quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Carta ao meu vizinho rejeitado pela mulher



Caro vizinho,

Escrevo estas linhas sabendo que nunca as receberá – e mesmo que o faça, não as lerá! Escrevo porque algo em mim sangra cada vez que testemunho o seu infortúnio, tão parecido com o meu!

Sabe, não é que eu goste de bisbilhotar a vida alheia; é que nossas sacadas calharam de estar em lados opostos da mesma rua e na mesma altura. Atualmente, a minha cozinha é o cômodo que mais frequento no mundo depois do escritório da minha casa – nem minha cama tem me visto muito ultimamente! – e é quando faço um chá ou um café neste inverno infernal que observo a sua triste sorte.

Saiba que luto para não o fazer. Leio os rótulos dos alimentos, um artigo ou um livro… mas é mais forte que eu. Quando dou por mim, estou há minutos com os olhos lacrados em seus movimentos furtivos na sacada do apartamento e já a tristeza se instalou em mim.

Não sei ao certo o que me motiva a espreitar. Talvez seja a solidão que eu imagino que você sinta, cada vez que chama esse alguém dentro da casa que nunca responde. Parece-me um tanto com o que sinto agora, afastada do mundo enquanto escrevo minha tese, isolada tal qual você, forçada, voluntariamente, em meu cosmos (caótico!) individual e acadêmico.

Observo quando você puxa assunto com a sua vizinha e dei por mim sentindo ciúmes. Assisto você flertar com ela através da barreira instalada entre as sacadas dos dois apartamentos, esticando-se para tocá-la. Arrepia-me a ameaça da sua queda, mas admiro a sua coragem, fazendo acrobacias e desafiando a gravidade no 5º andar! Tamanha é a solidão, que vence o medo da morte? Quisera eu ter coragem e disposição para mais do que algumas postagens online!

Como você, eu também me sinto afortunada nos dias de sol e corro ao encontro do mais estreito raio para esquentar o corpo constantemente encolhido pelo frio dilacerador. Ambos nos esticamos languidamente, fechamos os olhos e suspiramos, já percebi! Minhas narinas se abrem como as suas na mais leve brisa tépida e acho que vejo você sorrir – ou será que imagino? Será que inventei esta simetria por estar reclusa e enregelada? Poucos eventos são mais solitários do que escrever uma tese, em um país estrangeiro, em um inverno tão gélido e úmido.

Envergonho-me em admitir que já imaginei você aninhado em meus braços (por favor, não alardeie, sou comprometida) e já inventei motivos para encontrar você ao acaso (na rua, algum dia, talvez?). Até sonhei uma noite que tocava a campainha do seu apartamento, fingindo pedir açúcar e roubava você só para mim. Acordei tateando a cama, ofegante, apavorada com a iminência de ter que explicar ao mundo que sofro com a ressonância do seu penar.

Perdoa-me por ser tão covarde. Não posso sequestrá-lo, não posso abraçá-lo, não posso sequer interceder – ah, essa cultura estrangeira que veda pequenas maldades em um invólucro de “vida particular”! - não sei nem ao certo onde você mora, nem como abordar você.


O que me acalenta é a ideia de que nossos infortúnios têm dia para acabar, pelo menos por hora: a chegada da primavera levará o frio e a chuva. Folgo em saber que nunca mais estarei nesta situação (só se faz uma tese de doutorado uma vez na vida!), mas meus olhos marejam quando penso no seu destino cíclico, a sina cruel de gato abandonado por sua dona, à chuva e ao vento gelado do inverno, na sacada do apartamento em frente ao meu.







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