sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Dilema


Subiu as escadas e se refugiou no escritório. Precisava raciocinar sobre a longa discussão que tivera na reunião da manhã – a questão do aquecimento global era muito séria e demandava o intenso envolvimento de todos. Também precisava urgentemente encontrar uma solução para seu inadiável dilema pessoal ainda naquela tarde. Dispunha de somente mais algumas horas e estava muito apreensivo.

 Não queria ser mais um a promover ações que intensificassem os problemas ambientais do mundo – as opiniões veiculadas durante a discussão tinham-no auxiliado a aferir e decidir muito bem sua parcela de responsabilidade no ecossistema. Também não possuía capital suficiente para tomar medidas alternativas, tampouco desejava pedir emprestado qualquer tostão ao pai, empresário sênior. Não, de jeito nenhum! Só de pensar em ter de responder às perguntas que invariavelmente seriam feitas, já sentia o estômago embrulhar.

 O relógio apitou quatro horas: era tarde, tinha que se decidir! Levantou-se e andou de um lado para outro, sem padrão, sem sentido e sem saber o que fazer. Via-se pressionado entre duas opções difíceis: ou as críticas do pai, ou o vandalismo que teria de cometer. Pensou, repensou e, de repente, a vergonha de ser obrigado a descrever ao progenitor os detalhes de seu planejamento pareceu-lhe humilhante. Melhor seria aviltar a flora do que sofrer o vexame, ponderou. Suspirou e, sem alternativa e cheio de medo, pegou uma tesoura, deixou o escritório e desceu as escadas. Hesitava, a princípio; entretanto,  cada degrau vencido consolidava um pouco mais sua resolução.

Cruzou a sala com passos menos titubeantes; passou pelo corredor pisando mais forte e atravessou a cozinha acelerando. Quando chegou ao jardim, o dilema havia-se enfraquecido. Empunhando a tesoura, procurou as  margaridas mais belas e as achou em um cantinho onde o sol teimava mais tempo no inverno. Solenemente desculpou-se à Mãe Terra –  explicava-se, tentando calar a voz interior que repercutia culpa – e cortou os caules de três flores. Respirou aliviado: apesar do imenso conflito interno, tinha finalmente um buquê!

Agora faltava pouco para concluir seu plano e sentiu a ansiedade a beliscá-lo nas coxas e no pescoço. Estava enjoado: as borboletas em seu estômago voavam irriquietas! O incômodo era tanto que foi convencido por elas e voou diretamente para seu intento, outra flor.   Nem cumprimentou D. Silvia, a vizinha,   quando o atendeu à porta; disparou casa adentro, atravessando os cômodos sem pensar direito. Ganhou o quintal, onde Marina brincava de casinha e, arfando, parou na frente dela, bloqueando o sol e surrupiando o tênue calor naquele junho frio. As bonecas ficaram indignadas – ora, onde já se viu roubar-lhes o bem mais precioso dos dias de inverno iminente? Marina levantou a cabeça e vendo-o parado e mudo, deu voz às companheiras:

- Que é isso, Marcelo? Não vê que estamos tomando chá?

Enrubescendo, ele arregalou os olhos e estremeceu: todo o vocabulário dos seus 10 anos de vida desintegrara-se repentinamente! Marina, prestativa e acolhedora, estendeu-lhe uma xicarazinha vazia, convidando-o à fantasia. Mas uma mão dele estava metida no bolso (e ainda segurava a tesoura!) e a outra praticamente amassava as flores; a imaginação dele era outra e ele não aceitou o chá. 

Ao invés disso, em um laivo de coragem e quase morrendo de taquicardia, Marcelo deixou que as borboletas escapassem pela boca; estendeu o braço, agarrado às flores e esganiçou as frases, cumprindo sua tão difícil missão:

-  Marina, hoje é Dia dos Namorados. Quer namorar comigo?


terça-feira, 18 de novembro de 2014

O grande evento


Estava feliz. Tereza havia se preparado para aquele evento especial, planejando o que faria quando as emoções embargassem sua voz. Entretanto, foi surpreendida por uma leveza no peito e tinha vontade de gritar ao mundo que se sentia contente e realizada!

É verdade que não gostara nem um pouco de ser maquiada, apesar de entender quando a filha mais velha insistiu que era preciso. As três filhas pediam-lhe constantemente mais feminilidade e Tereza se defendia, culpando as atribuições da vida por não permitirem tempo para “futilidades”. Suas unhas também estavam feitas, o cabelo fora arrumado e vestia um terninho muito caro, que ficara anos guardado, esperando uma oportunidade singular. Riu-se quando percebeu que, enfim, a oportunidade chegara.

Estavam todos na sala, aguardando. A vizinha achegou-se disfarçadamente e segredou-lhe ao ouvido algo sobre uma vassoura desaparecida, que ela nunca perdoaria, mesmo agora que Tereza se tornava especial perante todos. Curiosamente, aquele evento era algo propício, já que as relações entre elas estavam completamente deterioradas. Doravante, o nome de Tereza seria pronunciado com deferência! Bem feito, vizinha!

