<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-1102069366961787656</id><updated>2011-11-22T02:49:07.760-08:00</updated><category term='Orkut neurose auto-estima espelho'/><category term='linguagem  vygostsky  charlie brown jr.'/><category term='plausível  factível  produção  literária Prochoroff'/><title type='text'>Rachel Prochoroff</title><subtitle type='html'>Artigos (publicados ou não), contos, crônicas e uma ou outra poesia perdida do passado.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://rprochoroff.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rprochoroff.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Rachel Prochoroff</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09943996098227202452</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/TEMy6spua2I/AAAAAAAAAJk/PmgmIc_N1Rs/S220/nhonho.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>28</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1102069366961787656.post-1910052624048938038</id><published>2011-02-08T14:00:00.000-08:00</published><updated>2011-02-08T14:05:57.739-08:00</updated><title type='text'>Ninguem sabe...</title><content type='html'>&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt; line-height: 115%;"&gt;Havia algo de muito terno naquelas linhas. Algo de titubeante e assustado, é verdade. Mas era infinitamente doce a curta mensagem, como a névoa no horizonte róseo ao amanhecer de um dia de verão que promete ser maravilhoso.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt; line-height: 115%;"&gt;Ester enxugou as lágrimas. Não sabia direito porque as vertia, em um pranto tranqüilo – desenhavam as gotas caminhos delicadamente sinuosos por sua face -&amp;nbsp; mas sentia dorido o coração, &amp;nbsp;uma melancolia pesarosa&amp;nbsp; que somente a ausência do ser amado sabe causar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt; line-height: 115%;"&gt;Naquele momento, uma miríade de pensamentos perláceos refulgiam em sua mente ,&amp;nbsp; causando uma enorme confusão. À ausência dele na aula, eventualidade para qual ela não havia se preparado, seguiu-se um momento de fúria, de auto-estima mergulhando ao subsolo do ser e de um medo subitamente agigantado&amp;nbsp; de que todas as promessas que vinha acariciando em sonhos enamorados talvez não passassem de imaginação fértil, muito fértil.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt; line-height: 115%;"&gt;Até mesmo o colega simpático que tomou o assento ao seu lado e procurou entabular conversa foi repelido com um esgar de frustração. Tentou o jovem ser sorridente e comunicativo, mas Ester simplesmente não lhe deu ouvidos. De posse do celular, escondido entre as camadas de camisetas coloridas e &lt;i&gt;cool &lt;/i&gt;que, sobrepostas, tornavam a aparência femininamente desleixada, ausentou-se do recinto pretextando ir ao banheiro. No entanto, o único desejo que tinha era entender a causa de tamanha irritação que queimava, impedindo a moça de se sentar, se levantar, andar ou estacionar. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt; line-height: 115%;"&gt;Por que não conseguia pensar? Por que sentia esse caleidoscópio a girar impiedoso dentro do peito, impedindo-a de vislumbrar qualquer coisa que não fosse a porta? Por que seu coração sobressaltava a todo minuto? Por que os olhos insistiam em fitar o mostrador do relógio enquanto ardiam a urgência do choro contido?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt; line-height: 115%;"&gt;Com o escoar dos minutos, Ester finalmente aceitou que ele não vinha. No início da terceira aula, inconformada, amuou-se, afundou na cadeira e ficou esperando o tempo passar em meio às moléculas das reminiscências do sorriso dele e das reações bioquímicas que os feromônios do moço ausente haviam bagunçado. Quando a aula acabou, pegou a mochila, o fichário e a agenda e saiu cabisbaixa, macambúzia e contabilizando quantos eram&amp;nbsp; os&amp;nbsp; tantos centavos que haviam escoado do seu valor pelo ralo do amor -próprio, levados ao esgoto dos amores não correspondidos. Estava em frangalhos e não entendia a razão de reação tão exagerada.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt; line-height: 115%;"&gt;Ao chegar em casa, custou a acreditar: a mensagem dele esperava, envergonhada, na caixa de emails. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: 12pt; line-height: 115%;"&gt;Desculpava-se pela ausência. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: 12pt; line-height: 115%;"&gt;Ester já havia notado que ele não gostava de escrever, porém tornava-se comunicativo quando junto estavam e distantes do mundo. &amp;nbsp;Cada linha da mensagem parecia reticente, mas significativa; simples, porém dotada de uma doçura tal que foi impossível à moça não flutuar, embalada pelos braços do sentimento que tanto havia olvidado e que por fim, resolveu aceitar. Estava apaixonada por ele.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt; line-height: 115%;"&gt;Havia algo de muito terno nos olhos de Ester, iluminados pelas lágrimas de rendição. Algo de titubeante e assustado. Mas era infinitamente doce o sorriso que o coração lhe trazia aos lábios, como a névoa no horizonte róseo ao amanhecer de um dia de verão que promete ser maravilhoso.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1102069366961787656-1910052624048938038?l=rprochoroff.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rprochoroff.blogspot.com/feeds/1910052624048938038/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1102069366961787656&amp;postID=1910052624048938038' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/1910052624048938038'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/1910052624048938038'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rprochoroff.blogspot.com/2011/02/ninguem-sabe.html' title='Ninguem sabe...'/><author><name>Rachel Prochoroff</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09943996098227202452</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/TEMy6spua2I/AAAAAAAAAJk/PmgmIc_N1Rs/S220/nhonho.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1102069366961787656.post-4937881751805902920</id><published>2010-09-19T15:15:00.000-07:00</published><updated>2011-09-18T07:06:52.376-07:00</updated><title type='text'>Denúncia</title><content type='html'>&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Ela ouve o barulho do carro parando e o freio de mão sendo puxado. Com isso, sua respiração acelera. Abre o pequeno vidro da janelinha da recepção:&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;- Boa noite – diz a recepcionista do motel, sempre com a mesma inflexão, desenvolvida através dos muitos anos insulsos no mesmo cargo, no mesmo horário e no mesmo local.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;O casal dentro carro parece estar em lua-de-mel. Taynara adora observar recém-casados, chega a se embevecer com o carinho que dispensam um ao outro. Porém, subitamente se apruma, quando recebe os documentos e percebe que, apesar das alianças, os nomes dos dois não revelam a comunhão cartorial. Observando melhor, pode enxergar a diferença de idade e compreende a imagem à sua frente. “Ah, cachorro!”, pensa, enquanto elabora uma cena mental da esposa sofrida, menopáusica, a esperar em casa pelo marido que nunca virá jantar.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Taynara entrega as chaves da suíte ao motorista cinqüentão, que não percebe sua expressão contrariada e espera o carro partir. Então, com um sorriso cínico a bailar pelos lábios entreabertos, se dedica à sua missão, com todo o devotamento de alguém que acredita estar desempenhando uma tarefa praticamente divina. Faz uma busca completa dos nomes online. O nome da moça revela instantaneamente perfis em sites, listas de convocados para chamada de matrícula e um blog. O dele, poucas coisas, links insípidos e sem importância. Em menos de 3 horas, Taynara se ufana de ter conseguido deixar um recado no perfil da esposa dele, em um site de relacionamentos: “Dona corna, presta atenção no maridão!”&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Toda a noite dá-se o mesmo: à conferência dos documentos, segue-se uma busca minuciosa que, sendo bem sucedida, culmina em uma denúncia, a qual Taynara chama de “justiça”. Pois que “pobre da mulher, ta lá, sozinha, só porque tá pelancuda, tadinha, não merece essa safadeza!”&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;No início, Taynara usava o computador da recepção. Mas um vírus contraído através de uma operação mais descuidada, quando a moça acessou inadvertidamente um site pornográfico, fez com que o patrão revisse a magnanimidade de tal condescendência: cortou a internet. Taynara precisou parcelar um notebook e adquirir o tal 3G. Endividou até a alma, mas o coração, peremptoriamente machucado no passado pela conduta infiel do único amor que tivera, fez de sua missão algo tão arraigado, que deixá-la de lado seria inconcebível.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Todas as noites, a recepcionista solteira de 45 anos, encalhada e ressequida pela amargura, pesquisava nomes, clicava em links, suava frio, até conseguir, pelo menos uma vez ao turno – número do qual se vangloriava, pois nunca havia falhado totalmente – denunciar maridos e esposas infiéis. No afã de ser mais produtiva e aumentar seu número de sucessos, Taynara aprendeu tudo o que pôde ou conseguiu sobre internet. E às colegas que a rendiam na troca de turno, e para quem relatava seus feitos, recitava sempre o mesmo mantra: “Mais um sem vergonha vai ter o que merece quando chegar em casa”.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;As moças não entendiam a raiva de Taynara. A princípio, comentavam suas impressões, sussurrando e discorrendo sobre o despautério da colega entre elas. Depois, passaram a sentir pena. Uma delas aconselhou Taynara a procurar ajuda psicológica e quase foi atirada pela janelinha da recepção. Outra, mais arteira, sugeriu que Taynara escolhesse um dos clientes, pesquisasse sua vida e tentasse se fazer notada online. Recebeu um tenebroso olhar como resposta. Por fim, as amigas se uniram e, pretextando uma cervejinha para comemorar o aniversário de uma delas, arrastaram Taynara para o bar e para o lado de um amigo galanteador da irmã da prima da vizinha da moça da lavanderia. O homem, apesar de bem-apanhado, também carregava uma galhada do passado, por entre os cabelos lustrosos e penteados para trás, a sombrear o sorriso esgarçado.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Deu certo. Os dois, unidos pela tragédia que assolara a vida amorosa de ambos, se identificaram tanto, que em pouco tempo foram morar juntos. Compraram móveis e eletrodomésticos no carnê, entupiram a mesinha de centro de bibelôs dos quais Taynara nunca se desfaria e praticaram o kama-sutra em todos os 3 cômodos do apartamento de João, o namorado.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Após alguns meses, porém, com a rotina do relacionamento estabelecida e tendo as doces azáfamas matrimoniais arrefecidas, Taynara se viu às voltas com a abstinência de adrenalina. Olhou para o notebook, que ainda trazia consigo, agora para mandar recadinhos apaixonados para João, e pensou, elocubrou... e sucumbiu à tentação. Com o próximo par de documentos à mão, reiniciou a rotina de antes. Em poucas horas, o vício já havia reconquistado todos os cantos de seu cérebro. Nas próximas noites, Taynara se percebeu mais eficiente do que nunca, e em uma quarta-feira, atingiu o incrível número de 3 denúncias! Desta vez, porém, temendo que as colegas denunciassem sua mania para o namorado, manteve tudo em sigilo.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;Taynara considerava que ninguém poderia conceber a santidade do serviço que prestava às pessoas! Dificilmente perceberiam a nobreza do seu intuito, que era a de restabelecer a verdade e a honestidade nas relações humanas, forçando cônjuges a despirem-se das falácias que impunham aqueles que amavam, ou que diziam amar. Por fim, ainda que relutantemente, admitiu: nunca, em hipótese alguma, relegaria novamente  à indiferença aquilo que havia sido seu empenho caro por tantas noites solitárias, antes que João aparecesse em sua vida. &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Estava a moça justamente pensando em quão digno era seu mister, quando, certa noite, o patrão pediu que cobrisse a falta de uma recepcionista em outro motel da rede. Taynara aquiesceu, considerando que, afinal de contas, era quinta-feira, João tinha futebol com os amigos e nem daria pela falta dela, já que sempre voltava tarde. Pegou a bolsa e foi, aceitando a carona do patrão, que seguia para o outro prédio, em outra parte da cidade.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ainda bem que tinha seu 3G! Taynara exultou, enquanto colocava suas coisas na prateleira e abria seu notebook! O primeiro carro, um casal normal, não a animou. Eram mesmo casados. O segundo, também não. Eram &amp;nbsp;muito jovens e não usavam aliança. Foi o terceiro carro, porém, que proporcionou à Taynara toda a adrenalina da qual ela precisava. Pelo vidro fumê ainda fechado da janelinha, Taynara reconheceu nada mais, nada menos que João. No banco do passageiro, as pernas cruzadas de uma mulher usando uma saia curta e saltos altos. Enrijecida pelo susto, balbulciou um boa noite em voz esganiçada enquanto abria uma fresta da janela e enfiava a mão para fora, pedindo os documentos. João também parecia não querer ser visto, pois imediatamente os forneceu, sem olhar para cima. Escondia o rosto com a mão esquerda, exibindo a aliança que selava o pacto entre Taynara e ele.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; A recepcionista esticou a mão trêmula e entregou a chave. Viu o carro partir rapidamente através do mar de decepção que inundava seus olhos. Suspirou. Considerou tudo o que havia construído com João nos últimos oito meses – não era pouco. Pensando bem, se comparado ao castelo em sua imaginação, era &amp;nbsp;irrisório, mas, convenhamos, não somente de fantasias mirabolantes pode um ser-humano viver! Sentou-se. Respirou profundamente. Tentou se acalmar. Entretanto, bem no âmago do seu ser, uma urgência, uma carência, um pedido forte, animalesco - quase biológico! - &amp;nbsp;começou a brotar. Sentiu o coração descompassando, o suor porejando a testa, enquanto a idéia agigantava e se avolumava diante de seus olhos, feito besta informe. Em poucos minutos, já não pôde mais concatenar idéia, diante da premência daquela necessidade. Jogou o notebook longe, estilhaçando a tela e seus sonhos. &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;- Ao diabo com a internet!- gritou. Com as mãos suadas, discou os números que conhecia tão bem e esperou, a alucinada ferocidade contida, para grunhir, em falso timbre, quando sua mãe atendeu a ligação:&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; - Presta atenção, sua filha é uma corna! To avisando! É corna!&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1102069366961787656-4937881751805902920?l=rprochoroff.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rprochoroff.blogspot.com/feeds/4937881751805902920/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1102069366961787656&amp;postID=4937881751805902920' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/4937881751805902920'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/4937881751805902920'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rprochoroff.blogspot.com/2010/09/denuncia.html' title='Denúncia'/><author><name>Rachel Prochoroff</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09943996098227202452</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/TEMy6spua2I/AAAAAAAAAJk/PmgmIc_N1Rs/S220/nhonho.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1102069366961787656.post-8829827476395818036</id><published>2010-07-30T20:28:00.000-07:00</published><updated>2011-09-18T07:07:49.694-07:00</updated><title type='text'>Nuvens</title><content type='html'>&lt;link href="file:///C:%5CDOCUME%7E1%5CCasa%5CCONFIG%7E1%5CTemp%5Cmsohtml1%5C01%5Cclip_filelist.xml" rel="File-List"&gt;&lt;/link&gt;&lt;style&gt;&lt;!-- /* Style Definitions */ p.MsoNormal, li.MsoNormal, div.MsoNormal	{mso-style-parent:"";	margin:0cm;	margin-bottom:.0001pt;	mso-pagination:widow-orphan;	font-size:12.0pt;	font-family:"Times New Roman";	mso-fareast-font-family:"Times New Roman";}@page Section1	{size:612.0pt 792.0pt;	margin:70.85pt 3.0cm 70.85pt 3.0cm;	mso-header-margin:36.0pt;	mso-footer-margin:36.0pt;	mso-paper-source:0;}div.Section1	{page:Section1;}--&gt;&lt;/style&gt;  &lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;O pai montava uma estante na sala. O menino brincava com um carrinho de plástico comprado na feira.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Pai, de que são feitas as nuvens?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Muito difícil essa explicação para uma criança de 5 anos, ele pensou.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- De algodão. – voltou a parafusar a prateleira.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;O menino girou o carrinho, tentou correr com ele de ponta cabeça no carpete, não conseguiu.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Elas são macias?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Ele testou a firmeza da prateleira, gostou do que sentiu, olhou para o menino e respondeu:&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- São... Devem ser, não é? Afinal, algodão é macio. – estendeu o braço, pegou a outra prateleira, colocou o parafuso em posição.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;O menino olhou com mais atenção para as rodas do carrinho. Puxou uma delas. O&amp;nbsp; eixo de metal trouxe a roda do outro lado consigo. Ele empurrou o conjunto para frente e para trás tencionando entender o movimento.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Pai, será que elas são doces?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;O parafuso estava emperrando. O pai suspirou:&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Acho que não. Eu nunca provei uma nuvem. O que você acha?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Não sei. – ele empurrava e puxava o conjunto roda-eixo-roda com força.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Gabriel, não faz assim, vai estragar o carrinho.- A voz do pai vibrou, esganiçada com o esforço, enquanto ele apoiava o peso do corpo contra a chave de fenda.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Pai, acho que é doce sim.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- O que, Gabriel?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- A nuvem. &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Não sei, filho, não sei. Alcança aquele parafuso ali pro papai. – e apontou para um canto da sala para onde a peça havia rolado.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Gabriel largou o carrinho e foi&amp;nbsp; na direção que o pai indicava. Pegou o parafuso, que chegava a ser grande nas mãos dele, esticou a mão para o pai,&amp;nbsp; entregou a peça e voltou para sua almofada de bichinhos e para o carrinho.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Pai, é doce. Eu tenho certeza.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;O pai agora lia o folheto de montagem da estante. Achava que algo estava errado, ou algumas peças deviam faltar, pois dois furos o encaravam desafiadoramente, esperando para serem preenchidos por&amp;nbsp; algo que definitivamente não se encontrava na caixa, tampouco no chão ou no saco plástico.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- É doce, pai.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Ah, filho, não sei. Nunca provei uma nuvem. Vai perguntar pra sua mãe, vai.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Sabe como eu sei?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Ah! – duas tampinhas de plástico se fizeram visíveis&amp;nbsp; como se materializadas de súbito, rolando por debaixo de um dos lados da caixa de papelão parcialmente rasgada e jogada no chão da sala.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Papai!&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;De posse das tampinhas e visivelmente mais aliviado, o pai finalmente olhou para o menino, que o encarava, indignado. Ora, como poderiam ser duas tampinhas de plástico tão mais importantes do que as nuvens de açúcar?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Desculpa, filho. É que o papai precisa montar isso antes do jogo começar. &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Gabriel pegou o carrinho e se levantou. Foi saindo da sala, emburrado. O pai sentiu remorso, largou as tampinhas, as prateleiras e a chave de fenda. Agarrou o filho, deu uma volta com ele no ar e sentou no sofá. Os dois riam.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Sim, Gabriel, as nuvens são doces.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- E como você sabe, papai? Você nunca provou!&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Ah, mas é só pensar um pouco! Você lembra quando fomos ao parque e você comeu algodão-doce?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- An-han.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- E quando encostava a língua, o algodão derretia?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- An-han.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Então! Você não vê como as nuvens somem quando chove?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Os olhos do menino se iluminaram. Ele riu gostosamente.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Papai, precisamos contar isso pra mamãe!&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Então vai lá, filho, enquanto eu acabo de montar isso aqui.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Pôs o filho no chão e se levantou, aliviado por cumprir seu papel de pai com decência. Deu um beijo na bochecha rosada de Gabriel, que se esquivou e saiu correndo em direção à cozinha, gritando:&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Mamãe! Mamãe! A chuva é de cuspe!&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1102069366961787656-8829827476395818036?l=rprochoroff.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rprochoroff.blogspot.com/feeds/8829827476395818036/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1102069366961787656&amp;postID=8829827476395818036' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/8829827476395818036'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/8829827476395818036'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rprochoroff.blogspot.com/2010/07/nuvens.html' title='Nuvens'/><author><name>Rachel Prochoroff</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09943996098227202452</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/TEMy6spua2I/AAAAAAAAAJk/PmgmIc_N1Rs/S220/nhonho.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1102069366961787656.post-3206258232768812292</id><published>2010-07-18T11:26:00.000-07:00</published><updated>2010-07-18T11:28:09.088-07:00</updated><title type='text'>Mas o que está acontecendo??</title><content type='html'>Se você reparar nas datas das postagens, verá que não escrevo há algum tempo. Tenho usado toda a minha criatividade em outros projetos que demandam toda a minha energia. Há um livro sendo feito, muitas aulas sendo preparadas e relatórios sendo escritos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo, logo, porém, espero ter tempo para postar aqui novamente!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1102069366961787656-3206258232768812292?l=rprochoroff.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rprochoroff.blogspot.com/feeds/3206258232768812292/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1102069366961787656&amp;postID=3206258232768812292' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/3206258232768812292'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/3206258232768812292'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rprochoroff.blogspot.com/2010/07/mas-o-que-esta-acontecendo.html' title='Mas o que está acontecendo??'/><author><name>Rachel Prochoroff</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09943996098227202452</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/TEMy6spua2I/AAAAAAAAAJk/PmgmIc_N1Rs/S220/nhonho.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1102069366961787656.post-8220618065740400592</id><published>2009-02-04T12:55:00.001-08:00</published><updated>2009-02-04T13:09:15.501-08:00</updated><title type='text'>Ninguém está vendo.</title><content type='html'>&lt;p align="right"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;publicado na Revista Substrato - CEPEGE, IGc/USP&lt;/em&gt; &lt;em&gt;(novembro/08&lt;/em&gt;)&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;“- Ligo pra você.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Com essa frase, os dois encerraram a conversa. Ela foi embora esperando esse telefonema ansiosamente. Ele, nem tanto.”&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;    Essa cena poderia ser característica de qualquer filme piegas de sessão da tarde. Nele, a mocinha seria uma atriz bonita, de traços delicados, trajando um vaporoso vestido florido.&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;Ela sairia de cena andando por uma rua de Nova Iorque, na primavera. Nós, espectadores, vê-la-íamos ir embora, saltitante, enquanto ele se voltaria para o lado oposto, colocaria as mãos no bolso do casaco leve e iniciaria sua caminhada deixando o lugar. Se essa cena acontecesse nos primeiros trinta minutos do filme, saberíamos que haveria um conflito que se resolveria ao final, levando as adolescentes sonhadoras às lágrimas. Porém, essa situação passa longe de um filme.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;            A cena em questão se desenrola em um saguão de uma empresa, após uma entrevista de emprego onde a moça desfiou seus planos de futuro e descreveu habilidades e defeitos de sua personalidade. O homem, um funcionário da área de Recursos Humanos a entrevistou, fazendo as perguntas padronizadas, com uma ou outra variação aqui e ali, para garantir o elemento surpresa. A moça não se saiu bem, faltou-lhe desenvoltura, conhecimento e experiência na área. O entrevistador, após anotar alguns rabiscos na ficha da candidata, escolta a moça até o saguão da empresa, onde se despede, dizendo a frase supracitada.&lt;/p&gt;            O desenvolvimento da história, corriqueira, é interrompido no momento em que a moça toma o elevador e deixa as dependências do prédio, pois o entrevistador nunca ligará para a candidata. Nem mesmo para lhe dizer o que foi que lhe faltou para conseguir a vaga. A assertiva “ligo para você” serviu como o que se costuma denominar, na Lingüística, fim de turno, ou seja, o sinal que um interlocutor envia ao outro para indicar que sua fala ou seu discurso foi finalizado. Em um processo de comunicação, o fim de turno é utilizado &lt;i style=""&gt;ad libitum&lt;/i&gt; para garantir que haja entendimento e os interlocutores não atropelem suas falas mutuamente. Porém, extrapolando-se minimamente a definição lingüística e utilizando um pouco de poesia, poderíamos dizer que&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;nós, seres humanos, utilizamo-nos de diversos “fins de turno” ilícitos para nos livrarmos de situações quaisquer que assolem nossa zona de conforto.&lt;br /&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;            Em algum momento da década de 1970 houve a circulação de uma propaganda de cigarros que fazia apologia à malandragem e à necessidade de “ser esperto”. Nessa propaganda, o jogador de futebol da seleção brasileira Gerson se vangloriava de tirar vantagem das situações e por isso a justificativa para o comportamento em questão ficou conhecida como Lei de Gerson. Atualmente talvez seja bastante difícil encontrar algum jovem que saiba dizer de onde surgiu essa idéia. Porém, ela se encontra arraigada no comportamento da maioria dos brasileiros. É preciso ser esperto. Você deve levar vantagem em tudo. Se for preciso, minta. Distorça a realidade. Mude a descrição de um fato ou o ponto de vista de um acontecimento. Se alguém quiser confrontá-lo, finja desentendimento. E continue sua vida, obrigado, volte sempre.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;            Longe de ser somente uma idéia vilipendiosa e torpe, isso é uma estratégia social. Aprendemos desde cedo que dizer a verdade nem sempre é a melhor solução, especialmente se houver a possibilidade de magoar alguém. Torna-se preferível usar recursos como eufemismos, metáforas, parábolas e fábulas. Qualquer um de nós já se deparou com uma situação onde uma criança, cujo Superego ainda não foi totalmente desenvolvido, diz exatamente o que pensa, enquanto os adultos ao redor se contorcem de vergonha e os pais da criança lhe puxam as orelhas, muitas vezes, porém, abafando um riso, por saberem que as palavras proferidas, embora danosas, descreveram a mais pura realidade.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;        O Superego é a sociedade introjetada no indivíduo. A criança vai construindo a representação interna das normas sociais através de seu relacionamento com pais e adultos responsáveis por cuidarem dela. Um ser humano minimamente são, que apresente o desenvolvimento de suas habilidades cognitivas básicas, consegue aprender que há momentos em que certas coisas não devem ser ditas. A não ser que o indivíduo desenvolva problemas psicológicos ou psiquiátricos, ele aprende a utilizar a chamada “mentira cor-de-rosa” para conseguir se desvencilhar de situações que podem resultar em embaraços fenomenais. Quando isso não acontece, diz-se do indivíduo, na Psicanálise,&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;que ele “não apresenta o Superego fortalecido”.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;            O problema básico proposto por&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;Freud é que o ser humano apresenta “pulsões” –&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;que poderíamos traduzir no linguajar cotidiano por “desejos”, ainda que esta palavra seja muito carregada de outros sentidos e de diversos usos que não necessariamente coincidem com a terminologia freudiana. As pulsões guiam toda uma série de comportamentos do indivíduo, mas as etapas pelas quais ele terá de percorrer para atingir o prazer dependerão do nível de coerção ao qual foi submetido e de sua capacidade de sublimação. Em outras palavras, o ser humano apresenta vontades, necessidades e desejos e a sociedade ensina estratégias “adequadas” para que nos apropriemos do prazer.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;               É claro que as linhas da Psicologia e até da Psicanálise divergem nesse sentido. Enquanto psicanalistas falam em pulsão e sublimação, behavioristas, por exemplo,&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;dirão que o sistema de compensação do meio no qual o ser foi inserido será o fator delimitante decisivo para apontar quais mecanismos o indivíduo utilizará para alimentar suas vontades e necessidades. De qualquer forma, o ser humano apresenta instintos animais, características biológicas, medos, angústias e estratégias de sobrevivência. Juntos, todos esses elementos compõem um universo muito complexo onde ora o simbólico emerge, ora passa a ter caráter secundário, tornando cada um de nós indivíduos muito peculiares. Para uma adolescente, por exemplo, a fome pode ser menos importante que a atenção que ela angaria por causa do corpo perfeito, resultando em anorexia. O fator psicológico, nesse exemplo, (necessidade de carinho) suplanta o biológico (fome). &lt;/p&gt;  &lt;p style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;    O pensamento judaico-cristão preconizou a orientação de que o ser humano desse menos vazão aos seus instintos terrenos&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;e fosse mais centrado em outros valores, ditos espirituais. Se por um lado isso trouxe mais respeito às nossas relações, por outro causou uma série de conflitos inomináveis para aqueles cujas paixões são incontroláveis. Winnicott, importante psicanalista inglês do século XX, diz que o homem maduro é um ser capaz de dar vazão às suas necessidades sem com isso&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;tornar-se completamente anti-social, identificando-se com a sociedade sem sacrificar sua espontaneidade. Porém, o paradigma social nos instiga a olvidarmos o que queremos e somos. Espera-se que não sejamos maus, não sintamos raiva ou ódio, não queiramos vingança, não procuremos desvairadamente a melhor posição social, mesmo que seja alcançada à custa de um de nossos pares. Sendo absolutamente realista, diria que isso equivale a pedir a um macaco que não pise nas cabeças de outros macacos do grupo para conseguir o melhor fruto da árvore. Sendo um do grupo, pediria que não pisassem em minha cabeça, por favor.&lt;/p&gt;  &lt;p style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;       É nesse espírito que assistimos a Ensaio sobre a Cegueira (baseado no livro homônimo de Saramago) e encontramos o pior de nós mesmos estampado diante de nossos olhos e sendo jogado sem cerimônia contra nós. Vemos a vilipendiada condição humana, quando o lustro social não mais impera e a animalidade encontra vazão na busca pela sobrevivência. Não a sobrevivência meramente física e biológica, mas aquela que depende da sanidade do ser, destituído das estratégias que construímos ao longo de milhares de anos de sociedade, beirando, por isso, a loucura. Quando a cegueira branca se alastra pela humanidade como uma epidemia da qual somente a esposa de um médico é poupada sem explicação, um grupo é colocado em quarentena pelo governo. Confinados, recebendo parcas rações, reduzidos a animais, cometem abusos e absurdos. Tanto no filme quanto no livro, fica claro que tudo o que vemos acontecer é resultado de uma dor incomensurável e da necessidade de se proteger das ameaças externas, que agora não são mais visíveis e que podem, por isso, vir de qualquer lugar e a qualquer hora. E assim, voltamos a ser animais, matando, estuprando, roubando, traindo quem nos ama, espancando-nos uns aos outros e defecando no chão.&lt;/p&gt;  &lt;p style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;        Não posso me furtar a pensar que, apesar de não apresentarmos a cegueira branca, nós somos assim, estes mesmos animais, porém cegos e loucos em muito menor grau. Esta é a condição humana. Fazemos o que nos é possível para sobreviver, para lidar com nossas frustrações, paixões e ansiedades, medos e angústias, pisando nas cabeças de outros da nossa própria espécie, em busca do fruto mais saboroso. Porém, isso não é reprochável. Só é digno de pena. Porque é uma necessidade do ser humano recorrer a válvulas de escape (lícitas ou não) nessa grande panela de pressão que é a sociedade. O mais curioso é que&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;somos nós mesmos que fechamos a panela e instalamos a válvula – álcool, drogas, sexo, religião e quaisquer outros paliativos imaginários para minimizar o medo, a angústia, a frustração de não podermos dar vazão às nossas pulsões.&lt;/p&gt;  &lt;p style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;    Sendo cozidos por todos os lados, a mentira cor-de-rosa mostra-se altamente refrescante, livrando-nos da situação constrangedora de não querermos contratar a candidata que não teve bom desempenho na entrevista, de não pretendermos mais sair com aquela determinada pessoa que perdeu interesse sexual para nós, ou , ainda, de termos que expressar nossa opinião sobre o vestido horroroso de lycra roxa e laranja da amiga gorda. Não sofremos do mal da cegueira branca, mas todos nós fingimos não enxergar o que está acontecendo enquanto mentimos desvairadamente em busca de paz. Será que algum dia conseguiremos ver sem tanto medo?&lt;/p&gt;  &lt;p style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;i style=""&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;i style=""&gt;Agradecimentos: Gostaria de agradecer imensamente às psicólogas&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;Alice L. Luzes (PUC-SP) e Elisa Amaral (USP-SP) por todos os momentos de discussão que culminaram nas conclusões expostas neste artigo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1102069366961787656-8220618065740400592?l=rprochoroff.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rprochoroff.blogspot.com/feeds/8220618065740400592/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1102069366961787656&amp;postID=8220618065740400592' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/8220618065740400592'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/8220618065740400592'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rprochoroff.blogspot.com/2009/02/ninguem-esta-vendo_04.html' title='Ninguém está vendo.'/><author><name>Rachel Prochoroff</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09943996098227202452</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/TEMy6spua2I/AAAAAAAAAJk/PmgmIc_N1Rs/S220/nhonho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1102069366961787656.post-8209745665934829966</id><published>2009-02-04T12:45:00.001-08:00</published><updated>2011-09-18T07:05:51.306-07:00</updated><title type='text'>Honestidade. Com "H" maiúsculo.