domingo, 28 de setembro de 2014

Erupção


Em dinâmicas complexas
se organiza o magma
ácido,  viscoso e  lento.
Cadeias silicáticas polimerizadas
empurram a crosta
vagarosamente.
Gases se acumulam.
O turista sobe o monte ermo.

Partição de fases:
as cinzas,  as bombas,  o líquido plástico.
Correntes de convecção internas
rugem.
Não há medo nas gramas e nas flores.
O turista passeia,
colhe botões de sonhos,
assobia e ri.

O solo descansa, tranquilo,
em cima do edifício,
mas a pressão se acumula:
ah cinzas,  ah líquido,  ah bombas
que urgem sair!
O turista admira o inédito,
delineia formas nas nuvens,
refastela-se sob os raios de sol.

Mas o plástico empurra e
se insiste livre.
Um tremor anuncia
e as agulhas incidem decididas no papel.
Rompe-se o equilíbrio.
As aves,  sabedoras dos meandros da natureza,
alçam vôo.
Também fogem os animais.
O turista -  
surdo aos avisos de Gaia,
curioso e  crente de si  –
fica. Incauto!


Admira a paz aparente,
escuta o silêncio sepulcral,
e não se dá conta
do tempo suspenso,
enquanto o magma espesso
reúne seu último impulso.
.

Hercúleo.
.

E o inferno invade o mundo.

O edifício vulcânico desmorona nuvens piroclásticas carbonizam o ácido corroe o enxofre asfixia bombas atingem o turista partem-lhe o crânio e o peito.


Ele cai.

O avanço da lava
é inevitável:
arrasa, resoluta,
todos os ensaios de vida.
Os que um dia souberam correr
e resistiram,
nunca compreenderam
os mecanismos intrincados
e dominantes do manto
sob a litosfera adorável.

Frente à fúria adurente,
nesgas de consciência 
já não se ouvem.
O vulcão se despe
e descarrega desespero
em moto continuum
até que toda a dor ígnea 
que perturbava o sistema
tenha se esvaído.
Já agora a lava,
em lágrimas que queimam
silenciosamente, se instala
e calafeta fraturas,
para arrefecer em anos.

Alguns soluços derradeiros
e acabou.
A câmara está selada
até a próxima erupção.
E, tristemente,
a sombra do turista jaz
à beira do cataclismo que
ele está fadado a ignorar
que não causou.