domingo, 12 de março de 2017

Literatura no Ensino Médio

publicado no Facebook em 5/maio/2014

(sobre a iniciativa de utilizar versões resumidas e facilitadas das obras clássicas que os alunos do Ensino Médio devem ler, obrigatoriamente, segundo o programa curricular deste ciclo)




Essa história de "facilitar" a leitura dos jovens, em projetos que tencionam simplificar obras literárias para o ensino secundário, (que antes eram abordadas em seu formato original), é a gota d'água. Há tempos quero ponderar algo de extrema relevância sobre Educação. Passei 22 anos na sala de aula como professora, estudei muito e falo a partir de um referencial tanto acadêmico quanto do cotidiano da prática docente.

Não vamos mais para escola para aprender sobre o mundo. Em plena era "google", informações são obtidas com o mínimo de esforço e, por isso, se este fosse o propósito das escolas, estariam todas dispensadas.

Vamos para a escola para ter AMADURECIMENTO COGNITIVO e justamente por isso convencionou-se agrupar os alunos em faixas etárias (exceto em escolas experimentais, como o belíssimo projeto da Escola da Ponte, em Portugal, mas que têm um motivo cientificamente embasado também e que não vou destrinchar agora): estando assim divididos, os alunos podem se beneficiar de abordagens direcionadas para o seu nível, para a sua "condição cerebral" momentânea.

É claro que há exceções entre os alunos! Esta é a razão pela qual classes pequenas são melhores que grupos enormes: o professor pode definir atividades que alimentem e desenvolvam o cérebro e as habilidades de cada um e ainda assim pode contemplar necessidades especiais/ individuais que todos nós temos (e que vêm sendo vilmente atropeladas há anos no ensino brasileiro!).

Então, até certo ponto, o conteúdo que vemos nas escolas deveria ser aplicado e trabalhado de modo a propiciar o desenvolvimento de habilidades linguísticas, matemáticas, visuais, inter e intrapessoais, cinestésicas, espaciais, musicais, naturalistas, espirituais e OBVIAMENTE, sociais. No entanto, por uma questão de índices de aprovação de vestibular e competição entre escolas, ainda nos anos 1990, o que aconteceu foi o inchaço dos currículos escolares com a inserção de conteúdos irrelevantes e que não cumpririam este papel supracitado (mas garantiram a colocação, nos primeiros lugares do ranking, de escolas que ofereciam programas especiais para alunos com "desenvoltura lógico-matemática", por exemplo).

Infelizmente, criamos uma escola onde há conteúdo demais e ele não é utilizado para auxiliar o aluno a desenvolver suas habilidades. E, por isso, todos os anos, o sistema educacional brasileiro vomita milhares de idiotas que não sabem, por exemplo, fazer um cálculo vetorial para atravessar a rua. Para quem não sabe, é o que fazemos: calculamos mentalmente a velocidade do carro e a nossa - ambas vetoriais, porque têm módulo, direção e sentido - e definimos se teremos tempo de atravessar ou não, calculando também quanta energia teremos que empenhar para explosão muscular da corrida ou para caminhada mais moderada.

Ou seja, nossos jovens de inteligência pouco desenvolvida, que não leram, não interpretaram orações mais rebuscadas, não fizeram exercícios de matemática, não discutiram situações de mecânica clássica, não entenderam reações químicas básicas, não apreciaram relações ecológicas, não conhecem de onde vieram historicamente, muito menos o espaço geográfico que ocupam, não conseguem (não sabem!) ser responsáveis pelo que ingerem no almoço, pelo que assistem na TV, por como dirigem e muito menos (e aí reside a grande maldade, que estou me contendo para não acreditar planejada e não me render à ideia de "conspiração"), VOTAR!!!

A boa notícia é que, segundo a ciência, essas rede neurais que configuram o aprendizado podem ser desenvolvidas em qualquer idade e, por isso, nem tudo está perdido. A má notícia é que o esquema está tão bem alinhavado que não basta termos novelas e outros programas de TV que corroborem um paradigma pífio, embasado no consumismo, na beleza, na jovialidade e - mais alarmante - na sexualidade exercida de maneira irresponsável: agora também simplificaremos os clássicos da literatura.