</title><content type='html'>&lt;div align="right"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-size: 85%;"&gt;&lt;i&gt;publicado na Revista Substrato - CEPEGE, IGc/USP&lt;/i&gt; &lt;i&gt;(agosto/08&lt;/i&gt;)&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;- Teacher, que letra é aquela?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Levanto os olhos do caderno do Marcelinho&lt;a href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=1102069366961787656&amp;amp;postID=8209745665934829966#_ftn1" name="_ftnref1" title=""&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;; font-size: 12;"&gt;[1]&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;, que eu corrigia, olho para o Carlos, o aluno que fez a pergunta e sigo a direção  de seu dedo que aponta para a lousa, onde se via um “H” em letra bastão no início da frase &lt;i&gt;“How many  legs does an insect have?”&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;- Qual? &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;- Aquela ali. Do começo da frase.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;- É um “H”.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;- Maiúsculo?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;- É. – pergunto-me se aquela conversa é realmente necessária. Pondero que o Carlos apresenta vários problemas de disciplina, uma ou outra característica que pode indicar hiperatividade e muitas evidências de dificuldade de concentração. Relembro as aulas de Psicologia e reflito se a pergunta sobre a letra não seria um indicativo de que Carlos está demonstrando, com tal atitude,  uma premente necessidade de se desacoplar da realidade que o cerca. Tudo isso passa por minha cabeça em frações de segundo.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Vou até a lousa. Pego o apagador. Apago o “H”. Murmúrio geral da classe, que presta atenção a todo e qualquer movimento que eu descreva. Nessa idade, sete para oito anos, cada traço que a professora faz na lousa é um evento, uma diretriz, uma lei. Deve ser copiado à risca. Finalizaram o processo de alfabetização, já reconhecem a diferença entre letra bastão e letra cursiva faz tempo, mas não são autônomos ainda para decidirem qual usar, dependendo da ocasião.  Pego o giz colorido, rosa. Na iluminação da sala àquela hora da manhã, o giz rosa é o mais visível no quadro verde-escuro liso e bem cuidado, sutilmente quadriculado de um verde ainda mais escuro com as linhas-guia. Faço novamente o “H”, agora em letra cursiva.  Marta, uma menina de olhos perspicazes, pergunta:&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;- Teacher Rach, tem dois “o” depois do “H”?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;E Paulo arremeda:&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;- Que letra é essa, teacher?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;- It’s a capital “H”, Paulo. Um “H” maiúsculo.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;- Não é não, teacher. Isso é um “N”&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;E Marcos  intervém:&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;- Não, é um “N” ao contrário!&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;O murmúrio transforma-se &lt;st1:personname productid="em barulho. Muito" st="on"&gt;em barulho. Muito&lt;/st1:personname&gt; barulho. Todos agora estão concentrados na necessidade de desvendar que letra é aquela que a &lt;i&gt;teacher&lt;/i&gt; escreveu no começo da pergunta -  a qual orienta somente um passo da atividade de leitura -  e porque existem duas letras “o” logo depois da letra estranha. O primeiro “o”, na verdade, não é um “o” e sim parte do rebuscado H maiúsculo que aprendi a fazer quando era criança e o qual abandonei logo na adolescência em favor de letras mais “limpas” visualmente.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Suspiro. Por que estão fazendo isso comigo? O que custa concentrar-se na atividade e achar quantas pernas o diabo do inseto tem?  Já não repetimos exaustivamente a pergunta quando conversamos sobre o conteúdo.? Tento acalmar meus pensamentos e retomar o controle da situação. Primeira aferição: os alunos estão somente sinalizando uma dificuldade e sou eu quem tem a responsabilidade de saná-la. É minha atribuição de professora, de educadora e de apaixonada pela profissão que abracei.  Segunda aferição: estou frustrada porque percebi que não preparei a totalidade da aula do jeito que deveria, prevendo as todas as dificuldades e por isso estou jogando a culpa neles, caindo no chavão “crianças que não param quietas”.  &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Repasso mentalmente os &lt;i&gt;steps&lt;/i&gt; de &lt;i&gt;pre-reading&lt;/i&gt; que cansei de ensinar a professores como &lt;i&gt;teacher trainer de EFL (English as a Foreign Language). &lt;/i&gt;&lt;span lang="EN-US"&gt;Repito o mantra, verificando se não esqueci nada: &lt;i&gt;contextualize, activate the students’ schemata, pre teach unknown words, set a meaningful and feasible first task… &lt;a href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=1102069366961787656&amp;amp;postID=8209745665934829966#_ftn2" name="_ftnref2" title=""&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;b&gt;&lt;span lang="EN-US" style="font-family: &amp;quot;; font-size: 12;"&gt;[2]&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt; &lt;/i&gt;Sim, eu os fiz. &lt;/span&gt;Todos os passos estão lá. O problema é mesmo o “H”. &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt; Suspiro novamente. Nos meus &lt;i&gt;lesson plans&lt;/i&gt; há uma seção, “Anticipated difficulties”, onde discorro sobre todas as suspresas que podem impedir o bom funcionamento da aula. &lt;i&gt;Mind note to myself&lt;/i&gt;: incluir o “H”.  Volto à realidade e vejo o efeito dessa letra na minha aula tão cuidadosamente planejada e discutida anteriormente: o grupo está descontrolado. Sinto-me  o  elétron da última ligação covalente do metano do pum da mosca do cocô do cavalo do bandido. Objetivos lingüísticos? Objetivos pedagógicos? Materiais a serem utilizados? Dificuldades antecipadas? Tempo de cada atividade? Procedimento para cada atividade? Estavam todos no &lt;i&gt;lesson plan&lt;/i&gt;.  Menos o “H”.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Linda aula sobre mamíferos, aves, répteis, anfíbios, insetos e peixes. Havia discutido com alguns amigos biólogos a validade dessa separação, que agora não é mais vigente no mundo científico. Ao aferirem filogeneticamente que a tartaruga está mais próxima dos mamíferos do que dos crocodilos e estes, mais próximos das aves do que das cobras, essa classificação perdeu o sentido à luz da Teoria da Evolução. Mas continua a ser ensinada nas escolas e por isso, acreditei que discorrer sobre o fato de que “snakes, lizards and alligators are reptiles”&lt;a href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=1102069366961787656&amp;amp;postID=8209745665934829966#_ftn3" name="_ftnref3" title=""&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;; font-size: 12;"&gt;[3]&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt; não seria tão danoso para meus alunos, estando ainda no Fundamental I.   &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Meus olhos transparecem o desespero que começa a tomar conta de mim. Minha assistente de classe, aluna do último semestre da FE-USP, levanta-se, vem em minha direção e fala baixinho, estendendo a mão para pegar o giz:&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;-Posso?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Entrego-lhe o giz e minha confiança. Entrego-lhe tudo o que me faz acreditar ser professora enquanto assisto meus 18 anos de prática de ensino se esvaírem nas curvas de um “H” maiúsculo em letra cursiva, cuidadosamente desenhado dentro dos quadradinhos formados pelas linhas-guia do quadro.  Ela vira para a classe e diz:&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span lang="EN-US"&gt;-&lt;i&gt; Ready now, it’s an “H”. Let’s go back to our groups and go on with the activity, ok?&lt;/i&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=1102069366961787656&amp;amp;postID=8209745665934829966#_ftn4" name="_ftnref4" title=""&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span lang="EN-US" style="font-family: &amp;quot;; font-size: 12;"&gt;[4]&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span lang="EN-US"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Há um contentamento geral. Escuto as interjeições de alívio e súbito entendimento, o farfalhar do papel sendo preparado para ser apagado, “can I use the eraser, please?”&lt;a href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=1102069366961787656&amp;amp;postID=8209745665934829966#_ftn5" name="_ftnref5" title=""&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;; font-size: 12;"&gt;[5]&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt; e finalmente a paz: os grupos voltam a trabalhar como se nada tivesse acontecido. Sento-me, derrotada. A terceira aferição, contundente e dolorosa, é inegável: toda a experiência que tenho não me preparou completamente para o trabalho que desempenho hoje. Preciso aprender a fazer as tais letras cursivas da maneira correta.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Enquanto observo e monitoro os alunos trabalhando, minha assistente percebe meu desapontamento e tenta melhorar meu humor, se oferecendo para me ajudar com a caligrafia. Agradeço e aceito a ajuda. Afinal, já havia acontecido com outra turma, não com o “H” e sim o “T” maiúsculo. Conforme os minutos passam e a sensação de frustração amaina, percebo que a frase “dar ao aluno o que ele precisa” nunca fez tanto sentido. Não importa quanta experiência eu tenha ou quão importante seja o conteúdo a ser abordado. Minhas ferramentas são inapropriadas para esse contexto. Preciso reciclar meus recursos.  &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Apesar de muito já haver discutido em treinamentos e cursos o planejamento do quadro –alguns professores parecem se esmerar em fazer um mosaico de informações que ao final da aula lembram um patchwork de ininteligibilidades e qualquer pessoa com o mínimo de bom senso sabe que alunos visuais necessitam de um quadro organizado - nunca havia ponderado que a caligrafia pudesse interferir no bom andamento de uma aula,. Também fui treinada para ensinar pessoas cuja primeira língua não usa o alfabeto latino, conhecendo todas as idiossincrasias de idiomas como  coreano e o russo em contraste com o Inglês. Mas um “H” maiúsculo? Ninguém havia me prevenido...  Minha mente repassa os itens mais comumente abordados nos treinamentos que dei e recebi nesses anos todos: o que faz um aluno aprender? O que faz uma aula fracassar?  &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Muito já foi discutido e existe um senso comum, apesar de  adotarmos teóricos cujas linhas de pensamento algumas vezes se apresentam diametralmente opostas  : &lt;b&gt;o aluno aprende quando o que é ensinado é relevante, útil e tem relação com a sua realidade.&lt;/b&gt; Ignorando as controvérsias que causam os PCNs&lt;a href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=1102069366961787656&amp;amp;postID=8209745665934829966#_ftn6" name="_ftnref6" title=""&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;; font-size: 12;"&gt;[6]&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt; quando são publicados, a maior parte dos educadores sérios tem como linha mestra de seu trabalho a minimização da abordagem de assuntos que nada influirão na formação profissional e humana do ser que se encontra sob sua responsabilidade nesse processo de construção de conhecimento. No entanto, há os profissionais que são colocados nessa posição sem possuírem noção alguma das estratégias mais básicas de ensino e aprendizagem – muitos deles frutos do processo acadêmico de Iniciação Científica, Mestrado, Doutorado – cuja produção científica assume vulto muito maior do que o exercício da docência. É comum escutarmos dizer sobre  um professor da universidade que  “  sabe muito sobre determinado assunto, mas não sabe ensiná-lo... ”.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Estudiosos da Educação discutem constantemente a validade das fases de desenvolvimento de Piaget, contrastando essa visão com a mediação vigotskiana, a educação bancária de Paulo Freire, a semelhança de famílias de Wittgenstein e com muitas outras abordagens. Há uma miríade de linhas a serem seguidas e todas são frutos de muita observação e ponderações profundamente coerentes. De modo muito simplista, podemos dizer que todas funcionam, dependendo do aluno. Aliam-se à essas teorias, outras tantas que cuidam do lado afetivo da aprendizagem, da interação professor – pupilo e pupilo – objeto de estudo ( a “matéria” em si), do ambiente e das relações sociais de poder e autoridade, inseridas no contexto escolar.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Em meio a todas essas vertentes, encontramo-nos agora a discutir o futuro do curso da LIGEA. Professores e alunos têm estabelecido discussões acirradas sobre o que deve conter a grade curricular e qual será o perfil do profissional formado pelo curso. A proposição de &lt;i&gt;“formar um educador com conhecimento sobre a dinâmica interna  e externa do Planeta e da interação entre Geosfera, Hidrosfera,  Atmosfera, Biosfera e Noosfera, de forma a usar os conhecimentos do  Sistema Terra no uso sustentável dos recursos naturais com ênfase nos  recursos minerais, hídricos e energéticos para a formação de um  cidadão crítico para enfrentar os problemas ambientais na sociedade  atual”&lt;/i&gt; é extremamente desafiadora, porém absolutamente coerente com a demanda do nosso país atualmente.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Contudo, nada nessa discussão fará sentido se em algum momento não forem garantidos os meios pelos quais esses educadores serão instrumentalizados de maneira satisfatória. Um verdadeiro educador precisa saber entender várias linguagens, ser flexível para aceitar paradigmas diferentes e se adaptar a eles, ser ousado para testar novas técnicas sem contudo expor seus alunos aos perigos de uma prática pedagógica homicida, conhecer suficientemente o que ensina para saber onde buscar mais informações quando o aparato escolar não estiver a contento e para catalisar a informação, digeri-la previamente, de modo que os alunos possam absorvê-la e não expeli-la totalmente por ser muito complexa para suas estruturas cognitivas. &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;O educador consciente procurará recursos proveitosos para sua aula e não “shows pirotécnicos”; preparará cada sessão pensando no perfil do grupo e não uma seqüência de atividades  que lhe servirá &lt;i&gt;ad libitum&lt;/i&gt; enquanto aquele conjunto de informações for vigente; fará uma apresentação de power point que será válida em um determinado contexto e a modificará conforme o grupo e o momento; especificará tarefas úteis e relevantes para o processo de aprendizado e não para o sistema de avaliação; preocupar-se-á com a preparação, contextualização e confecção de perguntas significativas prévias à leitura de um texto e não simplesmente distribuirá as copias e dirá “Leiam e discutiremos”.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;O educador autêntico saberá utilizar-se das palavras, mas também dos gestos de aproximação, da musicalidade da entonação na fala, da teatralidade natural de quem ama o que faz. Saberá escutar através dos ouvidos, mas também através dos sentidos. Saberá entender que quando algo não funciona, a primeira coisa a ser feita não é culpar e sim remediar. Saberá procurar os meios necessários para reciclar seu conhecimento e suas técnicas. Finalmente, saberá ser humilde para aceitar que nem sempre acertará, apesar de todos os títulos angariados e artigos publicados. Saberá usar de honestidade em suas práticas, para ser verdadeiramente um educador. Honestidade com H maiúsculo.  E em letra cursiva. &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-style: italic;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-style: italic;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-style: italic;"&gt;Agradecimentos: &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-style: italic;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-style: italic;"&gt;Meus mais sinceros agradecimentos aos biólogos Paulo Enrique C. Peixoto (UNICAMP), André Victor Lucci Freitas (UNICAMP) e Alex Martins dos Santos pelas sugestões e ponderações cuidadosas! E aos amigos Vinícius B. Fuentes, Francesca Pozzi e Marc Neilson por todo o apoio e sugestões durante o processo.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;hr align="left" size="1" width="33%" /&gt;&lt;div id="ftn1"&gt;&lt;div class="MsoFootnoteText"&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=1102069366961787656&amp;amp;postID=8209745665934829966#_ftnref1" name="_ftn1" title=""&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;; font-size: 10;"&gt;[1]&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt; Os nomes das crianças foram trocados..&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div id="ftn2"&gt;&lt;div class="MsoFootnoteText"&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=1102069366961787656&amp;amp;postID=8209745665934829966#_ftnref2" name="_ftn2" title=""&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;; font-size: 10;"&gt;[2]&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt; Contextualizar, relacionar ao universo do aluno, ensinar antes palavras que possam impedir o cumprimento da tarefa, definir uma primeira tarefa factível e significativa...&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div id="ftn3"&gt;&lt;div class="MsoFootnoteText"&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=1102069366961787656&amp;amp;postID=8209745665934829966#_ftnref3" name="_ftn3" title=""&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;; font-size: 10;"&gt;[3]&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt; Cobras, lagartos e jacarés são répteis.&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div id="ftn4"&gt;&lt;div class="MsoFootnoteText"&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=1102069366961787656&amp;amp;postID=8209745665934829966#_ftnref4" name="_ftn4" title=""&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;; font-size: 10;"&gt;[4]&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt; Pronto, agora é um “H”. Vamos voltar aos grupos e continuar a atividade, ok?&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div id="ftn5"&gt;&lt;div class="MsoFootnoteText"&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=1102069366961787656&amp;amp;postID=8209745665934829966#_ftnref5" name="_ftn5" title=""&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;; font-size: 10;"&gt;[5]&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt; Posso usar a borracha, por favor?&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div id="ftn6"&gt;&lt;div class="MsoFootnoteText"&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=1102069366961787656&amp;amp;postID=8209745665934829966#_ftnref6" name="_ftn6" title=""&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;; font-size: 10;"&gt;[6]&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt; Parâmetros Curriculares Nacionais - &lt;span class="textocinza10"&gt;referências de qualidade para os Ensinos Fundamental e Médio do país, elaboradas pelo Governo Federal.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1102069366961787656-8209745665934829966?l=rprochoroff.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rprochoroff.blogspot.com/feeds/8209745665934829966/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1102069366961787656&amp;postID=8209745665934829966' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/8209745665934829966'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/8209745665934829966'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rprochoroff.blogspot.com/2009/02/honestidade.html' title='Honestidade. Com &quot;H&quot; maiúsculo.'/><author><name>Rachel Prochoroff</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09943996098227202452</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/TEMy6spua2I/AAAAAAAAAJk/PmgmIc_N1Rs/S220/nhonho.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1102069366961787656.post-9073934131760795123</id><published>2008-05-02T15:00:00.000-07:00</published><updated>2011-01-06T18:39:08.670-08:00</updated><title type='text'>Conjecturas</title><content type='html'>Ela firma o polegar na pálpebra inferior para retocar o delineador. Não se conforma. Eu escuto e tento ajudá-la a responder o rol de perguntas que ela me infringe todas as sextas-feiras. Para ser bem honesta, não presto muita atenção no que respondo. A aflição que me causa ver o lápis delineador roçando a córnea parece impedir meu raciocínio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por que ele olhou então?&lt;br /&gt;- Porque você está muito bonita hoje.&lt;br /&gt;- Ah, mas se foi isso, então por que ele não olhou logo quando eu cheguei?&lt;br /&gt;- Por que talvez ele não tenha visto você chegar, oras!&lt;br /&gt;- Hm... talvez. Mas não acho que seja isso. Será que ele quis se fazer de desinteressado?&lt;br /&gt;- Não.. acho que não... sinceramente? Acho que ele não viu você mesmo.&lt;br /&gt;- Então por que ele falou aquilo?&lt;br /&gt;- Aquilo o quê?&lt;br /&gt;- Que eu me escondo.&lt;br /&gt;- Ah, veja só como tenho razão! Deve ser porque não viu você chegar mesmo.&lt;br /&gt;- Duvido! Acho que ele quis mesmo foi me provocar.&lt;br /&gt;- Provocar? Por que ele faria isso?&lt;br /&gt;- Não sei... – ela pára com o dedo segurando a pálpebra e aponta o lápis para mim. Enquanto fala, vai desenhando suas conjecturas no ar - Por que ele segurou minha mão? E por que não segurou depois, quando eu quis? Por que andou do meu lado como se quisesse conversa? E por que desdenhou minha companhia e foi tomar café com os amigos quando saímos da sala de aula?&lt;br /&gt;- Ai, meu Deus! Quantas perguntas! Você quer me deixar louca?&lt;br /&gt;- Não ria do meu sofrimento.&lt;br /&gt;- Sofrimento? – estou agoniada com tantas perguntas.&lt;br /&gt;- Sim, você não vê que sofro? A &lt;i&gt;expert&lt;/i&gt; em ciências aqui é você. Ajude-me a resolver essa equação!&lt;br /&gt;- Equação? Que equação?&lt;br /&gt;- Desta situação inusitada e frenética na qual me encontro!&lt;br /&gt;- Não estou entendendo!&lt;br /&gt;- Como não está entendendo? Ele não me quer!&lt;br /&gt;- Quem disse isso?&lt;br /&gt;- Está visível agora, não está?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu silêncio a deixa consternada. Não sei o que dizer. Sei que ele a quer. É visível e aferível. E o desenrolar dos fatos se mostra dolorosamente previsível. Porque eu o quero. Mais do que ela, que o descartará em algumas semanas, como faz com todos os que acabam sendo enredados por seus cabelos lisos, loiros e longos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu o quero para sempre. Mas meus cabelos são cacheados e ficam eriçados em dias de chuva. Ainda assim, ouso querê-lo para sempre. Ou pelo menos, para o todo-sempre no qual um amor pode persistir. Devo dizer algo, ela me olha com o olhar delineado e desconfiado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Olha, vamos lá para fora, você está perdendo tempo. Temos somente alguns minutos antes do término do intervalo – digo, finalmente, sem muita convicção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela joga o delineador caríssimo na bolsa obscenamente cara também. Arruma os seios perfeitos e volumosos devido ao recente implante, joga os cabelos para baixo e depois para cima com um movimento rápido da cabeça. Por alguns segundos, eles parecem flutuar no ar, brilhando como se fossem feitos do mesmo material das asas das fadas, que, quando voam, espargem aquele pó dourado; depois caem , escorregando pelos ombros torneados dela. Devo admitir, ela é linda. Dói-me perceber que sou apenas sombra. Dói-me ainda mais entender que até as mariposas preferem a luz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São já semanas de angústia, assistindo o jogo que ela promove, bailando graciosamente, indo por vezes ao encontro dele e, por outras, repelindo qualquer aproximação. Ela me diz que é assim que se faz. Eu, porém, penso que seria mais fácil sentar-se à mesa e tomar um café, discutindo as idiossincrasias da sociedade. Mas quem se importa com o que eu penso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saímos do banheiro. Ela na frente. Ele está parado, conversando animadamente, em meio a alguns colegas. Seus olhos brilham, ele se despede do grupo e vem ao nosso encontro. Sei que hoje será o dia que me sentirei em pedaços. Em poucos minutos, ele a convidará para sair. Hoje é o último dia de aula antes das férias de julho. Não há mais tempo a perder. Nos poucos passos que o separam de nós duas, uma eternidade, sinto o choro preso inchando a garganta e fazendo arder meus olhos. Como no desenho animado, percebo o coração estilhaçando, os caquinhos suspensos apenas pela iminência da vergonha. Não posso e não devo fazer qualquer ruído. Qualquer um sabe que cacos de coração caindo no chão em meio aos colegas da faculdade fazem muito barulho. Praticamente um estrondo! Melhor mesmo será deixá-los cair no silêncio do meu quarto. Despencando no colchão, ainda úmidos das lágrimas, ninguém os ouvirá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela abre um sorriso, que mais se assemelha a um colar de qualquer gema mais branca que a pérola. E mais reluzente. Simplesmente perfeito. Quando ela sorri, duas covinhas se formam no rosto cuidadosamente bronzeado no salão de estética. Simplesmente perfeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele está a dois passos de nós. Olho para o chão, para que não me vejam chorar de tristeza. Afinal, hoje será o dia deles. O dia em que o mundo celebrará o mais novo casal enamorado do orbe. Serei somente uma boba apaixonada vertendo lágrimas de rejeição. Não, eles não podem me ver assim. Abro minha bolsa barata, procurando algo. Cicuta, talvez? Encontro o maço de cigarros. Havia prometido parar, mas a resolução esmaece rapidamente. Procuro pelo isqueiro, enquanto ele, já próximo, nos saúda alegremente. Tremo in-sa-na-men-te agora. Onde está o isqueiro???&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele pede para falar com ela a sós. Pergunta se me importo, eu aceno que não com a cabeça e digo “vai lá!” com o descaso projetado para essas horas. Afinal, sendo a melhor amiga dela desde o cursinho, esta é a melhor saída. Não cursar disciplinas juntas também seria uma estratégia, se fizéssemos a mesma graduação. Graças aos intelectos diametralmente opostos, havíamos entrado em cursos diferentes. Porém, essa disciplina havia se mostrado muito tentadora, ainda que fosse extra-curricular... Ele havia tido a mesma idéia. E apesar de nunca nos termos visto em alguma aula de Cálculo ou de Mecânica, eu o reconheci imediatamente quando veio falar com ela a primeira vez. Eu estava junto. Na sombra. Como sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não é impressionante que você ainda não tenha se acostumado?”, pergunto a mim mesma. “Cadê essa porcaria de isqueiro? Preciso fumar, droga, se eu for pedir um fósforo na recepção eles verão meus olhos vermelhos! Mas eu tinha certeza que havia deixado um isqueiro aqui! “&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Através das lágrimas que insistem em marejar minha visão, percebo os dois conversando perto do balcão. Não contentes em embaçar-me olhos, as lágrimas agora resolvem cair, inundando a face. Corro para o banheiro. Pego papel toalha e acabo borrando o delineador de marca genérica que uso às sextas-feiras, para esconder o tom cansado. Junto ao nariz nada envaidecedor que porto, agora inchado, os olhos constituem um conjunto verdadeiramente bizarro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Preciso me controlar!”, penso. “Que farei? Como sair dessa situação?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olho para as janelas do banheiro, mas elas são muito estreitas e estou acima do peso. Ela passaria pelas grades, silfidescamente, mas eu não. De que adiantaria? As janelas dão para o estacionamento, mas estamos no quinto andar. “Ótima saída!”, pondero. “Que besteira!”, percebo. Estou em frangalhos. Preciso fugir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém, em um nanossegundo os eixos se invertem e o caos se instala. O universo busca a maior entropia sempre, não é o que dizem? Ela volta. Escancara a porta do banheiro e fuzila meu rosto molhado com os olhos injetados. Não entendo. Mas não há tempo para mais nenhuma conjectura. Ela dispara:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vai lá. Ele quer você. Sua traidora, você deu em cima dele sem me falar nada? Você sabe que estou apaixonada por ele e mesmo assim apunhala sua melhor amiga pelas costas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não consigo articular palavra. As lágrimas secam instantaneamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você e os seus emails. Eu já deveria saber! Nunca mais quero falar com você. Suma da minha frente e tomara que ele seja muito ruim de cama! Lista de discussão de Física Quântica, é? Nerds ridículos, todos vocês!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela tenta bater a porta, mas a mola a impede. Assisto enquanto ela se vai, cabelos esvoaçando. Ela é perfeita, mas ele prefere a mim. Tenho um acesso de riso. Olho no espelho. Até que não estou tão mal. Sim, vamos ao café e às idiossincrasias da sociedade. Algumas poucas vezes, parece-me, the pen, ou melhor, the keyboard is really mighter than the sword! Ou do silicone, como queira!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1102069366961787656-9073934131760795123?l=rprochoroff.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rprochoroff.blogspot.com/feeds/9073934131760795123/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1102069366961787656&amp;postID=9073934131760795123' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/9073934131760795123'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/9073934131760795123'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rprochoroff.blogspot.com/2008/05/conjecturas.html' title='Conjecturas'/><author><name>Rachel Prochoroff</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09943996098227202452</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/TEMy6spua2I/AAAAAAAAAJk/PmgmIc_N1Rs/S220/nhonho.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1102069366961787656.post-4860675901825281519</id><published>2008-05-02T14:42:00.000-07:00</published><updated>2008-12-09T20:01:42.604-08:00</updated><title type='text'>Imerso em colóide fétido</title><content type='html'>&lt;p align="right"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;publicado na Revista Substrato - CEPEGE, IGc/USP&lt;/em&gt; &lt;em&gt;(abril/08&lt;/em&gt;)&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="right"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;O teste&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você é mal-humorado? Que tal fazermos um teste? Responda as perguntas abaixo sem titubear. Considere seu estado inicial, nas CNTP (condições normais de temperatura e pressão):&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se XX, está de TPM.&lt;br /&gt;Se XY, seu time perdeu ontem à noite e foi rebaixado para a segunda divisão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1 – É dia de pagamento. Você está na fila do supermercado há trinta minutos. De repente, uma mulher logo à sua frente, cujas compras já estão sendo computadas, resolve sair da fila para buscar um último item que ela havia esquecido. A demora é exasperante, as pessoas atrás de você começam a reclamar. Quando a consumidora volta, ela grita com você, achando que você foi o causador da balbúrdia, agora generalizada. O que você faz?&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;A – responde à altura, com os mesmos xingamentos e provocações.&lt;br /&gt;B – pragueja, torcendo para que a mulher fique careca e disforme dentro de um ano.&lt;br /&gt;C – fica quieto, mas disfarçadamente fura o pacote de açúcar das compras dela para que vaze.&lt;br /&gt;D – parte para a contenda física.&lt;br /&gt;E – não dá muita importância para o fato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2 – Você está muito cansado, pois passou o dia inteiro esperando em filas e mais filas de bancos. Está calor, você veste roupa social e agora a bateria do seu carro “arriou”. Seu celular está sem bateria e você não consegue encontrar um único orelhão por perto. Resolve voltar para casa de ônibus, para conseguir ajuda com o vizinho. O ônibus está lotado, mas você tem sorte e consegue um lugar, que ocupa rapidamente. No próximo ponto, um mocinho entra no ônibus. Ele carrega uma mochila nas costas, passa pela catraca e, na tentativa de se ajeitar nos únicos espaços disponíveis, acerta a bolsa na sua cabeça com força. O que você faz?&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;A – reclama, sacudindo o moço com força e exigindo que ele tire a mochila das costas.&lt;br /&gt;B – arranca a mochila das costas dele e a atira pela janela.&lt;br /&gt;C – promove o linchamento do moço no ônibus.&lt;br /&gt;D - xinga o infeliz.&lt;br /&gt;E – não dá muita importância para o fato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3 – É época de Natal e você vai ao shopping center com sua mãe, a amiga e a avó desta, que é um “tantinho” senil. A fila do estacionamento é enorme e você até pensa em voltar outra hora, mas sua mãe é assertiva e você sabe que haverá discussão mais tarde, se não ficar. No entanto, a distinta senhora, avó da amiga da sua mãe, além de passar o trajeto inteiro criticando seu jeito de dirigir, agora resolveu discorrer sobre como você é lento para fazer algo tão simples quanto estacionar. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;De repente, e já prestes a perder a paciência, você percebe uma família indo em direção a um carro. Consegue manobrar, colocar-se em posição estratégica para ocupar a vaga e estacionar. Liga o pisca-pisca, feliz. Porém, uma das crianças da família começa a chorar histericamente e a mãe delas resolve fazer um sermão ali mesmo. Você espera durante dez minutos, quando ela finalmente libera a vaga. Você engata a primeira marcha e, para seu completo desespero, outra mulher vem pela contramão e ocupa a vaga. A avó da amiga da sua mãe diz: “Viu? É um banana!”. O que vc faz?&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;A – acelera e colide de propósito com o carro da mulher.&lt;br /&gt;B - bate na velhinha.&lt;br /&gt;C – sai do carro para reclamar e exigir a vaga.&lt;br /&gt;D – chama o segurança e faz um escarcéu, impedindo a mulher de seguir para suas compras.&lt;br /&gt;E – não dá maior importância ao fato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para saber o resultado desse teste, compute os valores de cada item, segundo a tabela abaixo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5195903244197332786" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" height="215" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/SBuOeLWuhzI/AAAAAAAAAEU/RT4oYZQtu3M/s320/tabela+col%C3%B3ide.jpg" width="358" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Resultado do teste: Se você computou algum ponto, qualquer ponto que seja, eu não vou saber dizer se você é mal-humorado, mas posso afirmar categoricamente que você pertence à classe dos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Mal-educados&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Você pode não concordar com o resultado deste teste, afinal, não foi desenvolvido por um psicólogo ou estudioso da área do comportamento humano. Contudo, devo avisá-lo, caro leitor cujo resultado foi diferente de zero, que provavelmente as pessoas ao seu redor já lhe aplicaram alcunhas depreciativas, procuram esquivar-se da sua presença e, a todo o momento, lhe fornecem respostas prontas, talhadas antecipadamente, para evitarem maiores conflitos. Ninguém é real, sincero e honesto com você. Seus colegas de escritório combinam a cerveja escondido e saem de fininho, cada um pretextando algum compromisso inadiável na sexta-feira à noite. Mas a verdade “nua e crua”, caro leitor diferente de zero, é essa: ninguém gosta de gente mal-educada.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Nos últimos anos, a má-educação parece ter se alastrado e ocupado vilipendiosamente todos os nichos da sociedade. Antigamente, educação vinha “de berço”. Sabia-se onde colocar o guardanapo, com quais talheres comer, como agir perante a um “RSVP” (Répondez S'il Vous Plaît, ou, “responda, por favor”) no convite e quais as partes do colo e das pernas que deveriam ficar à mostra durante uma recepção de casamento. Respondia-se às provocações com “luvas de pelica”, tanto metaforicamente, quanto literalmente, em cujo caso, um tiro poderia selar o destino do destratante. Sim, havia a morte, fato deplorável. Mas não havia a palavra solta, o esgar de cinismo conjugado à ira, o tom de ameaça seguido de atos hoje corriqueiros, como: bater uma porta, gritar uma ofensa ou quebrar um objeto com raiva. Perder a cabeça em atitudes como essas era tido como algo tipicamente feminino. Muitos autores utilizaram este “atributo” para caracterizar a “cabecinha vazia” burguesa do final do século XIX, como a de madame Bovary, (de Gustav Flaubert) que, num acesso de raiva, por saber que seu amante não viria visitá-la, empurra sua filha, fazendo com que esta bata com a cabeça na cômoda e ponha-se a chorar. