sábado, 7 de fevereiro de 2015

No samba



- Ok.

Em um ou dois segundos, Madalena rapidamente avaliou a situação. Pôs a mão na testa e pensou que a vida estava ficando cada vez mais difícil conforme ia envelhecendo. Logo depois, disse a si mesma “ora, deixe de drama!”, suspirou profundamente e repetiu:

-Ok.

Renato, que até o momento havia se concentrado em montar expressões de solicitude e pena compreensiva com as sobrancelhas grossas, aprumou-se. Não esperava que a moça tão falante e desenvolta pudesse arremedar sua posição com um anglicismo monossilábico e expressar, desse modo, tanto desprendimento.

- Como assim, ok?

- Ok, Renato.  – Madalena não esboçou sentimento ou intenção enquanto alcançava o copo de chopp e tomava um gole. 

- Você não está brava comigo? – ele levantou uma sobrancelha, intrigado.

- Não, por que haveria de estar? É seu direito, Renato. Você não quer mais sair comigo. Tudo bem. – ela sorria enquanto pegava o guardanapo para enxugar o canto da boca.

- Ah, que alívio, Ma! – disse ele, tocando a coxa da moça, mas retirando a mão logo em seguida. Não seria prudente exprimir tanta intimidade neste momento. -  Então podemos ser amigos!

- Sim, claro, Renato.

- Isso é ótimo, porque você sabe que gosto muito de você e da sua companhia. – Renato escolhia as palavras cuidadosamente.

Era pós-graduado em escândalos de mulheres rejeitadas. Sabia que o silêncio podia ser o preâmbulo de infinitas sessões chorosas, ligações telefônicas no meio da madrugada que indubitavelmente terminariam em acusações dramáticas.

- Eu também gosto da sua. –  Ela tocou a mão dele, a que repousava em cima da mesa e a pressionou levemente, enquanto dardejava os olhos de Renato com  fugaz doçura. Os olhos verdes dela brilhavam. Tudo não passou de 2 segundos, mas Renato sentiu a boca do estômago apertar.

Madalena esticou o braço, pegou um palito e foi com ele de encontro a alguma das guloseimas que se espalhavam pela tábua de frios que haviam pedido. “Ela está fingindo”, pensou Renato, “está simulando calma, mas eu a conheço. Ela vai explodir a qualquer momento”.

Renato sabia que seria uma questão de tempo para que Madalena, linda morena de cabelos ondulados  compridos e corpo caloroso e farto na medida certa, perdesse a compostura. Já havia presenciado algumas cenas, nestes muitos meses em que se relacionavam, quando a sambista da risada deliciosamente escancarada, “descera do salto”, como se diz no popular e pisara o ofensor descalça mesmo. “Melhor levá-la embora logo, antes que ela comece uma cena”. Estava preparando a língua e tomando fôlego para pronunciar melhor as palavras, quando Madalena disse:

- Que bom que você falou antes, Renato. – ela tomou outro gole de chopp e sorriu.

Ele esperaria pelo resto do discurso dela, se a boca estivesse em outra posição. E por isso, tão inesperada quanto a frase dela, foi a língua dele soltando, como um elástico de estilingue:

- Que?

Madalena suspirou e sorriu docemente:

- É... a gente não ia mesmo dar certo.

- O que você quer dizer? – Renato estava intrigado.

- Ah, Re... são tantas coisas... não vale a pena perder tempo com isso agora. Que bom que seremos amigos, não é?

O samba corria animado no bar e Madalena passou a cantar junto. Renato, contudo, ficou em silêncio. Coçou a cabeça, tentando entender. Paulatinamente, uma ideia meio desengonçada veio surgindo, incomodando os brios do moço e cutucando sua masculinidade. E quando a ideia tomou forma e pôde ser vista em toda a sua amplitude, ele estufou o peito.

Como assim? Ela não estava contente com ele? Mas ele não havia feito tudo o que podia para que o relacionamento fosse perfeito? Não havia sido o amante mais ardente, o companheiro mais divertido, o amigo mais disponível, o namorado mais afetuoso? (Se bem que, verdade seja dita, nunca haviam firmado um compromisso de “namoro”.) “Mesmo assim, que absurdo, eu tenho certeza de que fui um excelente... ”.

Quis verificar nos olhos dela alguma coisa que ele não sabia bem o que era – uma confirmação? Mas deu de cara com os cachos da morena, já que ela tinha o rosto voltado para o grupo de músicos, do lado oposto ao dele. Renato seguiu a direção do rosto dela e percebeu que o homem do cavaquinho também olhava para eles e sorria. “Não é possível, nem bem terminamos nosso namoro e ela já está paquerando outro?”

- Para, Madalena.
- Ahn?
- Para mas é já com esse descaramento!

A morena olhou languidamente para aquele homem sentado ao lado dela e o mesmo pensamento, aquele que cruzara sua cabeça tantas vezes desde o primeiro momento em que se viram, vagueou por entre as curvas do cérebro: Como ele é lindo!