Voltou sua atenção para a família que amava com devoção e sentiu o peito aquecer. Havia proporcionado todo o calor que uma esposa pode oferecer; zelado por todos os joelhos e corações ralados que uma mãe deve cuidar; confeitado todos os bolos que a uma avó compete assar, sempre com muito carinho. O reconhecimento era  merecido.

Após tantos anos, até o marido viera. Vestia branco -  aquilo eram asas ou efeito da luz que ele emanava?  Tendo abrandado a saudade de todos, postou-se ao lado dela e carinhosamente ofereceu-lhe o braço:

-  Tê, que acha de partirmos antes da comoção aumentar?

Ela perscrutou um a um os rostos queridos, sorvendo as nuances de amor permeadas na doce melancolia da separação iminente. O momento era triste, mas a certeza de que cada minuto de vida fora bem aproveitado fê-la sorrir e cintilar.

- Sim, vamos.


De braços dados, beijaram de luz os amados que ficariam e, nostálgicos, volitaram em direção às estrelas rapidamente, para não presenciar a consternação quando todos se despedissem de Tereza pela última vez.


segunda-feira, 10 de novembro de 2014

A pedra azul


- Senhor seu doutor, não sei direito como foi, mas foi! Roguei à Nossa Senhora para cuidar do meu Raimundinho, que nem chorava mais. O senhor sabe como é a vida no sertão, as águas secam, os bichos morrem, até o assum-preto cessa a cantoria.

Diva trazia a face macilenta e os olhos, fundos.

- Dobrei minha esteira, pus Raimundinho para morrer no conforto e deitei no chão de terra. Não me vi dormir. Acordei com o sol castigando e achei aquela pedra estranha na minha mão. Era azul como o manto de Nossa Senhora! Mas meu menino, tão mirradinho, estava duro e frio. Chorei sem lágrimas – sabe, doutor, na seca, vai-se também a água da alma. Mas quando toquei Raimundo com pedra e tudo, o menino acordou!

O advogado achou graça na simplicidade da mulher. Entretanto, continuou intrigado com os fatos: a pedra existia; os mineralogistas desconheciam similares; naquele dia, o filho do vizinho amanhecera morto e as duas crianças – ambas sem pai – muito se pareciam! Acusada de trocar os bebês, Diva desfiava o terço, enquanto muitos revoltados, apinhados na frente da delegacia, chamavam-na ladra e herege.

Seria conduzida para o tribunal, acompanhada do advogado. Algemada, seguiu de cabeça baixa e olhos secos. À saída, porém, o guarda deixou-a passar e barrou o doutor. A pequena multidão, aglutinada à porta, facilmente alcançou a ré e arrastou-a para a praça, gritando impropérios.

De joelhos, Diva rezava quando a primeira pedra voou. Logo vieram outras e ainda outras e muitas mais... que não a atingiam; caíam ao seu redor e transformavam-se em água! Principiaram uma poça, que alargou-se e rapidamente virou rio, lavando e levando tudo. Assustados, todos correram. Alguns rezavam a Ave Maria, outros gritavam “milagre!”.


Quando a água escoou e o rio secou, Diva e Raimundo haviam desaparecido misteriosamente... e para sempre. A história ganhou o sertão no cordel e  Diva, eternizada em uma  estátua na praça da cidade, virou padroeira. Dizem que ela anuncia a primeira chuva depois do sofrimento da estiagem: aparece aos pés de Nossa Senhora e leva a pedra azul em uma das mãos. 

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Célia



“Dizem que o cérebro ainda funciona por alguns segundos quando a cabeça é decepada. A de Herculano pendeu, enquanto o combustível da aeronave, espalhando-se, incendiava um inferno ao redor. Horrorizado, notou que o fogo consumia suas pernas”.  Foi tudo que Jorge conseguiu criar naquela noite.

Era a primeira vez que descrevia uma tragédia. Autor de romances eróticos, havia acumulado uma pequena fortuna e fingia ser feliz.  Escrevia, contudo, para expurgar os anseios lascivos que o atormentavam desde que conhecera Célia. A franzina intelectual não o queria para mais que alguns encontros íntimos esporádicos. Nunca lera um livro dele, achava-o rasteiro e preferia Schoppenhauer. Jorge, dominado, sonhava Célia, respirava Célia, torturava-se Célia. O shibari da japonesa encordoara-o de tal forma que resolveu escrever algo contundente e profundo, laçando-a para sempre.

Meses após a decisão,  pouco havia produzido. Naquela noite, desfeito, ébrio e drogado, ele delirava. O âmago e o sexo pulsavam, enquanto as labaredas do cenário que descrevia lambiam-lhe as coxas. Um zunido persistente, resultado da combinação de alucinógenos, embalava-o.