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É comum aceitarmos a má-educação quando oriunda das hierarquias mais altas – leiam-se chefes, professores e superiores em geral – pois, afinal, é o ganha-pão que se encontra em xeque. Sentimo-nos ameaçados, ficamos silenciosos, balançando a cabeça afirmativamente e concordando com tudo que a pessoa, mal-humorada e mal-educada, nos diz. Quem nunca se sentiu imerso em um colóide fétido após uma dessas explosões de raiva ou descontentamento de um superior? Os movimentos se tornam lentos e o digitar, suave, como se tudo estivesse coberto por uma gelatina pegajosa e ácida. Os músculos, retesados, evitam a troca gasosa com o ambiente, fazendo a respiração ser quase suspensa. Os cílios que revestem as narinas não conseguem oferecer resistência ao ar mais denso, tampouco o som consegue se propagar em ondas, ficando o ambiente em silêncio sepulcral. Tudo para que não haja outra combustão. Tudo para a que a paz não seja quebrada novamente.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;É interessante notar que o causador do constrangimento sempre consegue emitir uma justificativa - o seu estandarte da auto-remissão - para justificar tal comportamento: “As vendas estão caindo”, “Estou me divorciando”, “Meu filho está doente”, e o impagável “Estou de TPM”. A tensão pré-menstrual, aliás, passou a ser justificativa para tudo, ganhando a simpatia da maior parte das mulheres da humanidade, inclusive, tendo sido usada para atenuar a pena de uma certa criminosa nos EUA.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Cena 1: &lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Mulher A: - Você viu isso? Ela estava de TPM, coitadinha, por isso esfaqueou, esquartejou, queimou e comeu os pedaços da vítima.&lt;br /&gt;Mulher B: - Pobrezinha, não é à toa que ficou tão nervosa! TPM é fogo!&lt;br /&gt;Mulher C: - É.... tadinha....&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Cena 2: &lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Vendedor: - Parabéns, o senhor está adquirindo uma jóia belíssima! Assine aqui, esta promissória, penhorando sua alma.&lt;br /&gt;Marido: - Por esse preço? Minha alma?? Querida, tem certeza?&lt;br /&gt;Esposa: - Alfredo, olha aqui, hein? Estou de TPM, não me tenta, NÃO ME TENTA!!&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Há ainda os indivíduos cujas mães se esmeraram na atividade de passar adiante os paradigmas comportamentais da sociedade à qual pertencem, sem, no entanto, encontrar respaldo na índole imaleável dos pequeninos. A estes convencionamos chamar “mal-aprendidos”. Na verdade, essa acepção é somente um deslocamento da origem do sistema ou uma boa-vontade maior ou menor do observador, como queira. Afinal, todo mal-educado é limitado, ou mal-aprendido. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Limitados seriam aqueles que, apesar de encontrarem os exemplos da boa educação na mídia, na escola, em seus pais ou superiores hierárquicos e em diversas pessoas com as quais interagem todos os dias, continuam a agir da mesma forma rude e impetuosa, não sendo capazes de dominar suas frustrações e desejos e colocá-los de maneira controlada ao seu interlocutor. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Mal-aprendido seria o indívíduo que apesar de conhecer os liames das atitudes que definem o comportamento aceito e desejado por seus pares, insiste em agir diferentemente, pois se acredita em condições e no direito de fazê-lo, seja por superioridade, seja por extrema condição de inferioridade. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;No entanto, vale notar que algumas vezes a má-educação pode ser utilizada como um marcador social e cultural, incitando o indivíduo a agir de modo inconveniente para o meio em que se encontra, única e exclusivamente, para continuar sendo diferente, não absorver e não ser absorvido pela sociedade que o cerca. Nesse caso, o comportamento é permeado por uma falta de educação apenas aparente, sem, no entanto, corresponder àquela descrita acima. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;É o caso dos migrantes nordestinos que, estando em São Paulo, montam suas barraquinhas no Largo da Batata e tocam música em volume bem alto, mexem com as mulheres que por ali passam e conversam entre si usando expressões que o paulistano não entenderá. Ou dos coreanos que dizem não entender o Português e nos deixam falando sozinhos, mas são absolutamente fluentes na língua quando querem negociar com o consumidor. Ou, ainda, os japoneses do bairro da Liberdade que caminham, de cabeça altiva, alguns passos à frente de suas esposas, enquanto estas carregam pacotes e permanecem obedientes. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Ao citar estes últimos, um episódio da minha pré-adolescência vem à baila, sendo propiciamente esclarecedor. Ao perceber a entrada de uma “senhorinha” japonesa abarrotada de sacolas e de seu marido, há muitos anos, em alguma estação do metrô da linha azul, cedi imediatamente o assento, que foi logo tomado pelo senhor oriental. Fiquei indignada e disse a ele que se levantasse, já que eu havia cedido meu lugar à senhora – a educação da minha cultura me impelia a isso – e não a ele, um homem – cuja cultura determinava essa atitude. Ele não se moveu. A senhorinha se encolheu. E eu desci na próxima estação, completamente enfurecida, mas sem dizer nada. Ambos estávamos corretos. Ambos fôramos bem-educados em relação ao outro. Estávamos apenas seguindo as orientações que nossas sociedades determinaram serem pertinentes. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Os traços culturais e a linguagem são o identificador do ser humano e do grupo ao qual ele pertence e é natural que muitas pessoas, perante o medo inconsciente de perderem sua identidade, resolvam agir de maneira considerada imprópria neste ou naquele lugar. Porém, proponho que realizemos agora uma outra identificação, independente de raça, cor e credo: a da boa educação. Digamos bom dia, boa tarde, boa noite, obrigado e por favor. Saibamos sorrir, “deixar pra lá”, não furemos filas e não carreguemos mochilas nas costas em ônibus lotados. Tentemos, por alguns instantes, imaginar como se sentiria aquele que conosco interage, quando resolvemos ser menos comedidos. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Ah! E, meninas, vão ao ginecologista, ao Padre Quevedo ou ao Papa, mas cuidem dessa TPM!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="right"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;********************************************&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Agradeço à Sueli Ramos pela revisão cuidadosa!&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1102069366961787656-4860675901825281519?l=rprochoroff.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rprochoroff.blogspot.com/feeds/4860675901825281519/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1102069366961787656&amp;postID=4860675901825281519' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/4860675901825281519'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/4860675901825281519'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rprochoroff.blogspot.com/2008/05/imerso-em-colide-ftido.html' title='Imerso em colóide fétido'/><author><name>Rachel Prochoroff</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09943996098227202452</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/TEMy6spua2I/AAAAAAAAAJk/PmgmIc_N1Rs/S220/nhonho.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/SBuOeLWuhzI/AAAAAAAAAEU/RT4oYZQtu3M/s72-c/tabela+col%C3%B3ide.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1102069366961787656.post-4437787807597452866</id><published>2008-04-15T19:56:00.000-07:00</published><updated>2008-04-15T21:18:20.572-07:00</updated><title type='text'>Porque os casamentos não duram</title><content type='html'>&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Você vem?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Agora não dá. Vai você. Boa noite.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Assim? Tá fazendo o quê?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Lendo. Vai lá. Dorme com os anjos.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Muxoxo. Ele está visivelmente desagradado. Dá uma volta pela sala, arruma os jornais no cesto, endireita as chaves e o documento do carro em cima da carteira. Suspira. Tenta mais uma vez.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Mô?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Hm?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Vem dormir, vai.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Num dá. Não vou conseguir largar esse livro tão cedo.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Interessante, é? – diz ele em tom de dúvida.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Demais!&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Ahn... tá bom – conforma-se - Boa noite...&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Ele se aproxima e lhe dá um beijo. Ela corresponde. Ele a beija com um pouco mais de lascívia, tentando visivelmente fazê-la mudar de idéia e trocar as fibras de celulose recicladas por outras, de algodão. Ou melhor, pela ausência delas todas.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Pára! – ela ri – Você não ia dormir?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Ia, mas perdi o sono.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Ué... Por que será? – ela brinca.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Vem cá, deixa esse livro aí, vai.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Não, benhê... Faz quase um mês que estou tentando ler esse aqui... Vai lá, amorzinho, vai descansar.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;-Ah, se faz um mês, pode ser um mês e um dia, não?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Não - ela ri - Não pode não... Não agüento mais de curiosidade!&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Você está me dispensando. – diz ele, afastando-se dela e franzindo a testa – De novo.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Ela abaixa o livro e olha para ele, surpresa. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Eu? Desde quando?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Desde sempre! – e, ao ver a expressão dela, explica – Faz algumas semanas que a gente... &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;O olhar dele é muito esclarecedor. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Ah, não. Você não está falando sério, está?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Estou, oras! Você está sempre correndo e nunca tem tempo para nós. Um dia é a academia, no outro é o regime, no outro está dolorida porque... – ele afina a voz para imitá-la – “a mulher da drenagem é uma doida, olha quanto roxo! Não ponha a mão em mim, estou um hematoma só!”&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;De estupefata, diante da inominável superficialidade com a qual o marido trata as necessidades femininas mais caras, ela passa à indignação. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Semanas? – ela põe o livro na mesinha de centro – Semanas? – repete a pergunta aumentando levemente o tom de voz. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;A fúria dela está sendo contida apenas pelos ponteiros do relógio. Afinal, já passa das onze. Ela mal pode acreditar na audácia aritmética dele: &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Nas minhas contas são cinco dias! - ela o corrige.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- É, mas você não está contando o fim de semana. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Um mero descuido numérico dele, conjugado à falta de percepção da mudança meteorológica do ambiente causada por um argumento que ela julgará desonesto. O resultado é o cataclismo matrimonial. Afinal, não foram nem cinco e nem sete. Nas contas dela, foram seis E MEIO. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Pode-se perceber que a contenção social dela começa a rachar. O dilúvio verborrágico é iminente: &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Mesmo assim! Então são sete! Ou melhor, seis e meio! Ou sexta foi tão ruim que você já esqueceu? – ela está nervosa.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Não! Mas foi... bem... muito rápido, né? &lt;/p&gt;&lt;p&gt;-Hã! – um exaurir rápido e preciso, indignado, em timbre elevado. Ela abre a boca, arregala os olhos e põe as mãos na cintura, aumentando a dramaticidade da cena.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Um raio estala no teto do apartamento. Salve-se quem puder! &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Culpe a declaração do seu imposto de renda por isso! Eu estava disponível. Aliás, disponibilíssima! &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Agora o olhar dela é de desafio. O relógio acusa a hora de fazer silêncio, em respeito aos vizinhos. Ela levanta, enfurecida. Larga o livro na poltrona. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Droga! – faz menção de sair. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Aonde você vai? – pergunta ele. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Vou dormir, não era isso que você queria? &lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Ah, então vamos!- diz ele, satisfeito. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Vamos? Onde vamos? &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Ele não entende. Fica parado, dezenas de pontos de interrogação nadando no olhar. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Vamos nada, cara pálida! Você dorme aqui, no sofá. Vamos é fazer a sua conta dar certo! – diz ela, irônica. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Conta? Que conta? – ele está visivelmente confuso, mas sente um frio no estômago quando pensa que pode ter se colocado em uma enrascada. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;- A das semanas. – ela profere as últimas palavras com o ar de superioridade de quem tem um royal flush, depositando as cartas na mesa – Boa noite! &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Mas... &lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Boa noite! – diz ela, girando nos calcanhares e seguindo em direção ao quarto. Porta um sorriso de triunfo que ele não vê. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Ele, estático, observa a esposa seguir pelo corredor, escuta a porta bater e o ruído da chave, trancando todos os seus desejos e inspirações românticas em um calabouço de... semanas... Espera alguns minutos e por fim percebe que ela não cederá. Olha ao redor. Há o sofá e algumas almofadas. E o livro, o maldito livro, que ele pega, tencionando atirar janela fora. Pára, pensa na estupidez que fará. Olha a capa. Nada de mais. O título remete a alguma baboseira lacrimosa feminina. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;A chave vira de novo. Ela abre a porta. Vem, de lingerie, passos decididos, na direção dele. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Ele sorri. Ela mudou de idéia! Está perfumada, cabelos soltos... Linda! Ela estende a mão para ele. Ele segura a mão dela e está prestes a puxá-la para si, quando ela faz um movimento rápido e se solta. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Dá o livro. – ela diz. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Ainda está brava. Ele juraria ver o ar menos denso ao redor da cabeça dela, as imagens retorcidas por causa da dissipação do calor. Ele engole em seco e estende o volume, que ela apanha sem nada dizer. De posse do livro, ela lhe dá as costas, apanha algo na mesinha de centro e sai em direção ao quarto. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Boa noite... – ele praticamente sussurra.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Ahã. – responde ela, antes de fechar a porta e trancá-la novamente. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Ele suspira. Senta-se no sofá, ajeita as almofadas e procura o controle remoto. “Pelo menos a TV...” pensa ele. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Não. Quando se trata deste tipo de desentendimento, a punição deve ser completa. Ela surrupiou o controle. Ele está fadado a uma noite sem aconchegos, sem sono e sem TV, a não ser que queira se exercitar, levantando-se cada vez que quiser mudar o canal. Acordará com dores nas costas e gemerá disfarçadamente o dia todo, andando pelo escritório, até que algum colega venha brincar: &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- A noite ontem foi boa, hein? - completam o comentário tapinhas de felicitação nas costas. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;E ele responderá, forjando um sorriso de satisfação:&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Nem te conto! Nem tem conto!&lt;/p&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1102069366961787656-4437787807597452866?l=rprochoroff.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rprochoroff.blogspot.com/feeds/4437787807597452866/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1102069366961787656&amp;postID=4437787807597452866' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/4437787807597452866'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/4437787807597452866'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rprochoroff.blogspot.com/2008/04/porque-os-casamentos-no-duram.html' title='Porque os casamentos não duram'/><author><name>Rachel Prochoroff</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09943996098227202452</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/TEMy6spua2I/AAAAAAAAAJk/PmgmIc_N1Rs/S220/nhonho.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1102069366961787656.post-1607754542948806837</id><published>2008-04-06T20:15:00.000-07:00</published><updated>2008-04-06T20:24:45.375-07:00</updated><title type='text'>Missiva</title><content type='html'>Querido Antônio,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escrevo-te, amedrontada, porque estas palavras talvez te atinjam os olhos e o coração tarde demais. Quisera eu ter o dom de vagar pelo passado! Talvez a saudade hoje não mais assomasse meus passos trôpegos de vergonha e cansados de vida. O tempo, sábio condutor das decisões mais relutantes, aparou-me as arestas. Sobra pouco de mim. Carrego, contudo, fardo pesado de lembranças e de "se eu tivesse...". Você, amado, é o maior deles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escrevo-te, pedindo perdão. Há muito deixei de duvidar que meus atos, antes ditos amorosos, foram em verdade egoístas. Não pensei em ti, contudo usei-te como desculpa para tudo o que fiz. Usei tua presença, teu sorriso, tuas necessidades e justifiquei-me, dizendo-me a mais pobre criatura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tu demandavas e eu, criatura de parcos princípios, deixei-te ao desamparo. Não te amei como devia. Não supri teus sentimentos e tuas necessidades. Não te dei minhas palavras doces e meus gestos carinhosos; enderecei-os a outros que não me amavam tanto quanto tu, mas que eu julgava serem mais importantes em minha vida, agora que já te embalado havia em meus braços. Não atinei com o fato de que tu podias, um dia, não ser mais meu. Pertencerias sempre a mim, ostentava eu, em minhas atitudes vis, grande certeza. Agora que tu te foste, sinto a dor mais pungente e mais amarga, relembrando-me a todo instante de tudo o que fiz. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Usei-te em meu próprio benefício, quando me foi necessário. Desfiz-me de tua presença, a princípio com ardis torpes e mais tarde sem cerimônia alguma, para borboletear entre as estrelas dos nobres salões da sociedade, tingindo de purpurina minhas asas de mariposa. Tu requisitavas minha presença no lar e quanto mais o fazias, mais me afastava de ti, julgando teu clamor inoportuno e sem razão. Por fim, quando já não me foi mais possível esconder do mundo que tu me causavas tédio com teus risinhos e tuas brincadeiras pueris, contratei aquela que ficou em meu lugar. Tu não o sabias, mas era eu quem pagava os serviços daquela que supria tua carência de modo muito aquém do desejado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha alma sofre o efeito dos desatinos das épocas passadas. Anseio por teu perdão, agora que já não mais posso tê-lo perto de mim. Anseio por somente um daqueles muitos sorrisos que perdi. Anseio por minha paz, sim, é verdade! Porém vago por canteiros de insanidade quando entendo que sou aquela que te privou de tua paz. Pudera eu devolver-te tua vida ou ainda voltar e refazer todos os momentos que, destituídos de carinho e confiança, turvaram-te a vista, a ponto de fazer-te perder o Norte de tua existência e da tua idoneidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perdoa-me, Antônio, por ter negado meu amor, meu carinho, minhas palavras de consolo e de compreensão, quando delas necessitaste. Perdoa-me por não ter compartilhado contigo valores mais belos e elevados do que aqueles que tu presenciaste em minhas atitudes. Perdoa-me por não estar eu mesma no cativeiro que a Justiça terrena te colocou por teus atos insanos e violentos. Certa estou, porém:  a Justiça Divina  far-me-á sempre atenta de que sou a maior responsável por tua falta de piedade para com teus iguais e de compreensão do valor da vida humana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tua atitude, impensada, traduzindo tanto ódio e rancor por mais um qualquer que se deitou comigo, difamando nosso lar, te levou ao cárcere físico. Juro-te, Antônio, amado – amado para sempre! - que minha alma definhará no cárcere eterno do inferno de saber que não fui digna do teu amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tua mãe, que muito sofre,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rosa.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1102069366961787656-1607754542948806837?l=rprochoroff.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rprochoroff.blogspot.com/feeds/1607754542948806837/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1102069366961787656&amp;postID=1607754542948806837' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/1607754542948806837'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/1607754542948806837'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rprochoroff.blogspot.com/2008/04/missiva.html' title='Missiva'/><author><name>Rachel Prochoroff</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09943996098227202452</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/TEMy6spua2I/AAAAAAAAAJk/PmgmIc_N1Rs/S220/nhonho.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1102069366961787656.post-1973398698429605161</id><published>2008-03-03T14:14:00.000-08:00</published><updated>2008-03-27T21:18:27.436-07:00</updated><title type='text'>Pequena autoridade</title><content type='html'>&lt;p&gt;Paula procurava a escada com certa pressa. O shopping era novo e mal sinalizado. Ela já havia almoçado e vagado pelo labirinto de lojas por duas horas, antes de se dar conta de que passara algumas vezes na frente da mesma vitrine, na qual um letreiro mal escrito causava graça: &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;“Precisasse balconista de boa aparência com experiência. Trazer CV”&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Paula riu consigo mesma na primeira vez que o leu, perguntando se a experiência se referia à aparência ou à moça. Na segunda vez, riu com a grafia do verbo. Finalmente, na terceira, percebeu que estava andando em círculos e que não sabia onde era a saída.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perambulou mais um pouco e avistou não as escadas ou alguma placa indicando o caminho, mas o sanitário. Havia um cercadinho de metal delimitando uma pequena área quadrada na frente da entrada do banheiro. Em um dos lados desse quadrado, uma catraca. Achou boa a idéia de parar e pedir a informação ao segurança sisudo, que portava uniforme de botões dourados e se postava ao lado da porta, do lado de dentro do cercadinho. Porém, havia fila e ela teve que esperar um pouco até conseguir chegar à catraca. Enquanto esperava, repassava mentalmente a lista de coisas que tinha para fazer e as contas do quanto havia gasto. Imersa na matemática, não percebeu que sua vez chegara e que o segurança espalmava a mão esperando alguma coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O quê? – perguntou Paula.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- São cinqüenta centavos, senhora. – o segurança falava apontando para uma plaquinha acima da cabeça dele, que informava o valor da entrada do sanitário. O homem era baixinho e a placa, exposta bem alta na parede, não ficava no campo de visão de quem falasse com ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu vou ter que pagar pra fazer xixi? – riu a moça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A senhora é quem sabe. Se não pagar, não entra. – respondeu ele, com toda a seriedade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paula resolveu brincar com a situação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E se eu não tiver dinheiro?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então a senhora não entra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mesmo que eu esteja apertada?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mesmo assim! - disse ele, com convicção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paula olhou de relance a caixinha onde ele guardava as moedas para troco e resolveu troçar um pouco mais do segurança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E se eu tiver uma nota grande e o senhor não tiver troco? – perguntou, fingindo a necessidade da pergunta e segurando o riso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Grande quanto?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ah... Grande... Digamos, de vinte?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então a senhora deverá esperar enquanto trocamos a nota.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas o senhor vai deixar seu posto só para trocar a nota? – Paula não se agüentava de vontade de rir, mas manteve o tom de curiosidade séria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não senhora, neste caso eu chamarei alguém para trocar a nota para a senhora. - ele mostrou o rádio, enquanto sua expressão denotava grande importância por portar tal aparelho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas... – Paula prendeu a respiração para não rir – Eu devo esperar aqui fora ou lá dentro enquanto o senhor troca a nota?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não sou eu quem vai trocá-la, eu já disse! – O segurança olhou para Paula como se a achasse burra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ah, é verdade! Que cabeça a minha! Sim, enquanto a outra pessoa for trocar a nota, onde ficarei?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Aqui fora, é lógico! – agora Paula tinha certeza de que o segurança a considerava mentalmente inapta, dada a expressão do rosto dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Porque se não tivermos troco, a senhora não vai poder entrar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E se eu estiver apertada?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A senhora vai ter que segurar e trocar a nota em outro estabelecimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E se eu fizer xixi nas calças?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sinto muito, senhora, são as regras. – disse ele, dando o assunto por encerrado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paula podia jurar que o tom de voz do homem era de consternação, nessa última frase. Talvez ele até sentisse pena da moça que faria xixi nas calças! Uma coisa estava clara, aquele homem realmente levava a sério todas as regras de seu trabalho. "Já que estou aqui... vou aproveitar e entrar. Sabe-se lá quando conseguirei achar a saída desse labirinto...", ponderou consigo mesma. Fuçando a bolsa, ela achou a moeda de cinqüenta centavos e a entregou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Obrigada. – ela disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele somente assentiu com a cabeça, indicou a catraca e ajudou Paula a girá-la.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Há há... – riu Paula, entrando no sanitário – Meu xixi custa cinqüenta centavos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Observando melhor o lugar, ela se perguntou o que era feito do dinheiro, já que não havia sabonete nem toalhas de papel para enxugar as mãos. Paula fez mentalmente a promessa de nunca mais ouvir as vizinhas, que a incitaram a procurar preços mais acessíveis no comércio daquele bairro, sacudiu as mãos para tentar secá-las e puxou a maçaneta da porta principal para sair. A porta não se moveu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paula puxou com mais decisão. A porta pareceu abrir, mas fechou-se de novo com força. Intrigada, observou os batentes, olhou de lado para ver se alguém compartilhava com ela o ridículo momento, mas não. Estava sozinha. Tentou novamente. Desta vez, puxou com força. A porta abriu e com ela veio o segurança, agarrado à maçaneta, do lado de fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Há! Era a senhora que não deixava a porta fechar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas eu precisava abri-la!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Para quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Para sair! Para o quê mais? Ou o senhor acha que eu vou ficar aqui dentro para sempre?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O segurança não respondeu. Já havia voltado ao seu posto, a dez centímetros da porta.&lt;br /&gt;Paula suspirou e ia sair quando se lembrou do motivo que a havia levado ao sanitário. Precisava saber onde estavam as escadas que desciam, indicando a saída.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O senhor pode informar-me onde ficam as escadas? – enquanto Paula perguntava, dirigiu-se instintivamente para a catraca. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Ainda olhando para o segurança, mas intimamente querendo sair o mais rapidamente possível de lá, girou a catraca na direção óbvia, a da saída. A catraca girou sem resistência e Paula saiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não! Não! – o segurança meneava a cabeça em sinal de desaprovação. - A saída é por aqui! – disse, indicando um portãozinho minúsculo que ficava logo atrás dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paula parou, assustada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E como o senhor queria que eu soubesse, se o senhor estava parado bem na frente dele? Oras... Desculpe-me! – ela não sabia bem o que dizer, tendo sido pega de surpresa pela reação exagerada do homem, que olhava para ela em desespero, com as duas mãos na cabeça, como se o mundo fosse acabar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ah, olha só o que a senhora fez! – exclamou o segurança em tom choroso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela levantou os braços, como se tivesse sido pega em flagrante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que foi que eu fiz? – perguntou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O segurança demonstrou a catraca com as duas mãos espalmadas para cima, como se estivesse apresentando um espetáculo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quebrou a catraca! Ai! E agora?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quebrei a catraca? – ela estava atônita – Quebrei a catraca?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A senhora girou para o lado errado! Quebrou. Foi isso. Quebrou! – e falando ao rádio comunicador – Atenção, por favor, segurança. Segurança! Na escuta?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rádio fez um chiado e alguém respondeu do outro lado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- QAP, positivo operante. Qual é o problema?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Uma moça quebrou a catraca do banheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- QSL, já estamos mandando alguém averiguar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paula mal podia acreditar no que ouvia. Deu um risinho, achando um absurdo em tudo aquilo e fez menção de sair. Foi impedida pelo segurança, que, saindo do cercadinho, avisou, em tom ameaçador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A senhora não vai a lugar nenhum. Depredação de patrimônio privado é crime.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A moça ia explodir em uma gargalhada, mas conteve-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Como é que é? Depredação de patrimônio? Onde foi que o senhor viu isso? – disse ela, ofegante no esforço máximo de segurar o riso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O segurança suspirou, olhou para cima, como se pedisse forças aos céus e apontou para os números do mostrador que indicava quantas vezes a catraca havia sido girada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Olhe! Olhe o que a senhora fez. Os números não mexem mais! – ele estava nervoso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ah não, que grande besteira! Deixe-me ver – disse ela, agarrando uma das hastes de metal e fazendo menção de girá-la. Foi impedida pelo segurança, que gritou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não! Não faça nada! – e rapidamente, para o rádio – Por favor, preciso de reforços. Urgente!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paula protestou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Isso já está passando dos limites! Deixe-me ir. Que conversa mais estranha! O senhor está agindo como se eu fosse alguém perigoso! Preciso ir! – tentava empurrar o homenzinho, que se colocava à frente dela, impedindo a fuga ao mesmo tempo em que continuava a pedir reforços pelo rádio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fosse porque o homem, apesar de mais baixo, era mais forte, fosse devido à pequena multidão que se juntara ao redor da cena, em dado momento, Paula desistiu de lutar. Ofegante, perguntou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Está bem! Desisto! O que podemos fazer para resolver esta situação?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem, aprumando-se em seu uniforme, se preparava para responder, quando o rádio chiou novamente:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Atenção. Águia no QAP?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais do que depressa, o homem puxou o rádio, olhou para a moça desafiadoramente e apertando o botãozinho lateral, respondeu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- QAP. Águia falando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Águia?" , Paula pensou, "Águia??”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A meliante ainda se encontra no estabelecimento?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Positivo, chefia. Está nervosa. Está quebrando tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- QSL. Viatura em QTI.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- QSL. QRT. Câmbio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paula começava a perder a paciência:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Como é que é? Eu, meliante? Quebrando tudo? – fez menção de agarrar o rádio, no que foi prontamente impedida pelo homem, que desviou, driblou e dançou, enquanto comunicava a periculosidade da senhora a seu superior, a “chefia”...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paula, cansada, deu-se por vencida. Olhando ao redor, percebeu que o número de observadores havia aumentado e todos comentavam a cena. Resolveu ficar quieta e apoiou-se no cercadinho de metal. O segurança foi impedi-la, acreditando-se tratar de mais uma “depredação”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tô quieta, agora! – disse, levantando as mãos em sinal de rendição. Espumaria de raiva se não fosse uma certa comicidade dos acontecimentos e a vergonha que começara a sentir, vendo-se analisada e julgada por dezenas de olhos desconhecidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O segurança somente apontou o indicador e o dedo médio para os próprios olhos e depois para ela, como se dissesse: “estou observando você”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E agora? – ela perguntou – O que vai acontecer?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Agora vamos esperar a chefia decidir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paula suspirou. Tudo por um xixi de cinqüenta centavos e uma simples informação! Enquanto esperava, ela se recriminava por ter saído de casa de manhã, por ter resolvido ir fazer compras em um bairro tão afastado de sua casa, só para economizar um pouco mais. Jurou : “ De agora em diante, xixi, só no Iguatemi!” E se resignou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vai demorar? Tô com pressa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A chefia é ocupada. A senhora vai ter que esperar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao cabo de quinze minutos que pareceram imensamente mais longos para Paula, as pessoas começaram a se dispersar. A chefia ainda não havia dado sinal de vida. O rádio também não chiara. E tudo voltara ao normal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paula pensou consigo mesma que se quisesse sair dali, precisaria ser esperta. Pensou, imaginou, elocubrou... Em poucos minutos achou-se de posse do que ela acreditou ser “o plano perfeito” de fuga na cabeça. Treinou algumas vezes na imaginação. E resolveu colocá-lo em prática.