quarta-feira, 9 de novembro de 2016

E agora?

http://www.latimes.com/



Fala-se muito, especialmente na mídia e nas redes sociais, sobre os direitos das minorias (ainda bem!), cujas conquistas das últimas décadas foram suadas e ainda são frágeis.

 

Porém, às maiorias xenófobas, ignorantes e racistas não foi facultado o direito à mediação destes processos, em linguagem adequada, continuamente, para que pudessem entender e aceitar os "novos" conceitos, muito mais humanitários. Tampouco lhes foi proporcionado o reconhecimento por terem "sobrevivido" e estabelecido suas vidas em um mundo onde muitos não eram respeitados. É comum que se expressem contra as minorias e seus direitos e lutas, bradando que são absurdas, que desrespeitam a moral e os bons costumes e que "na minha época não era assim".



http://consciencia.blog.br/


Não são tanto os jovens que precisam de explicações sobre o caráter hediondo do preconceito. Eles já nasceram em um contexto mutante, alimentado por meios de comunicação velozes e pela Internet que tudo tem. Sempre há uma "ovelha negra" na própria família ou de algum conhecido,  um professor controverso na escola dos filhos, um padre mais liberal na paróquia, um vizinho "diferente". Tudo está mais exposto à apreciação dos outros, até de desconhecidos, nas redes sociais. As novas gerações são apresentadas aos gritos de guerra de um e outro lados e acabam por escolher, ainda que por vezes não assumam suas crenças diante dos mais velhos.
 


No entanto, muitos senhores e senhoras que passaram fome no pós-guerra, que temeram as ditaduras, que não se entendem com computadores, são justamente aqueles que não conseguem absorver a rapidez das mudanças do mundo, que não conhecem ou têm dificuldade em conceber outras culturas e, por isso, sentem muito medo do desconhecido.




http://en.europenews.dk/


Não se forçam aos mais velhos as mudanças goela abaixo, especialmente quando desafiam paradigmas que foram absorvidos na infância e com os quais balizaram suas existências. 


Para eles, é difícil aceitar a "nova ordem mundial";  insistem em manter intocável a zona de conforto - que pode não ter sido nada confortável no início, exigindo-lhes que decepassem algumas arestas para que coubessem na caixinha que a sociedade lhes reservara  -   e, pior ainda, ensinam e exigem que sua prole respeite e viva dentro destes mesmos valores obsoletos e cruéis.





https://ateuedai.com/2014/04/  e  http://paroutudo.com/



O resultado é esse que se vê correr o mundo e se exprime na recusa em receber os refugiados, no Brexit, na vitória de Trump... Não vai parar por aí. Através do voto, os que se sentiram atropelados pelas mudanças sociais que dão luz e ar aos que viviam na sombra, manifestam sua ignorância e medo silenciosa e diligentemente. 


Eles são muitos e estão se fazendo ouvir. Não saem às ruas com placas e gritando palavras de ordem; apertam um botão ou escrevem um "X", em uma atitude de repulsa poderosa e definitiva.




http://www.defenddemocracy.press/


O que fazer agora? Esperar que o fogo se alastre e queime tudo até que o combustível se extingua? Observar enquanto as contendas parcialmente localizadas no mundo dominam até os povos aparentemente mais pacatos?
 

Urge que ensinemos com paciência e respeito a mesma paciência e respeito que esperamos dos que não conseguem assimilar o "novo" - mais justo e mais humano. Precisamos contar aos mais velhos que "os outros humanos", especialmente aqueles que conseguiram recentemente um "lugar ao sol", não são necessariamente ruins, não vão lhes roubar os direitos arduamente conseguidos, nem extirpar-lhes a paz. Precisamos dar tempo aos renitentes para assimilar tudo isso, enquanto garantimos a segurança, a liberdade e o bem-estar dos dois lados.

 

http://www.mundodastribos.com/



É difícil - dificílimo! - mas não é impossível. Não acalento a ilusão de que seja um processo com total chance de êxito, mas também sei da História que discursos de ódio florescem em ramas de mentira plantadas em solo fertilizado com medo. Precisamos dissipar este temor o quanto antes, a não ser que queiramos ver o mundo em chamas novamente e em um futuro muito próximo.
 





quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Gratidão





Nunca desvendei você.

Quando eu nasci, você, sem dinheiro, pintou móveis usados e trocou os puxadores das gavetas, só para fazer combinar de branco e rosa o meu quarto de nenê. Em 1975, você era um marceneiro!

