quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Um caminho



Ficou um caminho por descobrir. Anos haviam se passado desde sua última tentativa. Ela ainda se lembrava do cheiro de terra molhada de chuva por debaixo do tapete de folhas que quiseram voar durante o vento forte, não tiveram coragem e caíram. Como ela, descansando na solidão dos caminhos pavimentados, com finais óbvios.

Na última vez, o temor vencera. Aquela senda era fascinante, mas pouco iluminada: um dossel de copas de árvores vedava parcialmente a entrada do sol. Muitos que lá haviam estado contaram-lhe de fadas. Ela queria muito seguir em frente e descobrir que aventuras a jornada descortinaria, porém receios e dúvidas entremeavam-lhe os passos e fisgavam seus joelhos. Sentiu frio. Titubeou e imaginou-se ameaçada por monstros.

Quase entregue, olhou para baixo e viu seus sapatinhos opacos e sujos dos passos incertos no chão úmido. Não aspirou o inebriante aroma das flores; envergonhou-se de seu desleixo. Não se alegrou com o canto das aves;  lamentou o cabelo desfeito. Por fim, angustiou-se tanto com sua figura descomposta, que não pôde mais. Esqueceu-se do que a trouxera ali e voltou correndo os poucos metros que havia percorrido. Parou na clareira, no terreno seguro e conhecido. E nunca mais lá voltou.

Desde então, havia sempre este anseio insatisfeito a pulsar-lhe no âmago. Percorreu outros caminhos, descobriu mundos novos, apossou-se de sentimentos que ensinaram-lhe ser apropriados. O penteado não mais se desfez, tampouco os sapatos se sujaram. É verdade que, com os anos, cortou os cabelos e calçou saltos altos; deixou a saia colorida em favor de calças pretas e trancou o sorriso. Convenceram-na de que era assim que devia ser e ela o fez.

E agora, isto. Um chamado de volta ao caminho esquecido, um sms, um convite dele para jantar. O medo acercou-se novamente. Ela queria achar uma evasiva, mas não conseguia! O tempo escoou.  Sentiu cheiro de terra molhada, olhou para baixo e viu seus sapatinhos de outrora.  Havia tantos anos! Talvez o caminho não fosse tão temível... Percebeu os cabelos crescendo em tranças. Somente um jantar, não é? Haveria mesmo fadas?

Uma joaninha dourada pousou em seu ombro,  reluzindo como ágata de fogo e cegando o temor, que atordoou-se. Vendo-se solto, o desejo transbordou e ela aceitou o convite. Enfim, embriagada pelo perfume das flores, deixou cair o celular no chão coberto de folhas. Não percebeu. Enveredava novamente pelo caminho esquecido, entretida por uma ave que cantava ao longe.


quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

A verdade


A verdade serve para muito pouco, na verdade. “Serve para a gente ter razão, mas também pode machucar”, pensou Guilherme, quando descobriu aquele surpreendente fato sobre o pai e temeu por Carolina.

Nunca poderia imaginar que seu  progenitor fosse capaz de manter algo tão bem escondido, que nem a mãe parecia saber. E disso ele tinha certeza, porque ela era péssima em guardar segredos – o pai vivia brigando com ela por contar-lhes as surpresas sem querer!

 Como era possível? Se ele estava sempre em família, participava dos jantares, das viagens, das idas ao clube aos finais de semana, como achava tempo para manter duas vidas paralelas sem que ninguém desconfiasse? Decerto haveria de ter pessoas que trabalhavam para ele e o ajudavam nesse mister. Ah, ele bem lembrava que, mesmo durante as férias o pai atendia ligações importantes e urgentes!

Então... era isso mesmo! Não era ele, sozinho, mas uma rede complexa e intrincada de pessoas sob o seu comando. Sentiu-se confuso, mas orgulhoso porque o pai era importante. Porém, rapidamente encheu-se de dúvida: e Carolina? Deveria contar-lhe e destruir a imagem do pai sério, sisudo e até por vezes chato? O que ela faria quando soubesse sua verdadeira identidade? E se ela se decepcionasse e sofresse?

Guilherme era o irmão mais velho, o responsável, seu super-herói! Não podia destruir a infância de Carolina! Guardaria este segredo o quanto fosse possível, até quando ela descobrisse por seus próprios meios. Então ofereceria colo, amparo e guarida, se ela precisasse do seu ombro filial.

“Algumas crianças são fortes e aguentam saber a verdade”, ponderou. Mas outras, como Carolina, seriam bem capazes de morrer de ciúme, se descobrissem que o verdadeiro trabalho do pai era gerir uma rede de entregas de presentes para as crianças do mundo, sob o codinome de Papai Noel.




segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Café


Disse-lhe o nome e tomou sua pequenina mão. Maroto, beijou-lhe o dedo anelar, onde haveria de colocar uma aliança um dia, (tinha certeza!). Conduziu-a delicadamente, fê-la dar a volta ao balcão e com um movimento suave, mas preciso, enlaçou-a pela cintura.

Ela não ofereceu resistência. Pousou mansamente as duas mãos no peito dele e presenteou-o com um sorriso ensolarado.  Fitaram-se por alguns instantes e amaram-se com os olhos, depois com o calor emanando dos rostos tão próximos e, finalmente, com as bocas. Não moveram as mãos, nem perscrutaram as línguas, porque aquele beijo era terno... e público.

Incomodado, o chefe dela pigarreou. Afastaram somente os lábios –  tão difícil separar as almas quando vertem amor e desejo! – e riram baixinho. Não estavam envergonhados; fingiam apenas, para não suscitar a inveja das pessoas que nunca tiveram a sorte de amar e serem correspondidas. Viveriam felizes para sempre, ele sabia!

 Adorava cada particularidade daquela mulher: como às vezes uma mecha mais curta escapava-lhe do coque bem na nuca; como flutuava com rapidez e graça entre xícaras, muffins e lattes; como parecia cantar ao chamá-lo. Escreveria ela seu nome também no ar e sonharia, como ele fazia desde que entrara naquela Starbucks e se apaixonara por ela? Ah... ele poderia rodopiar para sempre naqueles olhos caramelos! Procurou-os para sorver doçura e...

— Raul? Raul! –  atrás do balcão, ela segurava o copo com o nome dele e não parecia feliz — O senhor é Raul? Espresso machiato?

Ele se desculpou timidamente com um aceno e, levantando-se, foi ao encontro dela, que deixou o café no balcão e logo se virou sem dizer palavra.  Mas ele não se importou com a frieza dela; sabe que um dia se fará notar. Então, dirá mais que seu nome: cantará seus anseios e a convidará para bailar sua poesia de amor.





terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Abandono


Teu coração dói
uma dor madura
de amor fugido,
De noites levadas
ao extremo esquecido.
O leite no copo,
a nata azeda;
e todos os choros
que o frio arremeda.
Não houve final,
o todo quebrou-se.
A porta entreaberta;
silêncio e foice.
Cobertas ao chão,
teu peito partido
e um resto de vida:
futuro encardido
e paz corrompida.