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Senhor segurança, preciso ir ao banheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A senhora não tente me enganar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É verdade! Toda essa confusão... Me deu vontade!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Está bem. Mas ai da senhora se fugir, hein?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Fugir? Por onde? Só se fosse voando pela janela, né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Há! – exclamou o segurança – Conheço gente como a senhora!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- De que tipo, que voa? – Paula suspirou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A senhora quer ou não quer ir ao banheiro?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quero.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- São cinqüenta centavos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu sei. Tome.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paula entrou no banheiro. Agarrou a nécessaire correndo, vasculhou, vasculhou e acabou jogando todo o conteúdo na pia, achando por fim o que procurava. Agarrando o tubo de pasta de dentes, elevou o objeto acima da cabeça, como se levantasse um troféu e bradou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vencerei!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguns minutos depois, saía, com os olhos vermelhos, em prantos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Senhor segurança, eu realmente preciso ir!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem olhava para a moça com desconfiança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Senhor, é verdade. Enquanto estava lá dentro, recebi uma ligação. Minha avó teve um derrame, está no hospital. Minha família está desesperada, preciso ir! Por favor, deixe-me ir!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O segurança estava impassível. Paula bradava:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pelo amor de Deus, deixe-me ir! Minha avozinha está morrendo no hospital. Talvez eu nem chegue a tempo!&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Paula gritava e chorava, uivava, clamando iminente a morte da avozinha querida. Com a gritaria, algumas pessoas voltaram a se agrupar. Comentavam entre si:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que aconteceu?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Parece que morreu gente lá dentro.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Nossa! Alguém teve um derrame!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A roda de curiosos aumentava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Morreu uma senhora!&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Nossa senhora!&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Um médico! Precisamos de um médico!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em poucos minutos, a balbúrdia havia se estabelecido novamente. Pessoas gritavam por um médico, que logo se apresentou, na figura de um senhor tatuado e com a barba por fazer, vestindo uma regata suja de molho de tomate na barriga, que disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sou médico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Dêem passagem, o homem é médico!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O médico está aqui! Saiam da frente!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pobre segurança tentou barrar a entrada do suposto médico. Este, ofendido, bradava estar sendo impedido de exercer a profissão. Havia uma pessoa morrendo lá dentro! O segurança, que já era baixinho, foi ficando cada vez menor diante do número de pessoas que se aglomerou ao redor do cercadinho. Alguém teve a idéia de remover as barras de metal. Logo havia gente tentando arrancá-las da parede. Todos gritavam. Finalmente, catraca, cercadinho e segurança voaram pelos ares, a porta foi arrombada e a pequena multidão invadiu o banheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No meio da confusão, ninguém notou Paula, que se esgueirou pelas pessoas, escondendo o rosto. Parou o primeiro curioso mais afastado, perguntou pelas escadas e em tempo recorde conseguiu sair do prédio, jurando nunca mais voltar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na mesma noite, Paula visitou a avó, levando flores e uma caixa de doces.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vovó. obrigada por existir! A senhora é a inspiração da minha vida!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1102069366961787656-1973398698429605161?l=rprochoroff.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rprochoroff.blogspot.com/feeds/1973398698429605161/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1102069366961787656&amp;postID=1973398698429605161' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/1973398698429605161'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/1973398698429605161'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rprochoroff.blogspot.com/2008/03/pequena-autoridade.html' title='Pequena autoridade'/><author><name>Rachel Prochoroff</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09943996098227202452</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/TEMy6spua2I/AAAAAAAAAJk/PmgmIc_N1Rs/S220/nhonho.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1102069366961787656.post-5173582581382389163</id><published>2008-02-25T20:48:00.000-08:00</published><updated>2008-02-26T18:18:21.913-08:00</updated><title type='text'>Barraco</title><content type='html'>&lt;p&gt;Zé fechou a porta com força, jogou a chave do carro financiado no &lt;em&gt;rack&lt;/em&gt;, bem ao lado da televisão, deu mais três passos e desabou no sofá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu quero o divórcio.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- O quê? &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Isso mesmo, Rita – bufou – Não agüento mais. Quero o divórcio.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- E posso saber por quê? – perguntou a moça com certo tom de ironia a tingir o timbre mezzo-soprano de um amargo de “saco-cheio”.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Cansei.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Cansou? Como assim, cansou?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Cansei, Rita. Cansei!&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Do nada, Zé? De uma hora pra outra?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- É, Rita! – ele ajeitou o corpanzil no sofá na tentativa de concatenar as idéias e assim fazendo, apoiou o pé calçado em uma das almofadas. – Do nada? Você acha...&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Tira o pé do sofá, Zé! Quantas vezes eu tenho que dizer que ainda estamos pagando essa porcaria? – gritou Rita.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Viu? É isso!&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Isso o que, Zé? Por que você está querendo me infernizar hoje?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Eu? Eu é que estou querendo infernizar, Rita? Tem certeza?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Não me provoca Zé, não me provoca que hoje eu não estou no meu juízo perfeito!&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Ah, isso você não está mesmo. Precisava fazer a cena que fez na loja?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- E o que você esperava que eu fizesse? A moça estava dando em cima de você!&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- E eu vi alguma coisa Rita? De onde você tirou isso? Só porque ela resolveu dar um desconto? Precisava chamar a moça de gorda?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Só um desconto? Você enlouqueceu? Ela passou a mão em você, eu vi!&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Ela estava ajeitando a camisa! Estava me ajudando... Já que você estava mais interessada em achar algo a mais para gastar mesmo...&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Gastar, Zé? É assim que você enxerga o meu interesse em fazê-lo se vestir melhor?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- E pra isso precisava gritar com a balconista?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- E tinha outro jeito de ela entender que não era pra pôr a mão em você?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Ela entendeu rapidinho depois que você gritou que ela era uma mal-amada.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Ela passou a mão na sua bunda!&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Ela foi tirar um fiapo que ficou grudado! Rita, você está ficando cada vez pior! Por causa de um fiapo precisava jogar todas as roupas do balcão no chão?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Não, não precisava! Realmente! Precisava na verdade era bater a cabeça daquela cínica na parede, para ver se o bom-senso dela pegava no tranco! &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Ah, como se você quase não tivesse feito isso! Chacoalhou tanto a moça que ela quase vomitou.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Que vomitasse, a sem-vergonha! Passando a mão no traseiro do marido das outras! Se bem que é bonito... – e deu um risinho abafado.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Não foge do assunto Rita, não foge. Se eu não tivesse segurado você, agora a moça estaria sem a cabeça, que teria saído rolando do pescoço, tal a força com a qual você chacoalhou a pobre coitada!&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Eu mato você, Zé! Está defendendo a balconistazinha, agora, é? Então vai defender na rua, porque aqui você não fica!&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Ah, é? E você vai arcar com todos os crediários... Sozinha? – frisou a palavra com um sorrisinho cínico.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Há! Um ou dois carnês? O que é isso perto de um marido traidor?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- São cinco carnês, Rita. Cinco! O carro, o conjunto de sofá, poltrona e mesa de centro, a geladeira, a máquina de lavar e a cama &lt;em&gt;king-size&lt;/em&gt;!&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Isso! Vai! Joga na minha cara agora! Joga, diz que eu sou gastadeira!&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Não estou dizendo isso! Mas talvez fosse mais fácil se você se contivesse um pouco...&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Um pouco? Um pouco? Agora vai dizer que eu exagerei nas compras, hoje!&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Ah, não. Hoje não. Não ia dar mesmo, né?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- O que você está insinuando? – ela berrou. Estava fora de si.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Não estou insinuando, estou dizendo: depois de você ter xingado, gritado, jogado as roupas do balcão no chão, chacoalhado a moça e dado um tapa na cara da coitada, ninguém ia querer vender mais nada pra gente, Rita.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Zé, não me provoca que eu estou de sangue quente hoje! Me deixa, seu exu! Você está com dó? Vai lá, cuidar daquela coisinha! – abriu a porta da rua e apontou para fora, histérica – Vai!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Zé suspirou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Rita, eu não vou lá. Não quero cuidar da “coisinha”. Mas ajudaria muito se você se controlasse um pouco mais.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Não! Não! – Rita desatou a chorar – Eu não acredito! Meu marido se engraçando com a balconista! – as lágrimas escorriam e lavavam a face recém esticada com  toxina botulínica (paga em 24 vezes) da moça.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Eu não estava me engraçando com a balconista, Rita! – acercou-se da esposa, tentando abraçá-la. Tomou uma cotovelada dela – Ai! Você está vendo como eu tenho razão? Ai...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Zé se sentou no sofá – cujas vinte e quatro parcelas haviam sido quitadas até a décima terceira – e ficou observando a esposa, que vertia um rio de lágrimas. Apesar da dor que a cotovelada causara, sentiu pena da Rita e resolveu mudar de tática.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Rita.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- ...&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Rita, pára de chorar e vem aqui.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- ....&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Senta do meu lado, vem cá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rita olhou para ele, desconfiada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vem cá. – ele deu três batidinhas de leve no assento do sofá. Mantinha o olhar reconciliador. Ela foi. Sentou-se ao lado dele, mantendo certa distância.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Chora não – disse ele, puxando a esposa para perto de si. – Desculpa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela se aninhou nos braços dele e foi pouco a pouco parando de chorar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Desculpa – disse ele novamente.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Você ainda quer o divórcio?- choramingou a moça.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Não, sua boba, eu amo você! – ele a apertou mais ainda e ela suspirou de alívio.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Eu prometo que vou tentar me controlar da próxima vez.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Ele riu.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Que foi? – disse ela, rapidamente aumentando o tom da voz.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Shh... nada.... é que eu acho que lá a gente não entra mais não.... – o Zé tentava disfarçar o riso.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- É verdade, né?- Rita suspirou - Quem vai querer a gente lá depois de batermos tanto a porta da loja a ponto de estilhaçar o vidro?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Nós? Que eu saiba, isso você fez sozinha...&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Zé! – ela ameaçou, voltando a se irritar – não me provoca!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele riu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Calma Rita, calma... Eu te amo. – ele beijou a testa dela e esticou a mão para pegar um dos bombons que estavam em cima da mesinha de centro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rita se aprumou incontinenti e bradou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tira a mão dos meus bombons, Zé! Até parece que não sabe que eu preciso deles! Eu estou de TPM, não consegue ver? Ô diabo de homem! &lt;/p&gt;&lt;p&gt;E, esquivando-se dele, levantou-se, agarrou a caixa de bombons e foi chorar na cozinha.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;– Me deixa, seu exu. Me deixa!&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1102069366961787656-5173582581382389163?l=rprochoroff.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rprochoroff.blogspot.com/feeds/5173582581382389163/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1102069366961787656&amp;postID=5173582581382389163' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/5173582581382389163'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/5173582581382389163'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rprochoroff.blogspot.com/2008/02/barraco.html' title='Barraco'/><author><name>Rachel Prochoroff</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09943996098227202452</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/TEMy6spua2I/AAAAAAAAAJk/PmgmIc_N1Rs/S220/nhonho.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1102069366961787656.post-4547169726693387981</id><published>2008-02-10T13:19:00.000-08:00</published><updated>2008-04-04T14:25:22.776-07:00</updated><title type='text'>Mortalha</title><content type='html'>&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;strong&gt;Requiem aeternam dona eis, Domine, et lux perpetua luceat eis.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;span style="color:#009900;"&gt;&lt;strong&gt;(Repouso eterno dá-lhes, Senhor, e luz perpétua os ilumine.)&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Se há 3 coisas com as quais mulher nunca se agüenta, essas são cólica menstrual, amor e curiosidade. Camila não estava naqueles dias, muito menos apaixonada, quando finalmente se deu por vencida e, ao lado de Daniela, subiu os primeiros degraus da entrada do prédio amarelo que avistavam todos os dias, de longe, de dentro do ônibus, no caminho para o escritório de advocacia, onde estagiavam. A construção velha, porém bem conservada, havia sido pintada de um tom de amarelo que seria esdrúxulo, se não fosse pela cor dos batentes das janelas, laranja, que ressaltava mais do que as paredes e relegava a estranheza da primeira cor a segundo plano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Elas não precisaram tocar mais que duas vezes o interfone para que o zelador, um homem de cerca de 30 anos que a bebida havia transformado em 60, abrisse a porta com um sorriso desdentado. O homem de graduação alcoólica elevada apontou para o elevador e balbuciou algo ininteligível e volátil. Camila não titubeou. A curiosidade era maior. Caminhou pelo saguão pequeno e encardido, seguida por Daniela e apertou o botão. Uma luz acendeu no painel, demonstrando que o elevador, que estava no último andar, iniciava sua decida. Lento, porém de velocidade constante, não demoraria mais que 3 minutos para chegar ao térreo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Kyrie eleison, Christe eleison, Kyrie eleison.&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#009900;"&gt;(Senhor tem piedade. Cristo tem piedade. Senhor tem piedade.)&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Camila mal conseguia manter os olhos abertos de tanto sono, quando Daniela notou, pela primeira vez, a janela que destoava do resto do prédio alto, em rua movimentada de bairro barulhento e fedido da cidade. Descia o ônibus a rua a ritmo de intróito de réquiem, lento e catacúmbico, quase moribundo, no trânsito de todo-dia-amém. O prédio, de um amarelo envelhecido que lembrava a pele que cobre o hematoma quando o roxo já está desaparecendo, era feio e ressaltava no meio dos demais, especialmente pelos batentes laranjas. Mas aquela janela, no último andar, parcialmente fechada pelos tijolos, como se alguém houvesse decidido impedir a única entrada de luz daquele cômodo, realmente incomodou as moças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aprumando-se no banco do ônibus, Camila lembrou das leis de condomínio, que geralmente proíbem mudanças externas que desarmonizem a fachada do prédio e se perguntou que tipo de síndico era esse que permitia tal infração. Daniela concordou e ponderou que talvez ninguém ainda houvesse notado tamanha diferenciação em uma única janela, lá no alto, em meio a tanta poluição. Por fim, o ônibus andou e a mente de Camila voltou a fazer cálculos com a velocidade do carro, a bronca do chefe que o atraso fatalmente detonaria e quanto gastaria no almoço em doces para compensar a frustração do namoro recém-terminado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Dies irae, dies illa solvet saeclum in favilla, teste David cum Sybilla.Quantus tremor est futurus, quando judex est venturus, cuncta stricte discussurus.&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#009900;"&gt;(Dia de ira, aquele dia no qual os séculos se desfarão em cinzas, assim testificam Davi e Sibila. Quanto temor haverá então, quando o Juiz vier, para julgar com rigor todas as coisas.)&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Camila ainda sentia dorido o coração quando pensava em Cláudio e nas últimas palavras que proferiu na ocasião da briga derradeira. Havia surpreendido o namorado em flagrante delito de adultério no sofá de seu apartamento, com uma amiga sua. De vassoura na mão, varreu ambos, em trajes mínimos, para fora do apartamento, exigindo que se retirassem da residência, das vistas e da vida dela. Que fossem se trancar em algum lugar para copular como os animais que eram e que se emparedassem vivos, em algum motel da periferia, que ela não ligaria. Mas na casa dela?? Jamais!! Depois, bateu a porta com força descomunal, compatível com a raiva e o desgosto que sentia, causando uma rachadura na parede ao lado do batente, atirou o que encontrou pelo caminho janela abaixo, sentou-se no sofá, sentiu nojo, levantou, cambaleou... E caiu de joelhos no chão, chorando como criança e pedindo o colo da mãe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Tuba mirum spargens sonum per sepulchra regionum, coget omnes ante thronum.Mors stupebit et natura, cum resurget creatura, judicanti responsura.&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#009900;"&gt;(A trombeta poderosa espalha seu som pela região dos sepulcros, para juntar todos diante do trono. A morte e a natureza se espantarão com as criaturas que ressurgem, para responderem ao juízo.)&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;A partir daquele momento, a moça ficaria exposta à apreciação da vizinhança fofoqueira, que fatalmente comentaria por tempos infindos a desventura da pobre estudante de Direito. Ah! E às multas do condomínio. Três, na verdade. A primeira, por fazer barulho depois das 10 horas da noite; a segunda, por jogar lixo pela janela (entendendo-se por “lixo” a camiseta desbotada de Cláudio), e a terceira, por pendurar roupa no terraço (a calcinha da amiga, que ficara presa em um dos ganchos da grade de proteção). O zelador, escutando a reclamação da moça, alguns dias depois, somente meneou a cabeça. A síndica disse que sentia muito, mas a ordem precisava ser mantida:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Afinal, para quê servem as leis do condomínio, minha filha? Hã? Hã? – disse a mulher, sacudindo as mãos com longas unhas vermelho-fogo bem no rosto de Camila, como quem na verdade diz: “Percebeu o absurdo que você está me pedindo? Hello?"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Rex tremendae maiestatis, qui salvandos salvas gratis, salva me, fons pietatis.&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#009900;"&gt;(Ó Rei, de tremenda majestade, que ao salvar, salva gratuitamente, salva a mim, ó fonte de piedade).&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Camila deu de ombros, apesar de sentir uma leve irritação com a incoerência da síndica. A senhora cobrava o bom cumprimento das leis de condomínio com vigor naquela oportunidade, mas habitualmente oferecia reuniões de “tapeué”, no salão de festas, na quarta-feira, a única noite em que se encontrava nas dependências do prédio e que deveria ser utilizada para deliberações sobre o bem-estar coletivo. Como estudante do terceiro ano de Direito, Camila já sabia como mover ações e ganhá-las. Podia muito bem processar o condomínio. Mas pensou na perda de tempo e sentiu um súbito cansaço, provavelmente advindo dos últimos insucessos amorosos, cujas lembranças minavam paulatinamente suas reservas de energia. Estava muito magoada. Foi Daniela, a amiga fiel e dedicada, colega de faculdade e estágio, quem a demoveu da idéia do processo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E mais, não quero mais ver você assim, Ca! Não se deixe abater por tão pouco, você tem muita fibra! Acho que você deveria se mudar daqui. Por que não fica uns tempos em casa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Não, obrigada. Estou bem. O contrato vence em cinco meses e eu não vou renová-lo. Preciso mesmo de outro lugar, esse aqui traz muitas memórias. Mas não posso fazer isso imediatamente...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Faça quando achar melhor, mas faça logo! – redargüiu Daniela, com carinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Recordare Jesu pie, quod sum causa tuae viae, ne me perdas illa die.Quaerens me sedisti lassus, redemisti crucem passus; tantus labor non sit cassus. &lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="color:#009900;"&gt;(Lembra-te, ó Jesus piedoso, que fui a causa de tua peregrinação, não me perca naquele dia. Procurando-me, ficaste exausto, me redimiste morrendo na cruz que tanto trabalho não seja em vão.)&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A urgência dessa mudança, porém, tornou-se premente em apenas alguns dias. Cláudio, arrependido, procurou Camila, pretextando a recuperação das peças de roupas deixadas “por engano”, como ele mesmo afirmou. Encontrando uma tênue dúvida no coração da moça e falando pela fresta entre o batente e a porta, cuja corrente permitia somente a entrada do nariz dele, Cláudio foi suavizando a resistência de Camila com desculpas esfarrapadas e pueris. A moça, condoída pelas lágrimas de crocodilo que ele se esforçava em fazer soarem honestas, acabou abrindo a porta. Qual não foi o seu espanto quando Cláudio, ao invés de beijar-lhe ternamente o rosto e depois os lábios, como o fazia desde os primórdios do relacionamento, espalmou as duas mãos ao redor do pescoço da infeliz, que, assustada, gritou antes que o ar lhe faltasse por completo e a glote fechasse. Por sorte, a vizinha, uma senhora com a audição parcialmente neutralizada, chegava de sua caminhada diária exatamente naquele momento e, empunhando a sombrinha com tanta força quanto a artrite permitia, bateu na cabeça de Cláudio que, surpreendido, largou o pescoço da moça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Confutatis maledictis, flammis acribus addictis, voca me cum benedictis.Oro supplex et acclinis, cor contritum quasi cinis, gere curam mei finis.&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#009900;"&gt;(Condenados os malditos e lançados às chamas devoradoras, chama-me junto aos benditos. Oro, suplicante e prostrado, o coração contrito, quase em cinzas, tomai conta do meu fim.)&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;- Eu volto! – ele ameaçou, enquanto corria para o elevador, que ainda se encontrava no andar – Volto e te mato! Se você não for minha, não será de mais ninguém!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abrindo a porta do elevador rapidamente, Cláudio ainda fixou seu olhar, algo esgazeado de ódio, em Camila, que arfava, mas ainda teve forças para redargüir:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Vai pro inferno, seu cretino! Adúltero maldito! Devia ser trancafiado em uma jaula, seu animal! Maldito!!! Malditooooo!!!! Te jogo na cadeia e te deixo apodrecendo lá! Malditoooo!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto Cláudio entrava no elevador e desaparecia, Camila correu à escada de emergência e despencou dois a dois os degraus. Queria saber quem havia permitido a entrada do ex-namorado no prédio sem sequer interfonar para o seu apartamento. Quase pôs abaixo a porta que isolava a escadaria do saguão de entrada e foi a muito custo que o zelador e Daniela, que chegava naquele momento, conseguiram conter o desvario da moça. Cláudio havia conseguido fugir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Camila, ensandecida, partiu para cima do porteiro, tencionando esganar o pobre-coitado, abobado por horas e mais horas de televisão no exercício de suas funções - as quais nunca realmente foram bem exercidas, diga-se de passagem, pois ou ficava muito entretido com a novela, ou dormia, deixando o morador ao relento em plena madrugada. O incauto, ao seu interpelado quanto à entrada do agressor, respondeu, sem pensar:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Afe, dona Camila, mas a senhora não disse que não precisava mais chamar quando o seu Cláudio chegava? Olha que não entendo, dona Camila, a senhora não deu a chave pra ele, achei que a briga era já tinha passado... Perdoa o homem, dona Camila! Afinal, foi coisa de homem, dona Camila, coisa de homem!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Lacrimosa dies illa, qua resurget ex favilla judicandus homo reus.Huic ergo parce Deus, pie Jesu Domine, dona eis requiem! Amen!&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#009900;"&gt;(Dia de lágrimas será aquele no qual os ressurgidos das cinzas serão julgados como réus. A este poupa, ó Deus, piedoso Senhor Jesus, dá-lhes repouso. Amém.)&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Percebendo que não poderia estrangular o porteiro porque havia sido contida fisicamente pelo zelador e pela amiga e tendo plena consciência das conseqüências que tal insanidade lhe acarretaria, Camila não viu outra alternativa senão chorar. Um choro dorido e tão amargurado, que rapidamente fez seus olhos incharem a ponto de não conseguir enxergar e a forçou a procurar seu quarto e a escuridão, para fugir da vergonha e da enxaqueca. Apoiando-se em Daniela, enquanto voltava para seu apartamento, tomou a decisão de se mudar para qualquer lugar imediatamente, a fim de evitar novo confronto com o ex-namorado e outras cenas deprimentes como a que havia acabado de protagonizar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo no dia seguinte conseguiu guarida na casa da avó, que morava em bairro mais afastado do escritório e da faculdade. Aquela mudança forçaria Camila a pegar dois ônibus para se locomover para qualquer lugar, mas ela não se importava. Tomaria chuva, acordaria mais cedo, enfrentaria as multidões ensardinhadas e malcriadas dos ônibus da hora do &lt;em&gt;rush&lt;/em&gt;. Sofreria, contudo faria qualquer coisa para não ver Cláudio novamente!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Domine Jesu Christe! Rex gloriae! Libera animas omnium fidelium defunctorumde poenis inferni et de profundo lacu!&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="color:#009900;"&gt;(Senhor Jesus Cristo! Rei da Glória! Liberta as almas de todos os que morreram, fiéis, das penas do inferno e do lago profundo!)&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;Passados alguns meses, um dia Camila se surpreendeu ao contabilizar mais de uma semana sem chorar nem sentir o peito contrito, mesmo ao observar qualquer coisa que lembrasse Cláudio. “Realmente, devo estar curando dessa doença”, pensou feliz. No mesmo dia, resolveu aceitar o convite para uma festa do pessoal da faculdade. Combinaram que matariam a última aula e se encontrariam no portão principal, a fim de organizarem as caronas para a casa de determinado amigo. Camila estava ansiosa, havia começado a se interessar por Marcelo, um aluno do último ano de Direito e ela sabia que ele estaria nessa festa. Eles já haviam trocado alguns sorrisos e olhares pelos corredores da faculdade. Na verdade, os dois protagonizavam aquela fase em que todos ao redor percebem o flerte, menos os próprios enamorados, que acreditam, com seus olhares esgazeados, óculos cor-de-rosa e expressões de bobos-alegres, esconder do resto do mundo o que estão sentindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto juntava os livros para sair, Camila viu Daniela acenando no corredor para que se apressasse. Parecia nervosa. Camila esperou que o professor desse sua aula por encerrada e saiu rapidamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas o que você pensa que está fazendo, batendo as asas desse jeito no corredor? – provocou Camila, rindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ah deixa de sacanagem comigo, tenho novidades! O Marcelo, aquele que você paquera, disse pro Ronaldo que quer ficar com você!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sério? – Camila parou no meio do corredor - Hmm... não sei.... será que não é muito cedo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Como assim, cedo? Cedo para quê? Você não está pensando naquele imbecil do Cláudio ainda, está?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não! Não é isso, é que... Ah, acho que estou com medo, sei lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Daniela puxou Camila pela mão:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então deixa para sentir medo depois de beijar o Marcelo! Afinal, já está na hora de você enterrar o Cláudio, você não acha?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É mesmo! Enterrar o meu passado... É isso que devo fazer!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As duas riram com a resolução falsa de Camila. Ambas sabiam que a decepção ainda era muito recente para que a moça, que acreditava em amores perfeitos, conseguisse engatilhar um novo relacionamento. Conversando animadamente, seguiram para o portão, a fim de encontrar o resto da turma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Como vocês demoraram! – disse Marcelo, ao ver as amigas. Aproximou-se de Camila, sorriu, beijou-lhe o rosto e disse que ela estava muito bonita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que é isso, Marcelo, estou igual a todos os dias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Está não, está mais bonita... – e pegou as mãos dela. Camila riu e baixou os olhos, ruborizada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Solta as mãos dela!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Libera eas de ore leonis, ne absorbeat eas tatarus, ne cadant in obscurum&lt;br /&gt;Sed signifer sanctus Michael repraesentet eas in lucem sanctam:&lt;br /&gt;Quam olim Abrahae promisiti et semini ejus.&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#009900;"&gt;(Libertai-as da boca do leão, que não sejam absorvidas no inferno, nem caiam na escuridão: Mas que o santo arcanjo Miguel as introduza na luz santa: Conforme prometeste a Abraão e à sua descendência.)&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Cláudio estava parado a poucos metros do casal e da turma, fuzilando Camila com o olhar de raiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Solta as mãos dela ou vou ter que tomar uma providência – disse, apoiando uma das mãos na cintura e subindo um pouco a camisa. Todos viram o que parecia ser um revólver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ele está armado! – alguém avisou, causando um alvoroço entre os amigos, que não sabiam o que fazer, mas não se moveram um centímetro de perto da moça, no intuito de protegê-la. Marcelo, porém, largou as mãos de Camila, desconcertado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cláudio pareceu não se importar com a reação que causara. Aproximou-se de Camila, lentamente. Um sorriso irônico dançava em seus lábios. Deliciava-se com a sensação de poder que a arma que carregava na cintura lhe dava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vai sair? – perguntou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não é da sua conta. – respondeu Camila.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Aonde você pensa que vai?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Já disse, não é da sua conta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Está namorando outra pessoa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Volto a dizer, não é da sua conta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Se eu fosse você, tomaria mais cuidado e me respeitaria mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não vou respeitar vagabundo que transa com minha amiga no meu sofá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Isso não significou nada, ela não era ninguém. Eu ainda amo você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Problema seu. Me deixa em paz. Não quero mais você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas eu ainda te quero.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não me interessa, me deixa em paz, vai embora!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Cuidado... cuidado...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vou conseguir um mandado de restrição, se você não me deixar em paz. Vou jogar você na cadeia, você vai apodrecer trancado ali, se não me deixar em paz, estou avisando!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quem está avisando sou eu: cuidado...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cláudio saiu lentamente, deixando Camila aterrorizada e certa de que ela deveria se ausentar por algum tempo de tudo o que tivesse ligação com sua vida, inclusive a faculdade. Resolveu trancar a matrícula, já que a seção de alunos ainda estava aberta e ir para casa. De lá, rumou para a rodoviária, sem não antes fazer um telefonema para uma tia que morava em outra cidade, bem longe, muito menor e menos confusa. Daniela entristeceu-se com a decisão da amiga, mas manteve seu apoio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não quer mesmo ficar na minha casa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não, obrigada, Dani. Eu realmente preciso de paz, agora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com essa decisão, Camila abria mão da própria liberdade, esperando conseguir, finalmente, um pouco de paz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Hostias et preces tibi, Domine, laudis offerimus.Tu suscipe pro animabus illis, quarum hodie memoriam facimus: fac eas, Domine, de morte transire ad vitam, quam olim Abrahae promisisti, et semini ejus.