice é não dar a mínima para o fato de que as pessoas com quem convivo têm divergências de opinião... mesmo que seja comigo. Eu sou tão aporrinhante que mantenho muitas opiniões para mim e não as divido, para não causar polêmica e, assim, não alegrar ninguém com quem esteja compartilhando uma discussão. “Vai ficar falando sozinho, sim!”, arrepio-me toda de prazer. E quando sou obrigada a me expressar, minha chatisse me impele a usar eufemismos e palavras brandas. Isso exaspera qualquer um! Mas regozijo-me em impedir ânimos exaltados e ofensas e sinto uma imensa satisfação em coibir, com a minha atitude azucrinante, que as faíscas eventuais acabem incendiando uma conversa. Que grande maçada! Ai, como fico feliz em ser tediosa e cansativa!

Disseram-me: “você recebe o que emite para o Universo” e encontrei-me esperançosa, pensando que talvez um dia eu tome na cara, medonhamente, violentamente, toda aquela chatice que imponho aos outros. Insisti em ser enfadonha, ansiosa pelo retorno das minhas atitudes, pelo cumprimento do que os esotéricos roubaram displicentemente da Física e chamam “lei da ação e reação”. 

Entretanto, não tem sido assim. As pessoas riem, e dançam, e cantam, e metem a mão no meu prato, e fecham a porta do elevador na minha cara, e deixam o banheiro sem dar descarga e a pia cheia de fios de cabelos grossos e compridos. Não se parecem em nada comigo! Onde estão as pessoas limitadas, mesquinhas, vulgares e rasteiras como eu?

Ah, ocorreu-me agora: devem estar exercendo suas impertinências comigo também, é claro! Evitam-me justamente para causar-me o fastídio. Afinal, a segunda lei de Newton, então, é válida! E não haverá jeito alternativo, eu sei, porque o chato é, por excelência, um grande crente de suas ideias. Continuarei a ser chata. Assim como todos os outros chatos do mundo, os quais se camuflam no caos de felicidade do resto dos habitantes deste planeta, que não são chatos.