Perambulava pela imaginação, saltando corpos desmembrados e desviando de destroços flamejantes e gotas de parafina derretida. Através da fumaça, divisava o rosto de Célia estertorando de prazer e odiava-a libidinosamente. Imediatamente depois, agarrava-se aos saltos das botas dela e chorava, submisso.  O zumbido havia crescido drasticamente com a agonia e já impedia qualquer razão. Lembrava turbinas de avião, mas ele conhecia aquela ensurdecedora volúpia!

Um estrondo arrebatou-o de volta à realidade. Viu um clarão pela janela e fragmentos de fuselagem se aproximando. Estilhaçaram a porta de vidro e um deles o atingiu, em cheio, no pescoço, estalando como o chicote dela.  

Dizem que o cérebro funciona por alguns segundos quando a cabeça é decepada. “Celia, ofegante”. Foi seu último pensamento, enquanto  um pedaço da asa da aeronave deitava a sala abaixo.




Choro




Todas lágrimas do mundo pareciam nascer nos olhos dela.  Amália era frágil:  o corpo, encharcado de água e sal; os olhos, comportas dando vazão à alma.

A crítica mais ferrenha partia da avó. A velha, tez curtida de lavoura e coração calejado pela enxada, nutria a convicção de que Amália deveria crescer forte, “porque o mundo é seco e mau”. À iminência do choro da neta, corria para apanhar o relho, enquanto  Amália fugia para ensopar o colo da mãe, que lhe dava a preciosa guarida. A engelhada sacudia a cabeça e arrotava:

- Ainda te ensino! Fracota!

Em uma manhã fria e nublada, enfim, houve a lição. O canarinho de Amália cessou o canto e a menina encontrou-o, teso,  no fundo da gaiola. Temerosa, tocou-lhe o peito endurecido. Gemeu, apanhou o bichinho delicadamente e, percebendo-o cadáver, correu pela casa em prantos:

- Socorro! – gritou, com a voz embargada e rios cortando a expressão dorida.

Quem acudiu foi a avó, com a vassoura na mão:

- É hoje que te endireito, chorona!

Amália vislumbrou a iminência do castigo através das lágrimas. Não se mexeu, porém o susto conteve o pranto. Estendeu as mãos em concha na direção da ressequida idosa, que se aproximou com trovões no peito. As vagas de desespero de Amália estavam contidas pelos olhos acuados,  mas o rugir das ondas vibrou-lhe a voz:

- O Lilo morreu, vovó!


As pupilas das duas se entrelaçaram. Subitamente, a angústia de Amália agarrou as pernas da velha. E então, aconteceu:  o coelhinho da avó, esmagado pela roda da carroça do pai árido, saltitou da infância na debulha  e fez-se vivo. O coração gretado pulsou, pulsou... e minou lembranças freáticas. Rendeu-se.  Os olhos, exaustos, verteram amor em um choro sentido. E assim fazendo, a avozinha finalmente entendeu o outro lado do mundo.

Desejo




Era metástase.

Deixou o hospital com a verborragia médica vazando pelas orelhas e o nada toldando os olhos frouxos. As pernas não quiseram mais: decretaram greve no último degrau. Tropeçou e desabou na calçada, esparramando o corpo, os documentos e os pedaços da alma, remendados há muito só mesmo por necessidade.

Ninguém acudiu. Levantou-se como pôde, foi catando os pertences e colocando-os na bolsa. Menos aquele envelope. Não lhe pertencia. Mas a quem devolver? O papel, sedoso e o conteúdo, macio, despertaram-lhe algo. Observou ao redor, deu de ombros, meteu o dedo no canto onde a cola não grudara e o abriu. O recheio era um retalho de veludo roxo. Bordada em dourado, nas letras que ela, semi-analfabeta, entendeu por teimosia, uma promessa: “Com o coração puro, faça um desejo.”

Um desejo? Seria galhofa? Mastigou um palavrão. As ideias, em frangalhos, não grudavam, nem se ordenavam. Pensou em pedaços: o câncer, as dívidas, o sumiço do marido, a solidão, o filho... o aniversário do filho! O Júlio pedira-lhe uns Auistar vermelhos. Era tudo que seus 12 anos acarinhavam. Outro naco de pensamento trouxe a voz do doutor:

- Não há. Sinto muito, D. Antônia.

Não lhe doia o coração a morte iminente, mas a sina arrastada e sofrida. A rejeição. A pena, sussurrada entre os vizinhos. Um pedido? Desejar a cura para levar o fardo quilômetros adiante? E o filho? A força que já quase não bastava nascia da risada do Júlio. Não iria abandoná-lo, conhecia essa dor. Amava-o loucamente. Não podia desapontá-lo, era mãe!

Apertou os olhos e espremeu o coração em um pedido sincero. E, quase sem vontade, respirou e retomou a vida. Arrastou-se.

Abriu a porta de casa e encontrou o filho na sala, sentadinho. Ele tinha as bochechas molhadas de alegria. E abraçava os tênis novos.