sábado, 11 de julho de 2015

Ser vegetariano ou não: eis a questão?



Uma "palavrinha" sobre escolhas de alimentação.

Não, não sou vegetariana ainda. Mas sim, já faz muito tempo que venho abolindo coisas - itens isolados, um a um - da minha dieta. Conforme percebo que consigo, que não fazem falta, vou me sentindo mais forte e segura das minhas convicções. O que eu percebi é que há um momento certo para tudo, basta querer e ter um motivo forte, ético, para que a decisão se mantenha e ganhe robustez no cotidiano. 

Cortei o leite há muitos anos, o açúcar das bebidas há décadas, já não lembro quando decidi que certos bichos eu nem experimentaria, ou não comeria mais (tipo coelho, cordeiro, chester)... Há um ano eu decidi que não comeria mais vitela. Motivo: é um nenê. Não vejo necessidade de me alimentar de um nenê. Sim, eu sei que quem gosta tem várias razões para "saborear" um bife de vitela, mas eu não vi mais lógica nisso PARA MIM.

E é por isso que estou escrevendo este post. Tenha paciência e chegue ao final do texto. E, se sentir que faz sentido, junte-se a mim!

Há uma contenda forte no mundo dos vegetarianos versus carnívoros. E há falta de educação e de respeito prementes. Militantes vegetarianos e veganos adoram acusar os carnívoros de "assassinos" e "maldosos". E, em retaliação, carnívoros enxovalham vegetarianos com piadinhas preconceituosas e comentários depreciativos, especialmente no que concerne à inteligência de seus opositores.

Eu mesma tentei participar de um grupo vegano no Facebook, para ver se conseguia receitas e dicas de alimentação. Não consegui. A minha paciência acabou em um post onde os membros da comunidade se vangloriavam de terem feito um protesto, utilizando a imagem de um filhotinho de porco morto em um hambúrguer, na página de uma churrascaria conhecida. Fiquei com vergonha de estar aliada aquilo, desliguei-me da página. Sou contra a qualquer forma de terrorismo: um erro não se conserta com outro.

Nas últimas semanas, me abstive de carnes vermelhas e de aves. Achei que não conseguiria, por vários motivos, mas, especialmente, por estar tão acostumada. Mas o meu sentimento sobre os processos pelos quais porcos, vacas e frangos passam para que a carne deles esteja no meu prato vai cada vez mais contra meus princípios espirituais. Não, eu não assumi nenhuma religião, somente continuo sendo a mesma pessoa espiritualizada e tentando desviar de dogmas o tempo todo. Porém, minha ideia de indivíduo participante de um sistema chamado Terra tem se modificado, a ponto de agora minha alimentação e meus hábitos de vida estarem em conflito com o que eu acredito ser o ideal. Urge modificar algumas coisas...

Fiz uma oração para o Guy Upstairs e pedi ajuda para conseguir meu intento. Mas não foi preciso ajuda, nem houve sofrimento. Naturalmente, me vi pedindo os alimentos que acredito estarem mais "de acordo" com as minhas convicções. Não senti fome. Nem falta. Nem regozijo. Não me senti especial, nem diferente das outras pessoas. Nada.

O que eu senti foi que estava agindo de acordo com o meu senso de responsabilidade em relação a mim mesma (uma nutrição menos cheia de hormônios não naturais, de químicas, de gorduras) e ao planeta, com todos os seres vivos que eu considero exatamente iguais a mim. Não acredito em criacionismo e acho que somos somente mais uma espécie ocupando momentaneamente um nicho, para sermos extintos quando a pressão ambiental for maior do que nossa capacidade de adaptação, como aconteceu com tantas outras espécies e o registro geológico atesta tão bem!

Contudo, algo precisa ser dito. É esta a intenção desta postagem.

Em todas as refeições, estive acompanhada. Outras pessoas pediram carne e nem por isso me senti ofendida. Aliás, uma pessoa quis se desculpar, ao que eu redargui que não era preciso, pois ela estava em seu perfeito direito de comer o que lhe apetecesse. Eu nunca gostei quando meus amigos vegetarianos e veganos me admoestavam por comer carne. Por que eu passaria a fazer isso agora? A escolha é MINHA, o corpo é meu, o paladar é meu. Eu não tenho nada a ver com o que meu vizinho come (até certo ponto, claro, mas não estamos falando de situações extremas).

