quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Gratidão





Nunca desvendei você.

Quando eu nasci, você, sem dinheiro, pintou móveis usados e trocou os puxadores das gavetas, só para fazer combinar de branco e rosa o meu quarto de nenê. Em 1975, você era um marceneiro!

Quando eu era pequenina, você me enganava sempre. Uma hora, o coelhinho estava fora da cartola, de um lado; no instante seguinte, sabe-se lá como, já havia pulado para o outro lado e se aninhava no chapéu, simplesmente com o bater dos pauzinhos! Em 1978, você era um mágico!

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Aos 6, você me deu uma bicicleta. Era verde-militar e cintilante. Você colocou as rodinhas de apoio, para ajudar meu equilíbrio, mas não retirou meu pé da catraca, quando o prendi. Frente às minhas lágrimas, impassível, você ordenou que eu me acalmasse; que lembrasse a sequência de movimentos que culminaram naquela situação dolorosa; que os revertesse. Eu obedeci e me libertei, sozinha.  Em 1981, você era um líder! 

Afagando meu cabelos castanhos e grossos – exatamente como os seus –  ensinou-me: "Não há situação desesperadora demais. Sempre mantenha a calma para conseguir enxergar a saída."  Foi assim que você conseguiu escapar do incêndio do Joelma, ou de quase morrer afogado, quando menino, na Ilha do Governador, ou ainda, de ser preso na ditadura. Era raro você contar histórias sérias - você sempre foi contador de piadas!  - mas quando o fazia, nos mantinha surpresos, olhos arregalados, respiração suspensa. Mesmo que fosse a quinta vez... mesmo que fosse a vigésima vez!

Durante meus anos de escola, você nunca permitiu que eu entregasse um trabalho mal feito. Ensinou-me que a apresentação era importante, quando fez-me transformar a cartolina verde-bandeira em uma pasta – naquela época, fazíamos as coisas muito mais que as comprávamos, pois o dinheiro era sempre escasso – e adorná-la com uma fita verde e amarela. Dentro, havia o discurso de 7 de setembro que eu leria em voz alta, o qual você ensaiou comigo. Em 1982, você era um diretor de cena!


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Você era artista plástico, quando em 1986, transformou comigo um punhado de palitos de churrasco e bolinhas de isopor, coloridas por tinta de carimbo de escritório, em um grande cristal de NaCl e outro de diamante, para a Feira de Ciências; 

ou quando em 1987 ajudou-me a ilustrar o livro que eu havia escrito para o trabalho de Português, ensinando-me a fazer garatujas engraçadas que lembravam animais; 

ou em 1988, quando nos ajudou a improvisar um cenário para a peça de teatro que eu havia escrito para a escola, desenhando uma plantação de cana-de-açúcar em papel kraft.

Talvez eu nunca conhecesse seu lado ilustrador, se eu não escrevesse. Mas eu só escrevo, porque em 1981, você me deixou em frente à máquina de escrever, no seu escritório. Eu escrevi minha primeira história, cuja trama você ajudou a resolver. Alguns anos mais tarde, lendo minha redação, uma lição de casa, julgou-a curta. Ensinou-me que as palavras não poderiam ser poupadas, de modo que o tecido da trama ficasse robusto, conduzisse e suportasse bem o leitor. E em 1985, você era editor!

As palavras? Você ensinou-nos onde buscá-las. Raras foram as vezes em que, ao almoço, surgindo a dúvida, você não nos fizesse ausentar à mesa para correr ao dicionário enorme e pesado e ler, em voz alta, a definição, as origens e a formação do vocábulo. Você era professor de português!

Durante muitos anos, você foi muitas outras coisas: o astrônomo aficcionado pelo universo; o matemático deslumbrado que adorava malabarizar números, surpreendendo os interlocutores; o niilista que gracejava com sutil sarcasmo;  o exímio jogador de snooker; o corretor de imóveis imbatível. Você foi o músico dos festivais de 1970, o radialista, o compositor que reclamava quando eu aleijava um compasso anacrústico, mas que sempre me incentivava a cantar.

O seu coração, grande para acolher crianças e pessoas necessitadas sem nunca contar a ninguém, foi preguiçoso, insubordinado e rebelde. Quis fugir ao seu mister três vezes e, ao ver-se forçado pela medicina a continuar, fê-lo de má vontade, comprometendo toda a engrenagem.

Hoje, em 2016, eu não sei o que você é. A ciência, que você sempre preconizou, não desvendou ainda o que ocorre quando os batimentos cardíacos cessam e o metabolismo cerebral finda. O que eu sei é que sinto enorme gratidão por você ter desempenhado todos estes papeis na minha vida, ao longo de quase 42 anos. Muito obrigada!

Amo você, pai. Descanse em paz.




Um comentário:

Jo disse...

:')