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#009900;"&gt;(Sacrifícios e preces a Ti, Senhor, oferecemos com louvores. Recebe-os em favor daquelas almas, das quais hoje nos lembramos: fazei-as, Senhor, da morte passarem para a vida, conforme prometeste a Abraão e à sua descendência.)&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;Um semestre se passou. Durante esse tempo, Camila descansou, chorou, teve pesadelos; passou a freqüentar a missa todos os domingos e a conversar muito, mas muito mesmo com a tia que, apesar de morar em cidade tão pequena e pacata, tinha um coração enorme e idéias um tanto revolucionárias para sua idade. Foi a tia quem a convenceu a matricular-se em um curso de jardinagem, que Camila adorou. A moça também passou a ajudar na horta, pintar panos de prato e bordar toalhinhas de lavabo. De vez em quando, Camila ligava para Daniela a fim de dar-lhe notícias e contar as novas aquisições para seu rol de habilidades. Daniela, que havia nascido e morado sempre na cidade gigante, ria muito com as novas peripécias de Camila e acrescentava que um dia ainda iria visitar a amiga e os sete filhos na fazenda e tirar leite da vaca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você está maluca? Eu vou voltar! Preciso terminar a faculdade e continuar com a minha vida. Só estou dando um tempo... Não me sinto preparada ainda. – explicava Camila.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No começo, ela queria muito saber se Daniela havia visto Cláudio, mas não tinha coragem de perguntar. E, talvez porque durante esse tempo não o tivesse feito, ou talvez porque se esforçasse para esquecer o ex-namorado, ao cabo de seis meses Camila era realmente outra pessoa, mais calma, mais comedida, mais livre do que nunca de Cláudio. E pronta para retomar sua vida, do ponto onde a havia deixado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em um dia bastante ensolarado, Camila bateu à porta de Daniela, tencionando surpreendê-la. Fez-se anunciar na portaria do prédio com o nome de outra amiga, já que o porteiro era novo e não a reconheceria. Sua entrada foi granjeada quase prontamente e em poucos minutos estava defronte à porta do apartamento de Daniela. Tocou a campainha. Passados alguns minutos, pensou ter escutado um alvoroço e o ruído de um vidro qualquer que se quebrava. Lembrou-se que talvez estivesse chegando em má hora. Estaria a amiga ocupada? Mas logo a porta se abriu e Daniela, vestindo um roupão e arrumando os cabelos, a recebeu com um largo sorriso:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Camila! Que surpresa!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Se importa se eu ficar aqui até arranjar um lugar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ficar aqui? Mas é claro! – Camila pensou notar que Daniela praticamente gritava, mas achou que talvez os seis meses que passara reclusa causavam o estranhamento – Entre!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Camila pegou uma mala e Daniela, a outra. Uma porta bateu na cozinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ah, nesse andar, o vento é inclemente! – riu Daniela. Mas não havia vento, pensou Camila. Ou havia? Teria ela passado muito tempo ao ar livre, no campo, onde as grandes tempestades, quando chegam, são amedrontadoramente cinematográficas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Sanctus, sanctus, sanctus Dominus Deus Sabaoth! pleni sunt coeli et terra gloria tua.Osanna in excelsis.&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#009900;"&gt;(Santo, Santo, Santo, Senhor Deus dos Exércitos! Cheios estão os céus e a terra da Tua glória. Hosana nas alturas).&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Em pouco tempo Camila já havia retomado toda a sua rotina, inclusive as aulas da faculdade e o estágio, no mesmo escritório que havia deixado às pressas, havia seis meses. O chefe continuava ranzinza e o trânsito, insuportável, mas Camila sorriu ao perceber que não tinha mais necessidade do chocolate após o almoço, agora que Cláudio não fazia parte de sua vida. Era verdade que às vezes ainda lembrava-se dele, porém, mais como um erro que não deve ser cometido, tampouco repetido. Uma lição bem aprendida, diria ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcelo foi quem mais se alegrou com a volta de Camila. Logo os dois já haviam se entendido e estavam namorando. Em pouco tempo ela se mudou para a casa dele, deixando Daniela um tanto triste pela perda da companhia, mas satisfeita com a alegria da amiga. Marcelo queria casar e Camila, que gostava dele cada vez mais, se surpreendeu dizendo “sim” quando o namorado ajoelhou ao seu lado, durante um jantar a dois em um restaurante famoso da cidade. Formavam, verdadeiramente, o casal direito: estudavam as leis, estagiavam na advocacia e agiam com tanta retidão, que os amigos resolveram celebrar o noivado com uma festa surpresa para os dois, no apartamento de Daniela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ao encontro que deveria ter acontecido há seis meses! - disse um dos colegas da faculdade, estourando o champanhe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As risadas corriam soltas e a música, um tanto alta, quando o zelador tocou a campainha do apartamento, pedindo que o barulho cessasse, depois de interfonar mais de três vezes. Daniela pediu a todos que baixassem as vozes e diminuiu o volume da música, pois não queria pagar uma multa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Melhor assim – disse - Tenho certeza de que minha paz será garantida também... Afinal, para quê servem as leis de condomínio?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É verdade – atalhou Camila – o prédio do Marcelo, ou melhor, o nosso prédio...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ainda está se acostumando ou pretende fugir, Camila? – alguém comentou em voz mais alta, causando o riso generalizado e certa confusão de comentários. Todos gostavam muito do casal e estavam imensamente felizes com essa união.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Benedictis, qui venit in nomine Domini. Osanna in excelsis.&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#009900;"&gt;(Bendito o que vem em nome do Senhor. Hosana nas alturas)&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Camila continuou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O nosso prédio – disse, olhando significativamente para Marcelo e frisando a palavra “nosso”, enquanto o noivo se aproximava e a enlaçava carinhosamente pela cintura – é cheio de regras, mas fico tão contente com isso! Tenho uma sensação tão forte de segurança!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É para isso que servem as leis do condomínio, não é? – Marcelo beijou a noiva no rosto. Depois, dirigindo-se a todos que estavam na sala, continuou – Mas eu descobri um segredinho da minha futura mulher... – e piscou significativamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O barulho aumentou novamente com os comentários e a vizinha de baixo passou a bater no teto com a vassoura, sinalizando que haviam quebrado as regras mais uma vez. Marcelo fez um olhar de suspense, segurou a respiração, todos fizeram silêncio para escutar o que ele tinha a revelar:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A Camila é neurótica por esse negócio de regras de condomínio! Vocês acreditam que ela vem implicando com a janela de um prédio que ela vê no caminho para o escritório?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ah, isso não é justo! – Camila se defendeu – aquela janela é horrível! Ademais, não fui eu quem a notou, foi a Daniela! – riu ao culpar, de brincadeira, a amiga – Ela sabe que eu não agüento essas coisas esteticamente incorretas!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Há, há, há... Fala a grande advogada... O Direito aplicado à Arquitetura! – Daniela levantou os braços e fez uma grande reverência à amiga, suscitando gargalhadas – Mas é verdade, tenho que concordar... Aquele prédio é horrível! – adicionou Daniela – Batentes laranjas e paredes amarelas. Simplesmente medonho!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas o pior mesmo é aquela janelinha, a única lá em cima, fechada com tijolos aparentes! Destoa de todo o resto! – defendeu-se Camila – Será que o prédio não tem um síndico?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Se tiver, ele deve ser daltônico! – alguém brincou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Estou quase indo lá para investigar! – revelou Daniela – De tanto que a Camila reclama dessa janela, todos os dias! Quero saber por que a lei não está sendo cumprida! – falou em tom autoritário, mas rindo, ao mesmo tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não é de todo uma má idéia... – ponderou Camila&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ora, deixa de piada! – Marcelo olhou para a noiva, achando graça no comentário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas Daniela e Camila perceberam que ambas tinham a mesma curiosidade. E selaram o trato com um olhar significativo: iriam averiguar o que estava acontecendo e que janela era aquela. Afinal de contas, as leis de condomínio devem ser cumpridas!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, dona eis requiem.Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, dona eis réquiem sempiternam.&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#009900;"&gt;(Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo: dai-lhes o repouso.&lt;br /&gt;Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo: dai-lhes o repouso eterno.)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;O elevador era sinistro, tanto quanto o eram as paredes internas do saguão. O prédio era antigo e o chão parecia não ver um esfregão há décadas. Daniela e Camila se entreolharam. O porteiro havia recostado atrás do balcão e roncava sob o efeito do álcool. Uma garrafa de pinga, vazia, estava caída aos pés dele. As moças sorriram, pensando a mesma coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É... – disse Camila – Acho que não tem síndico aqui não...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Daniela abriu a porta do elevador e olhou para Camila:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nós vamos mesmo? – perguntou com receio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Camila respirou profundamente, como se tomasse coragem e respondeu, resoluta:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vamos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ambas entraram no elevador e Camila, olhando os botões do painel, hesitou, antes de apertar o 13, o último andar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Treze, meu número de sorte! – tentou brincar para disfarçar o medo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O elevador começou a se mover. De repente, sofreu um tranco, parou por alguns segundos. As moças arregalaram os olhos e Camila pensou que a idéia de investigar uma janela era tão boba! Mas o elevador voltou a se mover e logo tudo estaria acabado. No 13º andar, o elevador parou. Daniela olhava para baixo e não se moveu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a porta se abriu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era Cláudio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Camila atônita, exclamou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas o que significa isso? Daniela? O que...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Daniela sorriu para Cláudio:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A entrega está feita. Onde está meu pagamento?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cláudio puxou as duas para fora do elevador. Abraçou Daniela pela cintura e beijou a boca da moça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Já já. Cuidemos disso primeiro. – disse, afastando Daniela e olhando para Camila.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A moça, apavorada, entrou no elevador e puxou a porta, tentando fugir, mas Cláudio manteve o botão do elevador pressionado e a porta interna não fechou. Camila, entrando em verdadeiro desespero, gritou por socorro. Depois, pediu ajuda à amiga. Daniela olhava para o chão e não se moveu. Por fim, Camila pediu misericórdia. E a voz lhe faltou. Começou a chorar. Daniela continuava olhando para o chão e não se moveu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cláudio agarrou a ex-namorada com força e tampou o nariz da moça com um lenço úmido. De repente, Daniela, excitada com a aventura, pegou o revólver da cintura de Cláudio e deu uma coronhada na cabeça da amiga, que desmaiou. Cláudio protestou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que foi isso? Eu já tinha tudo sob controle!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Só para garantir, meu amor, só para garantir!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Lux aeterna luceat eis, Domine.&lt;br /&gt;Cum Sanctis tuis in aeternum: quia pius es.Requiem aeternam dona eis, Domine.&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#009900;"&gt;(Que a luz eterna os ilumine, Senhor&lt;br /&gt;Com os teus santos pela eternidade: pois és piedoso.&lt;br /&gt;Repouso eterno dá-lhes, Senhor)&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Camila acordou com brutal dor de cabeça, em meio à escuridão que somente uma nesga de luz traía. Tateou ao seu redor, sentiu o chão de tacos. Havia um cheiro indefinido no ar. Tateou mais um pouco e achou um pano levemente umedecido e um vidro, ao seu lado, no chão. Pegou o vidro, levantou-se com dificuldade e se aproximou do lugar onde um filete de luz indicava a conexão com o mundo exterior. Passando a mão, percebeu a textura de tijolos e cimento entre eles. Ah, o cheiro era de parede recém erguida! Mas não era só disso. Havia algo mais. Acostumando os olhos à escuridão, aproximou o vidro que tinha nas mãos da fresta de dois dedos de largura, um ponto não cimentado entre dois tijolos e leu o rótulo: clorofórmio. Olhando pela fresta, Camila percebeu a rua e os prédios, os mesmos que via todos os dias pelo lado de fora, pela janela do ônibus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um calafrio percorreu seu corpo e a certeza de que havia selado seu destino sem se dar conta despencou em sua alma, gelando até a última fibra da sua coragem: havia presenciado a construção de seu esquife de tijolos, dia após dia, arquitetado pelo namorado dispensado e pela falsa amiga. A janela que destoava era a mortalha de Camila. Sentiu um súbito cansaço, as pernas amoleceram. Desabou no chão, de joelhos, chorando e pedindo o colo da mãe. Depois de muito soluçar, cansada, deitou-se no chão. Percebeu que havia escurecido, pois a luz que antes entrava pela fresta agora se resumia a uma claridade muito tênue. Tentou colocar os pensamentos em ordem. Quais seriam suas chances de sobrevivência? Procurariam por ela, isso era certo. Porém, alguém se lembraria da janela de tijolos, mencionada em uma brincadeira na última festa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Tudo bem... – suspirou, tentando ficar calma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda havia a esperança de que o síndico fosse mais zeloso que a morte no cumprimento dos deveres. Afinal de contas, para quê servem as leis de condomínio?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Et lux perpetua luceat eis. Cum Sanctis tuis in aeternum: quia pius es.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#009900;"&gt;(E que a luz perpétua os ilumine . Com os teus santos pela eternidade: pois és piedoso.)&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#009900;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#009900;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#009900;"&gt;**************************************************************&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#009900;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#000099;"&gt;Nota para os curiosos: a janela existe. Ela pode ser vista descendo-se a Brigadeiro Luís Antônio de ônibus. O prédio está do lado esquerdo de quem desce a rua, mais ao fundo, logo depois da R. Cris Tronbjerg. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1102069366961787656-4547169726693387981?l=rprochoroff.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rprochoroff.blogspot.com/feeds/4547169726693387981/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1102069366961787656&amp;postID=4547169726693387981' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/4547169726693387981'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/4547169726693387981'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rprochoroff.blogspot.com/2008/02/mortalha.html' title='Mortalha'/><author><name>Rachel Prochoroff</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09943996098227202452</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/TEMy6spua2I/AAAAAAAAAJk/PmgmIc_N1Rs/S220/nhonho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1102069366961787656.post-187380788015751333</id><published>2008-02-04T19:00:00.000-08:00</published><updated>2008-02-12T17:30:54.506-08:00</updated><title type='text'>A piscadela de Deus</title><content type='html'>Pedro Henrique soluçava baixinho, tentando segurar o choro, enquanto a mãe, zelosa, aplicava o remédio no ralado dos cotovelos e antebraços:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas como foi que isso aconteceu?&lt;br /&gt;- Caí do skate.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maria Lúcia fez um muxoxo, resmungou algo para si mesma e o menino, antevendo a proibição, foi logo emendando:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas não foi o skate, não, mãe.&lt;br /&gt;- Ah, não? – redargüiu a mãe, levemente irritada – E o que foi então?&lt;br /&gt;- Foi Deus que piscou!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maria Lúcia parou, estupefata. Olhou para ele, sem saber, a princípio, se brigava ou condescendia. Ficou com o braço no ar, segurando o algodão embebido em iodo, repassando mentalmente as últimas peripécias do filho. Por fim, decidiu-se:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ora, com efeito, Pedro Henrique! Isso já está passando dos limites. Primeiro, surrupiou chicletes no mercadinho. Depois, levou advertência por bater no colega no recreio. Agora me aparece todo escalavrado por causa dessa porcaria desse skate e como se não bastasse tudo isso ainda põe a culpa em Deus?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O menino olhava assustado para a mãe, com medo do castigo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas desta vez não fui eu, não, mãe! Foi Deus, tô falando, foi Deus!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O vidro de iodo escorregou das mãos de Maria Lúcia e caiu no chão, esparramando todo o conteúdo e manchando o tapete alvo do banheiro. A mãe perdeu o controle e disse, rispidamente:&lt;br /&gt;- Já chega, Pedro Henrique. Chega! Vá para o seu quarto. Já! Hoje não tem playstation, TV, internet, nada! Vai ficar no seu quarto, pensando no que fez! Onde já se viu, não crio filho para ser mau-caráter, ficar pondo a culpa em Deus! Te esconjuro, moleque!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Mas mãe...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Para o quarto! Já!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O menino saiu, desconsolado. Maria Lúcia pôs as mãos na cabeça e resmungou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Isso só pode ser praga da mãe do Luís Alfredo. Aquela carola vive implicando comigo porque não pus o Pedro Henrique no catecismo. Ai, se ela escuta! Deus me livre! Vai chamar o menino de herege!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi exatamente isso que aconteceu. No domingo seguinte a avó, vendo o cotovelo do menino, destilou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Maria Lúcia, você não tem medo que o menino se mate com esses brinquedos? Quando Luisinho tinha a idade de Pedro Henrique nunca permitia que brincasse perigosamente. Preferia que ele ficasse estudando e lendo. Isso tornou meu filho o grande homem que é hoje.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maria Lúcia suspirou. Ia articular a resposta, mas Pedro Henrique foi mais rápido:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Vovozinha, não foi o skate, não! – E antes que a mãe pudesse fazer algo, complementou – Foi Deus que piscou, vó!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pronto. Estava estabelecida a confusão. D. Clara, a mãe do Luís Alfredo, era uma mulher completamente devotada à igreja. A pobre senhora, boquiaberta, não conseguiu proferir som algum, chocada com a heresia do neto. Pedro Henrique, vendo a mãe desabar no sofá e não entendendo o que estava acontecendo, quis consertar a situação:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É sim, vovozinha. De vez em quando, Deus pisca. E quando Ele pisca, acontecem as coisas ruins.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A avó surtou de um lado, pondo as mãos no coração e pedindo os remédios. Maria Lúcia surtou de outro, antevendo outra briga conjugal causada por uma reação exagerada da sogra. Luis Alfredo se movia feito barata tonta, não sabendo a quem acudir primeiro. Por fim, agarrou o braço do filho e chacoalhou o menino, gritando:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Olha o que você fez! Vá para o seu quarto!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pedro Henrique subiu as escadas chorando. A empregada, sentindo pena do menino, foi atrás, levando alguns biscoitos escondidos no avental.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Olha o que eu trouxe pra você! Não fica assim, não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O menino enxugou as lágrimas na manga da camiseta, enquanto a empregada emendava:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas também, que idéia estranha essa, a sua, de pôr a culpa em Deus! Olha que Ele castiga, hein? Coisa feia, menino, ficar mentindo desse jeito!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pedro Henrique adorava a Maria, que tomava conta dele desde que ele era pequenininho. Era ela quem sempre arranjava um jeito de amainar os castigos que ele, traquina e hiperativo, colecionava desde que havia se entendido por gente. Pensou rapidamente nas proporções que aquela história estava tomando e decidiu que não queria decepcionar a Maria, nem perder os biscoitos de chocolate dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas eu não estava mentindo, Maria, não mesmo! Deus piscou! Eu vi!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ai, menino, não fala uma coisa dessas, onde já se viu, ver Deus piscar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas eu vi!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Viu mesmo? Como?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pedro Henrique relatou o suposto acontecido. Descia a rua de skate, em alta velocidade. De repente, viu um clarão e no meio dele, um velhinho, simpático, que piscou para ele. Então, caiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Era Deus, Maria, eu sei! – insistiu o menino, com um olho na empregada e o outro nos biscoitos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Vixe Nossa Senhora, Virgem Santíssima, será que pode ser verdade uma coisa dessas? O menino vê &lt;em&gt;esp’ríto&lt;/em&gt;?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não, Maria, não era espírito, era Deus!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maria, como a maior parte dos brasileiros, professava uma fé um tanto enviesada, que misturava os ingredientes de tudo aquilo que era bonito, conveniente e condescendente de todas as religiões que conhecera. Por isso, em meio às velas, imagens de santos, comunhão sem confissão e livros da Zíbia, devotava suas orações ao desconhecido, pedindo proteção. No dia seguinte toda a vizinhança já comentava que o menino era médium e santo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas a senhora tem certeza, D. Maria? Aquele menino roubou o mercadinho outro dia! - ponderou o açougueiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Ah, seu Zé! E o menino Jesus também não aprontava? É menino, é garoto! Estou dizendo, Pedro Henrique é santo! Viu Deus! Nem Jesus foi, foi Deus mesmo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ah, D. Maria, se é milagreiro, será que ele cura minhas costas? Não posso mais de dor...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Seu Zé... será? Trago o menino aqui amanhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Deus lhe pague, D. Maria. Deus lhe pague!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, Maria levou Pedro Henrique ao açougue. Seu Zé, meio desconfiado, abaixou um tantinho de nada as calças e mostrou o ponto que doía. O menino, exercitando a malandragem, olhou, suspirou... olhou de novo...observou tudo ao seu redor, tentando achar uma saída... e nada. Seu Zé já ia ficando aflito, sentindo-se um tanto ridículo, ao submeter sua lombalgia à apreciação de um garoto de 12 anos. E estava quase desistindo, quando Pedro Henrique exclamou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ahá!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta exclamação foi seguida pelo cochicho dos demais que presenciavam a cena:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ahá o que??&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ele disse “ahá!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O menino falou!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Glória a Deus!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E diante do assombro de todos, Pedro Henrique, forjando um ar solene e se esforçando para não rir, apontou o culpado:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Seu Zé, Deus piscou. Deus piscou e me disse que a sua dor é por causa daquilo ali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Aquilo ali é um banquinho. Um banquinho, Pedro Henrique?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim, seu Zé, um banquinho. – Pedro Henrique escondia o riso – o banquinho foi tomado pelo demônio. Jogue o banquinho fora, reze 3 pais-nossos e espere alguns dias. A dor vai passar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve um murmúrio de assombro. Seu Zé suspirou. E findos cinco dias, a dor realmente havia passado. Ninguém notou que o banquinho era muito baixo para o seu Zé, que afiava as facas em posição completamente desconfortável. Tampouco alguém ponderou que o demônio certamente estaria muito ocupado com as guerras que assolam a humanidade para se apossar de um banquinho e das costas de um pobre açougueiro. O fato é que a dor havia passado e seu Zé resolveu apregoar as virtudes do menino milagreiro pelos quatro cantos do bairro, a todos quanto quisessem ouvir!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não havia nem dez dias e já a fila na porta da casa de Maria Lúcia dobrava a esquina da rua. Todos queriam ver Pedro Henrique, consultar com o santo infante, motivados por dores do corpo, do coração, da alma e, principalmente, do bolso. D. Clara, a avó, quase precisou de outra ponte de safena. Persignava-se dia e noite, rezava terço após terço em silêncio, ora sentada na sala de estar de Maria Lúcia, ora na igreja. De vez em quando uma lágrima rolava silenciosamente pelo rosto enrugado da velhinha:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Que mal fiz, Senhor, para merecer tal castigo? Um neto herege? Possuído pelo mal?- dizia para si mesma e para Deus, em suas orações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luís Alfredo, em viagem pela empresa, soube da notícia e vaticinou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Esse moleque desordeiro! Não teremos mais sossego!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto isso, Pedro Henrique ficava cada vez mais assombrado com o poder de sua mentira. Sabiamente, continuava acusando Deus de piscar favoravelmente para uns, quando conseguia perceber aquilo que a ignorância dos mal-instruídos e parcamente treinados nas charadas intelectuais da vida teimava em velar; desfavoravelmente para outros, quando nem o olhar mais arguto podia acusar a causa da desarmonia física ou monetária na vida do consulente. Não houve padre, reza ou rosário que contivesse o crescimento daquele fenômeno. Por fim, coube à família de Pedro Henrique a resignação muda, que virou organização das filas com distribuição de senhas, que se transformou em admiração quando os primeiros presentes de agradecimento começaram a chegar... E que acabou virando um escritório de administração com uma conta bancária bastante pródiga ao cabo de alguns anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém Deus, piscando ou não, tudo vê...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pedro Henrique contava 23 anos. Voltava de uma viagem bem sucedida pela América Latina onde os templos da seita da Piscadela de Deus perfilavam-se, harmoniosos e profícuos, por vários países. Cultos à pálpebra divina eram rezados em várias línguas e dialetos. Havia setores diversos, grupos para jovens com música mais ritmada e dançante, sessões para os mais idosos, onde se afirmava a importância da sabedoria angariada ao longo dos anos de vida, além de uma linha inteira de produtos para grávidas, cujo &lt;em&gt;slogan&lt;/em&gt; dizia: &lt;em&gt;Deus piscará para seu nenê também!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegando ao saguão do aeroporto, onde alguns fiéis portavam cartões com o olho de Hórus – os &lt;em&gt;marqueteiros&lt;/em&gt; acharam melhor remeter as raízes da seita ao Egito antigo, antevendo grande faturamento com pacotes de viagens turísticas para as ruínas e construções místicas daquele país – e o esperavam para uma sessão de autógrafos, Pedro Henrique desmaiou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levado às pressas para o hospital mais próximo e após receber os primeiros socorros, os médicos, consternados, pediram exames corriqueiros, que exigiram exames mais profundos, que requisitaram uma biópsia, que revelou um câncer em estágio avançado. Todos ficaram chocados com a notícia de que o menino que via Deus, agora um jovem adulto, tinha um punhado de células baderneiras e indisciplinadas em seu organismo, causando um estrago que nem mesmo Deus havia visto – ou, se vira, não avisara. Correntes de orações foram organizadas. Terços de contas de olhinhos foram desfiados à exaustão. O câncer se transformou rapidamente em metástase. Debalde a luta insana com a quimioterapia ao seu lado, o menino que viu Deus ia, finalmente, vê-Lo de perto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desesperado, em seu leito no hospital, Pedro Henrique acreditava estar sofrendo uma grande injustiça. Passou a maldizer Deus:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Aquele ingrato, eu tudo fiz por Ele, menti em Seu nome, oras, juntei dinheiro com o qual fiz obras sociais, trouxe pessoas para adorarem Seus olhos, agora tão impiedosos comigo. Sou Seu alvo, serei Seu mártir! - e chorava copiosamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As obras sociais, convém o leitor saber, se resumiam a duas casas sem reboco e pintura, no qual o templo dizia abrigar algumas crianças órfãs e promover seus estudos, mas que na verdade continham apenas poucas camas enfileiradas, sem colchões, esperando pela assinatura de alguma mão (ainda seca) no órgão público pertinente, para receber um alvará qualquer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maria, a empregada, continuava trazendo os biscoitos ao menino, agora preso àquela cama no hospital. Pedro não os comia mais, dado o constante enjôo com que era brindado pela quimioterapia, mas apreciava a presença da empregada, velha conhecida, que lhe devotada um amor de quase mãe, já que a mãe, agraciada por muitas piscadelas de Deus com renda mais do que favorável, vivia em viagens e ainda não havia podido visitar o filho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com sua fé enviesada, Maria continuava acendendo velas, lendo livros da Zíbia e comungando sem confessar. Foi em algum centro espírita que escutou a amiga falar do menino milagreiro do bairro do Afasta Cipó, na periferia de cidadela vizinha. Amando Pedro Henrique com devoção, Maria estava disposta a tentar “de um tudo” para salvar seu menino querido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em sua próxima visita, passando a mão na cabeça de Pedro, sussurou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pedro, meu filho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Hmm? – respondeu, quase sem forças, Pedro Henrique.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Deixa eu trazê um menino pra te ajudá?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ahn?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Diz que tem um menino que faz milagre. Deixa eu trazê ele aqui pra te salvá?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que menino? Que milagre? – Pedro Henrique juntou forças para repelir a idéia – Milagre nada, Maria, não existe milagre! Não existe Deus. Se existe, ele fechou Seus olhos e não quer mais me ver!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Arre, menino, não fala assim, que horror, credo, eu hein?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sai, Maria, sai! Me deixa em paz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas Maria tinha fibra, vontade e crença. Brasileira, na melhor acepção da palavra. Pediu um trocado para um plantonista aqui, uma enfermeira lá... E no final da semana já havia juntado o dinheiro da corrida para buscar o menino milagreiro de táxi, já que o motorista de Pedro Henrique preferia ficar jogando dominó com os motoristas das ambulâncias no pátio do hospital. Sem esperar ordem de quem quer que fosse, lá se foi Maria para o bairro de Afasta Cipó, com o endereço do menino escrito a lápis em um pedaço de papel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O casebre tinha teto de zinco e um cômodo só, onde vivam o menino milagreiro, a mãe e sete irmãos. O pai havia saído para comprar leite e não voltara mais, quando a mãe ficou grávida de trigêmeos. O banheiro era uma casinha afastada e a latrina, um buraco cavado no chão. Havia uma pá que se podia usar para cobrir o buraco com terra. E era só isso. Joãozinho, o menino milagreiro, vivia em paz, apesar da extrema pobreza. Em um dia de muita chuva, houve um deslizamento que soterrou o casebre. Joãozinho, o único que não estava debaixo dos escombros, não descansou enquanto não fez os bombeiros escavarem um por um seus irmãos e a mãe. Sabia exatamente onde estavam, porque, segundo ele, Deus havia lhe ditado o que fazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde então, dava consultas, ajudando as pessoas que Deus julgava por bem auxiliar, à guisa de caridade ou em troca de um pedaço de pão ou uma caixa de leite, se o consulente quisesse ajudar. E se lhe dissessem que isso era um absurdo, que devia cobrar, redargüia que Deus escolhia seus instrumentos. E que também escolhia onde, em que caixa e em que estado os guardaria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vendo o desespero de Maria, Joãozinho não pensou duas vezes, puxou água do poço e se lavou como pôde, vestiu a roupa mais limpa que tinha e seguiu com ela para o hospital. O menino de 12 anos, encardido e maltrapilho, entrou no hospital olhando para baixo, como se asfixiado por todas as normas que ditam respeito às instituições sociais, aquelas mesmas normas que não enxergam a envergadura do coração, somente a dos cifrões. Andando pelos corredores, praticamente pedia desculpas pelo estado em que se apresentava às paredes caiadas. Foi barrado por um enfermeiro cuja tenacidade Maria, a muito custo, dobrou, pois o horário de visitas já havia acabado e não se podia permitir tamanha aviltação purulenta em ala tão asséptica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pedro Henrique dormia, profundamente, anestesiado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;João olhou para Maria, como se pedisse permissão para chegar mais perto do leito. Maria somente olhava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;João deu dois passos e se colocou ao lado de Pedro. Espalmou as mãos acima da cabeça do enfermo, sem o tocar e fechou os olhos. No íntimo do seu ser algo parecido com uma prece brotou com sinceridade. Maria somente olhava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;João suspirou. Parecia até que fazia força para romper as barreiras que a doença, ingrata, havia construído ao redor do organismo de Pedro, muros de contenção e domínio, que sequer a quimioterapia conseguia debelar. Maria somente olhava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;João começou a suar, firmemente compenetrado naquilo que sabia ser seu dever, ainda que não soubesse ao certo o motivo pelo qual devia fazê-lo. Diminutas gotículas de suor começaram a brotar na testa de Pedro. Uma leve agitação tomou conta do enfermo que, embora sedado, demonstrava sentir, ainda que debilmente, que algo interferia na organização da doença. Maria observava atentamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, o suor escorria abundantemente do rosto de João. Pedro se agitava. O monitor passou a apitar, acusando a taquicardia. Um enfermeiro correu ao quarto e foi impedido de entrar pelo corpanzil de Maria que barrava a porta. Ela, porém, não tirava os olhos do leito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;João arfava, Pedro arfava, Maria arfava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O enfermeiro, estático, observava a cena, assustado e sem forças para se mover, como se algum poder o impedisse de agir. Parecia que uma energia descomunal isolava aquele quarto do resto do hospital. O monitor apitou com mais violência, enquanto o suor de Pedro encharcava os lençóis e a respiração de João se tornava mais e mais rápida...