É claro que eu gostaria que as pessoas entendessem o quanto é maldoso e cruel o processo ao qual os animais são submetidos para que sua carne chegue até nós. É claro que eu adoraria convencer o mundo sobre a inteligência dos porcos e vacas, sobre a dor que sentem, sobre a consciência animal que a ciência vem atestando. Mas não é essa a minha função. Ademais, tenho certeza de que meu telhado é de vidro, pelo menos em algum ponto. E, sinceramente, não é da minha conta o que o outro faz, nem tenho predisposição para integrar as hordas da "patrulha alimentícia".

Além disso, a fome impera no mundo. Neste exato momento, milhares de pessoas sucumbem à desnutrição. Nao faz sentido, pra mim, bradar com todos, de maneira violenta, sobre escolhas de alimentação, quando milhões de pessoas não tem essa escolha, nem escolha NENHUMA. Como indivíduo do Sistema Terra, o que acontece do outro lado do planeta também é da minha conta. E antes de dizer a uma criança esfomeada que ela deve se nutrir de alface (atenção: sarcasm mode on!) eu prefiro que ela coma um bife de fígado e não morra.

Mas, espere, vc está sentindo alguma contradição no que eu disse? Como eu posso me importar com o Sistema Terra, mas dizer que não me interessa o que meu vizinho come? Como posso não bradar contra as injustiças que são cometidas diariamente com os animais?

Deixe-me explicar e, com isso, finalizar este post: eu me preocupo, sim. Mas não acredito que um discurso violento e cheio de ameaças funcione. Eu prefiro agir cada vez que todos estão pedindo seus pratos em um restaurante e eu estou demorando a me decidir porque estou perscrutando um menu em busca de opções. Perguntam-me se sou vegetariana, muitas vezes com ar de reprovação. E eu digo que não, sorrio, feliz....

E explico que gostaria de ser e estou trabalhando para isso; que fui subtraindo da minha dieta os itens que julgava que podia abandonar e que tenho feito progressos; que muito me assusta os hormônios e químicas presentes nos alimentos; que tenho visto documentários sobre a inteligência e a consciência destes animais (a ponto de pensar em ter um porquinho de estimação, se eu ainda acreditasse em animais de estimação - e isso fica pra outro post, sorry!) e que tenho me sentido muito melhor assim.

Então a pessoa me pergunta: mas vc se importa se outros comem carne na sua frente?

E eu digo que não; que eu gostaria que um dia todos nós achássemos alternativas melhores para a nossa nutrição... e que, no estágio em que o mundo está, ainda me preocupam mais outras questões.

Com esta abordagem, esta calma, paciência e noção perfeitamente clara de que isto não me faz melhor nem diferente de ninguém, tenho convencido muitas pessoas a diminuir a ingestão de carne e a adotar alternativas mais saudáveis e sustentáveis. Através do exemplo, sempre feliz, compreensivo e amoroso.

Alguns podem dizer que sou covarde, que deveria ser mais incisiva se acredito tanto nisso, lutando de verdade pelos direitos dos animais. Da minha parte, acho que as verdadeiras mudanças levam tempo. Pessoas que tomam decisões precipitadas, coagidas por discursos ferozes, voltam atrás. As pessoas que convenci nestas semanas estão felizes e seguras das suas opções. Desculpem-me os militantes ativos, mas a minha militância é paciente e amorosa.

Porque, afinal de contas, o amor é realmente a única resposta para tudo neste mundo (e, se houver outros, naqueles também). ;-)

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10Então, Jesus conclamou a multidão a aproximar-se e pregou: “Ouvi e entendei! 11Não é o que entra pela boca o que torna uma pessoa impura, mas o que sai da boca, isto sim, corrompe a pessoa”.


(http://bibliaportugues.com/kja/matthew/15.htm)