Quando eu era pequenina, você me enganava sempre. Uma hora, o coelhinho estava fora da cartola, de um lado; no instante seguinte, sabe-se lá como, já havia pulado para o outro lado e se aninhava no chapéu, simplesmente com o bater dos pauzinhos! Em 1978, você era um mágico!

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Aos 6, você me deu uma bicicleta. Era verde-militar e cintilante. Você colocou as rodinhas de apoio, para ajudar meu equilíbrio, mas não retirou meu pé da catraca, quando o prendi. Frente às minhas lágrimas, impassível, você ordenou que eu me acalmasse; que lembrasse a sequência de movimentos que culminaram naquela situação dolorosa; que os revertesse. Eu obedeci e me libertei, sozinha.  Em 1981, você era um líder! 

Afagando meu cabelos castanhos e grossos – exatamente como os seus –  ensinou-me: "Não há situação desesperadora demais. Sempre mantenha a calma para conseguir enxergar a saída."  Foi assim que você conseguiu escapar do incêndio do Joelma, ou de quase morrer afogado, quando menino, na Ilha do Governador, ou ainda, de ser preso na ditadura. Era raro você contar histórias sérias - você sempre foi contador de piadas!  - mas quando o fazia, nos mantinha surpresos, olhos arregalados, respiração suspensa. Mesmo que fosse a quinta vez... mesmo que fosse a vigésima vez!

Durante meus anos de escola, você nunca permitiu que eu entregasse um trabalho mal feito. Ensinou-me que a apresentação era importante, quando fez-me transformar a cartolina verde-bandeira em uma pasta – naquela época, fazíamos as coisas muito mais que as comprávamos, pois o dinheiro era sempre escasso – e adorná-la com uma fita verde e amarela. Dentro, havia o discurso de 7 de setembro que eu leria em voz alta, o qual você ensaiou comigo. Em 1982, você era um diretor de cena!


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Você era artista plástico, quando em 1986, transformou comigo um punhado de palitos de churrasco e bolinhas de isopor, coloridas por tinta de carimbo de escritório, em um grande cristal de NaCl e outro de diamante, para a Feira de Ciências; 

ou quando em 1987 ajudou-me a ilustrar o livro que eu havia escrito para o trabalho de Português, ensinando-me a fazer garatujas engraçadas que lembravam animais; 

ou em 1988, quando nos ajudou a improvisar um cenário para a peça de teatro que eu havia escrito para a escola, desenhando uma plantação de cana-de-açúcar em papel kraft.

Talvez eu nunca conhecesse seu lado ilustrador, se eu não escrevesse. Mas eu só escrevo, porque em 1981, você me deixou em frente à máquina de escrever, no seu escritório. Eu escrevi minha primeira história, cuja trama você ajudou a resolver. Alguns anos mais tarde, lendo minha redação, uma lição de casa, julgou-a curta. Ensinou-me que as palavras não poderiam ser poupadas, de modo que o tecido da trama ficasse robusto, conduzisse e suportasse bem o leitor. E em 1985, você era editor!

As palavras? Você ensinou-nos onde buscá-las. Raras foram as vezes em que, ao almoço, surgindo a dúvida, você não nos fizesse ausentar à mesa para correr ao dicionário enorme e pesado e ler, em voz alta, a definição, as origens e a formação do vocábulo. Você era professor de português!

Durante muitos anos, você foi muitas outras coisas: o astrônomo aficcionado pelo universo; o matemático deslumbrado que adorava malabarizar números, surpreendendo os interlocutores; o niilista que gracejava com sutil sarcasmo;  o exímio jogador de snooker; o corretor de imóveis imbatível. Você foi o músico dos festivais de 1970, o radialista, o compositor que reclamava quando eu aleijava um compasso anacrústico, mas que sempre me incentivava a cantar.

O seu coração, grande para acolher crianças e pessoas necessitadas sem nunca contar a ninguém, foi preguiçoso, insubordinado e rebelde. Quis fugir ao seu mister três vezes e, ao ver-se forçado pela medicina a continuar, fê-lo de má vontade, comprometendo toda a engrenagem.

Hoje, em 2016, eu não sei o que você é. A ciência, que você sempre preconizou, não desvendou ainda o que ocorre quando os batimentos cardíacos cessam e o metabolismo cerebral finda. O que eu sei é que sinto enorme gratidão por você ter desempenhado todos estes papeis na minha vida, ao longo de quase 42 anos. Muito obrigada!

Amo você, pai. Descanse em paz.