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente, o monitor parou. Houve um átimo de silêncio e espera angustiante e logo o bip-bip ritmado dos aparelhos trouxe todos de volta a realidade. João balbuciou “Graças a Deus” e deixou cair as mãos ao longo do corpo. Pedro abriu os olhos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que houve? Que luz era essa? Maria, que está acontecendo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O enfermeiro aproveitou que Maria limpava as lágrimas e corria para junto de Pedro. Entrou no quarto e agarrou Joãozinho, para levá-lo, “que o horário de visita já acabou faz tempo!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Como está meu menino?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não sei, estou bem, que aconteceu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ah, filho, foi Deus. Agora eu tenho certeza. Foi Deus. Usou o menino que eu trouxe, Pedrinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que menino?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Esse aqui... ué! Cadê o menino?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por mais que procurassem, ninguém achava Joãozinho. O enfermeiro disse que havia levado o menino para fora daquela ala e o deixado sentado em um banco no saguão do hospital. Porém, ninguém no saguão o havia visto. Tampouco os seguranças de quaisquer saídas do edifício sabiam dele. Nem mesmo os motoristas dos táxis e ambulâncias que jogavam dominós e cartas em vários pontos ao redor do estacionamento. Ou os transeuntes. Ninguém vira Joãozinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No bairro do Afasta Cipó, não havia viva alma que soubesse quem era o menino, quando Pedro Henrique, completamente restabelecido, tendo fechado a igreja e doado seus inúmeros bens a várias instituições de caridade, foi procurar por ele. No lugar do casebre não havia vestígio de família alguma, nem de oito filhos, nem de nenhum. No meio do terreno onde deveria estar o casebre de João, somente um toco de madeira onde se lia “Mat 18:27” lembrava que alguém passara por ali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguns dias depois, um tanto intrigado, Pedro pegou uma Bíblia. Abrindo o Evangelho de Mateus em 18:27, arrepiou-se todo e deixou-se cair em uma cadeira. O versículo dizia: &lt;em&gt;O senhor daquele servo, pois, movido de compaixão, soltou-o, e perdoou-lhe a dívida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1102069366961787656-187380788015751333?l=rprochoroff.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rprochoroff.blogspot.com/feeds/187380788015751333/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1102069366961787656&amp;postID=187380788015751333' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/187380788015751333'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/187380788015751333'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rprochoroff.blogspot.com/2008/02/piscadela-de-deus.html' title='A piscadela de Deus'/><author><name>Rachel Prochoroff</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09943996098227202452</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/TEMy6spua2I/AAAAAAAAAJk/PmgmIc_N1Rs/S220/nhonho.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1102069366961787656.post-1796419807579037142</id><published>2007-11-05T11:57:00.000-08:00</published><updated>2008-02-26T18:10:24.560-08:00</updated><title type='text'>Surpresa</title><content type='html'>&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;(out/1993)&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Hoje fui pega de surpresa&lt;br /&gt;por teus olhos que&lt;br /&gt;sem descanso, brilhavam.&lt;br /&gt;Teu sorriso, tão doce,&lt;br /&gt;lembrava o pôr-do-sol&lt;br /&gt;dos apaixonados...&lt;br /&gt;Teus olhos e teu sorriso&lt;br /&gt;me pegaram de surpresa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havia algo no ar, hoje.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nossas palavras, minhas&lt;br /&gt;próprias palavras me&lt;br /&gt;encabularam.&lt;br /&gt;Havia um rubor&lt;br /&gt;que vagava por meu rosto&lt;br /&gt;sem que eu percebesse.&lt;br /&gt;Minhas palavras, meu rubor.&lt;br /&gt;Ambos me pegaram de surpresa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi tudo diferente, hoje!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Senti meus lábios&lt;br /&gt;tremendo-&lt;br /&gt;carência quase insana&lt;br /&gt;de beijos.&lt;br /&gt;Meu corpo estremeceu,&lt;br /&gt;febril, com a tua presença.&lt;br /&gt;Ambos meus lábios e a febre&lt;br /&gt;me pegaram de surpresa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava tudo tão insano hoje!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Louca que fui&lt;br /&gt;de não perceber o que&lt;br /&gt;era óbvio.&lt;br /&gt;Não foram teus olhos ou&lt;br /&gt;teu sorriso,&lt;br /&gt;ou minhas palavras febris&lt;br /&gt;ou meus lábios rubros&lt;br /&gt;que me pegaram de surpresa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve tanta confusão hoje!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi quando te vi&lt;br /&gt;indo embora&lt;br /&gt;sem levar sorriso, olhos,&lt;br /&gt;febre, palavra ou lábios&lt;br /&gt;é que entendi.&lt;br /&gt;Você levava algo além.&lt;br /&gt;E toda essa loucura que sinto por você&lt;br /&gt;me pegou de surpresa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há bagunça dentro de mim, hoje.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1102069366961787656-1796419807579037142?l=rprochoroff.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rprochoroff.blogspot.com/feeds/1796419807579037142/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1102069366961787656&amp;postID=1796419807579037142' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/1796419807579037142'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/1796419807579037142'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rprochoroff.blogspot.com/2007/11/surpresa.html' title='Surpresa'/><author><name>Rachel Prochoroff</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09943996098227202452</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/TEMy6spua2I/AAAAAAAAAJk/PmgmIc_N1Rs/S220/nhonho.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1102069366961787656.post-3148533966836011872</id><published>2007-11-05T11:54:00.000-08:00</published><updated>2008-02-26T18:11:13.064-08:00</updated><title type='text'>Sinestesia</title><content type='html'>&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;(set/93)&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;em&gt;Teus olhos são surdos.&lt;br /&gt;Teu tato, indiferente,&lt;br /&gt;não vê as nuances de sorriso,&lt;br /&gt;tampouco a brisa ingênua&lt;br /&gt;que tolhe as palavras.&lt;br /&gt;Tua boca é cega&lt;br /&gt;e teus ouvidos, inertes,&lt;br /&gt;não aspiram o aroma&lt;br /&gt;dos amores divertidos,&lt;br /&gt;dos gestos róseos de pôr-de-sol.&lt;br /&gt;Em vão suspiros madrepérolas&lt;br /&gt;atingem tua pele insensível.&lt;br /&gt;Não vês razão no sabor macio&lt;br /&gt;das ousadias que te rodeiam.&lt;br /&gt;Nada te faz sentido&lt;br /&gt;e ficas parado aí,&lt;br /&gt;feito noite de verão suspensa no ar,&lt;br /&gt;céu de namorados sem estrelas,&lt;br /&gt;gota de licor sem textura.&lt;br /&gt;Assumes o papel de idéia inacabada&lt;br /&gt;e pendes, inerte,&lt;br /&gt;por um fio de desconfiança....&lt;br /&gt;És tão inabalável!&lt;br /&gt;Não queres tu ensinar-me a ser assim?&lt;br /&gt;Pudera eu tornar-me insensível&lt;br /&gt;a tudo isto que me inspiras!&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1102069366961787656-3148533966836011872?l=rprochoroff.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rprochoroff.blogspot.com/feeds/3148533966836011872/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1102069366961787656&amp;postID=3148533966836011872' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/3148533966836011872'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/3148533966836011872'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rprochoroff.blogspot.com/2007/11/sinestesia.html' title='Sinestesia'/><author><name>Rachel Prochoroff</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09943996098227202452</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/TEMy6spua2I/AAAAAAAAAJk/PmgmIc_N1Rs/S220/nhonho.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1102069366961787656.post-3169178362003303632</id><published>2007-11-04T05:48:00.000-08:00</published><updated>2008-02-26T18:12:05.692-08:00</updated><title type='text'>“Domingo: um ensaio biológico pretensioso"  ou  "Como descobri que a vida não valia a pena"</title><content type='html'>&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;(ago/1995)&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Hoje é domingo. "Pé de cachimbo" ou "pede cachimbo"? Sei lá, nunca alguém soube explicar-me direito o que isso queria dizer. Duvido, porém, da segunda opção, cuja veracidade transformar-nos-ia, crianças, entretidas com a quadrinha, a atormentar repetidamente os mais velhos, em passivos coniventes com o péssimo hábito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De qualquer forma, isso não muda o fato e hoje continua a ser domingo, dia em que acordamos cedo (para ir à missa ou à piscina - muuuuuuito cedo mesmo e assim prevenirmo-nos do causticante sol brasileiro) ou muito tarde. Sendo assim, o resto do dia torna-se facilmente preenchível com um bom almoço glutônico, com ou sem família, mas sempre com o refrigerante daquela famosa marca, em vasilhame tamanho família. Torna-se preciso esclarecer que eu disse "glutônico" acima e não "plutônico", em cujo caso o leitor encara um dilema de interpretação, podendo identificar-se com uma das duas hipóteses, a seguir: como acontece à quase totalidade dos jovens universitários, senhores descasados e donas-de-casa relapsas - tipo este em alarmante crescimento, apesar da proliferação de programas de TV vespertinos dedicados à manutenção desta tão laboriosa profissão - ao abrirem a geladeira e&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1)depararem-se com restos de comida que não fariam jus sequer à refeição do cachorro de Walt Disney; ou&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2) acreditarem que a possibilidade de haver algum vestígio comestível é tão remota quanto o último planeta de nosso sistema.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esclarecida esta pequena confusão momentânea, voltemos ao domingo, dia em que, vencidos, optamos ao final pelo frango assado com farofa, ou pelo churrasquinho com cerveja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Findo o almoço, seja lá de que natureza tenha sido, quase sempre retiramo-nos da mesa colocando em dúvida a perícia e o conhecimento dos taxonomistas mais famosos da história: somos homo sapiens ou boa constrictor? Talvez na época em que Darwin estabeleceu nossas ligações com longínquos antepassados, não houvesse frangos de "televisão canina" na padaria da esquina, muito menos refrigerantes tamanhos família, que, em associação físico-química com a farofa, nos classificariam mais próximos da temível jibóia do que de qualquer mamífero. Levando-se em consideração que constantemente somos compelidos pelo nicho ecológico ao qual pertencemos a apertar, sufocar, torcer e retorcer, enfim, asfixiar nosso suado dinheirinho mínimo, tal qual a jibóia, a fim de sobrevivermos em tão árido ambiente, começo a considerar a hipótese de que Darwin não sabia absolutamente nada de Biologia. Eu é que sei. E de agora em diante, considero registrada, aqui, nestas linhas, em princípio dedicadas à exaltação do glorioso dia de descanso, a minha nova ciência: a Taxonomia Social. E viva o frango assado!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A digestão processar-se-á lentamente, enquanto os últimos glóbulos sanguíneos que restam ociosos, livres do árduo labor que é a digestão dominical, tentam desvairadamente levar algum oxigênio ao cérebro, para que este possa comandar o único membro verdadeiramente indispensável ao nosso corpo, o dedão. Sem ele, inútil tornar-se-ia o esforço de Vento e Vácuo, os dois neurônios disponíveis para a tarefa de comandar o controle remoto, esta peça básica do mobiliário doméstico, verdadeiro item do lazer humano. Não, por favor, não tentem me corrigir, pois já refleti muito sobre o assunto e concluí que a televisão nada seria, sem a existência do controle remoto. Jogam-se fora a mesa de centro, o carpete, o aparelho de som, o sofá e até a televisão! Mas o controle remoto fica!! Contudo, a confusão torna-se iminente se os territórios de cada um dos entes familiares não estiverem previamente definidos e a posse desse astro da sala-de-estar legalmente estabelecido, pois dependerá da perícia técnica do comandante o sucesso da empreitada televisiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conforme a tarde avança em direção ao ocaso, suamos intermitentemente e provamos, a cada nova posição corporal, a existência do atrito estático e do dinâmico entre as superfícies de contato dos dois pontos materiais: o sofá de plástico e o nosso epitélio. Não posso deixar de citar a grande criatividade que nos assoma, quando destas ocasiões, que deixaria "no chinelo" de dedo os mais afamados iogues de todos os tempos: sentados, quase sem poder respirar, processando a digestão; levemente inclinados, lutando contra o peso do sono que pede a sesta (ou será da consciência?); dormitando, a cabeça pendendo para cima e para baixo, tal qual um &lt;em&gt;headbanger&lt;/em&gt;; finalmente horizontalizados, uma perna para cima, a outra jogada de lado, babando. Que grande performance! Que flexibilidade! Embalada por harmonioso balé de canais de TV, roncos, pegadinhas e banheiras, a tarde se esvai...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pôr-do-sol há muito se foi, mas ninguém percebeu as nuances maravilhosas de púrpura, rosa e lilás refletindo nas nuvens, depois um leve flash verde e por fim o azul, escurecendo, escurecendo, tornando a Lua, nossa amiga redonda e pálida, bacante de um quadro arcadista, boiando na imensidão celeste, tal qual uma pastilha de antiácido. Ao invés disso, a voz do apresentador das video-cassetadas vai se tornando mais próxima, mais distinta, mais forte ... e acordamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Limpando a baba e recobrando a consciência, sorvemos mais um copo do líquido também usado para desentupir privadas. A visão volta ao normal e é preenchida rapidamente por glúteos e pernas e seios e mais glúteos, numa profusão de carnes e músculos e pagode e suor... Os músculos do dedão, um tanto retesados, pois Vento e Vácuo haviam sido chamados para ajudar a comandar o socorro das microvilosidades intestinais, violentadas pela quantidade de gordura recebida, são requisitados novamente para um segundo &lt;em&gt;round&lt;/em&gt;. Enlouquecido, o dedão pressiona numa velocidade cada vez maior os botões dos canais na procura insana, demenciada, de algo mais concreto para nossas bases filosóficas. A velocidade com que se exercita só não chega a ser quântica porque antes mesmo de atingí-la nosso espaço já perdeu as arestas e o tempo parece algo muito, muito subliminar. Afinal, quando foi que 5 horas couberam em uma?!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Exaurido, o dedão desiste e opta por alternar 5 segundos neste canal e 5 no outro, bem na hora em que o estômago recosta em algum canto do organismo, alegre por ter conseguido terminar a digestão. Os esquadrões de proteinases e lipases se abraçam euforicamente no duodeno, gritando "hurras" de júbilo por terem vencido mais este desafio. Nunca uma equipe de componentes tão diversos trabalhou tão bem em conjunto! Nunca houvera desafio tão grande a ser vencido! "Comer a pele do frango, que idéia mais besta", comenta uma base nitrogenada, ao que uma enzima inteira, em uníssono responde "isso, não foi nada, pior foi a pururuca antes!". "Vamos, vamos! Cada um pro seu lugar, a festa acabou, até semana que vem!" concluem a balbúrdia, as microvilosidades, tão hospitaleiras quanto o bispo daquela igreja famosa, recebendo os demônios incorporados nos fiéis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém, é chegada a hora de consultar o forno em busca de sobras para saciar aquela fome que só a ociosidade árdua sabe causar e, no caso de nos depararmos com o vácuo, recorrermos ao duo microondas-pipoca. Alguém que possua um indicador ainda funcionando, (depois da hegemonia dos dedões nos remotos, os indicadores, destituídos de quaisquer outras tarefas, se incumbiram, por conta própria, de apontar os defeitos alheios) pode usá-lo, em casos isolados, para discar para um serviço de entrega de comida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fato é que não importa muito o que se ingira a essa altura do campeonato, ou melhor, do domingo, pois o organismo não vai digerir mesmo! Deixará a comida passar sem resistência ou mandará tudo pra fora, com boa vontade e resolução tão fortes quanto a dos regimes de segunda-feira, enquanto o passivo espectador, ainda segurando o controle remoto e olhando fixamente para a tela da TV, vendo a platéia ganhar dinheiro, raciocina - se é que isso é possível- se deveria ou não comer mais um pedaço da pizza de calabresa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sair de baixo da luz da sala e ir para baixo do chuveiro, é a isso que nos conclamam as reminiscências recônditas dos ensinamentos maternos. Fá-lo-emos com felicidade, já que a hora de ir para a cama se achega. É com um calafrio de prazer que a água morna, tépida, escorre por nossas costas, enquanto lembramos das delícias conjugais que nos esperam, antes da última noite de sono que precede o bater do cartão. Afinal, o que poderia ser mais gostoso, mais prazeroso, mais deleitoso do que deitar na cama com a esposa, abraçá-la carinhosamente e até com uma pitada de lascívia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;... e deleitar-se com o debate da última fase do Brasileirão?!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1102069366961787656-3169178362003303632?l=rprochoroff.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rprochoroff.blogspot.com/feeds/3169178362003303632/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1102069366961787656&amp;postID=3169178362003303632' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/3169178362003303632'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/3169178362003303632'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rprochoroff.blogspot.com/2007/11/domingo-um-ensaio-biolgico-pretensioso.html' title='“Domingo: um ensaio biológico pretensioso&quot;  ou  &quot;Como descobri que a vida não valia a pena&quot;'/><author><name>Rachel Prochoroff</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09943996098227202452</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/TEMy6spua2I/AAAAAAAAAJk/PmgmIc_N1Rs/S220/nhonho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1102069366961787656.post-950948958120396087</id><published>2007-11-03T11:18:00.000-07:00</published><updated>2008-02-26T18:13:08.647-08:00</updated><title type='text'>Obsessão</title><content type='html'>&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;(abril/1994)&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela não precisava de um motivo para começar. Bastava estar viva. O impulso, latente, transportava-a a uma outra realidade, onde se sentia angustiada. A vontade tornava-se insuportável, sugando a resistência que um resquício de razão, ainda que tênue, lutava para sobrepor a tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pensamentos de onipotência começavam a surgir. Queria e podia. Queria e faria! Mas a razão, num esforço sobre humano, ainda controlava pernas e braços, deixando-os inertes e desobedientes aos comandos dela. Exasperada, sentia a pressão sanguínea subir, veias e artérias inchando nas mãos, têmporas e pescoço. O coração, acelerado pela descarga de adrenalina, batia descompassado. Estava ofegante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lágrimas agora invadiam seus olhos e transbordavam, inundando o rosto e seu desespero. À lembrança das vezes em que se deixara levar pela vontade, sua garganta escancarou-se num grito de dor excruciante. Não! Não poderia deixar-se vencer! Tinha que ser racional e controlar-se, antes que o arrependimento, pontual e inexorável, viesse cumprir sua tarefa diária, roubando-lhe sono.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parou. Respirou fundo, enxugou as lágrimas e tentou mover-se. A razão, sorridente, livrou-a das correntes que prendiam os braços e as pernas. O ar pareceu respirável e a noite, um berço atraente. Sorria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi com um suspiro de alívio e resignação que a moça, mais calma, fechou devagarzinho a porta da geladeira.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1102069366961787656-950948958120396087?l=rprochoroff.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rprochoroff.blogspot.com/feeds/950948958120396087/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1102069366961787656&amp;postID=950948958120396087' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/950948958120396087'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/950948958120396087'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rprochoroff.blogspot.com/2007/11/obsesso_03.html' title='Obsessão'/><author><name>Rachel Prochoroff</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09943996098227202452</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/TEMy6spua2I/AAAAAAAAAJk/PmgmIc_N1Rs/S220/nhonho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1102069366961787656.post-4932457540611391969</id><published>2007-11-02T23:36:00.000-07:00</published><updated>2007-11-11T08:52:18.680-08:00</updated><title type='text'>Offline</title><content type='html'>Ben ainda estava &lt;em&gt;online&lt;/em&gt;, mas ausente, quando Carol olhou pela última vez sua lista de contatos do msn. Eram três e meia da manhã de um sábado. Ficou admirando os nomes, pensando se devia ou não tomar a providência que sua cabeça ordenava: ignorá-lo, bloqueá-lo, excluí-lo. Qualquer uma das possibilidades fazia o coração apertar. Pensar em ficar sem falar com ele, sem o seu bom dia alegre quando ligava o computador, sem as piadas que  faziam-na abafar o riso para que a supervisora não percebesse que ela se ocupava com algo além do cotidiano do escritório... ah, isso seria muito difícil. Havia  contas a pagar, planilhas a fazer, emails a responder, transformando a vida daquela moça criativa em um caldo insosso de tododia. E havia Ben, em algum outro lugar da cidade, digitando um mundo recheado de novidades e divertimentos que a faziam sonhar. Abrir mão de tudo aquilo parecia ser algo pesado demais. Mas era chegada a hora de lidar com a dor que ela sentia. Ela realmente não conseguia discernir qual seria a pior: a dor da saudade ou a do sentimento não correspondido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Havia muitos meses que outro relacionamento mal-sucedido tolhera sua coragem de se aventurar socialmente e passara a se refugiar no mundo virtual, onde conseguia ser eloqüente e segura de si.  Carol suspirou. Olhando fixamente para o nome dele, não via mais as letras, agora borradas, mas sim o dia em que se conheceram, através de um site de relacionamentos. Por pouco não sentiu novamente, com a mesma intensidade,  admiração e o susto que tivera com as frases atiladas e a verve feroz e arrebatadora dele. Pela primeira vez em muito tempo, alguém a fazia “calar”, tornando os músculos das suas mãos tesos, sem saberem direito o que deviam digitar. Ben havia conseguido o quase impossível: fazer a Carol ficar quieta, pensativa e retraída. A cada frase que ele digitava, uma série de indagações assomavam a cabeça e a imaginação dela. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A dúvida era tão forte e a curiosidade, tão persistente, que  ela não titubeou em aceitar o convite para almoçar,  alguns dias depois. Ela já havia visto fotos dele, estrangeiro, alto, bonito, mas quando ele chegou, atrasado, quase saltando pela janela do táxi, enfiado no jeans claro e na camiseta vermelha com dizeres engraçados, ela se assustou com o turbilhão de informações que transitaram na sua intranet, verdadeiro furor de downloads de hormônios e sensações correndo por todos os terminais do seu organismo. “Um moleque”, ela diria mais tarde, à amiga e confidente da Ouvidoria, “um garotinho de 12 anos ligado no 220. Simplesmente adorável!”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Sentindo uma pontada no peito, os nomes dos contatos voltaram a ficar nítidos na visão dela, enquanto tomava consciência do sentimento que recrudescia quando lembrava de cada detalhe dos encontros que tiveram. Ben ainda estava online. Carol clicou em cima do nome dele com o botão direito do mouse e observou, por alguns segundo, a opção “bloquear contato”. Tentou imaginar como seria um dia de trabalho sem os comentários dele sobre as músicas que ela ouvia. Pensou no que faria se não falasse mais com aquele que fazia trocadilhos engraçados com seu &lt;em&gt;subnick&lt;/em&gt; a toda hora. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Talvez não seja tão difícil, já passei por coisas piores e superei”, pensou. “Afinal, sou uma mulher ou uma ameba?”, brincou consigo mesma, tentando sorrir. Mas a dor continuava lá, inflexível, tornando espásticos os músculos da face dela. Uma atitude se fazia necessária e ela sabia bem qual era. Porém, quanto mais consciente ficava da única saída que existia, mais a coragem enfraquecia, afinava qual corda que vai desfiando ao sofrer uma grande tração, os cordõezinhos que lhe emprestam a robustez se rompendo, devagarzinho, fazendo o coração de Carol bater descompassado sob o efeito da adrenalina, à iminência da queda no vazio da incerteza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela já havia apagado o número dele da memória do celular e do chip. Já havia se livrado das fotos que salvara no desktop e deletado o único email tão simpático que ele havia enviado, numa brincadeira. Excluíra o histórico do msn para não ceder à tentação de ler as conversas e livrara-se dos cookies, para tornar mais difícil o carregamento da página do blog dele. Porém, nada disso fez efeito na alma. Como se os cookies estivessem inseridos no processador &lt;em&gt;dual core &lt;/em&gt;do cérebro, a imagem dele continuava a pairar, pixel a pixel, na retina dela, em altíssima resolução. E a dor... a dor... a dor... ritmada, pungente, constante, a fazer as vezes de metrônomo, regendo o pulsar do coração. Carol subia e descia o cursor, ora escolhendo excluir, ora bloquear o contato, sem, contudo, decidir-se por nenhuma das opções.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos últimos dias, os dois andavam discutindo muito. Não havia nada que Carol falasse que Ben não redargüisse com veemência e até com rispidez, em certos momentos. A jovem secretária a princípio ficara magoada e levara alguns diálogos ao conhecimento e apreciação da colega da Ouvidoria e de outra amiga muito próxima, que havia conhecido no curso de inglês e cuja paciência era invejável. Ambas foram taxativas mas ortogonais. A colega de trabalho achou que ele correspondia aos anseios de Carol. A outra chamou a atenção para o fato de que a amiga andava muito diferente do que era e deixava transparecer nas conversas digitais uma ingenuidade que não lhe era peculiar, o que provavelmente causava a irritação de Ben.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Isso já está beirando o ridículo!”, ela pensou. Nunca havia precisado dos conselhos de outrem para decidir seu próprio algoritmo! Nunca havia cogitado ser dependente dos &lt;em&gt;emoticons &lt;/em&gt;de um homem que, embora fosse apaixonante e muito atraente, talvez não quisesse nada além de uma conexão de banda larga com ela. Certamente Carol não teria percebido a velocidade de transmissão desse dado sentimental se não fosse a última discussão deles, quando ele a acusou de ser infantil, porque vivia trocando o &lt;em&gt;nick &lt;/em&gt;e por isso descia e subia na lista de contatos dele. Ela indignada, o chamara de chato e digitara o &lt;em&gt;smiley &lt;/em&gt;que mostrava a língua. Ele a ameaçara com o bloqueio.  Nesse exato momento, o sistema afetivo de Carol acusou o erro, todas as janelas do coração foram fechadas e nenhum outro dado foi salvo, exceto aquele que ela temia: estava apaixonada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Carol suspirou. Estava operando em modo seguro há mais tempo do que desejava. Pensou que o &lt;em&gt;software &lt;/em&gt;da vida dela precisava de um &lt;em&gt;upgrade&lt;/em&gt;. Era tarde, queria ir para casa, desligar-se daquele computador e livrar-se do vício o qual aquela rotina havia se tornado, saturando todo o seu sistema. Cogitou uma vida real e sentiu até alguma ansiedade pensando que um namorado, um sorvete e um parque seriam virtualmente agradáveis. Sorriu com o paradoxo da frase. Em um breve parênteses, refletiu que não seria nada mal um &lt;em&gt;upgrade &lt;/em&gt;no &lt;em&gt;hardware &lt;/em&gt;também, um corte de cabelo novo ou talvez até um tratamento estético relâmpago para o verão que se aproximava, se o orçamento permitisse. Sorriu novamente, mas dessa vez o sorriso foi de alívio.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ben ainda estava &lt;em&gt;online&lt;/em&gt;, mas ausente, quando Carol olhou pela última vez sua lista de contatos do msn. Eram quatro e meia da manhã de um sábado. O &lt;em&gt;subnick &lt;/em&gt;dele dizia algo sobre criação destrutiva e destruição construtiva. Carol decidiu que era hora de reconstruir sua vida. Rapidamente, clicou com o botão direito em cima do &lt;em&gt;nick &lt;/em&gt;dele, selecionou “excluir”  e “ também bloquear”. Fechou o programa e desligou a máquina. Tudo parecia estar certo. Restava averiguar por quanto tempo ainda a memória &lt;em&gt;ram &lt;/em&gt;do seu corpo guardaria aquele anseio. “Nada que uma boa noite de sono não resolva!”, disse Carol, em  tom destemido, enquanto apagava as luzes e fechava a porta.  No íntimo, porém, torcia para que o disco rígido dela não houvesse salvo mais do que uma ou outra piada dele, que ela descobriria, inadvertidamente, enquanto fizesse o &lt;em&gt;back-up&lt;/em&gt;, algum dia no futuro.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1102069366961787656-4932457540611391969?l=rprochoroff.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rprochoroff.blogspot.com/feeds/4932457540611391969/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1102069366961787656&amp;postID=4932457540611391969' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/4932457540611391969'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/4932457540611391969'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rprochoroff.blogspot.com/2007/11/offline.html' title='Offline'/><author><name>Rachel Prochoroff</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09943996098227202452</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/TEMy6spua2I/AAAAAAAAAJk/PmgmIc_N1Rs/S220/nhonho.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1102069366961787656.post-7767742574095899477</id><published>2007-10-31T12:54:00.000-07:00</published><updated>2008-02-26T18:30:05.420-08:00</updated><title type='text'>Primavera</title><content type='html'>&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;(x / 1993)&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Aos primeiros gorjeios do sol&lt;br /&gt;acordei;&lt;br /&gt;do sonho tranquilo que vinha&lt;br /&gt;só a tua falta remanesceu;&lt;br /&gt;invasiva, domou meus anseios&lt;br /&gt;de vida corriqueira.&lt;br /&gt;Suspirei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O céu tão azul de minh'álma&lt;br /&gt;nublou;&lt;br /&gt;nem mesmo as rosas do meu jardim&lt;br /&gt;tiveram ânimo de colorir;&lt;br /&gt;cerrados, meus olhos divisavam&lt;br /&gt;a tua aura.&lt;br /&gt;Chorei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente, o canto das árvores&lt;br /&gt;emudeceu;&lt;br /&gt;lá fora, o cânone de trovões soou&lt;br /&gt;em mau humor uníssono&lt;br /&gt;e a primavera, fugindo da chuva&lt;br /&gt;invadiu meu quarto.&lt;br /&gt;Era você.&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1102069366961787656-7767742574095899477?l=rprochoroff.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rprochoroff.blogspot.com/feeds/7767742574095899477/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1102069366961787656&amp;postID=7767742574095899477' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/7767742574095899477'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/7767742574095899477'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rprochoroff.blogspot.com/2007/10/primavera.html' title='Primavera'/><author><name>Rachel Prochoroff</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09943996098227202452</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/TEMy6spua2I/AAAAAAAAAJk/PmgmIc_N1Rs/S220/nhonho.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1102069366961787656.post-1818999757087376024</id><published>2007-10-29T08:39:00.000-07:00</published><updated>2007-10-31T12:23:44.287-07:00</updated><title type='text'>Um conto de Amor.</title><content type='html'>A menina andava sem rumo pela rua enquanto os pensamentos corriam lépidos quais formiguinhas virtuais, carregando o precioso fardo da consciência: o Arrependimento. Todo o ambiente legava um tanto de Amargura, frente às convicções que se aprumavam, soldadinhos em vistoria, enquanto a Memória passava em revista tudo o que lhes acontecera. Ela nunca mais esqueceria os ontens e anteontens culminando em Tristeza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Sem remédio e sem juízo!" - a menina ouviu a Memória sentenciando o Futuro e o Comportamento. Assim fazendo, trouxe de volta o Presente, sempre  insidioso, sempre tão traiçoeiro, a armar ciladas e jogando, depois, a culpa no Passado. Pois é assim que é! O Futuro inventa, o Presente apronta e o Passado carrega a culpa... Todos os três irmãos a malabarizar dentro de nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Lembrou-se perfeitamente do dia em que, ensolarada, resolvera caminhar sozinha pelas mesmas alamedas daquele bairro, um tanto longe de sua casa. Enfiou-se em um vestido de seda curtinho e leve, que deixava transparecer o verão dentro de si, calçou sandálias e saiu. Pelo caminho foi observando o dossel de folhas que se estendia sobre sua cabeça avoada e o tapete de flores amarelas e roxas na calçada. O céu azul, amigo dos raios de sol, penetrava por entre as copas das árvores e a fazia sentir-se suspensa nas asas da Felicidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Da outra ponta da rua, vinha o menino, absorto na  Imaginação, caminhando na mesma calçada. Jovem e feliz, dentro da camiseta e da calça jeans, parecia estar tão solto quanto preso havia ficado, no exato momento em que o notara, o coração da menina, encarregado pela Ansiedade de pular e bater desesperadamente, tentando sofregar a respiração dela.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;A Criatividade fez com que  a Menina parasse bem no meio do caminho dele, olhando para o chão, como se procurasse algo. Era verdade que precisava da Coragem, mas esta não anda rastejando, ora essa! Sorte da Menina que a Coragem ainda pairava no ar, bem pertinho, tão perto a ponto de ouvir a Criatividade a clamar, desesperada, sua ajuda. A Coragem assomou ao estômago da Menina bem na hora em que o Menino chegou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Oi, ta procurando alguma coisa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-É... meu brinco... perdi...  – a Coragem e a Criatividade, lépidas, empurraram a Alegria para a boca da Menina, que sorriu, enquanto a Vergonha lhe corava as bochechas por simples e espontânea vontade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Qual brinco? Ahn... Você está com os dois... – a Percepção tentava desesperadamente chegar à cabeça do Menino, mas encontrou o caminho bloqueado pelos Hormônios alucinados e baderneiros, que não quiseram lhe dar passagem. Tentou o caminho pelo nervo óptico, mas o Deslumbramento já havia ocupado o lugar. Resignada, ficou esperando por uma oportunidade, parada no céu da boca dele, enquanto Menino e Menina se olhavam como se fossem velhos amigos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ah, eu achei que tinha perdido! Que susto! – a Ansiedade pulava no coração dela, fazendo com que ele balançasse no peito, tão forte, tão forte, que até o estômago fechou a boca para não deixá-lo entrar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Instinto de Preservação do Menino,  percebendo a situação constrangedora que emergiria em segundos, resolveu a questão: correu ao sistema nervoso simpático e convenceu a Iniciativa a empurrar as palavras para fora da boca do Menino. Perdendo o Equilíbrio, saíram todas desajeitadas e fora de ordem, reclamando muito e quase gritando:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Tá calor, né? Você mora por aqui? Vamos tomar um sorvete?