Por favor, da próxima vez que vc for compartilhar um post-piada falando que "mais um ano se passou e vc ainda não usou a fórmula de báskara", pense melhor. Vc a usa todos os dias. Não ela, exatamente, mas as estruturas cerebrais que vc desenvolveu enquanto a aplicava nas equações de segundo grau e que hoje ajudam vc a - pelo menos! - atravessar a rua e não se matar.







(https://www.google.pt/search?q=mais+um+ano+se+passou+bhaskara&espv=2&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ei=FaFWVIGyNc7laJH-gogE&ved=0CAYQ_AUoAQ&biw=1366&bih=643)




quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Carta ao meu vizinho rejeitado pela mulher



Caro vizinho,

Escrevo estas linhas sabendo que nunca as receberá – e mesmo que o faça, não as lerá! Escrevo porque algo em mim sangra cada vez que testemunho o seu infortúnio, tão parecido com o meu!

Sabe, não é que eu goste de bisbilhotar a vida alheia; é que nossas sacadas calharam de estar em lados opostos da mesma rua e na mesma altura. Atualmente, a minha cozinha é o cômodo que mais frequento no mundo depois do escritório da minha casa – nem minha cama tem me visto muito ultimamente! – e é quando faço um chá ou um café neste inverno infernal que observo a sua triste sorte.

Saiba que luto para não o fazer. Leio os rótulos dos alimentos, um artigo ou um livro… mas é mais forte que eu. Quando dou por mim, estou há minutos com os olhos lacrados em seus movimentos furtivos na sacada do apartamento e já a tristeza se instalou em mim.

Não sei ao certo o que me motiva a espreitar. Talvez seja a solidão que eu imagino que você sinta, cada vez que chama esse alguém dentro da casa que nunca responde. Parece-me um tanto com o que sinto agora, afastada do mundo enquanto escrevo minha tese, isolada tal qual você, forçada, voluntariamente, em meu cosmos (caótico!) individual e acadêmico.

Observo quando você puxa assunto com a sua vizinha e dei por mim sentindo ciúmes. Assisto você flertar com ela através da barreira instalada entre as sacadas dos dois apartamentos, esticando-se para tocá-la. Arrepia-me a ameaça da sua queda, mas admiro a sua coragem, fazendo acrobacias e desafiando a gravidade no 5º andar! Tamanha é a solidão, que vence o medo da morte? Quisera eu ter coragem e disposição para mais do que algumas postagens online!

Como você, eu também me sinto afortunada nos dias de sol e corro ao encontro do mais estreito raio para esquentar o corpo constantemente encolhido pelo frio dilacerador. Ambos nos esticamos languidamente, fechamos os olhos e suspiramos, já percebi! Minhas narinas se abrem como as suas na mais leve brisa tépida e acho que vejo você sorrir – ou será que imagino? Será que inventei esta simetria por estar reclusa e enregelada? Poucos eventos são mais solitários do que escrever uma tese, em um país estrangeiro, em um inverno tão gélido e úmido.

Envergonho-me em admitir que já imaginei você aninhado em meus braços (por favor, não alardeie, sou comprometida) e já inventei motivos para encontrar você ao acaso (na rua, algum dia, talvez?). Até sonhei uma noite que tocava a campainha do seu apartamento, fingindo pedir açúcar e roubava você só para mim. Acordei tateando a cama, ofegante, apavorada com a iminência de ter que explicar ao mundo que sofro com a ressonância do seu penar.

Perdoa-me por ser tão covarde. Não posso sequestrá-lo, não posso abraçá-lo, não posso sequer interceder – ah, essa cultura estrangeira que veda pequenas maldades em um invólucro de “vida particular”! - não sei nem ao certo onde você mora, nem como abordar você.


O que me acalenta é a ideia de que nossos infortúnios têm dia para acabar, pelo menos por hora: a chegada da primavera levará o frio e a chuva. Folgo em saber que nunca mais estarei nesta situação (só se faz uma tese de doutorado uma vez na vida!), mas meus olhos marejam quando penso no seu destino cíclico, a sina cruel de gato abandonado por sua dona, à chuva e ao vento gelado do inverno, na sacada do apartamento em frente ao meu.