Sentiu uma pontada de dor no peito. Que pena que ele nunca havia pensado em namorar. Ela adorava cada momento com Renato; sabia que um encontro com ele valeria sempre mais do que todas as flores do planeta e todas as ondas do mar, porque só ele conseguia trazê-la para um mundo de primaveras e fazê-la docemente feliz. Era uma alegria praticamente tangível, à qual se agarrava cada vez que saía do carro dele, quando ele a deixava em casa e dizia: “te ligo”. Madalena sempre escondia os olhos para não deixá-lo ver o medo que tinha de que ele nunca mais ligasse.

Não namoravam. Ele não tocava no assunto; tampouco ela, mas por orgulho. E mastigava a alegria que absorvia do samba, quando dançava; a mesma que foi se amalgamando à alegria que Renato trazia, até que ambas fossem uma só entidade. Agora a morena tinha um grande dilema à frente: Renato virara samba. Como bailar pela vida sem ele?

- Não to fazendo nada, Renato.
- Tá paquerando o do cavaquinho, eu to vendo!
- E daí?
- Como assim, e daí? Você está comigo!

Ela não conseguiu deixar de sorrir,  mostrando uma fileira de dentes alvos e brilhantes.

- Não to não.
- Como não está? – disse o rapaz,  elevando o tom de voz, bem no final da música.
- Você acabou de dizer que somos amigos, Renato.
- Não senhora, foi você quem disse isso.

Havia uma aspereza ameaçando a garganta de Madalena agora, mas os sambistas já iniciavam outra música e ela se levantou, de repente -  “Você... abusooooou....”

- Vou dançar, Renato. Você está um amigo muito chato hoje. – e fazendo coro com o resto do público do bar – tirou partido de mim, abusoooooou...

Renato foi mais rápido e pegou a mão dela que sobrava mais próxima dele:

- Espera. Você não pode me largar assim.

Ele mesmo se assustou com as próprias palavras. É claro que pretendia dizer  “aqui, sentado à mesa do bar, com este monte de frios esperando para serem comidos e a cerveja esquentando rápido, é verão, poxa, que droga!” Mas subitamente percebeu que havia dito muito mais do que isso. Havia, inopinadamente, deixado entrever todo o medo que sentia desde que ela aceitara sair com ele pela primeira vez. O medo da rejeição. Do fracasso e da perda. O medo de que outro homem, mais forte, mais viril, mais inteligente, mais rico, mais bonito – qualquer um – a tomasse dele para sempre.

Ele nunca havia falado em namoro e sempre se esquivava quando a cabeça insistia em perguntar as razões pelas quais fugia do compromisso. Que a vida fazia sentido com ela, com sua risada melodiosa, com o movimento sinuoso dos cachos dela no travesseiro ao lado dele, quando o dia ainda estava por nascer e um beijo azul alumiava o quarto, ah, isso ele nunca negou a si, ainda que não o dissesse a mais ninguem.

Evitava falar sobre ela. Quando perguntavam, era breve e evasivo. E para si, sempre que procurava motivos para não tomá-la definitivamente como parte de sua vida, inventava uma desculpa qualquer, que distante passava da realidade. A verdade obesa, enorme e pesada, era uma só: ele não podia suportar não tê-la ao seu lado. Enquanto ela não fosse oficialmente "dele", nenhum homem poderia  oficialmente roubá-la!

Os olhos verdes de Madalena cintilavam e a rouquidão soava muito aparente quando ela decidiu, impaciente:

- Eu vou sambar! – puxou a mão que ele segurava, mas ele não a soltou.

Ao invés disso, Renato levantou-se, como se içado pelos olhos da morena. Ouviu o partido alto batucando no coração e tomou consciência daquilo que sempre soubera instintivamente mas nunca deixara emergir: “não quero que minha vida seja um samba de uma nota só”.

- Samba comigo, Madalena.

Ela arregalou os olhos, achando estranho o convite dele,  depois achou graça e riu levemente:

– Tá bom. Vamos. – e graciosamente puxou o moço consigo em direção à roda de samba, mas ele ainda segurava sua mão e não se mexeu. Ela se voltou para ele – Que foi?

 - Espera.

Renato puxou uma onça da carteira e jogou na mesa. Tomando as mãos da moça novamente, começou a puxá-la para o lado oposto ao da roda, em direção à saída do bar.

- Onde você está indo? O samba é ali!
- Eu sei.
- Mas você disse que queria sambar comigo!
- E quero.

Madalena estancou e puxou a mão de Renato:

- Para, Renato. O que está acontecendo?

Ele sorriu, chegou pertinho, pôs as duas mãos no rosto da morena que marcava o compasso dos seus dias e – sem tomar fôlego, para não perder a coragem -  pediu:

- Samba comigo, Madalena? Pelo resto da vida?

O homem do cavaquinho – amigo da moça há muitos anos, mas isso Renato ignorava – puxou o próximo samba e o bar inteiro cantou sobre a prova de amor do Zeca. Enquanto isso, a prova de amor que se via entre Madalena e Renato era o pedido inesperado de parceria para compor o samba da vida, que ela aceitou com um beijo e uma brilhante lágrima.


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