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Coragem, lépida, correu para a língua da menina e, junto com a Segurança, fê-la dizer:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Legal!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A esse sorvete seguiram-se muitos outros. Criatividade e Coragem se ufanavam de terem conseguido juntar o Menino e a Menina, o casal perfeito. A Convivência se encarregou de empurrar a Paixão, sempre serelepe, para um cantinho qualquer do coração e convidou o Amor para tomar conta do local e o Respeito, para habitar as cabeças dos dois. Por conta disso, O Menino e a Menina começaram a namorar. Ela carregava a Alegria e a Doçura nos olhos, no sorriso e no jeitinho faceiro. Ele trazia a Responsabilidade nas atitudes, o Carinho nas palavras e a Proteção nos gestos cuidadosos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Menino e Menina viveriam felizes para sempre, se não fosse uma rixa antiga entra a Coragem e a Insegurança. Acontece que ambas vêm brigando desde os primórdios da Humanidade, uma constantemente impedindo a outra de se contentar no controle das atitudes dos Homens. E foi assim que um dia, vendo a Coragem tagarelar com a Auto-Estima e a Felicidade, animadamente, sobre como havia unido forças com a Criatividade, para juntar o Menino e a Menina, resolveu a rival aproveitar o ensejo para se vingar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Contendas antigas requerem revanches apropriadas”, pensou a Insegurança. Correu, então, a se mancomunar com a Indiferença e o Ciúme, certa de que seriam aliados competentíssimos para a empreitada. E eles realmente o eram! Confabularam por algum tempo, deliberaram, votaram e escreveram. Definiram os papéis de cada um. E partiram para o ataque.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Indiferença assomou ao coração do Menino. Fez com que a Gentileza ficasse estacionada na faringe, sem conseguir atingir a língua. Bem que o diafragma tentou, algumas vezes, expelir a Gentileza com força, mas ela subia até o palato mole e lá encontrava pendurada a Frieza, que a empurrava de volta para baixo. Enquanto isso, desempenhando seu papel no emboscada, o Ciúme, instalado confortavelmente  no ouvido da Menina, apoiava os pés no estribo e fingia ora cavalgar, gritando sugestões malévolas, ora martelar na bigorna, fazendo-se presente e notado a toda hora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não foi preciso muito tempo para que a Distância conseguisse, finalmente, colocar entre ambos seu corpo molengo, obeso e denso. Menino e Menina, acossados pela Indiferença e pela Mágoa, que se juntara ao grupo por nunca entrar em acordo com a Felicidade, quase não se falavam. Algumas semanas depois, resolveram terminar o Compromisso que, amuado, saiu chorando, sendo consolado pelo Reconhecimento. O amigo batia carinhosamente no ombro do colega derrotado e cabisbaixo, dizendo: “Não fique assim, você bem que tentou, fez a sua parte!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O menino retomou sua Vida de menino adolescente. Voltou a freqüentar as festas e a beber muito nelas para tentar calar a Saudade. A menina trancou-se em seu quarto, escrevendo poesias para dar vazão à Tristeza. Estavam reduzidos a menino e menina, sem paixão, felicidade, amor e coragem. E esta estória pararia por aqui, se não fosse a Incerteza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, a Incerteza, muito incerta de tudo, havia sido esquecida por todos, inclusive pela Indiferença, que bailava cinicamente na frente da Coragem e da Criatividade,  quando deu a vingança por consumada. O Compromisso, vendo a cena, partiu para a briga com a Mágoa. O Ciúme ria desvairadamente até ser calado pela Frieza, que chamou a atenção para o tamanho do Amor, vindo na direção deles com cara de poucos amigos. No meio daquela confusão,  a Incerteza vagava sem rumo e foi parar inadvertidamente no coração da menina, expulsando a Tristeza, que, não tendo para onde ir e receando o qüiproquó lá fora, correu a se esconder no coração do menino, certa de que lá ninguém a  acharia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O menino, como se acordasse de um sono profundo, estranhando o coração premido pela Tristeza, resolveu andar um pouco pela vizinhança, para espairecer. A menina, não sabendo ao certo o que fazer, saiu do quarto, deu voltas pela casa, abriu a porta da geladeira algumas vezes e ficou delineando a comida com os olhos, enquanto cérebro delineava o Vazio. Voltou para o quarto, olhou, olhou... Voltou para a sala. Notando que Tristeza se fôra e percebendo que o Arrependimento e a Amargura, irmãos siameses, brincavam de bate-bate nas paredes da cabeça, quis sair também. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi justamente neste ponto que começamos a nossa estória e é precisamente aqui que ela começa a se resolver, porque se não houvesse resolução eu mesma não a inventaria, temendo que a Fantasia viesse cobrar sua comissão por emprestar-me seu lápis furta-cor e seu papel multi-dimensional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto a rusga corria solta entre Rancor, Mágoa, Indiferença, Paixão e Amor, menino e menina vagavam pela rua, sendo vigiados por um par de olhos meigos, de alguém que escapara sorrateiramente da confusão.  Os dois, de tanto andar à procura da Solução, acabaram se encontrando. É claro que o Destino fez sua parte, por dever há muito um favor à dona dos olhos meigos. Quando a menina pensava tocar a Solução, eis que o Destino soprava mais forte, um sopro de Dúvida, fazendo com que as mãos da menina continuassem vazias. O menino, por sua vez, pulava, tentando abocanhar a Solução, mas o Destino içava a cordinha pela qual aquela vinha suspensa, como se fôra uma &lt;em&gt;piñata&lt;/em&gt;. A Solução, cansada de correr para cá e para lá, pular e dar cambalhoras a mando do Destino, já estava completamente esbaforida quando menino e menina se perceberam na mesma calçada, no mesmo caminho, na mesma Vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fez-se silêncio. Até os passarinhos pararam de cantar naquela tarde ensolarada. A Vergonha correu novamente para as bochechas da menina, como no primeiro dia.  A Tristeza, que até então estava confortavelmente instalada no coração do menino, percebendo que algo no plano dera errado, fugiu espavorida. A Coragem e a Criatividade, ocupadas tentando neutralizar as múltiplas garras do Rancor, não entenderam quando a  Insegurança gritou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Não, isso não pode acontecer!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas era tarde demais. A Incerteza, sempre muito incerta do que fazer, rindo muito e achando o desenrolar dos fatos algo inusitado, havia cutucado a Memória, que, percebendo a deixa, abandonara a briga e correra para perto dos dois, auxiliada pela dona dos olhos meigos.  O menino lembrou-se da Menina e de como ela trazia a Doçura nos olhos. A menina viu o Menino e desejou o Carinho que sempre abrigava nas mãos. Coragem e Criatividade, vendo a cena, largaram o Rancor, que caiu no chão e fugiu rastejando mais do que depressa e quiseram se aproximar, mas a dona dos olhos meigos foi decidida:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Deixem isso comigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Menino e Menina agora estavam frente a frente e se olhavam, sem dizer nada.&lt;br /&gt;A dona dos olhos meigos convocou a Felicidade a tomar a dianteira do Menino. Então, ele piscou um olho e a Menina sorriu-lhe, feliz. A Vida parecia, ali, naquele momento, um pedacinho de chocolate a derreter, devagarzinho, nas bocas dos dois. Ele se aproximou com as mãos nos bolsos, segurando o Nada, acariciando a Ansiedade. Ela passou a mão nos cabelos tencionando ajeitá-los. Não conseguiu: uma mecha insistia em permanecer sobre um dos olhos, tapando a vista. Dava-lhe, com isso, um ar tão maroto, tão feminino, tão familiar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tirando as mãos dos bolsos - deixava de lado a Ansiedade, indo de encontro à Iniciativa -  ele domou a mecha rebelde dos cabelos dela. A Ansiedade, sentindo-se traída e desprezada pelo menino, correu às mãos que a garota, nervosa,  retorcia, mas achou o lugar muito desconfortável. Alojou-se, enfim, nos olhos de ambos, bem na hora em que a menina abria um sorriso dourado. Beijaram-se. O dourado do sorriso se espalhou. Impregnou, invasivo, o dia, o sol e até mesmo a lágrima discreta que umedecia o olhar dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A dona dos olhos meigos esfregou a mãos, satisfeita, enquanto Paixão, Felicidade e Cumplicidade batiam palmas e congratulavam a amiga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Não falei para deixar comigo? Trabalho feito!! – disse, orgulhosa, a Reconciliação.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1102069366961787656-1818999757087376024?l=rprochoroff.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rprochoroff.blogspot.com/feeds/1818999757087376024/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1102069366961787656&amp;postID=1818999757087376024' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/1818999757087376024'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/1818999757087376024'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rprochoroff.blogspot.com/2007/10/um-conto-de-amor.html' title='Um conto de Amor.'/><author><name>Rachel Prochoroff</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09943996098227202452</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/TEMy6spua2I/AAAAAAAAAJk/PmgmIc_N1Rs/S220/nhonho.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1102069366961787656.post-1284431838891535328</id><published>2007-10-28T12:34:00.000-07:00</published><updated>2008-02-26T18:13:47.406-08:00</updated><title type='text'>Decisão</title><content type='html'>&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;(x / 1995)&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Como se fossem minúsculas gotículas de veneno, a ansiedade porejava pela testa, maçãs do rosto, mãos e costas. Molhava a camisa, ensopava os pensamentos. Cada gota maior que escorria pelas têmporas gretava a pele dolorosamente, fazendo tremer os tímpanos. Ou seria o soluço da consciência à iminência da explosão?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esticou a mão, pegou um pedaço de papel higiênico do rolo que deixava em cima da escrivaninha, por causa da rinite, da alergia e dos constantes sangramentos. Não tinha muita paciência com remédios, não os tomava. A mãe continuava a comprá-los e após muitas discussões ele decidiu que seria mais vantajoso evitar estes momentos críticos. Por isso, a cada manhã suprimia do potinho exatamente o número de pílulas que deveria tomar. Não as jogava fora, porém; guardava-as nos potinhos que esvaziara anteriormente, tomando o cuidado de escondê-los bem, suspensos por fios, atrás do guarda-roupa pesado que a empregada se esmerava em não limpar. A mãe, atarefadíssima entre visitas ao cabeleireiro, manicure, aulas de pintura, sessões de análise, yoga e drenagem linfática, não havia prestado atenção ao detalhe da empregada, muito menos ao do filho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pai, homem de negócios influente e ocupado, abarrotado de reuniões, whiskies e secretárias, viajava muito. Havia anos que chamava o filho por um apelido carinhoso : "Filhão". Talvez nem se lembrasse do nome, pensou o garoto, enquanto assoava o nariz que sangrava. Nos últimos dois meses ele havia ganhado presentes de aniversário do pai duas vezes. Era óbvio que era a secretária quem os mandava. O que nem passou pela cabeça do adolescente, entretido que estava entre seus dilemas de consciência é que de fato a secretária enviava os presentes aos dois filhos, a ele, e aquele que o pai havia tido com a outra, e que por segurança batizara com o mesmo nome, para nunca se trair...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Merda!" pensou Filhão, enquanto tentava estancar o sangue do nariz, que não borbotava e fervia como o do cérebro, mas também incomodava. Afinal, para quê tanto cuidado? E por que tanta indecisão?, gritava um lado da cabeça, ao que o oposto respondia, tão dolorosamente quanto seu oponente, Não faça, não faça, desista, deite, descanse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Filhão olhou-se no espelho. Deixando cair o rolo de papel higiênico, observou cuidadosamente o filete de sangue que ameaçava escorrer do nariz. Por fim, arregaçou as mangas, tomou coragem, pegou um lápis e rabiscou num pedaço de papel com o logotipo da companhia do pai, as palavras "papai e mamãe". Deixou cair o lápis, dobrou devagarzinho o papel, quase sem forças, suspirou. Sentiu uma pontada no estômago, que parecia querer implodir a cada sinapse nova, a cada corrente de pensamento que a testa suava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paulatinamente um torpor começava a caracterizar o transe das decisões inadiáveis, prestes a serem tomadas. Esticou a mão, puxou o cantinho solto do carpete atrás do criado-mudo, onde escondia o "equipamento" - era assim que o chamava entre os amigos, os companheiros de baladas, de amassos nas minas, de azaração no Guarujá no fim-de-semana e de colas nas provas da &lt;em&gt;facú&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O suor tornou-se frio de repente. A decisão abria caminho entre os neurônios, assumia forma tridimensional, quase tangível. Tremendo, segurou com firmeza o "equipamento". Pegou a borracha. Coração e cérebro agora trovoavam juntos, em uníssono, ritmando a sonoplastia para a marcha final da decisão. Um resquício de consciência ainda soava ao fundo, flautim indefeso perante tímpanos , trompas e fagotes: "Não faça... espere... não faça..."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trompetes anunciando a entrada triunfal da decisão puseram, repentinamente, fim ao impasse. Papel, lápis, borracha, seringa e líquido soaram ad libitum, prestíssimo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi com a indignação do pai e o desespero da mãe que a carta de despedida foi lida. Marcos Vinícius, o filhão, deixava para sempre a residência dos "pais" - assim mesmo havia escrito, entre aspas - só com a mochila nas costas. Iria à procura de um lugar onde a vida valesse a pena ser vivida, onde pudesse escrever suas estórias livremente, sem a obrigação da Engenharia, das broncas do pai, que não queria um filho escritor, das formalidades da sociedade, "e onde lembrem meu nome de verdade". "Não se preocupem comigo", acrescentava, "sei que sou diabético e vou continuar me cuidando. Beijo. Falou.”&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1102069366961787656-1284431838891535328?l=rprochoroff.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rprochoroff.blogspot.com/feeds/1284431838891535328/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1102069366961787656&amp;postID=1284431838891535328' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/1284431838891535328'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/1284431838891535328'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rprochoroff.blogspot.com/2007/10/deciso.html' title='Decisão'/><author><name>Rachel Prochoroff</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09943996098227202452</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/TEMy6spua2I/AAAAAAAAAJk/PmgmIc_N1Rs/S220/nhonho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1102069366961787656.post-3067671733638511672</id><published>2007-10-25T14:15:00.000-07:00</published><updated>2010-09-14T17:03:09.361-07:00</updated><title type='text'>Ameaça</title><content type='html'>&lt;span style="color: #6600cc; font-family: arial;"&gt;&lt;b&gt; &lt;br /&gt;&lt;span style="color: #000066;"&gt;- Que foi, o gato comeu sua língua? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era a terceira vez que ele perguntava. Em outras ocasiões, ela havia inventado respostas, partículas de fantasia misturadas com gotas de imaginável. Havia funcionado. Porém, ela estava cansada destes confrontos. Preocupada com os revezes do relacionamento deles, demorava a dormir. E agora havia mais esse problema. Um deslize. Um mero descuido! Acabara de ser pega. A situação urgia uma solução e ela era provavelmente o único ser pensante nesse planeta que não conseguiria vislumbrar a saída do beco onde se enfiara, quando tomou o caminho menos aconselhável naquela bifurcação moral, havia algumas horas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vamos, responde! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não havia resposta. Pelo menos não uma plausível para tudo aquilo. Dentro de si, dragões de culpa corroíam, com seus baforejares inflamados, o aço com o qual havia sido forjada a sua coragem, desde pequenininha. Sua intrepidez a havia feito conhecida por todos. Ela era firme como uma rocha. Não titubeava. Decidia e a resposta seria peremptória, a partir do momento em que proferisse a palavra, que era, na sua concepção, a lei. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Se vc não responder logo, eu vou ser obrigado a tomar uma atitude. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela estava com medo. Justamente ela, cujo epíteto, “turrona!” (sim, com o ponto de exclamação inseparável) havia se tornado nome próprio entre as vizinhas, à meia-boca. Não se deixava abater por pouco, tampouco por muito. Se fosse preciso, partia para o ataque. Físico, é preciso deixar claro. O único infeliz que havia resolvido desafiá-la acabara sem um pedaço do dedo, arrancado a mordidas, apesar da diferença de tamanho entre ela, &lt;i&gt;mignon&lt;/i&gt; e ele, parrudo. “Uma selvagem!”, diria a enfermeira no pronto-socorro – "só uma selvagem seria capaz de tal atitude!” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Seu tempo está se esgotando e minha paciência, chegando ao fim. – disse ele, apoiando a mão esquerda na fivela do cinto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Monstro! Não podia mais com as palavras e ameaças daquele que se tornara um protetor... mas também um delimitador da liberdade dela. Já havia cogitado escapar daqueles grilhões. Levaria somente o necessário, em valise pequena, quando ele estivesse fora de casa, trabalhando. Contudo, sabia que a perseguição começaria assim que ele desse por sua falta. Ele convocaria seus amigos de cerveja, churrasco e truco e todos se engajariam na busca, que não cessaria até que ela estivesse de volta, trancafiada em um quarto e devidamente punida.&lt;/span&gt; &lt;br /&gt;&lt;span style="color: #000066;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;br /&gt;&lt;span style="color: #000066;"&gt;- Você vai explicar por conta própria ou vou ter que fazer você falar? - tirou a mão do cinto e a apoiou na vassoura, que ficava ao lado da porta, convenientemente, para ser posta em uso sempre que necessário.&lt;/span&gt; &lt;br /&gt;&lt;span style="color: #000066;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;br /&gt;&lt;span style="color: #000066;"&gt;Ele chegou de sopetão na vida dela. Sem mais nem menos, ocupou os espaços do coração, da casa e do cotidiano. Todos o adoraram instantaneamente! Conquistou os amigos, os irmãos, a avó, os vizinhos. Conquistou a mãe, por muitas vezes seu esteio e diretriz, naquela vida cheia de anseios ainda por serem consumados. E até o cachorro, que por pouco não alçava vôo, tal a intensidade com a qual abanava o rabo, assim que escutava o barulho do carro entrando na garagem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Está bem, se é assim que você quer, é assim que vai ser - ameaçou ele. &lt;br /&gt;- Não, não! "Tá" bom! – ela choramingava baixinho, tentando ganhar tempo. &lt;br /&gt;- Sou todo ouvidos – no rosto dele havia um ricto que ela não soube precisar se era de sarcasmo ou de felicidade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ogro infeliz! Isso é o que ele era! O que mais a assustava era o tamanho dele. Um Titã em força física! Ela odiava apanhar dele! Porém o que a fazia estremecer em frenesis de indignação e ira eram esses confrontos psicológicos, verdadeiros cabos-de-força intelectuais. Ele ficaria parado, impávido, por minutos que pareceriam horas, esperando uma resposta, que deveria ser proferida a contento e esclarecer sem ser prolixa. Senão, ela pagaria caro por sua ousadia, com uma boa surra. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É que... – ela gemeu pungentemente, a cabeça baixa, mas olhando de esguelha para ele, a fim de medir o efeito da atuação teatral. E assim permaneceu, em silêncio. &lt;br /&gt;- Estou ficando impaciente... – o tom da voz dele era ameaçador – Você não quer me ver bravo, quer? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando apanhava dele, seu coração se contorcia de revolta, mas não derramava uma só lágrima. Ele dizia que agia assim porque a amava. A cada tapa que ela recebia, um pedacinho do seu ser se transformava. Era exatamente este o intuito dele: "ensiná-la", como ele mesmo denominava seu objetivo. A duras penas, ele estava conseguindo moldá-la de acordo com o que acreditava ser&amp;nbsp; certo e... conveniente. &lt;/span&gt; &lt;br /&gt;&lt;span style="color: #000066;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;br /&gt;&lt;span style="color: #000066;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;br /&gt;&lt;span style="color: #000066;"&gt;-Vamos!! Fale!! - disse rispidamente, enquanto ela&lt;/span&gt;&lt;span style="color: #000066;"&gt; começava a chorar, de medo, antecipando a punição dolorosa. Decerto ele já sabia de toda a verdade. Sim, ele era tão esperto!&lt;/span&gt; &lt;br /&gt;&lt;span style="color: #000066;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;br /&gt;&lt;span style="color: #000066;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;br /&gt;&lt;span style="color: #000066;"&gt;Ela era louca por ele no início. Ele a cumulou de presentes, sorrisos e alegrias, fazendo com que ela se sentisse o centro da vida dele. Agora, porém, alimentava, em segredo, um sentimento multifacetado que ora emergia como amor, ora como admiração e ora como raiva. Ela não entendia muito bem como essas coisas funcionavam, mas sabia que estava irresistivelmente ligada àquele que cerceava sua liberdade de modo tão veemente, mas a amava com intensidade e devoção arrebatadoras. Era impossível fugir dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Chega! Você vai ficar trancada. Estou cheio das suas manhas e atitudes. Quem sabe vc não pensa melhor e resolve esclarecer esta história depois de ficar curtindo sua solidão dentro deste quarto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele saiu, trancou a porta e ela suspirou aliviada. Ufa! Teria o tempo que precisava para articular alguma narrativa mirabolante. Afinal, ela não tinha culpa de ter chutado a bola tão desajeitadamente e quebrado o vaso caríssimo da mãe. Escondera os caquinhos com cuidado no fundo do armário da dispensa, certa de que só ela, pequenina de 5 anos, poderia se esgueirar pelas caixas e passar através de um espaço tão diminuto. O padrasto a surpreendera justamente na hora em que voltava para a cozinha e perguntara o que ela fazia dentro do armário. Ela, é claro, não soube responder e ficou olhando para ele em silêncio, sem contudo suprimir um sorrisinho maroto, que fatalmente denuciou a "arte". &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas havia tempo até a hora do jantar. Ela pensaria em algo. Ou, ao menos, conseguiria forrar o assento da calça com algumas toalhas de rosto para que as palmadas doessem menos, quando a verdade viesse à tona. Sim, ela pensaria em algo!&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1102069366961787656-3067671733638511672?l=rprochoroff.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rprochoroff.blogspot.com/feeds/3067671733638511672/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1102069366961787656&amp;postID=3067671733638511672' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/3067671733638511672'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/3067671733638511672'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rprochoroff.blogspot.com/2007/10/ameaa.html' title='Ameaça'/><author><name>Rachel Prochoroff</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09943996098227202452</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/TEMy6spua2I/AAAAAAAAAJk/PmgmIc_N1Rs/S220/nhonho.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1102069366961787656.post-3749734001319768433</id><published>2007-10-24T15:28:00.000-07:00</published><updated>2008-02-26T18:15:47.155-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="right"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#000000;"&gt;&lt;em&gt;(x / 1992)&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#990000;"&gt;&lt;strong&gt;Descalça eu corro. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#990000;"&gt;&lt;strong&gt;Pés nus sobre a rua de terra calçada de pedras piso nas pedras calco a rua piso forrado de pedras amasso-as afundo-as ainda mais na lama humilho matrato amarroto &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="color:#990000;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;piso &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;piso &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;piso !! &lt;/span&gt;as pedras pontiagudas estão no chão.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#990000;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;span style="color:#990000;"&gt;&lt;strong&gt;Meus pés es&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color:#990000;"&gt;&lt;strong&gt;tão sangrando.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#990000;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="center"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#003300;"&gt;*************************************************&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="right"&gt;&lt;span style="color:#003300;"&gt;&lt;em&gt;(out/2007)&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#990000;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;color:#000000;"&gt;&lt;em&gt;O texto é de 92 mas o sentimento traduz a revolta oriunda da observação contínua do mundo e das pessoas. Apesar de já adulta ainda sou surpreendida pelas atitudes daqueles que chamaria de "meus pares" se não fosse o abismo que sinto, intransponível, entre mim e "eles": eu me importo.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;color:#000000;"&gt;&lt;em&gt;Sou hiperbólica, traduzo minhas sensações em reações estapafúrdias cuja sonoplastia requer mil fonemas distintos, organizados de tal forma que o interlocutor por vezes considera minha internação em instituição pertinente.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;color:#000000;"&gt;&lt;em&gt;Ah, senhores! Mas eu sinto!&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;color:#000000;"&gt;&lt;em&gt;Eu vivo!&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;color:#000000;"&gt;&lt;em&gt;Eu acompanho!&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;color:#000000;"&gt;&lt;em&gt;Eu observo!&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;color:#000000;"&gt;&lt;em&gt;Eu ouço!&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;color:#000000;"&gt;&lt;em&gt;Eu respondo!&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;color:#000000;"&gt;&lt;em&gt;Eu dou licença!&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;color:#000000;"&gt;&lt;em&gt;Eu ajudo a carregar!&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;color:#000000;"&gt;&lt;em&gt;Eu ensino!&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;color:#000000;"&gt;&lt;em&gt;Eu meço as críticas e as revisto de palavras mais doces, para que sejam digeridas e assimiladas, não rejeitadas!&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;color:#000000;"&gt;&lt;em&gt;Eu mudo de lugar!&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;color:#000000;"&gt;&lt;em&gt;Eu finjo ser o outro!&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;color:#000000;"&gt;&lt;em&gt;Nunca me perguntaram o porquê, mas se algum dia o fizerem, saberão: eu quero que esse mundo seja habitável por mais do que gladiadores e defensores de seus &lt;strong&gt;nadas&lt;/strong&gt; particulares.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;color:#000000;"&gt;&lt;em&gt;E por isso, e só por isso, eu durmo.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;em&gt;Eles não, m&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;em&gt;as eu sim.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;color:#000000;"&gt;&lt;em&gt;Eu durmo!!&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1102069366961787656-3749734001319768433?l=rprochoroff.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rprochoroff.blogspot.com/feeds/3749734001319768433/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1102069366961787656&amp;postID=3749734001319768433' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/3749734001319768433'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/3749734001319768433'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rprochoroff.blogspot.com/2007/10/descala-eu-corro.html' title=''/><author><name>Rachel Prochoroff</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09943996098227202452</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/TEMy6spua2I/AAAAAAAAAJk/PmgmIc_N1Rs/S220/nhonho.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1102069366961787656.post-6698303296399095482</id><published>2007-10-11T13:27:00.000-07:00</published><updated>2008-02-26T18:14:32.778-08:00</updated><title type='text'>Folhas</title><content type='html'>&lt;p align="center"&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;color:#003300;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="center"&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;color:#003300;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="center"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="color:#003300;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="center"&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="right"&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;color:#003300;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;(x / 1992)&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="center"&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;color:#003300;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="center"&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;color:#003300;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Folhas, folhas, folhas&lt;br /&gt;de Tempo, de Vida, de Luz,&lt;br /&gt;pousem quietas, meninas,&lt;br /&gt;assim eu não posso cantar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouço seus leves Murmúrios,&lt;br /&gt;pairam no ar Semelhanças&lt;br /&gt;e as sementes da Inconstância&lt;br /&gt;insistem em germinar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Folha, Folhas... Parem!&lt;br /&gt;Das copas das árvores desçam&lt;br /&gt;do meu âmago condesçam&lt;br /&gt;com que eu não olvide a Paz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Verdes de Infância, cresçam&lt;br /&gt;pavimentem meu caminho&lt;br /&gt;levem o Egoismo mesquinho&lt;br /&gt;tal que eu não aprenda a negar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estando ao poente douradas,&lt;br /&gt;cubram-me de Inocência,&lt;br /&gt;Folhas, Folhas... Paciência!!&lt;br /&gt;Eu quero aprender a sonhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À noite brilhando, argentinas,&lt;br /&gt;façam meu dossel de estrelas&lt;br /&gt;e tragam o meu destino&lt;br /&gt;para que eu o possa moldar.&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="color:#006600;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1102069366961787656-6698303296399095482?l=rprochoroff.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rprochoroff.blogspot.com/feeds/6698303296399095482/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1102069366961787656&amp;postID=6698303296399095482' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/6698303296399095482'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/6698303296399095482'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rprochoroff.blogspot.com/2007/10/folhas.html' title='Folhas'/><author><name>Rachel Prochoroff</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09943996098227202452</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/TEMy6spua2I/AAAAAAAAAJk/PmgmIc_N1Rs/S220/nhonho.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1102069366961787656.post-7249215303275176154</id><published>2007-10-11T08:24:00.000-07:00</published><updated>2008-12-09T20:01:43.871-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='linguagem  vygostsky  charlie brown jr.'/><title type='text'>Mas que se f***!!!</title><content type='html'>&lt;div align="right"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:78%;color:#000099;"&gt;(publicado em ago/2004 na revista do CEPEGE - IGC/USP)&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:78%;color:#000099;"&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;“Esqueci a palavra que pretendia dizer, e meu pensamento, privado de sua substância, volta ao mundo das sombras” &lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;strong&gt;O. Mandelstam.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segunda-feira, sete horas da manhã. A academia lotada de “bombados”, soterrados por anilhas e halteres, ávidos por iniciar logo seus intermináveis treinos de hipertrofia, antes que as mães, tendo deixado seus filhos na escola, inutilizem por completo o ambiente, treinando o músculo mais solicitado da anatomia feminina, o “linguíceps”. Ninguém conversa. Reinam gemidos de esforço, permeados pela voz monótona do instrutor, ensinando movimentos de alongamento para uma aluna nova - mais uma daquelas que, acossadas pelo frenesi social que impõe peitos siliconados e condena sinapses mais elaboradas, inicia exercícios pela enésima vez, em busca do corpo perfeito. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Era justamente neste ambiente que me encontrava, há alguns dias, amaldiçoando meu instrutor, a sociedade e a minha genética pouco condizente com as normas estéticas vigentes, a cada supersérie de bíceps. Alguém havia ligado o rádio, em substituição ao tilintar das anilhas. A música tocava baixinho, enquanto eu contava, compenetrada, as 20 repetições que invariavelmente acabariam no número 17. Com a chegada das primeiras tagarelas, alguma boa alma aumentou o volume do rádio. E qual não foi a minha surpresa, ao escutar, enquanto sofria eu mesma num drop-set de tríceps, os berros de um cantor que, não contente em se vangloriar de não saber fazer poesia, ainda utilizava ad libitum palavras de baixo calão, transmitidas livremente pela emissora. A principio, não pude acreditar no que ouvia. Estanquei, indignada, minha torrente de repetições, e tentei entender o que a letra dizia: “eu não sei fazer poesia, mas que se f***!”&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/Rw5tWBZD7wI/AAAAAAAAACc/d_PAY4F6wU0/s1600-h/cbjr.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5120150051464933122" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/Rw5tWBZD7wI/AAAAAAAAACc/d_PAY4F6wU0/s320/cbjr.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;span style="font-size:78%;"&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;Chalie Brown Jr.&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;Charlie Brown Jr. que me perdoe, mas não aceito isso. Não posso ser conivente com a idéia de que as pessoas que detêm a preferência da mídia e o livre trânsito entre crianças, pré-adolescentes e jovens, presenteiem-nos com tão chulas palavras e tão parco raciocínio. Ao bradar que não sabe fazer poesia, o mocinho somente reafirma o que parece ser um dos mais alarmantes males de nossa sociedade: a supervalorização de formas físicas e símbolos sexuais em detrimento da intelectualidade e do domínio da língua portuguesa. Solanges e Tiriricas da vez inundam os meios de comunicação. Pais despreparados alimentam intelectualmente seus filhos com a telinha azul. E somos vilipendiados em nossa inteligência, incessantemente, com Florentinas, Bondes do Tigrão, Danças da mãozinha, da bundinha, da garrrafinha... &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Sendo, eu mesma, um daqueles “infelizes” seres que não se encontra em μ+ 3 σ da gaussiana do corpo mais-que-perfeito, e cujo saldo bancário decresce exponencialmente nos primeiros 5 dias do mês (sou professora), aniquilando quaisquer intenções mais ousadas no território da remediação estética (leia-se um daqueles “eletrosuperquelquercoisaquelevantaoderrière-ation”) pergunto-me incessantemente o que farei dos ensinamentos que recebi na infância, os quais ditavam que, se eu quisesse ser alguém na vida, deveria estudar muito. Mamãe me perdoe... Mas não teria sido melhor se tivesse me ensinado a rebolar e dançar o “tchan”, em lugar dos “tesouros que a traça não há de roer?” Os credores roem meu limite de crédito, os juros do banco roem meu estômago e, ultimamente, sinto dizer, brincar com o gato de Schrödinger não tem aliviado muito meu stress... &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/Rw5vFhZD71I/AAAAAAAAADE/xsYnmGRuTYw/s1600-h/SchroedingerCat.gif"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5120151967020347218" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 255px; CURSOR: hand; HEIGHT: 173px" height="154" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/Rw5vFhZD71I/AAAAAAAAADE/xsYnmGRuTYw/s200/SchroedingerCat.gif" width="225" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;&lt;strong&gt;O gato de Schrödinger é uma figura hipotética usada para ilustrar, através de um Gedanken Experiment, uma questão da Física Quântica: quando um sistema pára de existir como uma mistura de sistemas e se torna somente um ou outro?&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Contundente não é, porém, somente a constatação de que meus paradigmas de infância não são mais vigentes. Ainda há muito que se deplorar neste panorama. Por exemplo, o uso da linguagem por nossos adolescentes e jovens, que deixa a desejar em conteúdo e forma. A semântica de expressões belíssimas, consagradas pelos melhores escritores de nossa literatura deram lugar, paulatinamente, a gírias que muito pouco dizem. O bagulho é doce, mas não é mole, eu sei, mas bem que os mano poderiam dar área ou aprender o Português. A linguagem, como mediadora do pensamento humano, se torna ferramenta indispensável na manutenção da realidade do “ser”. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Lev Vigotski, lingüista russo, afirma em seu Pensamento e Linguagem que ambos não apresentam um elo primário. “Ao longo da evolução do pensamento e da fala, tem início uma conexão entre estes, que depois se modifica e se desenvolve”.Não posso deixar de rir, quando penso nas letras das músicas que estão em moda, especialmente se analisadas à luz de Vigotski: poderiam, com certa benevolência, serem classificadas como pueris e inocentes, carecendo de maturidade semântica e sintática, que somente ocorre na fase adulta do ser humano. Vigotski pondera que o significado das palavras evolui. Modifica-se à medida que a criança se desenvolve e também de acordo com as várias formas pelas quais o pensamento funciona. Ora, “se os significados das palavras se alteram em sua natureza intrínseca, então a relação entre o pensamento e a palavra também se modifica”. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/Rw5teRZD7xI/AAAAAAAAACk/R7ID3kCSa-I/s1600-h/Lev_Vygotsky.gif"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5120150193198853906" style="CURSOR: hand" height="213" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/Rw5teRZD7xI/AAAAAAAAACk/R7ID3kCSa-I/s320/Lev_Vygotsky.gif" width="182" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Lev Vygotsky, psicólogo russo.&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Tomemos como exemplo uma criança. Seu pensamento surge como indistinto e amorfo e acaba por ser expresso em uma única palavra (fome, mamãe, etc). À medida que seu pensamento se torna mais organizado e complexo, a necessidade de mais palavras para expressá-lo surge, apesar de, como afirma o linguista russo, a estrutura da fala não ser um mero reflexo do pensamento. Ainda que, segundo Chomsky, nasçamos com estruturas gramaticais pré-definidas em nosso cérebro (gramática gerativista), há que se dispor de um mediador para a aquisição da linguagem, sendo este uma pessoa (pai, mãe, professor) ou um instrumento (livro, por exemplo). &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;O comportamento linguístico também é uma parte do conjunto de modelos sociais de conduta que caracterizam os grupos humanos, e desenvolvemos a utilização da linguagem de acordo com princípios estabelecidos pelo meio. Assim sendo, a linguagem passa a ser um instrumento de identificação de origem e posição sociais, e não posso me furtar a aceitar que nosso Carlinhos o faça muito bem, demostrando, através da pobreza de suas letras, que é somente mais um jovem comum da sociedade brasileira... &lt;/p&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/Rw5u_BZD70I/AAAAAAAAAC8/RxFKkHgifwA/s1600-h/noam_chomsky.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5120151855351197506" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; WIDTH: 263px; CURSOR: hand; HEIGHT: 261px" height="294" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/Rw5u_BZD70I/AAAAAAAAAC8/RxFKkHgifwA/s320/noam_chomsky.jpg" width="265" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Avram Noam Chomsky , linguista do MIT (EUA), o pai da gramática gerativista, escritor, ativista político e filósofo.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O que se mostra alarmante é que estas letras acabem funcionando como intrumento de mediação para o resto dos adolescentes. O sucesso que tais músicas fazem denota o alcance cultural das mensagens paupérrimas que, subliminarmente, promovem apologia à falta de profundidade de raciocínio e argumentação. Enfim, a molecada não pensa, porque não possui palavras para delinear idéias. O universo do pensamento restrito a expressões chulas e vocabulário limitado cerceia a expressão intelectual. Não pensam, porque não podem pensar. Assim como não se toma sopa com garfo, como pensaremos livremente sem a amplitude do domínio da língua? &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;/p&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5120152091574398818" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/Rw5vMxZD72I/AAAAAAAAADM/x6xGpDM5Za8/s320/jovens+edit.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="center"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;&lt;strong&gt;Muitos jovens têm o pensamento cerceado pela falta de domínio da língua.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ora, se é através das palavras que organizamos o pensamento, e se, de acordo com Descartes, somente existo se penso, então... quantos de nós realmente existimos? Qual a proporção de seres humanos que, ao negarem, ou serem negados no mundo onde a palavra reina soberana e o conhecimento é transmitido através da linguagem, e somente dela, sucumbem à espada social, microrganismos raspando os restos aqui e ali em “subsetores” econômicos e, em última instância, pairando à beira do que chamamos sociedade mas que, de qualidade do social nada apresenta? Nada há de ser mais desumano do que não ser humano. &lt;/p&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5120157722276523890" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/Rw50UhZD73I/AAAAAAAAADU/zNvPudwe7Rs/s200/Mafalda%2520pensando.jpg" border="0" /&gt; &lt;p align="justify"&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="center"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Pensar complexamente, produzindo uma sequência encadeada de idéias coerentes, só é possível com o domínio das palavras.&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Andre Martinet (Elementos de Linguística Geral – École Pratique des Hautes Études, França), ressalta que a função essencial da linguagem é a comunicação, a compreensão mútua de dois ou mais indivíduos que falam a mesma língua. No entanto, a linguagem ainda exerce outras funções, sendo a mais importante, o suporte ao pensamento (análise que compete à Psicologia) e tal atividade (o pensamento) simplesmente não ocorreria sem aquela outra (a linguagem). Ainda, o ser humano utiliza a palavra para se exprimir, ou seja, “para analisar o que sente, sem se preocupar grandemente com as reações de eventuais ouvintes, e assim encontra ao mesmo tempo um processo de se afirmar aos seus olhos e aos dos outros, sem pretensões de comunicar o que quer que seja”. Nesse aspecto, tenho que admitir que Charlie Brown Jr. talvez esteja apenas tentando expressar seu desgosto em relação aos contrastes entre as classes sociais, em cujo caso, a afirmação de que “não usa sapatos” (na mesma música), denotaria o desprezo pela cultura do consumismo. Martinet adiciona à linguagem também uma função estética, e neste caso, não estaria o nosso supracitado cantor deixando um pouco a desejar? &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Citando Ferreira Gullar, &lt;em&gt;“a poesia é uma aventura, como o amor, a luta. Palavras inesperadas, que estavam coladas em uma parte de você, se desprendem e se tornam acessíveis. Vivências que estão guardadas despertam”. &lt;/em&gt;Carlinhos, meu querido, e demais jovens, sejamos seres humanos. Colecionemos vivências e expressemo-nos através da língua Portuguesa com propriedade, mesmo que, devido às desventuras do cotidiano e aos panoramas econômico e políticos vigentes, não nos sobre muita vontade de fazer poesia!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1102069366961787656-7249215303275176154?l=rprochoroff.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rprochoroff.blogspot.com/feeds/7249215303275176154/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1102069366961787656&amp;postID=7249215303275176154' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/7249215303275176154'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/7249215303275176154'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rprochoroff.blogspot.com/2007/10/mas-que-se-f.html' title='Mas que se f***!!!'/><author><name>Rachel Prochoroff</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09943996098227202452</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/TEMy6spua2I/AAAAAAAAAJk/PmgmIc_N1Rs/S220/nhonho.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/Rw5tWBZD7wI/AAAAAAAAACc/d_PAY4F6wU0/s72-c/cbjr.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1102069366961787656.post-5402648696527844110</id><published>2007-10-03T11:15:00.000-07:00</published><updated>2008-12-09T20:01:44.926-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Orkut neurose auto-estima espelho'/><title type='text'>Bad bad server!!! No doughnut for you....</title><content type='html'>&lt;div align="right"&gt; &lt;span style="font-size:78%;color:#000099;"&gt;(publicado em set/07 na Revista do CEPEGE, IGC- USP)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/RwP0OxZD7tI/AAAAAAAAACE/ZA3ea3zNQrg/s1600-h/bad+bad+server.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5117202136236814034" style="CURSOR: hand" height="82" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/RwP0OxZD7tI/AAAAAAAAACE/ZA3ea3zNQrg/s400/bad+bad+server.jpg" width="423" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Fernando Andrade é um homem muito bem sucedido. Ele fez GV, viajou pelo mundo, tem o álbu&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;m repleto de fotos de lugares pitorescos ou de poses de modelo no seu iate, no Quartier Latin, ou ainda no Japão. É sensível e escreve poesia. Também pensa nos problemas do mundo, estudou Filosofia e se inscreveu em um grupo de idealistas, cujo nome não poderia ser outro: “Eu quero e posso mudar o mundo!”. Inteligentíssimo, adora discutir Física Quântica, ler Carl Sagan e seu filme predileto é “What the bleep do we know?”. Além disso, sua conta bancária é tão interessante quanto seu porte de deus grego, torso esculpido nos jogos de pólo e em hobbies pouco acessíveis para a classe média, como o wakeboading.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;No final de 2004, Fernando Andrade, seduzido pela novidade tecnológica e pela possibilidade de expandir seu círculo de amizades, inaugurou um perfil no Orkut. Preenchendo as lacunas com informações pessoais como a altura (1,90), cor dos cabelos (loiros) e olhos (azuis) e definindo sua parceira ideal como a mulher que, sendo maternal para sua prole será também infernal entre quatro paredes, adicionou comunidades relacionadas às suas atividades regulares e seus gostos pessoais (“I love wine”, “Viciados em livros”, “France-Brazil Friendship” e outras), denotando excelente nível sócio-cultural. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Findo o processo de construção de sua persona&lt;/span&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn1" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=1102069366961787656#_ftn1" name="_ftnref1"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;[1]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;, pôs-se a adicionar conhecidos e amigos, que carinhosamente aceitaram fazer parte do mundo maravilhoso de Fernando. Com 3 dias de idade, seu perfil contava com 30 amigos. Após uma semana, Fernando já havia contactado quase uma centena de conhecidos da GV, da Federação Espanhola de Enólogos, dos “Ferrari fans” e de muitos outros que, reconhecendo nosso amigo no perfil de outras pessoas, o adicionaram, com efusivas mensagens: “Cara, quanto tempo!”, “E aí, Fernandão, por onde anda?”.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;As meninas o adoraram, preencheram vorazmente seu “scrap book” &lt;/span&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn2" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=1102069366961787656#_ftn2" name="_ftnref2"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;[2]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt; com mensagens, algumas um tanto recatadas, outras já mais assanhadas. Todas queriam estar próximas daquele em cujo álbum de fotos figurava um iate e cujas férias seriam sempre aproveitadas em algum lugar romanesco do mundo. Era impossível não se apaixonar pelo homem que respondia às mensagens com citações de Byron, remetendo ao amor noturno, quiçá soturno e verdadeiramente arrebatador, que invariavelmente as levaria a sorver absinto enquanto cortassem os pulsos. Sim, porque Fernando não firmará compromisso com nenhuma mulher até que encontre a supra-citada “maternal/infernal”. É livre para gozar das facilidades financeiras com que foi granjeado quando de seu nascimento. O pai de Fernando é rico. O avô também. E cabe a Fernando administrar os bens da família e brincar pela vida até que chegue a hora de escolher a mãe de seus filhos, a quem dedicará sua fidelidade, conforme diz no seu “about me”.&lt;/span&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn3" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=1102069366961787656#_ftn3" name="_ftnref3"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;[3]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Fernando Andrade é o homem perfeito. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Ou melhor, seria perfeito. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Se fosse real.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa experiência foi motivada por uma discussão. Enquanto eu dizia que os perfis que apareciam no Orkut era todos exagerados, uma amiga teimava em dizer que eram reais. A discussão ficou cada vez mais acirrada, apimentada por argumentos enviesados, motivados pelos cliques do mouse neste ou naquele perfil e culminou na aposta: a criação de um perfil falso, adicionar pessoas aleatoriamente e em uma semana bater a casa da centena. Feito! Ganhei a aposta.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;p align="left"&gt; &lt;/p&gt;&lt;p align="left"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Modus operandi: mea culpa!&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;strong&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Inventei o nome. A foto e as descrições físicas foram retiradas de um site de modelos. Elegi uma faculdade cara, mas ao mesmo tempo reconhecida pela dificuldade do vestibular. Vasculhando as comunidades dos alunos da GV, selecionei as que denotavam intimidade com a vida acadêmica daquela instituição e delas retirei os supostos amigos de Fernando, que fui adicionando. Tomei o cuidado de selecionar aqueles que já apresentavam mais de 300 amigos em seus perfis. Raríssimos foram os que perguntaram quem Fernando era. Neste caso, voltava ao perfil do inquiridor, lia-o cuidadosamente e indicava, na resposta, algo que o unisse a Andrade: “sou amigo da Fulana” ou “estava na festa sexta passada, poxa, você estava bêbado mesmo, hein?” Não foi preciso muita argumentação. Todos aceitaram Fernando.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/RwPxzxZD7qI/AAAAAAAAABs/AetdD-NUFlE/s1600-h/iate.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/RwP0nhZD7uI/AAAAAAAAACM/1UW8ndqeH9k/s1600-h/modelos.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5117202561438576354" style="WIDTH: 245px; CURSOR: hand; HEIGHT: 141px" height="219" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/RwP0nhZD7uI/AAAAAAAAACM/1UW8ndqeH9k/s320/modelos.jpg" width="292" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;              &lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/RwP01hZD7vI/AAAAAAAAACU/f9WsdPbALsg/s1600-h/iate.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5117202801956744946" style="WIDTH: 262px; CURSOR: hand; HEIGHT: 154px" height="222" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/RwP01hZD7vI/AAAAAAAAACU/f9WsdPbALsg/s320/iate.jpg" width="316" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/RwPyFhZD7rI/AAAAAAAAAB0/zbYZXpENY4k/s1600-h/modelos.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;as fotos foram retiradas de sites de procura e de modelos&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Para seu álbum de fotos, selecionei através do Google imagens de lugares fabulosos, onde “Andrade” aparecia ao longe, ou com roupa e máscara de mergulho, ou, ainda, de costas em seu iate. A cada nova invenção, eu ria, enquanto cerca de uma centena de pessoas acreditava e pelo menos uma se interessou romanticamente por ele.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;A Matrix&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;strong&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;br /&gt;Esta história, por si só, não seria sequer digna de mais do que umas boas risadas em uma roda de amigos, se não fossem todas as considerações que ela encerra. Fernando Andrade foi um sucesso porque personificava o ideal de homem perfeito vigente na sociedade brasileira dos dias de hoje. É alarmante perceber que os homens de nosso país se espelham em modelos como esse, divulgados e apregoados subliminarmente pela mídia, quando 47,3% da população é negra e passa bem longe deles.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;[4]&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Somos um país de misturas. Uma miscelânea bela de raças e biótipos, descendentes de índios, negros e uma miríade de etnias que para cá imigraram com regularidade no séc. XIX. A auto-imagem brasileira é, portanto, um paradoxo, cuja pseudo-resolução sugerida pela mídia, o consumismo, demonstra ser apenas um paliativo, tampouco sendo factível para 12,2% dos 34 milhões de jovens brasileiros – a camada mais impressionável e manipulável do mercado do país – que se encontra em condição de extrema pobreza&lt;/span&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn5" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=1102069366961787656#_ftn5" name="_ftnref5"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;[5]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;O Orkut é apenas mais uma ferramenta virtual para confundir a carência por algo pleno e realizável que a maior parte da população brasileira traz em si. É um espaço para a propaganda muitas vezes enganosa. Mas é verdadeiramente um subterfúgio para promover o alívio de tanta tensão social, através da fantasia.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;div&gt;É necessário mentir a respeito de si mesmo para sobreviver, para se equiparar as outras pessoas que - ora vejam!- também mentem. Assim, o que vemos por aí é uma profusão de meias verdades sendo espalhadas indiscriminadamente em todos os lugares. Todo mundo é fake. É chique sê-lo. E, mais alarmante, ninguém acredita que os outros possam ser o que dizem ser justamente porque todos mentem que são o que são. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/RwPxDxZD7oI/AAAAAAAAABc/F_lpDvaIUao/s1600-h/beleza+e+inteligencia.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5117198648723369602" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/RwPxDxZD7oI/AAAAAAAAABc/F_lpDvaIUao/s200/beleza+e+inteligencia.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;                                    &lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/RwPxTxZD7pI/AAAAAAAAABk/kAN36zR7j5I/s1600-h/mulheres+poderosas.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5117198923601276562" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/RwPxTxZD7pI/AAAAAAAAABk/kAN36zR7j5I/s200/mulheres+poderosas.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Comunidades como: "Temos beleza e inteligência" e "Mulheres poderosas", vendem a imagem subliminar de que seus participantes são bem sucedidos sexualmente&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Este tipo de deturpação sutil da realidade tem a característica de adquirir cada vez mais traços de tangibilidade e menos ductibilidade quanto mais for pronunciada e veiculada. Uma vez dita, é mentira. Cem vezes dita, é uma dúvida. Mil vezes dita, um axioma. Como este axioma foi construído a partir de um sofisma, carece de robustez. Esta fragilidade é aferível na reação inesperada e exagerada em confrontos de trânsito que acabam em morte; ao estourar-se o limite do cartão de crédito; ao aderir-se a um vício, etc. Todos têm medo de descobrir que não são aquilo que acham que são e que, na verdade, sabem que não são. Isto é doloroso. Quando confrontado com o real, o indivíduo tende a fugir: ele faz compras, ele briga, ele mata.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Os meios de comunicação concorrem para auxiliar na empreitada. Valores pífios são veiculados da pior forma possível, a subliminar. Um dia você percebe que sua casa não é igual a da novela das 8. O seu café da manhã não está igual ao da família Becel. Seu corpo não é como o do Marcos Pasquim. Seu cabelo não é liso como o de Angelita Feijó. E sofre com isso. Vivemos em um mundo surreal, segregados dele e, como se não bastasse, ainda apoiamos a manutenção desta realidade absurda que nos marginaliza. É o expoente máximo do masoquismo. Tente sair dele. Você será ignorado. Sofrerá de certa “invisibilidade social”. É a punição da Matrix. &lt;/div&gt;&lt;p align="left"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Inadequação – o núcleo da neurose&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;p align="left"&gt;&lt;br /&gt;Parafraseando a Teoria do Espelho&lt;/span&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn6" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=1102069366961787656#_ftn6" name="_ftnref6"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;[6]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;, somos aquilo que acreditamos ser. Porém, acreditamos ser aquilo que nos disseram que somos. Quando o ser humano nasce não reconhece a separação entre ele e o mundo. Ele é o mundo. Se o que o circunda é cruel e frio, ele assumirá que não merece viver. Crianças abandonadas, sem estímulo e afeto, adoecem e morrem. No entanto, se pais, irmãos e avós tratam o bebê com atenção e amor, ele verá este “reflexo” de si mesmo como algo positivo e digno de investimento. Então, ele decide viver.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Um dia, este mesmo bebê entende que é separado do resto do mundo. Paralelamente, as palavras passam a servir de função mediadora para garantir sua sobrevivência e, portanto, são imprescindíveis. É justamente nesta hora que o indivíduo inicia sua relação com os “rótulos”: “Nenê mau!”, “Feio!” e outras pérolas que, ao serem proferidas por aqueles que são responsáveis pelo bem-estar e segurança dele, vão produzindo imagens nas quais o indivíduo se espelha e se enxerga. É premente a sensação de inadequação, especialmente se a criança apresenta Inteligência Cinestésica bem desenvolvida&lt;/span&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn7" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=1102069366961787656#_ftn7" name="_ftnref7"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;[7]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt; - muitas vezes sendo rotulada como DDA&lt;/span&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn8" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=1102069366961787656#_ftn8" name="_ftnref8"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;[8]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt; com hiperatividade ou, no linguajar popular, tem “bicho carpinteiro”: “Pára quieto, menino! Que inferno!”.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;p align="left"&gt;&lt;br /&gt;Crescemos sendo inadequados. Na escola, a criança deve ficar sentada e quietinha. Em casa, deve ser boazinha, fazer a lição, ter ótimo desempenho nas avaliações, (que não medem todas as capacidades e potencialidades do indivíduo), acordar cedo, (o que é especialmente penoso para os adolescentes, em franca fase de desenvolvimento&lt;/span&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn9" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=1102069366961787656#_ftn9" name="_ftnref9"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;[9]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;) e fazer muitas outras coisas desagradáveis e difíceis de serem executadas, quando se tem tanta energia a gastar. A cada falha, a cada derrota nestas pequenas atividades cotidianas, recebemos uma enxurrada de rótulos, críticas e comentários que estabelecem um espelho e nos ajudam a moldar nossa auto-imagem.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;p align="left"&gt;&lt;br /&gt;Porém, queremos ser aceitos. Precisamos pertencer a um grupo, fazer conexões e trocas. Assim, quanto mais forte for a sensação de inadequação construída durante todo o processo de amadurecimento do ser, mais os valores propagados pela mídia serão penetráveis na concepção de sucesso e aceitação dele. Na tentativa de suprimir a frustração por não ser aquilo que ele acredita não conseguir ser, no intuito de calar a voz interior que o rotula como incapaz e insuficiente, ele se imagina um outro ser. Constrói uma nova figura, compra, ajeita, gasta, mutila, opera. Tudo para fugir da imagem inadequada que acredita ter e do sofrimento de recear constantemente não ser aceito. Assim, por extrapolação, podemos dizer que quanto mais o nenê mamou, menos ele estará sujeito aos apelos da mídia. &lt;/p&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Eu mamei até os 4 meses. Por favor, me adicione no seu Orkut.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;p align="left"&gt;*************************************************&lt;/p&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;p align="left"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn1" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=1102069366961787656#_ftnref1" name="_ftn1"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;[1]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt; Conceito definido por Jung para descrever uma falsa imagem global e esquemática que a pessoa forma a seu próprio respeito&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn2" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=1102069366961787656#_ftnref2" name="_ftn2"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;[2]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt; Livro de mensagens do Orkut.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn3" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=1102069366961787656#_ftnref3" name="_ftn3"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;[3]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt; Parte do perfil onde pode-se descrever a si próprio livremente.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn4" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=1102069366961787656#_ftnref4" name="_ftn4"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;[4]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt; IBGE, 2004&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn5" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=1102069366961787656#_ftnref5" name="_ftn5"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;[5]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt; Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn6" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=1102069366961787656#_ftnref6" name="_ftn6"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;[6]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt; The Looking Glass Theory (Cooley, 1920)&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn7" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=1102069366961787656#_ftnref7" name="_ftn7"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;[7]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt; Inteligências Múltiplas. (Gardner, 1985, Havard University) – A inteligência cinestésica é, segundo essa teoria, a habilidade de coordenação de movimentos corporais.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn8" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=1102069366961787656#_ftnref8" name="_ftn8"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;[8]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt; Distúrbio de Déficit de Atenção&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn9" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=1102069366961787656#_ftnref9" name="_ftn9"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;[9]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt; O hormônio do crescimento é liberado durante o sono. Portanto, é natural que adolescentes tenham muito sono e dificuldade para acordar no horário previsto para ir à escola. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1102069366961787656-5402648696527844110?l=rprochoroff.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rprochoroff.blogspot.com/feeds/5402648696527844110/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1102069366961787656&amp;postID=5402648696527844110' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/5402648696527844110'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/5402648696527844110'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rprochoroff.blogspot.com/2007/10/bad-bad-server-no-doughnut-for-you.html' title='Bad bad server!!! No doughnut for you....'/><author><name>Rachel Prochoroff</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09943996098227202452</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/TEMy6spua2I/AAAAAAAAAJk/PmgmIc_N1Rs/S220/nhonho.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/RwP0OxZD7tI/AAAAAAAAACE/ZA3ea3zNQrg/s72-c/bad+bad+server.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1102069366961787656.post-7964411328880756496</id><published>2007-10-02T14:27:00.001-07:00</published><updated>2008-12-09T20:01:46.444-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='plausível  factível  produção  literária Prochoroff'/><title type='text'>Finally!</title><content type='html'>Existe sempre uma primeira vez para tudo.&lt;br /&gt;Quero dizer, não pra tudo, tudo, mas para todas as coisas factíveis e plausíveis em nossas vidas. Por factível, escolho a vida, pura e simplesmente. Contudo, "plausível" é um delimitador de fronteiras e despenhadeiros. É o que escolhemos. O que decidimos que pode tomar espaço em nossa vidas. Assim sendo, é factível que algum dia eu rode bolsinha na Augusta. Mas não é plausível. Todo o meu respeito à profissão mais antiga do mundo, mas não, muito obrigada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/RwK-ExZD7eI/AAAAAAAAAAM/x4pN5ybneM8/s1600-h/Foto-0075.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5116861115833511394" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 228px; CURSOR: hand; HEIGHT: 139px" height="161" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/RwK-ExZD7eI/AAAAAAAAAAM/x4pN5ybneM8/s320/Foto-0075.jpg" width="277" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; Prefiro escrever.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É mais cômodo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paga menos, é verdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas é bem mais confortável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu já fiz de tudo um pouco. Já dei aula de Física, já cantei em barzinhos, fui soprano (bolsista) do Coral do Estado de São Paulo, cantora lírica, nadadora de travessia, remadora federada, jogadora de rugby e profesora de inglês. Sou coordenadora pedagógica e teacher trainer. Factível e plausível. Check.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/RwK_PRZD7hI/AAAAAAAAAAk/L0tFJyd1Fto/s1600-h/Rachel1b+edit.JPG"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5116862395733765650" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 183px; CURSOR: hand; HEIGHT: 204px" height="189" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/RwK_PRZD7hI/AAAAAAAAAAk/L0tFJyd1Fto/s200/Rachel1b+edit.JPG" width="158" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/RwK-3xZD7gI/AAAAAAAAAAc/XZ6gApF-PdI/s1600-h/Remo+3+web.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5116861992006839810" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; WIDTH: 228px; CURSOR: hand; HEIGHT: 156px" height="137" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/RwK-3xZD7gI/AAAAAAAAAAc/XZ6gApF-PdI/s200/Remo+3+web.jpg" width="200" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/RwLA_BZD7mI/AAAAAAAAABM/dweHSW9xLUw/s1600-h/alph+4+edit.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;(esq: foto da reportagem da revista Elle em dez/98 "O clássico virou rebelde", sobre músicos clássicos que tinham um lado "radical"; dir: minha primeira medalha de ouro em um Paulista de remo, 1999)&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Tive cabelos azuis, verdes, roxos, laranjas, encaracolados, moicanos e raspados. Pus piercings no rosto inteiro para ter que removê-los nos instantes que precederam o primeiro bater sério de cartão. Tenho tatuagens e as escondo. Ser o que gosto é factível. Mas o preconceito é também plausível. Check.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;font-size:78%;"&gt;(abaixo: cabelos verdes jogados para frente em 1996; cabelos azuis na mesma situação.)&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/RwK_0hZD7jI/AAAAAAAAAA0/CT7myATgo3w/s1600-h/Primo+Willy+doc.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5116863035683892786" style="WIDTH: 183px; CURSOR: hand; HEIGHT: 130px" height="126" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/RwK_0hZD7jI/AAAAAAAAAA0/CT7myATgo3w/s200/Primo+Willy+doc.jpg" width="177" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/RwK_7BZD7kI/AAAAAAAAAA8/XPcRkX6RWAU/s1600-h/Primo+Willy+2+doc.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5116863147353042498" style="WIDTH: 197px; CURSOR: hand; HEIGHT: 130px" height="142" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/RwK_7BZD7kI/AAAAAAAAAA8/XPcRkX6RWAU/s200/Primo+Willy+2+doc.jpg" width="224" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, hoje meu deleite é expandir conscientemente as fronteiras do plausível usando a palavra, amálgama, ao meu bel prazer. Alguns amigos gostaram tanto, que sugeriram o nascimento deste blog. Colegas de profissão pediram meu parecer sobre os assuntos pertinentes à Educação. Um amigo muito próximo rotulou-me egoísta, quando soube que eu guardava tudo o que escrevia, sem mostrar a ninguém. Mamãe pediu a publicação (mas mães serão sempre mães...).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/RwLEHxZD7nI/AAAAAAAAABU/_debhHobgl4/s1600-h/mom+and+I+cort.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5116867764442885746" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/RwLEHxZD7nI/AAAAAAAAABU/_debhHobgl4/s200/mom+and+I+cort.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;(Mamãe e eu,"Prochoroffs")&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, queridos, aqui postarei, pouco a pouco, as minhas inferências sobre o mundo. Alerto, porém!! Mesmo assim terão que suportar meus arroubos de verborragia, ainda que sejam depois as palavras lapidadas no papel. Pois, afinal de contas, a palavra nasce solta, órfã, na mente. Sofre suas primeiras coerções ao ser proferida, adolescente. Mas é sob a pena, implacável, que se torna madura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Thanks adicional : Fernando, Marcos, Ulisses, Carlos e Patrícia, por urgirem minha atitude perante o vácuo editorial que assombra minha produção literária!)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1102069366961787656-7964411328880756496?l=rprochoroff.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rprochoroff.blogspot.com/feeds/7964411328880756496/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1102069366961787656&amp;postID=7964411328880756496' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/7964411328880756496'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1102069366961787656/posts/default/7964411328880756496'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rprochoroff.blogspot.com/2007/10/finally.html' title='Finally!'/><author><name>Rachel Prochoroff</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09943996098227202452</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/TEMy6spua2I/AAAAAAAAAJk/PmgmIc_N1Rs/S220/nhonho.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_s6-Q-T7QSvM/RwK-ExZD7eI/AAAAAAAAAAM/x4pN5ybneM8/s72-c/Foto-0075.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>7</thr:total></entry></feed>
